Orchot Tzadikim · Portão VIII

A Crueldade

שַׁעַר הָאַכְזָרִיּוּת
Anônimo (séc. XV) · hebraico de domínio público (Sefaria) · tradução fiel PT-BR

A crueldade (achzariyut) é o oposto da misericórdia, disposição dos ímpios. O portão expõe a sua gravidade — o roubo do pobre e a opressão do órfão e da viúva, a aflição por palavras, a dureza com os animais e servos — mas mostra também que há uma crueldade legítima: no juízo, contra os ímpios e contra o próprio instinto.

§ 2–4 · O oposto da misericórdia

2 A crueldade é o oposto da misericórdia, como está escrito (Yirmiyahu 50:42): "Cruéis são eles e não se compadecem." E esta disposição não se encontra nos justos, mas está na alma dos ímpios, como está escrito (Mishlei 12:10): "E a misericórdia dos ímpios é crueldade." E também se encontra nos de face dura, como está escrito (Devarim 28:50): "Nação de face dura, que não respeita o ancião nem se compadece do jovem." E já sabes o mal da impudência. Sai e aprende o mal da crueldade: pois quanto ao pagamento devido ao homem mau, o rebelde e o contumaz, está dito (Mishlei 17:11): "Só rebeldia busca o mau, e um anjo cruel será enviado contra ele." Todo cruel — não há nele prática de bondade, como está escrito (Mishlei 11:17): "Faz bem à sua alma o homem bondoso, mas perturba a sua carne o cruel."

3 O cruel está muito distante das boas disposições, pois não se compadece dos pobres, não lhes empresta na hora do seu aperto, e não lhes dá coisa alguma. E está escrito (Mishlei 19:17): "Empresta ao Eterno quem se compadece do pobre"; e (Tehillim 112:5): "Bom é o homem que se compadece e empresta"; e (Tehillim 41:2): "Feliz o que atenta para o pobre, no dia mau o livrará o Eterno" — e tudo isto é o oposto do cruel.

4 Também ele não se aflige com as aflições dos seus companheiros, como verás em David, o rei, que disse (Tehillim 35:13): "E eu, no adoecer deles, vestia saco, afligia com jejum a minha alma." E em Iyov está escrito (30:25): "Por acaso não chorei pelo que vive dia difícil, não se entristeceu a minha alma pelo indigente?" — e tudo isto está distante do cruel. E esta disposição não se encontra senão em homens cuja natureza é como a dos leões, que despedaçam e roubam. E no momento em que a alma irascível se fortalece no homem, foge a misericórdia e a crueldade se fortalece para destruir, como está escrito (Mishlei 27:4): "Crueldade há na fúria e inundação na ira" — não há fúria como a fúria da crueldade. Mas na disposição do Criador, exaltado seja, encontras "na ira, lembra-te de ter misericórdia" (Chavakuk 3:2); mas isto está distante do homem — compadecer-se na hora da ira. E ainda esta disposição está na alma do homem na ânsia de vingar-se dos inimigos, como está escrito (Mishlei 6:34): "E não se compadecerá no dia da vingança." E a Escritura diz (Vayikra 19:18): "Não te vingarás nem guardarás rancor" — mesmo de guardar rancor no coração fomos advertidos, quanto mais de fazer ação com as mãos para golpear o companheiro. Ora, mesmo se o inimigo caiu sem culpa sua, não se alegre, como está escrito (Mishlei 24:17): "Ao cair o teu inimigo não te alegres." E o que se vinga e guarda rancor não releva as suas medidas, e não perdoa aos companheiros que pecaram contra ele, e isto arrasta a controvérsia e o ódio. E já sabes quão boa e agradável é a disposição da paz.

