O que distingue o anseio de Israel do anseio mais nobre de toda a humanidade? O Rav Kook não opõe um ao outro — abraça o universal e, ao mesmo tempo, aponta para algo que vai além dele. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.
Sedentos, diante da fonte
À fonte da profecia [maayan ha-nevuá] somos chamados; secos de sede estamos — mas uma fonte de jardins, um manancial de águas vivas, está diante de nós.
Os anseios de toda a humanidade — e o que vai além
Os bons anseios de que toda a "flor da humanidade" [a elite humana] se orgulha, e por que suspira sempre, em cada geração e em cada tempo — renovando-se nas suas mil inovações, no ato e na consciência, na aspiração e na inclinação —, todos eles são também os nossos anseios. Mas há ainda algo mais alto do que tudo: aquilo que [especialmente] desejamos e que encarnamos na vida — algo cuja força não se reduz ainda que as eras passem e não haja quem o compreenda.
Eis um dos gestos mais característicos do Rav Kook: o abraço do universal sem a perda do singular. Tudo aquilo de bom por que a humanidade mais nobre anseia — justiça, verdade, beleza, dignidade — "é também nosso". Israel não se define por opor-se a esses anseios, mas por compartilhá-los e ir além: há um anseio "ainda mais alto", próprio, que ele "encarna na vida". O particular de Israel não é um muro contra o humano — é um pico que se ergue a partir dele.
O segredo vivo, e a certeza que o mistério não abala
Um segredo santo e oculto habita em nós; uma alma viva e singular repousa em nosso interior. Do espírito do Mashiach sopram e correm ventos, e eles vêm até nós; e nós nos erguemos, sacudimos a poeira e buscamos uma vida nova, "uma renovação dos dias como outrora" — sobre o nosso próprio fundamento, sobre a nossa pedra angular, sobre este alicerce firme e marcado, que sabemos não ter paralelo nem semelhança — ainda que não consigamos explicar o seu conteúdo, nem mesmo à reflexão do nosso espírito mais íntimo.
E eis o essencial: o mistério não faz desabar uma calamidade de ceticismo sobre a certeza que se acha na grandeza da sua vida.
O fecho é uma lição de epistemologia espiritual. Há quem creia que, se não se consegue explicar algo, deve-se duvidar dele. O Rav Kook recusa-o: o fato de não podermos "explicar o conteúdo" do fundamento mais íntimo de Israel — nem à nossa própria reflexão — não derruba a certeza da sua realidade. Sente-se a grandeza viva de uma coisa antes (e independentemente) de a saber definir. O mistério não é inimigo da certeza; é a marca de algo grande demais para caber numa fórmula.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §66. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. As citações são de Shir haShirim 4:15 ("fonte de águas vivas") e Eichá 5:21 ("renova os nossos dias como outrora"); a "pedra angular" ecoa Yeshayahu 28:16. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.