É um capítulo breve, mas de uma imagem inesquecível. O Rav Kook fala das próprias letras da Torá — não como sinais mortos no pergaminho, mas como portadoras de uma luz viva; e compara o ato de estudar o texto a cavalgar: as palavras carregam o pensamento mais longe do que ele iria por suas próprias pernas. O que segue é uma tradução inédita ao português, a partir do hebraico original (de domínio público).
A luz escondida nas letras
As letras da Torá: quando a alma se liga à sua luz suprema, todos os pequenos pormenores se tornam queridos com um amor de alma, e o desejo da Torá se espalha sobre cada letra, sobre os mínimos detalhes [da lei] e sobre todas as suas ramificações.
A alegria com que a Torá alegra o ser humano vem da abundância de luz que há nas suas letras — que estão cheias de uma vida de deleite divino e enchem a alma, na sua plenitude, de luz de vida e de uma alegria deliciosa. E, mais do que da própria essência das letras já absorvidas na alma, essa alegria brota da vida espiritual poderosa que se derrama das fontes supremas — muito mais sublimes do que as letras [já] captadas pela alma consciente. E a luz da sua alegria oculta é grande, cheia de um contentamento e de um deleite admiráveis, com que nada do que se deseja se iguala.
Quando a luz excede as letras
Às vezes é impossível ao homem estudar, porque ele está num grau tão [elevado] que a iluminação geral — aquela que está acima das letras — resplandece sobre ele, e ele não consegue contrair-se nas letras do estudo. E, quando recebe essa iluminação em santidade e humildade, merece depois estudar com grande alegria e com uma compreensão muito límpida.
Os cavalos de fogo
"Cavalos de fogo — estas são as letras da Torá." Naquilo que o homem não alcança, da profundeza do pensamento, pela sua própria força, a sua capacidade criadora cresce ao ligar-se à letra da Torá, e sobe muito além do seu próprio poder — como a rapidez e a segurança da viagem aumentam por meio do veículo.
Há o "pedestre": aquele que caminha pela força do seu próprio raciocínio nas questões teóricas da Torá, sem ser ajudado, no sentido das coisas, pelas letras. Há quem não tem força para andar a pé, e vai "montado nas letras da Torá" mesmo naquilo que é simples — onde um homem são deveria caminhar pela própria força. E há quem, em todo lugar em que pode ir a pé, vai a pé; e usa as "letras da Torá" não por fraqueza, mas como quem cavalga por honra — para mais ornar as coisas, ou para chegar a um lugar aonde é impossível ir pela própria força, senão pela ligação da investigação às letras da Torá.
A imagem é tão sábia quanto bela. O texto — a letra concreta, e não apenas a ideia abstrata — é um veículo: ele leva a mente aonde ela, sozinha, não chegaria. Mas o Rav Kook traça um equilíbrio fino: usar o "cavalo" por preguiça (deixar de pensar por si onde se poderia) empobrece; usá-lo por honra e para alcançar o que excede as nossas forças, enobrece. O ideal não é nem o orgulho de quem dispensa o texto, nem a indolência de quem nunca caminha — é caminhar com as próprias pernas e saber cavalgar quando o caminho exige.
Eis, então, por que a Torá alegra: não só pelo que entendemos com a nossa força, mas pela luz que as suas próprias palavras carregam — e que, ao nos ligarmos a elas, nos eleva mais alto do que poderíamos subir a sós.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot HaTorah (As Luzes da Torá), capítulo 5 — "As letras da Torá". O original hebraico (vocalizado) é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. A frase "cavalos de fogo são as letras da Torá" é do Zohar (alusão à carruagem de fogo de Eliyahu, II Melachim 2:11). É um capítulo breve mas vívido; buscou-se preservar a sua imagem e o seu sentido. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.