Orot · As Luzes do Rav Kook

Antes da Torá, a Decência

Duas ideias surpreendentes do Rav Kook: a moral natural — a decência básica — vem antes da Torá e é o seu alicerce, para todo ser humano; e a Torá é uma luz para o mundo, que jamais deve ser arrancada da razão e da moral naturais.

Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook (1865–1935) Orot HaTorah · cap. 12 Tradução inédita · PT-BR

Há quem imagine que a religião dispensa, ou até substitui, a ética comum — a honestidade, a bondade, a decência que qualquer pessoa reconhece. O Rav Kook ensina o contrário, com uma força que surpreende: a moral natural precede a Torá e é o chão sobre o qual ela se ergue. E a Torá, longe de ser uma luz fechada em si, é uma luz para o mundo inteiro. O que segue é uma tradução inédita ao português, a partir do hebraico original (de domínio público).

A decência precede a Torá

דֶּרֶךְ אֶרֶץ קָדְמָה לַתּוֹרָה "O derech eretz [a decência] precedeu a Torá." Vayikrá Rabá 9:3

"O derech eretz [a boa conduta] precedeu a Torá." Essa precedência é uma necessidade de todas as gerações. A moral, na sua naturalidade — em toda a sua profundeza e força —, precisa fixar-se na alma e servir de leito para as grandes influências que vêm da Torá. E, assim como o temor [de D'us] é a raiz que precede a sabedoria, a moral natural é a raiz que precede o próprio temor e todos os seus ramos. E esta regra vale para o indivíduo, para a nação inteira e para toda a humanidade.

E, se às vezes é necessário trazer a abundância da Torá sem a precedência do enraizamento da moral natural na sua pureza, isto é apenas uma "medida da hora" [uma exceção provisória]; e a vida há de fazer com que o curso volte à sua ordem firme — a moral natural primeiro, em toda a sua perfeição, para sobre o seu leito edificar o palácio da Torá e do temor supremo. Por isso, toda coisa da Torá precisa que o derech eretz a preceda: aquilo com que o intelecto e a justiça natural concordam — a recusa do roubo e da imoralidade, o valor da modéstia, que se podem aprender "até da formiga, da pomba e do gato" [da própria natureza] — deve passar pela inclinação do coração e pelo assentimento da vontade pura que há no homem.

Eis um princípio que corrige um erro perene: a santidade não substitui a decência — repousa sobre ela. Não se constrói uma vida religiosa verdadeira sobre uma pessoa (ou um povo) que não tenha primeiro a honestidade e a bondade básicas. E note a largueza: a moral natural é "herança de toda a humanidade" — ela vale para todos, antes e independentemente da Torá. Uma religiosidade que pula a ética comum está construída sobre a areia.

Toda sabedoria se liga à luz da Torá

A Torá faz, propriamente, a alma de Israel; e a sabedoria em geral — aquela que está fora do conceito de "Torá" — faz a alma humana. E, quando contemplamos a interioridade da alma humana na sua essência, achamos o espírito de Israel vivo dentro dela; e, do mesmo modo, na essência interior de toda ciência e de toda sabedoria, achamos a luz da Torá.

Uma luz para o mundo — não contra o mundo

A Torá foi dada a Israel para que portões de luz — mais claros, mais largos e mais santos do que todos os portões de luz da razão natural e da moral natural que há no homem — se abrissem para nós, e, por nosso intermédio, para o mundo inteiro.

יִפָּתְחוּ לָנוּ, וְעַל יָדֵינוּ — לְכָל הָעוֹלָם כֻּלּוֹ "...que se abram para nós, e por nosso intermédio — para o mundo inteiro." Orot HaTorah, cap. 12

E, se tapamos os ouvidos para não ouvir a voz simples de D'us, que clama com força por todos os portões naturais de luz — herança de toda a humanidade —, por pensarmos que encontraremos a luz da Torá numa Torá arrancada de toda a luz da vida espalhada pelo mundo, na sua interioridade e na alma do homem em seu esplendor — então não entendemos o valor da Torá; e sobre isto se disse "povo insensato e não sábio" (Devarim 32:6), que Onkelos traduz: "um povo que recebeu a Torá, e não se tornou sábio".

Este é um dos avisos mais ousados do Rav Kook — e o coração do espírito racionalista. A Torá não deve ser separada da razão, da moral natural e da sabedoria do mundo; ela vem coroá-las, não negá-las. Quem imagina possuir a Torá enquanto fecha os ouvidos à voz de D'us que fala pela razão, pela ciência e pela consciência ética de toda a humanidade — esse "recebeu a Torá e não se tornou sábio". A luz da Torá e a luz do mundo têm a mesma fonte (cf. ciência e Torá e a Torá e a humanidade).

A Torá veio coroar a razão e a moral do mundo — não fechar os ouvidos a elas.

A terra espiritual da alma

E, no entanto, não pense ninguém que é possível viver uma vida espiritual sem a luz da Torá. Assim como não se vive sem luz e ar, sem comida e bebida, mais ainda não se vive sem a vitalidade da Torá. E, se vemos pessoas distantes da Torá e ainda assim espiritualmente vivas, a medida da sua espiritualidade corresponde àquilo em que estão ligadas à Torá — diretamente, ou através dos que a vivem, ou por algum tesouro de herança que os seus antepassados lhes legaram.

Assim como a Assembleia de Israel só realiza as suas qualidades na terra de Israel, assim o homem de Israel só realiza as suas qualidades espirituais por meio da Torá — que é a "terra espiritual" adequada à índole da alma. A moral natural é o alicerce indispensável; mas a Torá é a casa que sobre ele se ergue, e na qual a alma, enfim, habita.

Sobre esta tradução

Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot HaTorah (As Luzes da Torá), capítulo 12 — "A Torá para Israel e para o mundo". O original hebraico é de domínio público.

Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Alguns trechos foram levemente condensados, preservando-se as ideias centrais — “o derech eretz precede a Torá” (Vayikrá Rabá 9:3; cf. Eruvin 100b) e a Torá como luz para o mundo, inseparável da razão e da moral naturais (Devarim 32:6, com o Targum de Onkelos). Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.