Esta é uma das páginas mais penetrantes — e mais atuais — do Rav Kook: uma anatomia do fanatismo. Ele mostra que o ódio "em nome do sagrado" não nasce de fé a mais, mas de um modo errado de querer possuir a verdade. E aponta o remédio. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).
A luz que aquece de longe
Os enredos do pensamento e as divergências de opiniões que não se reconciliam — na vida e na ideia — vêm de uma só fonte: de um pensamento apenas esboçado, não esclarecido. As sombras do pensamento, que envolvem as suas luzes, são mais amplas e mais ideais do que a luz clara e definida — mas muito menos nítidas. E, por isso, enquanto o pensador se aquece de longe ao brilho dessas sombras, a sua mente alarga-se, a sua vontade refina-se, o seu sentimento enobrece-se; e uma vida serena, cheia de majestade sagrada e de uma confiança feita de grandeza e de humildade, mescla-se a todo o seu espírito. E uma comunidade regada por tantas influências de graça caminha pela estrada da vida eterna, e a bênção da paz, a pura paciência, o despertar espiritual e o esplendor da pureza vão crescendo.
A intuição inicial é sutil e bela: as verdades mais altas são "sombras de luz" — vastas, ideais, mas nunca inteiramente nítidas. E é assim que devem ser captadas: de longe, com humildade, como quem se aquece a uma fogueira distante sem querer tocá-la. Quem assim as recebe torna-se mais largo, mais sereno, mais paciente. A grandeza convive, nele, com a humildade — e disso nasce a paz.
Quando se quer agarrar a luz
Mas, muitas vezes, uma inclinação estranha infiltra-se no espírito, e aquela escuta distante — pela qual a pessoa ouve o tinir da voz ideal vinda daquelas distâncias sublimes — já não lhe basta. Ela quer alimentar os ouvidos com uma audição estrondosa, os olhos com uma visão nítida, a imaginação com cores, o intelecto e o sentimento com conceitos sólidos, agarrados com força. Então o bem supremo converte-se-lhe em tropeço: daquela contração da luz clara mas estreita que entrou no seu saber, ela tira cercas e tenazes — que se tornam cercas opressoras e tenazes que apertam as grandes sombras, os clarões distantes e amplos da luz. E dessa pressão nasce um calor fumacento de fogo estranho, cheio de amargura: uma ira grande e tempestuosa, um zelo raivoso sem limite, sem sossego e sem paz.
Eis o diagnóstico, e ele é contraintuitivo: o fanatismo não vem de fé demais, mas de uma exigência errada — a de agarrar o ideal infinito como se fosse um objeto sólido, nítido, possuído com total certeza. Quem não suporta a humildade do "de longe" e quer apertar a luz vasta dentro de fórmulas estreitas acaba por espremê-la — e da pressão sai fumaça, não luz. O "fogo estranho" (a expressão da Torá para a oferta não pedida) é a imagem exata: um zelo que se crê sagrado, mas que ninguém ordenou.
O nascimento da violência
E, no lugar da grande fé, da confiança serena e da contemplação deleitosa, entra um espírito de desvario: o desejo de poder e de domínio, cheio de crueldade e despido de pudor, de modéstia e de retidão. Brigas constantes inflamam-se, guerras de sangue nascem, o assassínio e a abominação rastejam como serpentes dos seus esconderijos; toda majestade se converte em doença, e tudo aquilo que se arroga um nome sagrado se contamina —
A observação mais terrível está numa frase: a crueldade veste "um nome sagrado". O pior fanatismo não se apresenta como maldade — apresenta-se como santidade. Por isso o Rav Kook não diz que a cura é "menos religião"; a doença é uma fé deformada — a luz boa "que virou tropeço". E a cura não pode ser mais escuridão do outro lado: só uma fé mais humilde e mais ampla desfaz a fumaça do fogo estranho.
O caminho da escuta refinada
E é do meio desse turbilhão de aflição que se ergue o caminho da cura: um retorno à escuta refinada. [O povo que saiu da casa da servidão] volta à sua fonte, e adapta-se a uma escuta delicada — a tinidos supremos que vêm voando de mundos altos e emanados —, recebendo cada um conforme a sua medida; e de todas as medidas juntas se revelará o esplendor da paz e o brilho da verdade, o fundamento do deleite e a plenitude da vida, cheia de trabalho e de um anseio ideal puro e firme. Como está dito:
E essa delicadeza vai-se estendendo a toda fileira, a toda força que trabalha, descendo até ao bom trato com a alma do animal, como convém a uma nação justa: "e os bois e os jumentos que lavram a terra comerão forragem temperada, joeirada com a pá e o garfo" (Yeshayahu 30:24).
A cura é o oposto exato da doença. Contra a exigência de uma certeza única, rígida e possuída por um só — a "escuta refinada", em que cada um recebe a verdade "conforme a sua medida", e é da soma das medidas que se revelam a paz e a verdade. A pluralidade não é ameaça; é o modo como a luz vasta cabe no mundo. E o sinal de que se chegou lá é delicado e concreto: a ternura alcança até os animais de trabalho. Onde há fé verdadeira, há paz — e a paz desce até ao cocho do boi.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §58. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira; o longo e denso período foi organizado para a leitura. A expressão "fogo estranho" remete a Vayikrá 10:1; os versos finais são de Yeshayahu 60:2 e 30:20-24. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.