Esta seção precisa ser lida junto da anterior, Amor a Israel, onde o próprio Rav Kook afirma que "o amor a Israel obriga ao amor de todo ser humano", e que odiar qualquer parte da humanidade é sinal de alma ainda não purificada. É essa a chave de leitura: a "distinção" de Israel, aqui, é uma distinção de missão — um encargo de servir e elevar — e não um pretexto de desprezo. Alguns trechos desta seção estão entre os mais citados fora de contexto na obra do Rav Kook; traduzo-os fielmente do hebraico (domínio público) e, onde necessário, acrescento uma nota honesta.
Tudo o que diz respeito a Israel não é coisa limitada a um círculo privado e estreito: está concentrado num centro especial e, do centro, influencia toda a circunferência. Israel entre os povos, a Terra de Israel entre as terras, a Torá de Israel entre todas as doutrinas e fés — são três centros nos quais se guardam tesouros de vida e luzes eternas, para nutrir, elevar e santificar o mundo inteiro. Israel, como nação singular, abençoada na profundidade da sua santidade e do seu anseio divino, influencia toda a circunferência dos povos para refinar a alma nacional de cada povo e aproximar todos de uma estatura mais sublime e nobre. A Terra influencia todas as terras, para elevá-las; e a Torá há de lançar uma grande luz sobre as várias correntes de fé, removendo delas a escória e iluminando-as com a santidade.
D'us fez uma bondade com o Seu mundo: não pôs todos os talentos num só lugar — nem num só homem, nem num só povo, nem numa só terra, nem numa só geração. Os dons estão espalhados, e a busca da perfeição é o que atrai à unidade elevada que há de vir: "naquele dia o Eterno será Um e o Seu Nome Um" (Zechariá 14:9). Por isso, para unir o mundo, certos talentos faltam de propósito em Israel, para serem completados pelos povos — "a beleza de Yefet nas tendas de Shem". Há, então, lugar para Israel receber do mundo; mas o receber é exterior, e a influência é interior: a vida interior é plena em Israel, e dessa plenitude ela só dá, não recebe.
A disposição universal sempre enche o coração dos mais refinados de espírito; por isso eles se sentem sufocados quando os fecham apenas no círculo do seu próprio povo. Mas a nação em cuja alma a universalidade plena está escondida — "os nobres dos povos, o povo do D'us de Avraham" — precisa de atos concretos que gravem o seu caráter por dentro, e sobre eles repousam ideais universais elevados. Recolhimento prático e amplitude espiritual juntos — eis a marca de Israel: "um povo que habita à parte" e "luz para as nações", ao mesmo tempo. Por isso Knesset Israel não silencia o seu canto interior: com a sua força geral, abraça a multidão dividida, adoça a sua amargura e une toda a nação.
Toda ideia falsa que arruína o mundo nasce, em geral, do desejo de ascender sem limite e sem o devido preparo — o que provoca a queda. A idolatria quis aproximar-se de D'us pelos sentidos e caiu na sua baixeza, porque quis subir aonde não se pode subir sem adquirir as preparações necessárias. O cume do conhecimento de D'us é aquele que Moshé alcançou pela sua grande humildade — "nenhum homem Me verá e viverá", "não poderás ver a Minha face": saber a porção que se conhece e a impossibilidade de conhecê-Lo plenamente.
Daí o Rav Kook avalia as grandes religiões pela sua concepção de D'us: o cristianismo, diz ele, supôs "conhecer" D'us, medindo o Imensurável pela medida moral humana — e, dessa ilusão de conhecer o que não se pode conhecer, aproximou-se de conceitos que beiram a corporificação do divino. O Islã, por sua vez, supôs reconhecer a essência divina pela sabedoria e pela força. O argumento de fundo é filosófico: toda concepção positiva de D'us por uma medida criada é, em si, uma forma de idolatria conceitual; o conhecimento verdadeiro e duradouro é o que transcende toda razão e todo sentimento, selado pela humildade e pela impossibilidade de apreensão.
Nota. Este capítulo é uma crítica teológica, na linha racionalista (a "teologia negativa" do Rambam): o alvo não são pessoas, mas conceitos de D'us. Rav Kook sustenta que qualquer descrição positiva do Infinito por medidas humanas distorce — e que mesmo "desvios da linha de Israel" carregam esse risco. É um argumento sobre ideias, não um chamado ao desprezo de quem quer que seja.
Nutrir-se da luz divina pura — cuja grandeza é a humildade do "fim do saber é não saber" — exige que todos os sentimentos e pensamentos estejam afinados com essa fonte. E isso só é possível quando a própria nação de onde o indivíduo vem está fundada, na sua espiritualidade, sobre o bem divino. O Rav Kook é honesto também quanto a Israel: a queda pelo pecado trouxe também a nós uma "rudeza", e a negação áspera dos "calcanhares do Mashiach" (ikveta de-meshicha) tem, paradoxalmente, a função de purificar a luz de toda imagem positiva indevida. Ainda assim, no mundo, nenhum povo está, por ora, preparado para essa luz pura — por isso "a névoa cobre os povos"; e só quando formos o que devemos ser, a singularidade suprema retornará a toda a humanidade.
