Esta seção, que encerra as "Luzes do Renascimento", é uma das mais luminosas do Rav Kook. Ela define o que é o apego a D'us (devekut), mostra como ele se traduz num dever para com o mundo inteiro, e culmina numa das afirmações mais universais de toda a sua obra. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).
Quatro vias, um só apego
O apego [a D'us] — o da vontade e o do conhecimento, o da imaginação e o da ação —, quando se entrelaçam, abre os canais da vida: os orvalhos da vontade própria da vida refinada, a vida verdadeira, cuja riqueza de glória e cuja doçura de esplendor não têm fim — e da qual os justos, que "veem o seu mundo ainda em vida", conhecem e sentem um pouco do valor.
Note-se a definição: o apego a D'us não é só um sentimento, nem só uma ideia. É a convergência de quatro faculdades — a vontade (o que queremos), o conhecimento (o que entendemos), a imaginação (o que somos capazes de vislumbrar) e a ação (o que fazemos). Quando as quatro apontam para a mesma luz, "abrem-se os canais da vida". O ser humano inteiro — e não uma parte dele — é que se une a D'us.
Chamados a fazer o bem ao mundo
E quão grandemente somos chamados a fazer o bem a nós mesmos e a todo o mundo: a endireitar o caminho de D'us, a afastar todo obstáculo da luz do deleite supremo, da vida verdadeira do apego divino genuíno — que é, ela só, a fonte da felicidade e a meta de toda a vida e de toda a existência.
Eis o ponto decisivo, e o oposto de toda piedade egoísta: o apego a D'us não se fecha sobre si — transborda. Quem de fato se une à fonte da vida sente-se "chamado a fazer o bem a si mesmo e a todo o mundo", a remover os obstáculos que impedem os outros de chegar à mesma luz. A devoção verdadeira não produz indiferença ao mundo; produz responsabilidade por ele.
A dor pelos que andam na treva
Quão desventurados são os que andam na escuridão! Quão dignos de dó os que não têm o D'us verdadeiro — no seu saber e na sua vontade, na sua imaginação e nas suas obras! E quão felizes os que caminham diante de D'us, que se alegram na luz do seu esplendor:
O coração contrai-se de tanta dor pela escuridão terrível em que estão postos os que habitam as trevas; e a retidão interior pressiona a alma a acender o facho da vida verdadeira, a erguer um estandarte para os muitos.
Repare-se no tom: diante de quem vive sem luz, o Rav Kook não sente desprezo — sente dor. "O coração contrai-se." A resposta correta à escuridão alheia não é o julgamento, e sim acender uma chama: "erguer um estandarte para os muitos". Quem tem a luz é chamado a partilhá-la, com compaixão — não a guardá-la como privilégio.
A centelha adormecida em todo ser
Israel é o tesouro de vida no mundo: no seu próprio ser está mesclado o conhecimento do D'us verdadeiro. No seu renascimento, dará vida ao mundo — removerá o véu da descrença estendido sobre os povos, essa "morte" espiritual que é a desgraça do mundo inteiro, e despertará para a vida as sementes da vida divina adormecidas no coração de cada ser humano e de cada vivente. Erga-se Israel sobre os seus pés, levante-se com vigor na sua terra amada, profira a sua palavra de profecia desde a fonte da vida da sua alma, e desperte para a vida os grãos de vida divina que dormem no coração de todo homem e de todo ser vivo:
Eis o ápice universalista. A missão de que o Rav Kook fala não é impor algo de fora a ninguém — é despertar algo que já está dentro: "as sementes da vida divina que dormem no coração de cada ser humano e de cada vivente". A centelha do divino já habita todos; o que falta é acordá-la. Por isso o verso de fecho não diz "todo judeu", nem "todo crente", mas kol ha-neshamá — toda alma louve a D'us. A luz que une a D'us é a mesma que reconhece o divino em cada criatura.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §72 (seção final). O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira; buscou-se preservar a força do original. A "descrença" (kefirah) é tratada, como em toda a obra, como uma condição espiritual universal — a "morte" do mundo —, e a missão descrita é a de despertar a vida divina latente em todos, não de impor o que é alheio. Os versos são de Tehillim 89:17 e 150:6. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.