הָאַכְזָרִיּוּת הִיא הֵפֶךְ הָרַחֲמָנוּת, כְּדִכְתִיב: ״אַכְזָרִי הֵמָּה וְלֹא יְרַחֵמוּ״. וְאֵין הַמִּדָּה הַזֹּאת נִמְצֵאת בַּצַּדִּיקִים, אַךְ הִיא בְּנֶפֶשׁ הָרְשָׁעִים, כְּדִכְתִיב: ״וְרַחֲמֵי רְשָׁעִים אַכְזָרִי״. וְגַם נִמְצֵאת בְּעַזֵּי פָּנִים, כְּדִכְתִיב: ״גּוֹי עַז פָּנִים, אֲשֶׁר לֹא יִשָּׂא פָנִים לְזָקֵן, וְנַעַר לֹא יָחֹן״. צֵא וּלְמַד רֹעַ הָאַכְזָרִיּוּת, כִּי לְעִנְיַן תַּשְׁלוּמֵי אִישׁ רַע, נֶאֱמַר: ״אַךְ מְרִי יְבַקֶּשׁ רָע, וּמַלְאָךְ אַכְזָרִי יְשֻׁלַּח בּוֹ״. כָּל הָאַכְזָרִי – אֵין בּוֹ גְּמִילוּת חֲסָדִים, כְּדִכְתִיב: ״גֹּמֵל נַפְשׁוֹ אִישׁ חָסֶד, וְעֹכֵר שְׁאֵרוֹ אַכְזָרִי״.

הָאַכְזָרִי רָחוֹק מְאוֹד מִן הַמִּדּוֹת הַטּוֹבוֹת, כִּי לֹא יְרַחֵם עַל הָעֲנִיִּים, לֹא יַלְוֶה לָהֶם בִּשְׁעַת דָּחְקָם, וְלֹא יִתֵּן לָהֶם מְאוּמָה. וּכְתִיב: ״מַלְוֵה יְיָ חוֹנֵן דָּל״; וְנֶאֱמַר: ״טוֹב אִישׁ חוֹנֵן וּמַלְוֶה״; וְאוֹמֵר: ״אַשְׁרֵי מַשְׂכִּיל אֶל דָּל, בְּיוֹם רָעָה יְמַלְּטֵהוּ יְיָ״ – וְכָל אֵלֶּה הֵם הִפּוּךְ הָאַכְזָרִי.

גַּם הוּא לֹא יִצְטַעֵר עַל צָרוֹת חֲבֵרָיו, כַּאֲשֶׁר תִּרְאֶה בְּדָוִד הַמֶּלֶךְ שֶׁאָמַר: ״וַאֲנִי בַּחֲלוֹתָם לְבוּשִׁי שָׂק, עִנֵּיתִי בַצּוֹם נַפְשִׁי״. וּבְאִיּוֹב כְּתִיב: ״אִם לֹא בָכִיתִי לִקְשֵׁה יוֹם, עָגְמָה נַפְשִׁי לָאֶבְיוֹן״. וְאֵין הַמִּדָּה הַזֹּאת נִמְצֵאת אֶלָּא בַּאֲנָשִׁים אֲשֶׁר טִבְעָם כְּטֶבַע הָאֲרָיוֹת, שֶׁטּוֹרְפִים וְחוֹמְסִים. וּבְעֵת אֲשֶׁר תִּתְחַזֵּק הַנֶּפֶשׁ הַכַּעֲסָנִית, אָז בּוֹרֵחַ מִדַּת הָרַחְמָנוּת, וְהָאַכְזָרִיּוּת מִתְגַּבֶּרֶת לַהֲרֹס, כְּדִכְתִיב: ״אַכְזְרִיּוּת חֵמָה וְשֶׁטֶף אָף״. אֲבָל בְּמִדַּת הַבּוֹרֵא תִּמְצָא ״בְּרֹגֶז – רַחֵם תִּזְכֹּר״; אֲבָל זֶה רָחוֹק מִן הָאָדָם לְרַחֵם בְּעֵת הַכַּעַס. וְהַכָּתוּב אוֹמֵר: ״לֹא תִקֹּם וְלֹא תִטֹּר״ – אֲפִלּוּ לִטֹּר בַּלֵּב הֻזְהַרְנוּ. וְאַף אִם נָפַל בְּלֹא פְּשִׁיעָתוֹ לֹא יִשְׂמַח, כְּדִכְתִיב: ״בִּנְפֹל אוֹיִבְךָ אַל תִּשְׂמָח״. וּכְבָר יָדַעְתָּ מַה טּוֹב וּמַה נָּעִים מִדַּת הַשָּׁלוֹם.

