Entre as "Sementes" (Zer'onim) de Orot, esta é talvez a mais audaciosa — e a mais facilmente mal compreendida. O Rav Kook olha para as épocas de grande agitação e ruptura, e enxerga nelas algo que os olhos comuns não veem: por trás de muita destruição há, às vezes, almas grandes demais, idealistas que não suportam a estreiteza do mundo. Ele não justifica o mal que fazem — di-lo, sem rodeios, mal. Mas discerne, dentro daquela energia inquieta, uma centelha que precisa ser resgatada e reconduzida à construção. O que segue é uma tradução inédita ao português, a partir do hebraico original (de domínio público).
Dois mundos: o reparo e o caos
A orientação habitual da integridade e da retidão — na guarda das boas qualidades de caráter e de toda lei e norma — pertence ao curso do mundo do reparo (olam ha-tikún). E todo romper-se disso — seja pelo lado da leviandade e da licenciosidade, seja pelo lado de uma elevação do pensamento e do despertar de um espírito superior — pertence ao mundo do caos (olam ha-tohu). Mas há uma grande diferença nos pormenores do próprio mundo do caos, e nas suas inclinações para a esquerda ou para a direita.
Os grandes idealistas querem uma ordem tão bela e boa, tão firme e poderosa, que o mundo não tem dela modelo nem fundamento; por isso destroem o que está construído segundo a medida do mundo. Os superiores entre eles sabem também reconstruir o mundo destruído; mas os inferiores — aqueles em quem a inclinação ideal mais alta tocou apenas de leve — apenas estragam e demolem; e são esses os enraizados no mundo do caos, no seu grau mais baixo.
A distinção é tudo. A mesma recusa em aceitar o mundo "como está" pode vir de uma aspiração grande demais ou de mera irresponsabilidade — e, mesmo entre os aspirantes, há os que sabem reconstruir e os que só sabem derrubar. Reconhecer a raiz não é absolver o estrago.
As almas que pedem demais
São muito grandes; pedem muito da existência — mais do que os seus vasos podem suportar. Buscam uma luz imensa; e tudo o que é limitado, medido e proporcionado, não conseguem suportar. Desceram da sua altura desde o primeiro impulso do existir para vir a ser; ergueram-se como uma chama, e se apagaram. O seu anseio infinito não se extingue: revestem-se de vasos diversos, aspiram muito além da medida, aspiram e caem. Veem que estão aprisionadas em leis, em condições limitadas que não as deixam expandir-se sem fim, a cumes que nunca lhes bastam — e caem na tristeza, no desespero, na ira; e, da fúria, no mal: na malícia, na baixeza, na fealdade, na abominação, na destruição, em todo o mal.
A sua efervescência viva não sossega — manifestam-se nos insolentes da geração. Os ímpios "de princípios" — os que transgridem por princípio, e não por apetite — têm uma alma muito alta: são luzeiros do caos. Escolheram a destruição, e destroem; o mundo se embaça por eles, e eles com ele. Mas a essência da coragem que há na sua vontade é um ponto de santidade. Quando essa essência é absorvida pelas almas equilibradas, medidas no seu curso, ela lhes dá um vigor de vida. E manifestam-se sobretudo em algum "fim dos dias", no período que precede um novo parto do mundo — antes de uma existência nova e admirável —, no âmbito que está acima do alargamento dos limites, antes de nascer uma lei que está acima das leis.
"Mais altas" não quer dizer "melhores". O Rav Kook fala da magnitude da alma — da força do seu anseio —, não do valor moral dos seus atos. Uma alma grande mal canalizada faz estragos maiores que uma alma pequena; e é justamente por ser grande que vale a pena resgatar a sua energia. O elogio é à força; o juízo sobre o uso dela permanece severo.
A insolência dos tempos de redenção
Uma tempestade se levanta, cada vez mais furiosa; brechas após brechas se abrem; a insolência cresce da insolência — por não haver contentamento em todo o bom tesouro da luz limitada e reduzida, porque ela não preenche todos os desejos, não retira todos os véus de sobre a face encoberta, não revela todos os segredos nem sacia todos os anseios. Dão coices em tudo: na porção boa, nos grãos de felicidade que conduzem ao repouso e à tranquilidade dos mundos, às delícias sem fim, à exaltação dos séculos. Escoiceiam e enfurecem-se, quebram e consomem, descem a pastar em campos alheios, contentam-se com filhos estranhos, profanam o orgulho de toda beleza — e não há sossego.
Mostram, essas almas ardentes, a sua força — que nenhuma escória e nenhuma limitação as podem conter; e os fracos do mundo construído, os homens da medida e da boa etiqueta, espantam-se diante do seu porte:
Mas, na verdade, não havia o que temer: apenas os pecadores de almas fracas e os hipócritas é que temem, e o tremor os tomou. Os fortes de vigor, porém, sabem que esta revelação de força é um dos fenômenos que vêm para o aperfeiçoamento do mundo — para fortalecer as forças da nação, do ser humano e do mundo. Apenas que, no princípio, a força se revela na forma do caos; e, no fim, será tomada das mãos dos ímpios e entregue às mãos dos justos — fortes como leões — que revelarão a verdade do reparo e da construção, com vigor de espírito de um intelecto límpido e valente, e com firmeza de alma, num sentir e numa ação prática constante e clara.
As tempestades que trazem chuva
Eis a esperança em que tudo desemboca. A energia desencadeada não é um fim em si — é matéria-prima de um bem ainda por vir, quando for redimida e reconduzida ao seu propósito:
Estas tempestades hão de gerar chuvas de bênção. Estas névoas de treva serão os instrumentos de grandes luzes.
Lido até o fim, o texto não é um elogio à destruição — é uma teologia da esperança. O Rav Kook olha para a turbulência de uma era e recusa-se ao desespero: discerne, sob a tempestade, uma força que ainda não encontrou a sua forma. A tarefa dos justos não é temer essa força nem imitá-la, mas resgatá-la — tomá-la das mãos que só sabem derrubar e pô-la a serviço da construção. Da treva, a luz; do caos, o reparo.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — seção Zer'onim (Sementes), "As Almas do Mundo do Caos" (HaNeshamot shel Olam haTohu). O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Esta é uma passagem densa e frequentemente mal lida: as notas em destaque buscam preservar o seu sentido — uma esperança que discerne, sob a turbulência, uma força a ser redimida — sem confundir o diagnóstico do Rav Kook com qualquer aprovação do mal. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.