Orchot Tzadikim · Portão XX

O Esquecimento

שַׁעַר הַשִּׁכְחָה
Anônimo (séc. XV) · hebraico de domínio público (Sefaria) · tradução fiel PT-BR

O esquecimento (shichechah) é "uma disposição muito má", nos assuntos deste mundo e do vindouro. Combate-se com registros e cercas — para não esquecer dívidas, a Torá e as boas disposições. Mas, bem dirigido, serve: para esquecer os próprios méritos, as ofensas alheias, o ódio e a inveja.

§ 2 · A disposição e a parábola do lembrete

2 O esquecimento é uma disposição muito má, nos assuntos deste mundo e nos assuntos do mundo vindouro. E quem é esquecido — escreva todos os assuntos que há entre ele e o companheiro, para que lembre. Se toma e dá emprestado — escreva tudo; mesmo que tome emprestada uma moeda do companheiro — escreva tudo, e ponha o coração para não esquecer. E convém ao homem que é honrado e esquecido não tomar emprestado dos filhos do homem, pois eles têm vergonha de lho pedir, e ele esquece e não paga, e carrega a sua iniquidade. E quem sabe em si mesmo que é esquecido — acautele-se muito para rever os seus assuntos. Parábola: como fez certo rei, que deu a um dos seus servos serviçais um escrito, e lhe disse: quando vires que estou irado — entrega-mo. E no escrito estava escrito nestes termos: sabe que não és D'us, mas és um corpo perecível, de que uma parte come a outra, e que volta no seu interior à podridão e ao verme. E assim tinha o rei um servo, a quem ordenou que se pusesse diante dele no tempo em que ordenasse golpear os filhos do homem com açoites de fogo, e o servo lhe dizia assim para humilhar o seu coração.

הַשִּׁכְחָה הִיא מִדָּה רָעָה מְאוֹד בְּעִנְיְנֵי הָעוֹלָם הַזֶּה וּבְעִנְיְנֵי הָעוֹלָם הַבָּא. וּמִי שֶׁהוּא שַׁכְחָן – יִכְתֹּב כָּל עִנְיָנִים שֶׁיֵּשׁ בֵּינוֹ וּבֵין חֲבֵרוֹ כְּדֵי שֶׁיִּזְכֹּר. וְרָאוּי לְאָדָם נִכְבָּד וְשַׁכְחָן שֶׁלֹּא יְהֵא לוֹוֶה מִבְּנֵי אָדָם, כִּי הֵם מִתְבַּיְּשִׁים לִשְׁאוֹל מִמֶּנּוּ, וְהוּא שׁוֹכֵחַ וְלֹא יִפְרַע. מָשָׁל: מֶלֶךְ שֶׁנָּתַן לְעַבְדּוֹ כְּתָב, וְאָמַר: כְּשֶׁתִּרְאֶה שֶׁאֲנִי כּוֹעֵס – תְּנֵהוּ לִי. וְהָיָה כָּתוּב: דַּע כִּי אֵינְךָ אֱלֹהִים, אֶלָּא אַתָּה גּוּף כָּלֶה, שֶׁיָּשׁוּב לְרִמָּה וְתוֹלֵעָה – לְהַכְנִיעַ אֶת לִבּוֹ.

§ 3 · Registros e cercas

3 Disto aprenda várias coisas: o homem que é esquecido — faça para si lembretes. E são precisas grandes cercas para que não esqueça a Torá, como está escrito (Devarim 4:9): "Apenas guarda-te e guarda muito a tua alma, para que não esqueças as coisas que viram os teus olhos." E é preciso acautelar-se para não esquecer as boas disposições.

מִזֶּה יִלְמַד: אָדָם שֶׁהוּא שׁוֹכֵחַ – יַעֲשֶׂה לוֹ זִכְרוֹנוֹת. וְצָרִיךְ גְּדֵרִים גְּדוֹלִים שֶׁלֹּא יִשְׁכַּח אֶת הַתּוֹרָה, כְּדִכְתִיב: ״רַק הִשָּׁמֶר לְךָ וּשְׁמֹר נַפְשְׁךָ מְאֹד, פֶּן תִּשְׁכַּח אֶת הַדְּבָרִים אֲשֶׁר רָאוּ עֵינֶיךָ״. וְצָרִיךְ לִזָּהֵר שֶׁלֹּא יִשְׁכַּח מִדּוֹת הַטּוֹבוֹת.

