Esta seção das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá) é um dos trechos mais arrebatados do Rav Kook — sobre a raiz divina do intelecto de Israel e a luz que dele desce ao mundo. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).
Um intelecto divino
O intelecto israelita, do lado da sua fonte espiritual divina, é um intelecto divino, e a sua vontade é uma vontade divina. As saudades e o amor de toda a nação são tremendos e infinitamente profundos — e o são, precisamente, pela perfeição divina suprema. Esse amor sobressai no Cântico dos Cânticos, no esplendor das suas cores, para as quais o mundo inteiro não é digno.
Só a sabedoria suprema, com toda a sua liberdade e todo o sentir dos seus deleites — aquela que sobe sempre, acima das esferas dos conhecimentos divinos — é o que dá vida a Israel.
Os justos, fundamentos do mundo
Essa luz essencial revela-se nos justos supremos das gerações, cuja vontade é o fundamento do mundo, cujas palavras são palavras do D'us vivo, e das quais nenhuma volta vazia — pois a palavra do Senhor, D'us do mundo, está sempre na sua boca. E, nos recantos de toda a Torá — no seu todo e nos seus pormenores —, quando ela se une à iluminação do conhecimento do seu fundamento e da sua alma, tudo vai iluminando, vai revelando, vai redimindo, vai aperfeiçoando; traz salvação eterna a toda criatura, e ilumina a eternidade a partir da sua glória suprema — d'Aquele que cavalga os mais altos céus antigos e dá vida aos confins da terra, faz brotar toda espécie de salvação, e dá alento a todos os humildes da terra; cinge Israel de uma força eterna e o faz voltar, erguido, à sua terra, para o renovar como no princípio.
Uma só luz, a alma de todo o cosmos
Uma só luz, uma só alma, a alma de todo o cosmos: o braço de D'us vai-se revelando, vai chamando Israel à vida, a voltar para construir e ser construído. Na alma suprema dos justos — fundamentos do mundo, que a luz dos segredos de D'us mantém vivos — habita o espírito da ressurreição dos mortos; e da fonte da sua vida que jorra, absorvida de toda a essência dos tesouros de vida de todos os mundos, saem regatos — ramos finos e variados — para trazer a luz da vida, um espírito de esperança e uma inclinação à unidade, um despertar de teshuvá e um grande alento a todas as camadas [do povo]. E, na luz suprema semeada para o justo, despontará o Mashiach, para erguer o vigor de um povo eterno.
Duas notas merecem destaque. A primeira é maimonidiana: o intelecto, na sua raiz, é "divino" — a mente humana participa de uma luz que a transcende; e o anseio mais fundo da alma é pela perfeição divina, e não por bens menores. A segunda é o alcance universal desta luz: ela "traz salvação eterna a toda criatura", "dá vida aos confins da terra", "dá alento a todos os humildes da terra". A revivência de Israel, mesmo no seu ápice mais particular, é cantada como uma luz para o cosmos inteiro — "uma só alma, a alma de todo o cosmos".
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §11. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira; buscou-se preservar o sentido, organizando o texto para a leitura. O texto alude ao Cântico dos Cânticos (e ao dito da Mishná, Yadayim 3:5) e à imagem de "Aquele que cavalga os céus" (cf. Tehillim 68:34). O bloco em hebraico destacado é a frase de abertura do próprio Rav Kook. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.