Quando o Rav Kook abre Orot, ele não começa por D'us em abstrato, nem pela alma individual: começa pela Terra. Para ele, Eretz Israel é o ponto onde a alma de Israel toca o mundo. Os oito capítulos a seguir formam um único movimento — da essência da Terra à sua santidade, do exílio ao retorno, e do retorno à chama que arde em todo coração de Israel. Traduzo-os aqui na íntegra, a partir do hebraico original (de domínio público), buscando preservar a densidade e o calor do texto.
Eretz Israel não é uma coisa exterior, uma posse externa da nação, um mero meio para o fim da união coletiva e da manutenção da sua existência — material, ou mesmo espiritual. Eretz Israel é uma unidade essencial, ligada por um laço de vida à nação, entrelaçada por qualidades internas com a sua própria existência.
Por isso, é impossível apreender o conteúdo da singularidade (segulá) da santidade de Eretz Israel — e realizar a profundidade do amor por ela — por meio de qualquer raciocínio humano racional; isso se dá apenas pelo espírito de D'us que repousa sobre a nação como um todo, pela impressão natural e espiritual gravada na alma de Israel. Pensar que Eretz Israel é só um valor externo, destinado a firmar a união do povo — mesmo quando se invoca isso para fortalecer a ideia judaica no exílio, guardar o seu caráter e robustecer a fé — não dá o fruto digno de permanência, porque esse fundamento é frágil diante da força sagrada da Terra.
O verdadeiro fortalecimento da ideia do judaísmo na diáspora virá somente do lado da profundidade do seu enraizamento em Eretz Israel; e é da esperança de Eretz Israel que ele recebe, sempre, todas as suas qualidades essenciais.
Quando alguém se afasta do conhecimento dos mistérios (do sod, a dimensão interior da Torá), o reconhecimento da santidade de Eretz Israel chega de forma turva e desbotada. Tornando-se estranho ao "segredo de D'us", as qualidades supremas da profundidade da vida divina viram coisas secundárias, que não penetram no âmago da alma — e então falta a força mais poderosa na alma da nação e do indivíduo, e o exílio passa a parecer agradável em si mesmo. Pois, para quem só enxerga a superfície visível, nada de fundamental parece faltar na ausência da Terra, do reino e de toda a estrutura da nação.
Não rejeitamos nenhuma forma de compreensão fundada na retidão, no sentimento de conhecimento e no temor do Céu, sob qualquer feitio. Rejeitamos apenas o aspecto pelo qual uma abordagem assim queira excluir os mistérios e a sua grande influência sobre o espírito da nação — pois isso é uma desgraça que temos o dever de combater: com conselho e discernimento, com santidade e com bravura.
Uma criação genuinamente israelita — no pensamento, no vigor da vida e na obra — só é possível a Israel em Eretz Israel. Lá, tudo o que Israel faz tem a sua forma meramente geral suplantada pela forma própria e singular de Israel, e isto é uma grande ventura para Israel e para o mundo. Os pecados que causam o exílio são os que turvam a fonte própria; e, com a fonte ferida, a originalidade essencial se refugia naquela parte mais alta e concentrada que Israel possui enquanto participa do humano universal — e isso se haure justamente no exílio, enquanto a Terra se desola, e a sua ruína serve de expiação.
A fonte cessa de jorrar e passa a gotejar lentamente; as manifestações da vida e do pensamento saem pelo canal geral, espalhado por todo o mundo — "como os quatro ventos dos céus vos espalhei" (Zechariá 2:10) — até que os escoamentos impuros se esgotem e a força da fonte retorne à sua pureza. Então o exílio se torna detestável, supérfluo; a luz geral volta a brotar da fonte própria em toda a sua força, e começa a despontar a luz do Mashiach, que reúne os dispersos. E o pranto amargo de Rachel, que chora pelos seus filhos, é adoçado por consolações:
É impossível a um homem de Israel ser tão entregue e fiel aos seus pensamentos, raciocínios, ideias e imaginações fora da Terra quanto o é em Eretz Israel. As manifestações do sagrado, em qualquer grau, são relativamente puras em Eretz Israel; fora da Terra, vêm misturadas a muitas escórias. Ainda assim, na medida da grandeza do desejo e do vínculo de uma pessoa com Eretz Israel, os seus pensamentos se purificam pela força do "ar de Eretz Israel" que paira sobre todo aquele que anseia por vê-la — "Alegrai-vos com Jerusalém e exultai nela, todos os que a amais" (Yeshayahu 66:10).