§ 4 · O esquecimento bem dirigido

4 Mas use a disposição do esquecimento para esquecer os mandamentos que fez. Pois, se puser o coração para lembrar os seus mandamentos e os seus estudos de Torá, e esquecer os seus males e as suas artimanhas — então será justo aos seus próprios olhos e não se arrependerá. Antes, lembre os seus crimes, e os escreva num livro e os leia, para que lembre tudo, e se arrependa de cada um e os confesse. Mas, quanto ao mandamento que fez, não cuide de lembrar. Sempre imagine aos seus olhos como se estivesse vazio de mandamentos e cheio de transgressões. E esqueça o pecado do companheiro e perdoe-lhe, e esqueça do coração o ódio, a inveja e os maus pensamentos. E no tempo da oração esqueça do coração toda coisa do mundo, mas eleve no seu pensamento a bondade do Nome, exaltado seja, e apegue-se a ele com grande apego. E quando faz as suas necessidades — esqueça do coração todas as palavras de Torá e as palavras de santidade, mas pense nas necessidades da sua casa naquela hora. E pense que está cheio de imundície, e com isto humilhará o seu coração. O princípio da coisa: para cada mandamento faça algo que não o esqueça, "pois lâmpada é o mandamento, e a Torá é luz" (Mishlei 6:23).

אַךְ יִשְׁתַּמֵּשׁ בְּמִדַּת הַשִּׁכְחָה לִשְׁכֹּחַ הַמִּצְווֹת שֶׁעָשָׂה. כִּי אִם יִזְכֹּר מִצְווֹתָיו וְיִשְׁכַּח רָעוֹתָיו – אָז יִהְיֶה צַדִּיק בְּעֵינָיו וְלֹא יָשׁוּב. אַךְ יִזְכֹּר פְּשָׁעָיו וְיִכְתְּבֵם וְיָשׁוּב מֵהֶם. לְעוֹלָם יְדַמֶּה כְּאִלּוּ הוּא רֵיק מִמִּצְווֹת וּמָלֵא עֲבֵרוֹת. וְיִשְׁכַּח חַטֹּאת חֲבֵרוֹ וְיִמְחֹל לוֹ, וְיִשְׁכַּח שִׂנְאָה וְקִנְאָה. וּבְעֵת הַתְּפִלָּה יִשְׁכַּח כָּל דָּבָר שֶׁבָּעוֹלָם, וְיִדְבַּק בַּשֵּׁם בִּדְבֵקוּת גְּדוֹלָה. כְּלָלוֹ שֶׁל דָּבָר: לְכָל מִצְוָה יַעֲשֶׂה מָה שֶׁלֹּא יִשְׁכָּחֶנָּה, ״כִּי נֵר מִצְוָה וְתוֹרָה אוֹר״.

Sobre este portão · עִיּוּן

O contrapeso da Lembrança

Breve portão-espelho do anterior, trata o esquecimento como vício prático — a raiz de dívidas não pagas e de Torá perdida — e prescreve o mesmo remédio: registros e "cercas". A parábola do escrito real é notável: o servo encarregado de entregar ao rei, no auge da ira, o bilhete "não és D'us, és um corpo perecível que volta ao verme" — um lembrete deliberado contra a soberba, gravado para o momento em que mais se precisa dele.

O esquecimento que liberta

Como em cada disposição do livro, o vício tem o seu uso virtuoso (§ 4): há o que se deve esquecer. Esquecer os próprios méritos — para não se tornar "justo aos próprios olhos"; esquecer as ofensas, o ódio e a inveja — cumprindo o "não guardarás rancor"; esquecer o mundo na hora da oração e a santidade na hora das necessidades corporais. A memória e o esquecimento, bem dirigidos, são duas faces de uma única arte da atenção: reter o que eleva, soltar o que rebaixa.