Orot · As Luzes do Rav Kook

A Alma do Mundo e o Corpo

Sobre o corpo — centro de vida restrito e limitado — atua a ampla alma da vida, que voa a distâncias cósmicas. Todos os mundos, ensina o Rav Kook, são o corpo da alma divina; e ela se revela na sua maior pujança na comunidade de Israel — o seu repouso. Ali o corpo nacional e a alma da nação erguem-se juntos como águas, e o shofar do Mashiach começa a soar.

Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook (1865–1935) Orot · Luzes do Renascimento (HaTechiyá) · §71 Tradução inédita · PT-BR

Há uma tentação antiga de desprezar o corpo em nome do espírito. O Rav Kook recusa-a: o corpo é o "centro de vida" sobre o qual a alma age, e a sua saúde é um ideal elevado. Mais ainda — ele alarga a imagem até o cosmo inteiro: todos os mundos são, eles próprios, o corpo de uma alma divina. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

A alma que voa a distâncias cósmicas

Sobre o corpo — enquanto centro de vida restrito e limitado — atua a alma da vida [nishmat ha-chayim], ampla, que se difunde no seu voo até distâncias cósmicas. São ideais muito elevados a pureza do corpo, o seu vigor, a sua saúde, o robustecer dos seus ossos, a vivacidade da sua vida, a luz e o calor dos seus sentimentos.

Repare na afirmação, surpreendente para quem espera do místico um desprezo pelo físico: "são ideais muito elevados a pureza do corpo, o seu vigor, a sua saúde". Para o Rav Kook, cuidar do corpo não se opõe à vida do espírito — pertence a ela. O corpo é o "centro" através do qual a alma ampla age no mundo; fortalecê-lo é dar à alma um instrumento à altura. Era um tema vital no seu tempo, de um povo que voltava ao trabalho da terra.

Todos os mundos são o corpo da alma divina

Todos os mundos são o corpo da alma divina — a emanação da Shechiná, o reino dos céus [malchut shamayim], a [alma] rica que se difunde. No nosso mundo, sentimo-la concentrada segundo as nossas medidas. Sobre cada criatura criada ela se difunde; sobre a totalidade da criação ela se concentra; ilumina com a luz da sua vida e revela a sua riqueza e a sua glória.

No mundo vivo, ela se revela no seu caráter próprio; em toda a humanidade, com grande vigor e proeminência majestosa; mas é com pujança de santidade que ela se revela na comunidade de Israel [Knesset Israel] — este é o seu repouso, o seu salão perfeito, no esplendor da sua glória.

O repouso da Shechiná em Israel

Quem penetra na alma israelita — e contempla o seu caráter notável e singular, o seu esplendor histórico, o seu destino, a eternidade da sua existência e a manifestação da sua vida, os pensamentos das suas reflexões, as suas aspirações, esperanças, sonhos e vocações, a sua confiança e a sua verdade — esse acha quão belo é o centro da eleição divina, [o centro] da emanação da Shechiná. A partir da imagem de baixo, ele sobe e contempla a imagem de cima, e dá honra e glória à realeza — a realeza de todos os mundos.

A partir da imagem de baixo, sobe-se a contemplar a imagem de cima.

As águas que se elevam juntas

...[a realeza] cujo esplendor repousa sobre Israel. E o corpo nacional e todos os seus instrumentos — a sua terra, a sua língua, o seu espírito, a sua moral, os seus costumes, as suas inclinações — e a sua alma — a sua Torá, a sua profecia, a sua oração, a sua fé —, e todos os muitos riachos, regatos fiéis de água, águas superiores e águas inferiores, juntos se elevam onda sobre onda, erguem-se em esplendor eterno, e se afeiçoam e se amam com um amor de amizade que não tem igual sobre a terra.

וַיַּבְדֵּל בֵּין הַמַּיִם אֲשֶׁר מִתַּחַת לָרָקִיעַ וּבֵין הַמַּיִם אֲשֶׁר מֵעַל לָרָקִיעַ "E separou as águas que estão debaixo do firmamento das águas que estão sobre o firmamento." Bereshit (Gênesis) 1:7

A imagem das "águas superiores e inferiores" que voltam a unir-se é cara à tradição: a criação começou por uma separação das águas, e a redenção é, em certo sentido, um reencontro. Aqui o Rav Kook aplica-a ao renascimento de Israel: o "corpo nacional" (terra, língua, costumes) e a "alma" (Torá, profecia, prece) — que tantas vezes pareceram correntes separadas — voltam a fluir juntos, "onda sobre onda", num amor sem igual. Matéria e espírito do povo deixam de ser rivais.

E o amor ardente torna-se zelo de um povo, que gera heróis cingidos de força, um espírito cheio de fogo ardente; e a força ardente funde-se com o intelecto e a retidão, e uma grande literatura — plena de conselho, de poesia e de retidão — vai sendo criada, para o renascimento de um povo sobre a terra da sua herança, para sempre. E o shofar do Mashiach começa a soar.

תְּקַע בְּשׁוֹפָר גָּדוֹל לְחֵרוּתֵנוּ, וְשָׂא נֵס לְקַבֵּץ גָּלֻיּוֹתֵינוּ "Toca o grande shofar para a nossa liberdade, e ergue um estandarte para reunir os nossos exilados." Da Amidá (bênção da reunião dos exilados)
Sobre esta tradução

Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §71. O original hebraico é de domínio público.

Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. As "águas superiores e inferiores" remetem à criação em Bereshit 1:7; o "shofar do Mashiach" ecoa a bênção da Amidá "toca o grande shofar para a nossa liberdade". As expressões entre colchetes e os títulos de seção são originais, para auxiliar a leitura. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.