A palavra teshuvá — "retorno", e não apenas "arrependimento" — guarda mais do que costumamos ouvir nela. Nestas duas seções, o Rav Kook distingue a pequena teshuvá, feita de cálculos miúdos, da grande teshuvá que transforma a pessoa e o mundo; e termina com uma das promessas mais consoladoras de toda a sua obra. O que segue é uma tradução inédita ao português das duas seções, a partir do hebraico original (de domínio público).
Mais do que um livro de contas
A teshuvá que brota da luz dos segredos da Torá — que desperta de um raciocínio interior, desenvolvido a partir da fonte viva nas profundezas da alma, e que abrange toda retidão e toda razão, toda moral, toda lei e todo mandamento — é grande e sublime, incomparavelmente mais do que toda teshuvá particular, que sai dos pequenos cálculos privados da alma: aqueles que só dizem respeito ao seu lugar, à sua hora e ao seu pormenor, e "não bastam para cobrir todas as obras". O grande mar da teshuvá, com o tumulto das suas ondas, é apenas aquela enchente que vem da compreensão do coração, da liberdade do mundo, que vai iluminando das frestas dos segredos do mundo — os que estão nos mistérios da Torá, em toda a manifestação espiritual e em todo o tesouro de poesia e de raciocínio que há na luz da Torá. A esta luz aguarda Israel; e nesta grande luz verá a luz da redenção.
A distinção é libertadora. A pequena teshuvá é um inventário: cada falta no seu lugar, cada hábito na sua hora — e nunca "basta para cobrir todas as obras", porque a lista não acaba. A grande teshuvá é de outra ordem: não soma reparos, mas é uma só "enchente" que vem da "compreensão do coração, da liberdade do mundo" — o reconhecimento súbito e amplo de que pertencemos a algo infinitamente maior. Não conserta a pessoa peça por peça; volta-a inteira para a fonte. Não é menos rigorosa — é mais profunda: muda a raiz, e os ramos seguem.
O retorno que faz reviver
A grande teshuvá, que há de fazer reviver a nação e trazer a redenção a ela e ao mundo, será uma teshuvá que brota do espírito sagrado (ruach ha-kodesh) que nela se multiplica. Pois o dom da profecia, na sua fonte — antes de se desenvolver em plenitude —, é o espírito sagrado, que se uniu a Israel desde o início: "e o teu bom espírito deste para os instruir" (Nechemiá 9:20). Esse espírito não se aparta dos melhores da nação; pulsa em todos os de coração reto, cada um segundo a sua medida. Eleva e refina o espírito dos grandes em saber, dos que se ocupam da Torá por amor, dos generosos cuja vida inteira é um grande rio de bondade, dos poetas cheios de espírito moral e sagrado, dos que pensam bons pensamentos sobre Israel e sobre o mundo inteiro. E, no seu fundamento, está guardado nas almas que sentem o esplendor dos segredos da Torá, e escutam a voz da santidade da vida e os cânticos de toda a criação — dos céus e da terra, dos mares e dos abismos, da alma de todo ser e do sentir de tudo o que sente —, que se elevam na sublimidade da unidade suprema.
Note-se quem porta esse "espírito sagrado": não uma elite fechada, mas "todos os de coração reto, cada um segundo a sua medida" — os sábios, sim, mas também os generosos, os poetas, e todos os que "pensam bons pensamentos sobre Israel e sobre o mundo inteiro". A grande teshuvá não é um fenômeno privado nem tribal; é uma corrente que percorre toda alma sensível, e cujo alvo é o bem de todos. Quem se volta de verdade para D'us volta-se, no mesmo gesto, para o mundo.
A luz que não se apaga
E este profundo amor supremo, este lampejo que cintila em purezas elevadas, em qualquer modo que se revele — mesmo de uma forma natural e simples, mesmo nos pedidos mais comuns da vida, e mesmo na hora da falha e do pecado —, a luz divina não se apaga.
Eis a promessa que torna a teshuvá possível, sempre. Há um instinto de desespero que sussurra: "depois do que fiz, a porta fechou-se". O Rav Kook responde com uma das suas afirmações mais consoladoras: a luz divina não se apaga — nem na forma mais comum da vida, nem mesmo "na hora da falha e do pecado". A centelha não morre com a queda; fica acesa, à espera. É por isso que o retorno é sempre possível — não porque a falta seja pequena, mas porque a luz é maior do que ela. "A Eternidade de Israel não mente": o que é eterno em nós não se perde no que fizemos de errado.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §§68-69. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziram-se as duas seções; a segunda, mais densa, foi levemente condensada para a leitura, preservando-se o sentido. Os versos citados são de Malachi 3:7, Nechemiá 9:20 e Shmuel I 15:29. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.