Nenhuma das imagens do mundo deixou marca na essência interior de Knesset Israel. Nenhuma cultura que dominou o espírito humano conseguiu turvar um só ponto do esplendor da sua luz divina livre. "Ela é íntegra (temimah)... caiu e não tornará a cair — levanta-te, virgem de Israel."
Poderíamos pensar que a única diferença entre Israel e os povos está nas mitsvot práticas. Mas isso é um engano: o fundamento anímico sobre o qual a ideia se constrói é a substância essencial que distingue Israel — e dela é que fluem todas as distinções práticas. Mesmo quando estas se ferem, não alcançam o fundamento supremo. E há um percurso: parecia que primeiro a forma humana universal se aperfeiçoaria, e só então se acrescentaria o espírito singular de Israel; mas o espírito humano decaiu, e foi preciso o exílio do Egito como "forno de ferro" para refinar o lado humano em Israel, até torná-lo uma nova criatura — "Yaakov e Israel".
Comparando o homem e os outros animais, podemos listar muitas semelhanças; e, no entanto, o ponto de que depende a superioridade humana abarca toda a dignidade do homem, que ele não trocaria por riqueza alguma. Assim também — diz o Rav Kook — a diferença entre a religião de Israel e as demais, mesmo as que dela derivaram: há muitas semelhanças exteriores, mas o ponto interior que as distingue não se apaga; a semelhança é externa, e o interior é inteiramente diverso. E é nesse sentido que ele escreve a frase mais debatida da seção:
Sobre esta passagem — leitura honesta. É um dos trechos mais citados fora de contexto do Rav Kook, às vezes para acusá-lo de racismo. No seu próprio sistema, "alma" (neshamá) aqui é uma categoria metafísica e coletiva — a vocação espiritual de Knesset Israel como entidade —, não uma afirmação biológica ou de superioridade de indivíduos. A própria comparação que ele usa (homem/animal) é técnica: aponta uma diferença de tipo, de papel, não de valor humano. E lê-la como desprezo contradiz o mesmo autor, que poucas páginas antes escreveu que o amor a Israel obriga ao amor de todo ser humano, e que toda esta seção tem por tese a missão de elevar e unir os povos. É assim — e só assim — que a tradição a entende.
A humanidade é digna de unir-se toda numa só família, cessando as contendas que nascem das divisões entre os povos. Mas o mundo precisa do refinamento pelo qual a humanidade se aperfeiçoa na riqueza dos caracteres próprios de cada nação. Essa falta Knesset Israel a completa — pois a sua natureza é como um grande tesouro de espíritos, que abarca todo talento e toda inclinação elevada. Na sua plenitude, todo o bem que vem da diversidade dos povos será preservado no mundo, e então não haverá mais necessidade de divisão: todos os povos serão uma só unidade, e sobre eles, como um tesouro sagrado, "um reino de sacerdotes e uma nação santa".
Em cada época, Knesset Israel revela uma das muitas formas das suas luzes; o seu futuro é a expansão de todas as luzes ao mesmo tempo — incluindo as que se manifestaram entre os diversos povos por meio dela. Tudo o que parece separado ou oposto a ela só assim parece enquanto separado da sua fonte; quando tudo retornar a aparecer nela como um, ver-se-á que tudo se harmoniza. A criação divina aspira sempre a uma forma mais completa; e, enquanto entre os povos essa luz é "fogo consumidor" das formas que passam, só em Israel a natureza nacional encontra repouso, e o fogo de D'us nela é luz que aquece e ilumina — não que queima. "E vós, que vos apegais ao Eterno vosso D'us, estais todos vivos hoje."
Temos nas mãos um remédio de vida (sam chayim) para o mundo inteiro, no sentido nacional. É regra da história que as nações morrem e passam — quase todos os povos antigos desapareceram. Mas ser um povo vivo e atuante, firme o bastante para vencer crise após crise, não se viu no mundo senão em Israel — pelo Nome de D'us a ele ligado e pelo remédio da Torá de vida que traz consigo; e esse remédio há de sair de nós para todo o mundo. Até a redenção futura, influenciamos o mundo apenas com o ensino dos deveres — e o mundo resiste a deveres; mas, quando a luz se revelar, o mundo saberá que dela recebe os caminhos da verdadeira alegria de viver — e a alegria todos desejam.
Knesset Israel caminha para a sua libertação suprema — a libertação espiritual da sujeição aos reinos e às imaginações dos povos, que nascem da cegueira de quem vê o mundo só por fora. E a sede de liberdade sentida em todas as camadas, mesmo nos mais distantes, no fundo se nutre desse anseio pela libertação maior, pelo "mundo da liberdade" (alma de-cheiru) — em que "a voz, a voz de Yaakov" não sofrerá mais influência alguma de Essav; e do nascente ao poente o Nome de D'us será grande.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — Orot Yisrael, seção Israel e as Nações (Israel ve-Umot ha-Olam), capítulos 1 a 16. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Buscou-se traduzir a seção na íntegra; em alguns capítulos densos, condensou-se a redação preservando o argumento, e as passagens mais debatidas foram traduzidas com fidelidade e contextualizadas. As notas são nossas; eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.