O remorso (charatah) é a via reta do arrependimento — "quem peca e se arrepende é como se não tivesse pecado". Sem ele não há expiação nem oração aceita. Mas o portão adverte contra a sua inversão: arrepender-se do bem feito perde a recompensa, e a inconstância — mudar de hábito em hábito — torna o homem desprezível.
2 O remorso. É quando o homem faz uma coisa, e se retrata e se compunge sobre o ato. E é um caminho muito reto para o assunto do arrependimento, pois quem peca e se arrepende — é como se não tivesse pecado.
3 E é impossível voltar em arrependimento sem remorso, pois jamais se expiarão as suas iniquidades se não se arrepende delas. Também a oração não é aceita sem o remorso, pois como dirá "perdoa-nos, nosso Pai, pois pecamos", quando não se arrepende dos seus pecados?
4 Parábola: e isto se assemelha a um rei contra quem o seu servo cometeu uma falta, e o servo pede perdão ao rei. Se o servo não se arrepende no coração, e torna a fazer a falta todos os dias — o rei se irará contra ele ainda mais. E assim quem rouba as criaturas, e vem todos os dias pedir ao rei que lhe perdoe, e torna a roubar — não há dúvida de que este roubador aumenta sobre si a ira do rei justamente com o pedido de perdão. Por isso arrependa-se, e ore, e confesse, e resolva que não fará mais coisa assim, e então a sua oração será aceita.
הַחֲרָטָה. הוּא שֶׁאָדָם עוֹשֶׂה דָּבָר, וְחוֹזֵר בּוֹ וּמִתְנַחֵם עַל הַמַּעֲשֶׂה. וְהוּא דֶּרֶךְ יְשָׁרָה מְאוֹד לְעִנְיַן הַתְּשׁוּבָה, כִּי מִי שֶׁחָטָא וּמִתְחָרֵט – כְּאִלּוּ לֹא חָטָא.
וְאִי אֶפְשָׁר לָשׁוּב בְּלֹא חֲרָטָה, כִּי לְעוֹלָם לֹא יִתְכַּפְּרוּ עֲוֹנֹתָיו אִם אֵינוֹ מִתְחָרֵט עֲלֵיהֶם. גַּם הַתְּפִלָּה אֵינָהּ מְקֻבֶּלֶת זוּלַת הַחֲרָטָה, כִּי אֵיךְ יֹאמַר ״סְלַח לָנוּ אָבִינוּ כִּי חָטָאנוּ״ כְּשֶׁאֵינוֹ מִתְחָרֵט עַל חֲטָאָיו?
מָשָׁל: וְזֶה דּוֹמֶה לְמֶלֶךְ שֶׁעֲבָדוֹ סָרַח עָלָיו, וּמְבַקֵּשׁ מְחִילָה מֵאֵת הַמֶּלֶךְ. אִם הָעֶבֶד אֵינוֹ מִתְחָרֵט בְּלִבּוֹ, וְחוֹזֵר וְעוֹשֶׂה הַסִּרְחוֹן בְּכָל יוֹם – יִכְעַס עָלָיו הַמֶּלֶךְ בְּיוֹתֵר. וְכֵן מִי שֶׁגָּזַל הַבְּרִיּוֹת, וּבָא בְּכָל יוֹם לְבַקֵּשׁ לַמֶּלֶךְ שֶׁיִּמְחֹל לוֹ, וְחוֹזֵר וְגוֹזֵל – אֵין סָפֵק שֶׁזֶּה הַגַּזְלָן מַרְבֶּה עָלָיו רֹגֶז הַמֶּלֶךְ בְּבַקָּשַׁת הַמְּחִילָה. לָכֵן יִתְחָרֵט וְיִתְפַּלֵּל וְיִתְוַדֶּה, וְיַחֲשֹׁב שֶׁלֹּא יַעֲשֶׂה עוֹד כָּזֶה, וְאָז יִהְיֶה תְּפִלָּתוֹ מְקֻבֶּלֶת.
5 Mas quem faz um bem e depois se arrepende dele — esta é uma disposição má. Por isso é preciso que te acauteles de não te arrependeres dos bens que fizeste, para não perderes a tua recompensa. Se deste caridade a um pobre e, depois de algum tempo, ele te irou — guarda-te de não te arrependeres dos bens que lhe fizeste; pois, visto que a tua intenção no momento de dar era em nome do Céu, eis que a tua recompensa está guardada para ti.
6 Esta disposição é muito vituperada junto ao mundo, a de quando o homem não se mantém firme no seu assunto: quando diz hoje uma coisa e se arrepende amanhã, e não se mantém na sua palavra; quando faz voto de jejuar, ou de dar caridade, ou de estudar Torá, e se arrepende — isto é mau.
7 E ainda que seja boa coisa arrepender-se do mal, é bom ao homem firmar-se de modo que não precise mudar de hábito em hábito e de disposição em disposição. E este é o fim do bem: que reflita consigo mesmo e discirna o hábito e as boas disposições, e conduza a sua alma por elas; e pense, sobre tudo o que vá fazer: se poderá manter-se nisso — então o adote. E não salte de hábito em hábito, pois disposição muito vituperada é a de quem é volúvel. E este é desprezível diante do mundo, ainda que salte de uma boa disposição para outra boa disposição, pois não há substância nos seus assuntos e não se pode confiar nele.
