Se o renascimento nacional é, em grande parte, secular e voltado à terra — onde está D'us nele? A resposta do Rav Kook é das mais profundas de toda a sua obra: Ele está dentro, oculto, presente em tudo o que vive e se ergue, ainda que ninguém o pronuncie. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.
O olho na terra, ainda não no céu
O caráter da redenção que vem diante de nós — cujos primeiros passos já sentimos e percebemos — está na interioridade de Knesset Israel [a comunidade de Israel]. Desenvolve-se a nação, em todas as suas forças; faz crescer o seu espírito, a sua natureza e a sua própria identidade; mas ainda não reconhece a profundidade do Ser supremo que é todo o fundamento do seu reerguer-se. O seu olho está na terra, e ao céu ainda não olha. Ainda não retornou, de fato, ao "seu primeiro esposo"; trabalha a sua vida com as forças que se encontram nas raízes da sua alma.
"Retornar ao primeiro esposo" é a imagem do profeta Hoshea (2:9) para Israel que volta a D'us. O Rav Kook está a descrever, sem ilusão, o estado real do renascimento do seu tempo: uma nação que reergue a sua vida com energia, coragem e talento — mas sem dirigir conscientemente esse esforço ao Alto. Olha para a terra (a construção, a agricultura, a defesa, a língua) e ainda não levanta os olhos ao céu. O notável é o que ele dirá a seguir: esse estado não é o oposto da santidade — é santidade que ainda não se reconheceu.
Tudo, em verdade, é luz de D'us
Em verdade, mesmo sem chamar por um nome, mesmo sem um alvo declarado, tudo é a luz de D'us e a Sua glória. Mas nem ela nem o mundo reconhecem isto com clareza: o nome do Céu não corre na sua boca; persegue coragem e bravura — e, contudo, na verdade, tudo é sagrado e divino. Só quando o conteúdo se completar, quando a nação subir ao ápice da sua condição, então começará a revelar-se uma luz divina chamada pelo Nome Explícito; será revelado e visto que tudo o que iluminou e tudo o que iluminará, tudo o que nela vive e viverá — tudo é a luz divina do mundo, o Deus de Israel.
D'us que vem ao encontro
Este estado de redenção é o fundamento da visão dos mestres do oculto: que Knesset Israel não [apenas] voltará ao seu lugar no porvir, mas que o Santo, bendito seja, e todas as Suas hostes virão a ela, e a erguerão do pó com grande honra. Feliz o olho que viu tudo isto; e ao ouvir-se a notícia, a nossa alma se alegrará na esperança.
O tempo das dores
E a duração do tempo que passa entre as manifestações especiais, concentradas em Knesset Israel, até que apareça a luz da glória de Israel — para que se saiba que o nome de D'us é invocado sobre ela —, é o tempo das dores do Mashiach (chevlei Mashiach). Dele, só um homem de força firme como Rav Yossef ousava dizer — em contraste com todos os que diziam "venha [o Mashiach], mas que eu não o veja": "venha, e que eu mereça sentar-me à sombra do esterco do seu jumento" (Sanhedrin 98b).
O fecho é uma lição de coragem. Os "tempos das dores do Mashiach" — o intervalo turbulento entre o despertar e a plena revelação — assustavam mesmo grandes sábios, que preferiam não vivê-los. Rav Yossef respondeu com uma frase de bravura quase rude: que venham as dores, contanto que eu esteja lá. O Rav Kook cita-o como modelo: a quem entende que toda a luz já está presente, oculta, na construção em curso, o turbilhão não amedronta. Quem vê a fonte divina escondida no processo não foge das dores do parto — quer apenas estar presente quando a luz for, enfim, chamada pelo seu nome.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §32. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. A imagem do "primeiro esposo" remete a Hoshea 2:9; as citações dos Nomes são de Yirmiyahu 23:6 e Yechezkel 48:35; a frase de Rav Yossef sobre as dores do Mashiach está em Sanhedrin 98b. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.