§ 5–8 · O roubo e a opressão

5 E na categoria da crueldade: quem rouba do companheiro algo do que é seu, e com isto o aflige. E há grande castigo para quem rouba o pobre, e são passíveis de morte por isso, como está escrito (Mishlei 22:22): "Não roubes o pobre porque é pobre"; e (22:23): "Pois o Eterno pleiteará a sua causa, e despojará da vida os que os despojam." E ainda que haja transgressões mais graves que o roubo — o castigo do roubo é muito grave, como está escrito sobre a geração do Dilúvio (Bereshit 6:13): "O fim de toda carne veio diante de mim, pois a terra se encheu de violência." Disseram os nossos mestres (Sanhedrin 108a): um cesto cheio de iniquidades — nada acusa entre todas como o roubo. E quem aflige órfão e viúva por roubo, ou por humilhação e toda espécie de aflição — torna-se passível de morte pelas mãos do Céu. E assim os juízes, que têm em mão salvá-los da mão dos seus opressores e não fazem o juízo do órfão e da viúva — são passíveis de morte, como está escrito (Shemot 22:21): "A nenhuma viúva nem órfão afligireis"; e (22:23): "E acender-se-á a minha ira e vos matarei à espada, e as vossas mulheres ficarão viúvas e os vossos filhos órfãos." Medida por medida.

6 E quem aflige qualquer homem de Israel transgride uma proibição, como está dito (Vayikra 25:17): "E não oprimireis cada um ao seu próximo." E este "não oprimireis" refere-se à opressão por palavras (Bava Metzia 58b). Disseram os nossos mestres (Bava Metzia 59a): todas as portas são fechadas, exceto as portas da opressão por palavras. Por isso acautele-se todo homem de não afligir o companheiro em coisa alguma, nem em ato nem em palavras.

7 Quem rouba o pobre é como se lhe tomasse a alma; e ainda que lhe tenha roubado coisa de pouca monta, como um centavo — torna-se passível de morte (Bava Kama 119a). Também isto é da disposição da crueldade: quem espalha má fama contra o companheiro, e com isto causa dor e vergonha. E quem espalha má fama de mácula na linhagem da família — não tem expiação eterna.

8 "Não serás para ele como credor" (Shemot 22:24) — que não aflija o devedor, e que o credor não passe diante dele sabendo que ele não tem com que pagar, pois com isto o angustia (Bava Metzia 75b). E fomos advertidos a remover das nossas almas a disposição da crueldade, como está escrito (Shemot 22:21): "A nenhuma viúva nem órfão afligireis"; e (Vayikra 25:17): "E não oprimireis cada um ao seu próximo, e temerás o teu D'us." Também fomos advertidos a devolver ao pobre o penhor, como está escrito (Shemot 22:25): "Se tomares em penhor a veste do teu próximo, até o pôr do sol lho devolverás"; e (22:26): "E será que, quando clamar a mim, eu o ouvirei, pois sou clemente"; e (22:20): "E ao estrangeiro não oprimirás nem o apertarás."

וּבִכְלַל הָאַכְזָרִיּוּת: הַגּוֹזֵל חֲבֵרוֹ מְאוּמָה מִשֶּׁלּוֹ, וּבָזֶה מְצַעֵר אוֹתוֹ. וְעֹנֶשׁ גָּדוֹל יֵשׁ לְגוֹזֵל עָנִי, וְחַיָּבִים עָלֶיהָ מִיתָה, כְּדִכְתִיב: ״אַל תִּגְזָל דָּל, כִּי דַּל הוּא״; וּכְתִיב: ״כִּי יְיָ יָרִיב רִיבָם, וְקָבַע אֶת קֹבְעֵיהֶם נָפֶשׁ״. וְאַף עַל פִּי שֶׁיֵּשׁ עֲבֵרוֹת גְּדוֹלוֹת מִן הַגָּזֵל – עֹנֶשׁ הַגָּזֵל חָמוּר מְאוֹד, כְּדִכְתִיב בְּדוֹר הַמַּבּוּל: ״קֵץ כָּל בָּשָׂר בָּא לְפָנַי, כִּי מָלְאָה הָאָרֶץ חָמָס״. אָמְרוּ רַבּוֹתֵינוּ: קֻפָּה מְלֵאָה עֲווֹנוֹת – אֵין מְקַטְרֵג בְּכֻלָּן כְּמוֹ הַגָּזֵל. וּמִי שֶׁמְּצַעֵר יָתוֹם וְאַלְמָנָה – מִתְחַיֵּב מִיתָה בִּידֵי שָׁמַיִם. וְכֵן הַדַּיָּנִים, שֶׁבְּיָדָם לְהַצִּילָם וְאֵינָם דָּנִים דִּין יָתוֹם וְאַלְמָנָה – בְּנֵי מָוֶת הֵם, כְּדִכְתִיב: ״כָּל אַלְמָנָה וְיָתוֹם לֹא תְעַנּוּן״; וּכְתִיב: ״וְחָרָה אַפִּי וְהָרַגְתִּי אֶתְכֶם בֶּחָרֶב, וְהָיוּ נְשֵׁיכֶם אַלְמָנוֹת וּבְנֵיכֶם יְתֹמִים״. מִדָּה כְּנֶגֶד מִדָּה.