אֲבָל הָעוֹשֶׂה טוֹבָה וּמִתְחָרֵט, זֹאת מִדָּה רָעָה. לָכֵן צָרִיךְ שֶׁתִּזָּהֵר שֶׁלֹּא תִּתְחָרֵט עַל הַטּוֹבוֹת, שֶׁלֹּא תְּאַבֵּד שְׂכָרְךָ. אִם נָתַתָּ לְעָנִי צְדָקָה וְאַחַר זְמַן הִכְעִיסְךָ – הִזָּהֵר בְּךָ שֶׁלֹּא תִּתְחָרֵט עַל הַטּוֹבוֹת שֶׁעָשִׂיתָ לּוֹ; כִּי כֵּיוָן שֶׁהָיְתָה כַּוָּנָתְךָ בְּעֵת הַנְּתִינָה לְשֵׁם שָׁמַיִם, הִנֵּה שְׂכָרְךָ שָׁמוּר לְךָ.
הַמִּדָּה הַזֹּאת מְגֻנָּה מְאוֹד אֵצֶל הָעוֹלָם, כְּשֶׁאֵין אָדָם קַיָּם בָּעִנְיָן שֶׁלּוֹ: כְּשֶׁהוּא אוֹמֵר הַיּוֹם דָּבָר, וּמִתְחָרֵט לְמָחָר, וְאֵינוֹ עוֹמֵד בְּדִבּוּרוֹ; כְּשֶׁהוּא נוֹדֵר לְהִתְעַנּוֹת, אוֹ לָתֵת צְדָקָה, אוֹ לִלְמֹד תּוֹרָה וּמִתְחָרֵט – שֶׁזֶּה רָעָה.
וְאַף עַל פִּי שֶׁטּוֹב הַדָּבָר שֶׁמִּתְחָרֵט עַל הָרָעָה, טוֹב הוּא לָאָדָם לְהַעֲמִיד עַצְמוֹ שֶׁלֹּא יִצְטָרֵךְ לְשַׁנּוֹת מִמִּנְהָג לְמִנְהָג וּמִמִּדָּה לְמִדָּה. וְזוֹ הִיא תַּכְלִית הַטּוֹב: שֶׁיַּחְשֹׁב בְּנַפְשׁוֹ, וִיבָרֵר הַמִּנְהָג וְהַמִּדּוֹת הַטּוֹבוֹת, וּלְהַנְהִיג נַפְשׁוֹ בָּהֶן, וְיַחְשֹׁב עַל כָּל מָה שֶׁיַּעֲשֶׂה: אִם יוּכַל לַעֲמֹד בּוֹ – אָז יִתְפֹּס בּוֹ. וְאַל יְדַלֵּג מִמִּנְהָג לְמִנְהָג, כִּי מִדָּה מְגֻנָּה מְאוֹד הִיא מִי שֶׁהוּא הֲפַכְפַּךְ. וְהוּא נִבְזֶה לִפְנֵי הָעוֹלָם, אֲפִלּוּ הוּא קוֹפֵץ מִמִּדָּה טוֹבָה לְמִדָּה טוֹבָה, כִּי אֵין מַמָּשׁוּת בְּעִנְיָנָיו וְאֵין לִסְמֹךְ עָלָיו.
8 Ó filho do homem! Volta enquanto o teu remorso ainda é proveitoso. E não te demores até chegares à sepultura, pois então estarás arrependido, e não há reparo para aquele remorso.
9 Se fizeste algo contra o teu companheiro — arrepende-te, e vai, e o aplaca. E se o teu companheiro pecou contra ti e se arrepende — recebe-o. Mesmo que tenhas dúvida de se ele se arrepende no coração, bastando que ele se inocente diante de ti — recebe-o. Mas se o repreendeste com palavras duras a ponto de ele te odiar, ao modo do que disse David (Tehillim 139:21): "E contra os que se levantam contra ti contendo" — não te arrependas daquela contenda. Pois, se te arrependeres e lhe pedires perdão — então ele se firmará no seu erro.
10 O remorso é um caminho para todas as boas obras: se anda ocioso das palavras da Torá — arrependa-se da ociosidade, e ponha o coração a ocupar-se da Torá com toda a sua capacidade. Se não se esforçou para orar com grande intenção — arrependa-se e pense: que fiz eu? Na hora em que me cabia adquirir a vida do mundo vindouro, ocupei-me com vaidades! E se chegou aos seus últimos dias, arrependa-se muito de que os seus dias passaram sem o serviço do Criador, exaltado seja.
11 Um grande princípio toma na tua mão: pensa no teu coração sobre cada coisa que fizeste, e sobre cada mandamento em que não foste cuidadoso. Arrepende-te de cada um por si, e pensa e contende no teu coração: como não corri a fazer a vontade do meu Criador, bendito seja? E como abandonei as palavras dos sábios e os seus bons ensinamentos morais? Resulta então que o remorso é uma grande reparação para todos os mandamentos.
