O título — Kriá Gedolá, "o Grande Chamado" — anuncia o tom: este é o convite final de Orot. O Rav Kook olha para os dois grandes lemas da modernidade — a necessidade (ha-hechrech) e a liberdade (ha-chofesh) — e, em vez de combatê-los, mostra como ambos, levados ao fundo, devolvem o ser humano a D'us. A "heresia" (kefirá) de que ele fala não é uma pessoa nem um povo: é o materialismo árido da sua época, personificado como uma serva que usurpou o lugar da senhora — e que, sufocada na própria secura, prepara o seu próprio fim. Traduzo a seção inteira do hebraico de domínio público.
"A necessidade" é hoje o lema mais corrente do mundo; e justamente este "clamor da multidão" será transformado, pelas mãos dos sábios de coração e dos santos de pensamento, em "voz do Todo-Poderoso". Justamente a serpente se converterá no cajado de D'us — "com o qual se farão sinais e prodígios, para que se saiba que do Eterno é a terra". A necessidade — a necessidade da vida e a amargura do seu sofrimento — trará ao mundo a luz divina; ela preparará os corações para se abrirem e receberem "a grande luz do esplendor da fé, em toda a sua majestade".
Parece que o mundo se desmorona e tropeça, derretendo-se sob "a mão dura da heresia grosseira" — o monstro gasto, seco e cruel que se acocora sobre ele. Mas a chama divina se acende dentro do coração, em todo espírito e em toda alma, "levantando ondas maiores que todas as ondas do mar"; sobe aos céus e desce aos abismos nas câmaras de cada alma. E a heresia, "a serva gasta, filha da escravidão desprezada", tranca os seus ferrolhos para não ser vista por fora — pois teme muito a luz clara, sabendo que "uma só centelha pura das fagulhas da chama divina a consumirá por inteiro". Mas quanto mais ela sufoca essa alma, mais a alma "ajunta a sua força por dentro", até que, cheia a sua medida, irromperá "com trovão e estrondo, com som de fragor e torrente".
Vem um dia, e o seu prazo não tarda, em que a humanidade despertará para lançar de si os grilhões da heresia — buscando "a vingança da boa vida, da serenidade e da delícia das ideias puras" que dela lhe foram roubadas. O pânico com que a heresia confundiu o mundo, "para atordoar as mentes e os corações, afastando o homem da sua própria razão e da razão do seu Criador", passará e se aquietará; e então o entendimento sereno e ponderado — "que sabe viver e contemplar, sabe sossegar e inflamar-se" — e a força divina, que sabe fundar "uma nação firme e um povo poderoso em santidade", tomarão o seu lugar na vida.
Nota. A "serva que ousou herdar a senhora" e o "escravo que se ergueu a rei" (cf. Mishlê 30:22-23) são metáforas do materialismo que tomou o trono da cultura — não pessoas. O alvo do Rav Kook é uma ideia (o ateísmo árido da sua época), descrita com a linguagem dramática dos profetas, e o desfecho não é o ódio, mas o retorno à "razão do Criador".
"A liberdade — eis a aclamação (teru'á) que acompanha o toque (teki'á) da necessidade." O desejo de liberdade chegará ao seu auge, e o ser humano reconhecerá que tem o direito de viver no seu próprio espírito, "conforme a vontade poderosa e natural da sua alma viva — e esta alma só vive em D'us":
Quem a impede de viver em D'us? Quem prende "esta ave do céu" numa gaiola, impedindo-a de voar pela largura dos céus, "lugar do esplendor e do ar fresco, cheio de luz e de vida"? A própria alma reconhecerá o seu inimigo assim que lhe for arrancada a máscara. "A relva já desponta à boca da terra" — esse reconhecimento verdadeiro se aproxima. "Ásia, América, a Europa esclarecida e todo o mundo culto" já se cansaram de carregar o jugo pesado da heresia, "que pesa sobre o homem mais do que qualquer fé, e nada lhe dá em troca".
Nesse estado de sede ardente, o ser humano se lançará sobre a fonte da fé — mas já foi provado, já sabe "qual foi o seu fim quando bebeu as águas da fé com todo o lodo e a lama que este grande mar lançou ao longo dos dias". Por isso desejará haurir, de todo o coração, "águas puras do regato de D'us" — não a fé turva pela superstição, mas a fé límpida.
O espírito que toma toda a humanidade tocou também parte dos nossos. Mas "estamos mais perto do lugar da luz, mais perto da fonte da vida". Ainda que pareça que o jugo da heresia subiu ao pescoço de milhares dos nossos filhos — que se debatem "entre a vida e a morte" — "os olhos estão perto de se abrirem". Eles batem às portas da teshuvá, que só lhes parecem fechadas, "quando basta um único empurrão para abri-las de par em par":
Aqui o Rav Kook se volta para dentro, numa confissão notável: "Nossos queridos irmãos, sábios da Torá e escritores influentes! Também nós fomos tolos e pecamos." Estudamos e pesquisamos, debatemos e inovamos, escrevemos e descrevemos — "mas esquecemos D'us e a Sua força". Não ouvimos a voz dos profetas da verdade, dos justos e dos sábios da ética e do pensamento, que clamavam que "o rio do Talmud meramente prático acabará seco e ressecado, se não trouxermos sempre para dentro dele águas do mar — as águas da sabedoria, do conhecimento de D'us e da pureza da fé que brota da nossa própria alma".
"Agora chegou o fim": somos chamados, no nosso renascimento nacional, a reivindicar "a afronta de toda a humanidade, a afronta da alma divina que foi confiada às nossas mãos para elevar e exaltar". A alma do D'us vivo "precisa espalhar-se sobre o mundo inteiro, para iluminá-lo e dar-lhe vida — a luz que sai da luz da Torá e da luz da profecia, igual para toda alma e dando vida a todo ser vivo". E a própria necessidade, "dentro da iluminação do renascimento", nos devolverá à luz da vida e libertará a fé das suas amarras — "à sabedoria original de Israel, livre de todo jugo estranho".
E tudo culmina num único versículo — o "Grande Chamado" que dá nome à seção:
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — Kriá Gedolá (O Grande Chamado), §1–11. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. A "heresia" (kefirá) criticada é o materialismo árido da época do autor, personificado em linguagem profética — não um povo nem uma pessoa. As notas são nossas; eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.