A imaginação ligada a Eretz Israel é límpida e clara, pura e apta à manifestação da verdade divina; preparada para revestir o desejo elevado e sublime do ideal que há na santidade suprema, pronta para a clareza da profecia e das suas luzes, para o resplandecer do ruach hakodesh. Já a imaginação na terra das nações é turva, mesclada de trevas e sombras de impureza — não consegue elevar-se aos cumes do sagrado nem servir de base à abundância da luz divina. E porque o intelecto e a imaginação estão entrelaçados, agindo um sobre o outro, o próprio intelecto, fora da Terra, não pode brilhar com a luz que tem em Eretz Israel.
A ação do espírito de santidade absorvida em Eretz Israel não cessa de operar, mesmo que a pessoa venha a sair da Terra — por engano ou por alguma causa forçosa. Tal como a profecia que, uma vez acontecida em Eretz Israel, não cessa nem fora dela. A abundância do sagrado, iniciada na Terra, recolhe todos os fragmentos de santidade dispersos fora dela e os atrai com a sua força.
E eis um sinal: quanto mais difícil é suportar o ar de fora da Terra, quanto mais se sente a estranheza de um solo que não é o seu — mais profunda foi a absorção da santidade de Eretz Israel. Essa estranheza ata ainda mais o anseio interior à Terra e à sua santidade; e a expectativa de vê-la cresce. E quando o desejo profundo de chibat Tzion — o amor de Sião — se intensifica numa alma, ainda que numa só, ele se torna uma fonte que brota para toda a coletividade, para as miríades de almas ligadas a ela. Então o som do shofar da reunião dos dispersos desperta, as misericórdias se multiplicam, e a esperança de vida para Israel cintila — e a luz da salvação e da redenção se espalha como a aurora estendida sobre os montes.
A alma está repleta de "letras" cheias de luz de vida, de conhecimento e de vontade, de visão e de realidade plena. Quando nos achegamos a uma mitsvá, ela está sempre cheia do resplendor de todos os mundos — cada mitsvá é repleta de letras grandiosas e admiráveis. No instante em que nos aproximamos para cumpri-la, todas as letras vivas do nosso ser se engrandecem: crescemos, ganhamos força, somos preenchidos de luz de vida e de uma existência superior, rica da riqueza da santidade eterna.
E é em Eretz Israel que crescem as letras da nossa alma — lá elas revelam o seu brilho, sugando vida essencial do esplendor de Knesset Israel. O ar de Eretz Israel produz o viço dessas letras de vida, em beleza e em alegria poderosa. A expectativa de contemplar o esplendor da terra desejada — o anelo íntimo por Eretz Israel — engrandece as letras sagradas da nossa essência:
E no centro de tudo está o mishpat — a justiça —, o pilar central sobre o qual todo o edifício se apoia: a essência do desejo da alma impregnada na alma do Mashiach, que revelará a luz da justiça de D'us na terra com força suprema — uma força que exclui toda guerra e todo derramamento de sangue.
No interior do coração, nas câmaras da sua pureza, intensifica-se a chama de Israel — a que exige, com vigor, a ligação firme e contínua da vida a todos os mandamentos de D'us; verter o espírito de Israel, que enche toda a amplitude da alma, em cada um dos seus muitos instrumentos, e exprimir o ser israelita pleno, prático e ideal. As labaredas crescem no coração dos justos; um fogo sagrado arde e sobe.
E esse fogo arde no coração de toda a nação, dia após dia — e até no coração dos "vazios" de Israel, e mesmo dos que transgridem, o fogo arde no mais íntimo. Em todo o povo, cada anseio de liberdade, cada desejo de vida, cada esperança de redenção brotam apenas desta fonte: o desejo de viver a vida israelita em plenitude, sem contradição e sem limite. E essa é a sede de Eretz Israel — o solo sagrado, a terra de D'us, onde todos os mandamentos ganham corpo e relevo.
Essa é a bravura oculta: a elevação de uma vida que jamais se extingue. Se causa espanto a alguém de fora — como pode ser que mesmo espíritos aparentemente distantes da fé pulsem, no seu íntimo, não só por uma vaga proximidade com D'us, mas pela vida israelita verdadeira? —, não se espantará quem está ligado, nas profundezas do seu espírito, ao âmago de Knesset Israel, e conhece as maravilhas das suas qualidades. Como está escrito: "e guardareis os Meus estatutos e os Meus juízos, que o homem fará, e por eles viverá" (Vayikra 18:5) — "viver" que os Sábios leram como "andar diante de D'us nas terras da vida — esta é Eretz Israel."
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — seção Eretz Israel (As Luzes da Terra de Israel), capítulos 1 a 8. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Procurou-se traduzir a seção na íntegra e preservar a sua densidade; eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.