בֶּן־אָדָם! שׁוּב בְּעוֹד שֶׁהַחֲרָטָה שֶׁלְּךָ מוֹעֶלֶת. וְאַל תְּאַחֵר עַד בּוֹאֲךָ לַקֶּבֶר, כִּי אָז תִּהְיֶה מִתְחָרֵט, וְאֵין תַּקָּנָה לַחֲרָטָה הַהִיא.
אִם עָשִׂיתָ דָּבָר כְּנֶגֶד חֲבֵרְךָ – הִתְחָרֵט וְתֵלֵךְ וּתְרַצֵּהוּ. וְאִם חֲבֵרְךָ פָּשַׁע נֶגְדְּךָ וּמִתְחָרֵט – קַבְּלֵהוּ. אֲפִלּוּ אִם סָפֵק לְךָ אִם מִתְחָרֵט בְּלִבּוֹ, רַק שֶׁהוּא מְנַקֶּה עַצְמוֹ נֶגְדְּךָ – קַבְּלֵהוּ. אִם הֹכַחְתָּ אוֹתוֹ בִּדְבָרִים קָשִׁים עַד שֶׁהוּא שׂוֹנַאֲךָ, כְּדֶרֶךְ שֶׁאָמַר דָּוִד: ״וּבִתְקוֹמְמֶיךָ אֶתְקוֹטָט״ – אַל תִּתְחָרֵט עַל אוֹתָהּ קְטָטָה. כִּי אִם תִּתְחָרֵט וּתְבַקֵּשׁ מִמֶּנּוּ מְחִילָה – אָז יִתְחַזֵּק בְּטָעוּתוֹ.
הַחֲרָטָה הִיא דֶּרֶךְ לְכָל הַמַּעֲשִׂים הַטּוֹבִים: אִם הוֹלֵךְ בָּטֵל מִדִּבְרֵי תוֹרָה – יִתְחָרֵט עַל הַבִּטּוּל, וְיִתֵּן לִבּוֹ לַעֲסֹק בַּתּוֹרָה בְּכָל יְכָלְתּוֹ. אִם לֹא נִתְחַזֵּק לְהִתְפַּלֵּל בְּכַוָּנָה גְּדוֹלָה – יִתְחָרֵט וְיַחְשֹׁב: מֶה עָשִׂיתִי? בְּשָׁעָה שֶׁהָיָה לִי לִקְנוֹת חַיֵּי הָעוֹלָם הַבָּא עָסַקְתִּי בַּהֲבָלִים! וְאִם הִגִּיעַ לְיָמִים, יִתְחָרֵט מְאוֹד אֲשֶׁר עָבְרוּ יָמָיו בְּלֹא עֲבוֹדַת הַבּוֹרֵא.
כְּלָל גָּדוֹל תִּקַּח בְּיָדְךָ: תַּחְשֹׁב בִּלְבָבְךָ עַל כָּל דָּבָר שֶׁעָשִׂיתָ, וְעַל כָּל מִצְוָה שֶׁלֹּא נִזְהַרְתָּ בָּהּ. תִּתְחָרֵט עַל כָּל אֶחָד בִּפְנֵי עַצְמוֹ, וְתַחֲשֹׁב וְתִתְקוֹטֵט בְּלִבְּךָ: אֵיךְ לֹא רָדַפְתִּי לַעֲשׂוֹת רְצוֹן בּוֹרְאִי? וְאֵיךְ עָזַבְתִּי דִּבְרֵי חֲכָמִים וּמוּסְרֵיהֶם הַטּוֹבִים? נִמְצָא, הַחֲרָטָה הִיא תִּקּוּן גָּדוֹל לְכָל הַמִּצְווֹת.
O remorso (charatah) é a primeira das quatro etapas clássicas do arrependimento na formulação de Maimônides (abandono do pecado, remorso, confissão e resolução de não repetir). O portão afirma a sua indispensabilidade: "é impossível voltar sem remorso" e até a oração — o "perdoa-nos" da Amidá — fica vazia sem ele. A parábola do servo que pede perdão mas reincide diariamente (§ 4) mostra que o pedido sem mudança interior agrava a ofensa em vez de a apagar.
A originalidade do portão está na advertência simétrica (§§ 5-7): assim como o remorso pelo mal é virtude, o remorso pelo bem é vício. Quem dá caridade e depois se arrepende "perde a sua recompensa" — pois a intenção no momento da dádiva já a selou. Disso o autor extrai uma censura à inconstância: o hafachpach, o homem volúvel que "salta de hábito em hábito" — "ainda que de uma boa disposição para outra boa" — é desprezível, "pois não há substância nos seus assuntos". A firmeza de caráter vale mais que a agitação, mesmo bem-intencionada.
O fecho dá ao remorso urgência e alcance universal: "volta enquanto o teu remorso ainda é proveitoso" — não na sepultura, onde o arrependimento já não tem reparo (§ 8). E faz dele o "grande princípio" (§ 11) do exame de consciência: revisar cada ato e cada mandamento negligenciado, um a um — de modo que "o remorso é uma grande reparação para todos os mandamentos".