וְהַמְּצַעֵר כָּל אִישׁ מִיִּשְׂרָאֵל עוֹבֵר בְּלֹא תַעֲשֶׂה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְלֹא תוֹנוּ אִישׁ אֶת עֲמִיתוֹ״. וְזֶה ״לֹא תוֹנוּ״, בְּאוֹנָאַת דְּבָרִים אָמוּר. אָמְרוּ רַבּוֹתֵינוּ: כָּל הַשְּׁעָרִים נִנְעָלִים, חוּץ מִשַּׁעֲרֵי אוֹנָאָה. לָכֵן יִזָּהֵר כָּל אָדָם שֶׁלֹּא יְצַעֵר אֶת חֲבֵרוֹ בְּשׁוּם דָּבָר, לֹא בְּמַעֲשֶׂה וְלֹא בִּדְבָרִים.

הַגּוֹזֵל עָנִי, כְּאִלּוּ נוֹטֵל נִשְׁמָתוֹ; וַאֲפִלּוּ אִם גָּזַל מִמֶּנּוּ דָּבָר מוּעָט, כְּגוֹן פְּרוּטָה – מִתְחַיֵּב מִיתָה. גַּם זֶה מִמִּדַּת אַכְזָרִיּוּת: הַמּוֹצִיא שֵׁם רַע עַל חֲבֵרוֹ. וְהַמּוֹצִיא שֵׁם רַע בִּפְגָם הַמִּשְׁפָּחָה – אֵין לוֹ כַּפָּרָה עוֹלָמִית.

״לֹא תִהְיֶה לוֹ כְּנֹשֶׁה״ – שֶׁלֹּא יְצַעֵר הַלּוֹוֶה, וְלֹא יַעֲבֹר הַמַּלְוֶה לְפָנָיו וְיוֹדֵעַ שֶׁאֵין לוֹ בַּמֶּה לִפְרֹעַ, כִּי הוּא מַצִּיק לוֹ בָּזֶה. וְהֻזְהַרְנוּ לְהָסִיר מִנַּפְשׁוֹתֵינוּ מִדַּת הָאַכְזָרִיּוּת. גַּם לְהָשִׁיב לֶעָנִי הָעֲבוֹט, כְּדִכְתִיב: ״אִם חָבֹל תַּחְבֹּל שַׂלְמַת רֵעֶךָ, עַד בֹּא הַשֶּׁמֶשׁ תְּשִׁיבֶנּוּ לוֹ״; וְנֶאֱמַר: ״וְגֵר לֹא תוֹנֶה וְלֹא תִלְחָצֶנּוּ״.

§ 9–10 · Os animais e os servos

9 Também do animal afaste a crueldade, como está escrito (Mishlei 12:10): "O justo conhece a alma do seu animal" — a fim de não o sobrecarregar demais nem o deixar com fome. E assim está escrito (Shemot 23:5): "Quando vires o jumento do que te odeia caído sob a sua carga... ajudar ajudarás com ele." E disseram os nossos mestres (Bava Metzia 32b): a proibição de causar dor aos seres viventes é da Torá. E se és homem temido, e o teu temor está imposto sobre as criaturas, e o que ordenas elas receiam recusar — acautela-te muito de não lhes pesar a carga, nem mesmo mandar esquentar uma jarra de água, ou sair em missão à rua da cidade para comprar apenas um pão. E sobre isto está dito na Torá (Vayikra 25:46): "E sobre os vossos irmãos, os filhos de Israel, um homem ao seu irmão, não o dominarás com rigor." E com isto fomos advertidos a que ninguém faça o companheiro trabalhar em trabalho duro, nem lhe ordene senão coisa que ele faça de boa vontade e com a sua anuência. E ao seu escravo cananeu — é permitido fazê-lo trabalhar com rigor; apesar disso, é disposição de piedade ser misericordioso, e não lhe pesar o jugo nem o desprezar, nem com a mão nem com palavras: para o trabalho o entregou a Escritura, e não para a vergonha (Niddah 47a). E fale com ele com calma mesmo na hora da briga, e ouça as suas alegações. E assim disse Iyov (31:13-15): "Se desprezei o direito do meu servo e da minha serva, na sua demanda comigo... Não foi no ventre que o meu Fazedor o fez, e não nos formou num mesmo ventre?"

