Orchot Tzadikim · Portão XVIII

A Avareza

שַׁעַר הַצַּיְקָנוּת
Anônimo (séc. XV) · hebraico de domínio público (Sefaria) · tradução fiel PT-BR

A avareza (tzaykanut) é contraparte da generosidade: "vituperada na maioria dos seus assuntos". O portão descreve o sovina que nada dá e a quem ninguém goza, e adverte que o pior é ser avaro com a sabedoria — que é como o fogo e não diminui ao partilhar-se. Mas reconhece o bem de não esbanjar, e ilustra o equilíbrio com o paradoxo de Jacó.

§ 2–4 · O sovina e os seus males

2 A avareza. Esta disposição é vituperada na maioria dos seus assuntos. E sobre o avaro disse Salomão, a paz esteja sobre ele (Mishlei 23:6): "Não comas o pão do homem de olho mau."

3 E estas são as disposições do homem de olho apertado: não dá caridade, e não se compadece dos pobres. E quando tem negócio com o companheiro — é minucioso com ele em excesso, e não lhe cede coisa alguma. Não alimenta nem veste, e ninguém goza dele. E não tem confiança naquele que lhe dá o dinheiro a Providência, e é odiado pelas criaturas. Não embeleza os mandamentos, e não adquire para si um mestre nem um companheiro, e por causa disto fica vazio da Torá e dos mandamentos.

4 E se é avaro com o seu corpo — também ele é mau e amargo, pois não faz bondade com os filhos do homem. E pior que todos os males é se ele é mesquinho com a sua sabedoria ou com os seus livros, visto que com isso ele não fica em falta de coisa alguma: pois a sabedoria se assemelha ao fogo, que não fica em falta se dele se acendem velas ou outro fogo. E sobre ele está dito (Mishlei 11:26): "O que retém o cereal — o povo o amaldiçoará." Mas sobre o generoso está dito (ali): "e haverá bênção sobre a cabeça do que vende." E o sentido simples do versículo fala da caridade, e a parábola aplica-se à sua sabedoria.

הַצַּיְקָנוּת. זֹאת הַמִּדָּה הִיא מְגֻנָּה בְּרוֹב עִנְיָנֶיהָ. וְעַל הַצַּיְקָן אָמַר שְׁלֹמֹה: ״אַל תִּלְחַם אֶת לֶחֶם רַע עָיִן״.

וְאֵלֶּה מִדּוֹת צַר הָעַיִן: לֹא יִתֵּן צְדָקָה, וְלֹא יְרַחֵם עַל הָעֲנִיִּים. וּכְשֶׁיֵּשׁ לוֹ מַשָּׂא וּמַתָּן עִם חֲבֵרוֹ – מְדַקְדֵּק עִמּוֹ יוֹתֵר מִדַּי. אֵינוֹ מַאֲכִיל וְאֵינוֹ מַלְבִּישׁ, וְלֹא יֵהָנֶה שׁוּם אָדָם מִמֶּנּוּ. וְהוּא שָׂנוּא לַבְּרִיּוֹת. וּמִתּוֹךְ כָּךְ יִשָּׁאֵר רֵיק מִן הַתּוֹרָה וּמִן הַמִּצְוֹת.

וְרַע עַל כָּל רָעוֹת אִם הוּא כִּילַי בְּחָכְמָתוֹ אוֹ בִּסְפָרָיו, כֵּיוָן שֶׁהוּא אֵינוֹ חָסֵר בָּזֶה מְאוּמָה: כִּי הַחָכְמָה דּוֹמָה לָאֵשׁ, שֶׁאֵינָהּ חֲסֵרָה אִם מַדְלִיקִים מִמֶּנָּה נֵרוֹת. וְעָלָיו נֶאֱמַר: ״מוֹנֵעַ בָּר – יִקְּבוּהוּ לְאוֹם״. אֲבָל בַּנָּדִיב נֶאֱמַר: ״וּבְרָכָה לְרֹאשׁ מַשְׁבִּיר״.

§ 5 · O bem que há nela

5 E o bem que há nesta disposição: que o avaro não perde o seu dinheiro com vaidades, e às vezes se abstém de grandes transgressões. E porque priva a sua alma do bem-estar, por isso não tem soberba como a que tem o generoso, pois pelo muito bem-estar e prazer que o homem tem — escoiceia o seu Formador. Por isso seja o homem minucioso consigo mesmo, e seja generoso no lugar em que lhe convém doar, e no lugar em que não lhe convém doar seja avaro e mesquinho. E pese tudo isto na balança da Torá.

וְהַטּוֹב שֶׁבְּזֹאת הַמִּדָּה: שֶׁאֵינוֹ מַפְסִיד מָמוֹנוֹ בַּהֲבָלִים, וּפְעָמִים נִמְנָע מֵעֲבֵרוֹת גְּדוֹלוֹת. וּמֵחֲמַת שֶׁמְּחַסֵּר נַפְשׁוֹ מִטּוֹבָה, אֵין לוֹ גֵּאוּת כְּמוֹ שֶׁיֵּשׁ לַנָּדִיב, כִּי מֵרֹב טוֹבָה וַהֲנָאָה – יִבְעַט בְּיוֹצְרוֹ. לָכֵן יְדַקְדֵּק הָאָדָם בְּעַצְמוֹ, וְיִהְיֶה נָדִיב בְּמָקוֹם שֶׁרָאוּי, וּבְמָקוֹם שֶׁאֵין רָאוּי יִהְיֶה צַיְקָן. וְיִשְׁקֹל כָּל זֶה בְּמֹאזְנַיִם שֶׁל תּוֹרָה.

