A tradição judaica fala de duas Torás: a Torá Escrita (o texto dado no Sinai) e a Torá Oral (a tradição viva que a interpreta, da Mishná e do Talmud até cada nova compreensão). O Rav Kook, na abertura de Orot HaTorah, descreve-as não como dois livros, mas como duas luzes — dois canais por onde o divino alcança a alma. O que segue é uma tradução inédita ao português do capítulo inteiro, a partir do hebraico original (de domínio público).
Dois canais da alma
A Torá Escrita nós a recebemos por meio da imagem mais elevada e mais abrangente que há em nossa alma. Sentimos, de dentro dela, o fulgor do esplendor da luz viva e universal de todo o universo. Por ela voamos para além de toda lógica e de todo intelecto; sentimos um espírito divino supremo pairando sobre nós — tocando e não tocando —, sobrevoando as nossas vidas, acima delas, e irradiando-as com a sua luz. A luz brilha, cintila e penetra em tudo; sob todos os céus ela se estende. Não foi o espírito da nação que gerou esta grande luz — foi o espírito de D'us, que forma tudo, que a formou; esta Torá de vida é o fundamento da criação de todos os mundos.
Na Torá Oral, porém, já descemos à vida. Sentimos que recebemos a luz suprema por um segundo canal da alma — o canal que se aproxima da vida da ação. Sentimos que o espírito da nação, ligado como a chama à brasa à luz da Torá da verdade, é o que fez, pelo seu caráter próprio, que a Torá Oral se formasse na sua forma particular. E, com certeza, esta Torá do homem está incluída na Torá de D'us — ela também é a Torá de D'us. Pois do olho aberto daquele que contempla no espelho que ilumina, o fiel em toda a casa de D'us, não poderia estar oculta essa torrente de vida em todos os seus desdobramentos. Por isso disseram: até aquilo que um discípulo veterano um dia haverá de inovar, tudo já foi dito a Moshé no Sinai. E estas duas luzes fazem um mundo inteiro, em que o céu e a terra se beijam.
A imagem é precisa: a Torá Escrita chega pelo canal mais alto da alma — recebemo-la "acima da lógica", como quem recebe uma luz que vem de cima. A Torá Oral chega pelo segundo canal, o que toca a vida da ação — por isso ela tem a marca do espírito humano, do caráter da nação que a desenvolve. E, no entanto, ela não é menos divina por isso: o que o sábio descobre amanhã já estava contido na revelação do Sinai. As duas luzes não competem; juntas fazem "um mundo inteiro".
A mais baixa que é, na raiz, a mais alta
A Torá Oral repousa na própria essência do caráter da nação — daquela nação que encontrou a sua bênção por meio da revelação celeste da Torá Escrita. Na sua manifestação [exterior], a Torá Oral é mais baixa do que a Torá Escrita; pois o fator principal para que ela encontre o seu caminho é a Torá Escrita — a relação suprema da nação com a Divindade suprema, com o fim de todos os fins, com a eternidade e a majestade que há nos mundos e acima de toda a sua totalidade.
Mas, na sua forma interior, a Torá foi dada a Israel por causa da sua qualidade interior, suprema e oculta — a segulá; e foi essa segulá divina escondida que fez descer sobre eles a Torá vinda do céu. De modo que a Torá Oral se encontra, na sua raiz, mais elevada do que a raiz da Torá Escrita. E por isso disseram os Sábios:
Eis o paradoxo que o Rav Kook resolve: por fora, a Torá Oral parece "menor" — ela depende da Escrita para achar o seu rumo. Mas, por dentro, é mais alta, porque brota da segulá, a qualidade oculta de Israel que foi a própria razão de a Torá ter sido dada. A contribuição humana — o estudo, a interpretação, a inovação — não rebaixa a Torá; é a sua revelação mais profunda. Aquilo que parece "só humano" é, na verdade, o lugar onde o divino chega mais fundo.
Os gêmeos separados — e o reencontro
A nutrição da Torá Oral está em ser escondida do céu e revelada da terra. E é preciso que a Terra de Israel esteja edificada, e todo o Israel habitando sobre ela, ordenado em todas as suas ordens — santuário e realeza, sacerdócio e profecia, juízes e magistrados e todos os seus arranjos —, para que então a Torá Oral viva em todo o esplendor da sua glória, florescendo, levantando o seu botão e unindo-se à Torá Escrita em toda a medida da sua estatura.
No exílio, os gêmeos separaram-se: a Torá Escrita elevou-se aos cumes da santidade, e a Torá Oral desceu às profundezas mais baixas. Ainda assim, ela recebe um sustento secreto da luz da Torá Escrita — da rebrota do passado —, o bastante para mantê-la numa vida reduzida. E ela desce e definha a cada dia, até que o dia desponte e a luz da vida venha do tesouro da redenção dos mundos; e Israel prospere, plantado na sua terra, florescendo em todo o esplendor das suas ordens.
Então a Torá Oral começará a brotar da profundidade da sua raiz, subirá cada vez mais alto, e a luz da Torá Escrita fará raiar sobre ela raios de luz renovados, novos a cada manhã. E os amados reunir-se-ão na morada do seu dossel; e a luz da alma do D'us vivo dos mundos — revelada no renascimento de Israel e no erguer-se da sua glória — brilhará com a luz dos sete dias, a luz do sol e a luz da lua juntas, penetrando e atraindo de uma à outra, e respondendo à terra e ao povo com toda a beleza da vida:
O capítulo termina numa visão de cura. As duas Torás são "gêmeas": no exílio foram arrancadas uma da outra — a Escrita subindo a uma santidade abstrata, a Oral encolhendo-se a uma sobrevivência mínima. Mas a Torá Oral é a Torá da vida: ela só floresce de verdade quando há uma vida inteira para ordenar — terra, sociedade, justiça, trabalho. Por isso, no reerguer-se do povo na sua terra, ela volta a brotar, e as duas luzes se reúnem. É, no fundo, a reconciliação do céu com a terra: a prova de que o mais elevado e o mais concreto eram, desde sempre, uma só luz.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot HaTorah (As Luzes da Torá), capítulo 1 — "A Torá Escrita e a Torá Oral". O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico (vocalizado) e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se o capítulo inteiro (três seções); buscou-se preservar a força e a imagística do original, e alguns períodos longos foram organizados para a leitura. A frase "tudo já foi dito a Moshé no Sinai" remonta ao Talmud Yerushalmi (Peá 2:4); o verso final é de Yeshayahu 30:26. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.