§ 6–7 · O paradoxo de Jacó

6 E aprenda de Jacó, nosso pai, que foi avaro de um modo sem igual, como está dito (Bereshit 32:25): "E ficou Jacó sozinho" — e disseram os nossos mestres, de boa memória, que se esquecera de uns jarrinhos pequenos e voltou por eles. Isto ensina que os justos, o seu dinheiro lhes é mais querido que o seu corpo, porque não estendem a mão no roubo (Chulin 91a). Vê a grande avareza, de que um homem rico como Jacó, a paz esteja sobre ele, tivesse de voltar atrás de uns jarrinhos pequenos. E achamos em outro lugar que foi condescendente de um modo sem igual, como expuseram os nossos mestres, de boa memória (Shemot Rabá 31:17): "no meu sepulcro que cavei para mim" (Bereshit 50:5) — isto ensina que Jacó tomou toda a prata e o ouro que trouxera da casa de Lavan e fez um monte, e disse a Esaú: toma -o em troca da tua porção na caverna. Há condescendência como esta?!

7 Por isso, disto aprenda o homem a não esbanjar em vão e sem necessidade. E no lugar de um mandamento, como na caridade e nos demais mandamentos que dependem de dinheiro — como adquirir um mestre, um companheiro e livros — seja muito condescendente, a fim de alcançar as dignidades supremas, a fim de fazer a alma voltar ao lugar de pureza, de modo que esteja atada no feixe da vida, como está escrito (Shmuel I 25:29): "E será a alma do meu senhor atada no feixe da vida."

וְיִלְמַד מִיַּעֲקֹב אָבִינוּ שֶׁהָיָה צַיְקָן שֶׁאֵין דֻּגְמָתוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּוָּתֵר יַעֲקֹב לְבַדּוֹ״ – וְאָמְרוּ רַבּוֹתֵינוּ, שֶׁשָּׁכַח פַּכִּים קְטַנִּים וְחָזַר עֲלֵיהֶם. מְלַמֵּד שֶׁהַצַּדִּיקִים, חָבִיב עֲלֵיהֶם מָמוֹנָם יוֹתֵר מִגּוּפָם, לְפִי שֶׁאֵין פּוֹשְׁטִים יָד בַּגָּזֵל. וּמָצִינוּ בְּמָקוֹם אַחֵר שֶׁהָיָה וַתְרָן שֶׁאֵין דֻּגְמָתוֹ: ״בְּקִבְרִי אֲשֶׁר כָּרִיתִי לִי״ – מְלַמֵּד שֶׁנָּטַל יַעֲקֹב כָּל כֶּסֶף וְזָהָב שֶׁהֵבִיא מִבֵּית לָבָן וְעָשָׂה כְּרִי, וְאָמַר לְעֵשָׂו: טוֹל בִּשְׁבִיל חֶלְקֶךָ בַּמְּעָרָה. הַיֵּשׁ וַתְרָן כָּזֶה?!

לָכֵן מִזֶּה יִלְמַד אָדָם שֶׁלֹּא יְפַזֵּר לָרִיק וְשֶׁלֹּא לְצֹרֶךְ. וּבְמָקוֹם מִצְוָה, כְּגוֹן בִּצְדָקָה, וְלִקְנוֹת רַב וְחָבֵר וּסְפָרִים – יִהְיֶה וַתְרָן גָּדוֹל, כְּדֵי לְהַשִּׂיג מַעֲלוֹת עֶלְיוֹנוֹת, לְהָשִׁיב הַנֶּפֶשׁ לִמְקוֹם טָהֳרָה, כְּדִכְתִיב: ״וְהָיְתָה נֶפֶשׁ אֲדֹנִי צְרוּרָה בִּצְרוֹר הַחַיִּים״.

Sobre este portão · עִיּוּן

O olho apertado

Reverso direto do portão da generosidade, este descreve o tzar ayin — o "olho apertado": quem não dá caridade, é minucioso ao excesso nos negócios, "e ninguém goza dele". O autor identifica o vício mais grave na avareza intelectual: reter a sabedoria ou os livros é o "pior de todos os males", porque a sabedoria "é como o fogo, que não diminui ao acender outras chamas" — partilhá-la nada custa, retê-la é pura malícia.

A faísca de bem

Fiel à doutrina do meio-termo, o portão não condena a parcimônia sem resto: ela tem um bem — "não perde o dinheiro com vaidades" e poupa o homem da soberba que nasce do excesso de bem-estar (§ 5). A regra prática é a mesma de todos os portões: generoso "no lugar em que convém", parcimonioso "no lugar em que não convém", tudo "pesado na balança da Torá".

O paradoxo de Jacó

A ilustração é deliberadamente paradoxal (§ 6): o mesmo Jacó que voltou sozinho à noite para recuperar "uns jarrinhos pequenos" — porque "os justos prezam o seu dinheiro, já que não o adquiriram por roubo" — é também quem amontoou toda a prata e o ouro de Lavan e a ofereceu a Esaú pela sua parte na caverna de Machpelá. A mesma pessoa pode ser, conforme o objeto, modelo de cuidado e modelo de largueza. O fim último de toda economia bem-ordenada é espiritual: poupar para o que importa, "para fazer a alma voltar ao lugar de pureza, atada no feixe da vida".