10 Os sábios antigos davam ao servo de cada prato que comiam, e antepunham o alimento dos animais e dos servos à sua própria refeição (Berachot 40a), pois a Escritura diz (Tehillim 123:2): "Eis que como os olhos dos servos se voltam para a mão dos seus senhores... assim os nossos olhos se voltam para o Eterno nosso D'us, até que se compadeça de nós." E o piedoso antepôs e deu ao seu servo de cada prato antes de comer, e por mérito disto Eliyahu se apressou a falar com ele (Ketubot 61a).

גַּם מִן הַבְּהֵמָה יַרְחִיק אַכְזָרִיּוּת, כְּדִכְתִיב: ״יוֹדֵעַ צַדִּיק נֶפֶשׁ בְּהֶמְתּוֹ״ – שֶׁלֹּא לְהַטְרִיחַ יוֹתֵר מִדַּי, וְשֶׁלֹּא יַרְעִיב אוֹתָהּ. וְכֵן כְּתִיב: ״כִּי תִרְאֶה חֲמוֹר שֹׂנַאֲךָ רֹבֵץ תַּחַת מַשָּׂאוֹ... עָזֹב תַּעֲזֹב עִמּוֹ״. וְאָמְרוּ רַבּוֹתֵינוּ: צַעַר בַּעֲלֵי חַיִּים דְּאוֹרָיְתָא. וְאִם אַתָּה אִישׁ יָראוּי, וְאֵימָתְךָ מֻטֶּלֶת עַל הַבְּרִיּוֹת – הִזָּהֵר מְאוֹד שֶׁלֹּא לְהַכְבִּיד עֲלֵיהֶם הַמַּשָּׂא, וַאֲפִלּוּ לְהָחֵם צַפַּחַת הַמַּיִם, אוֹ לָצֵאת בִּשְׁלִיחוּת לִקְנוֹת רַק כִּכַּר לֶחֶם. וְעַל זֶה נֶאֱמַר: ״וּבְאַחֵיכֶם בְּנֵי יִשְׂרָאֵל אִישׁ בְּאָחִיו, לֹא תִרְדֶּה בוֹ בְּפָרֶךְ״. וְעַבְדּוֹ הַכְּנַעֲנִי – מֻתָּר לַעֲבֹד בּוֹ בְּפֶרֶךְ; אַף עַל פִּי כֵן מִדַּת חֲסִידוּת הִיא לִהְיוֹת רַחֲמָן, וְלֹא יַכְבִּיד עוֹל עָלָיו וְלֹא יְבַזֵּהוּ: לַעֲבוֹדָה מְסָרוֹ הַכָּתוּב, וְלֹא לְבֹשֶׁת. וְכֵן אָמַר אִיּוֹב: ״אִם אֶמְאַס מִשְׁפַּט עַבְדִּי וַאֲמָתִי... הֲלֹא בַבֶּטֶן עֹשֵׂנִי עָשָׂהוּ, וַיְכֻנֶנּוּ בָּרֶחֶם אֶחָד״.

חֲכָמִים הָרִאשׁוֹנִים הָיוּ נוֹתְנִים לָעֶבֶד מִכָּל תַּבְשִׁיל שֶׁהָיוּ אוֹכְלִים, וּמַקְדִּימִים מְזוֹן הַבְּהֵמוֹת וְהָעֲבָדִים לִסְעוּדַת עַצְמָן, שֶׁהֲרֵי הוּא אוֹמֵר: ״הִנֵּה כְעֵינֵי עֲבָדִים אֶל יַד אֲדוֹנֵיהֶם... כֵּן עֵינֵינוּ אֶל יְיָ אֱלֹהֵינוּ עַד שֶׁיְּחָנֵּנוּ״. וְהֶחָסִיד הִקְדִּים וְנָתַן לְעַבְדּוֹ מִכָּל תַּבְשִׁיל קֹדֶם שֶׁאָכַל הוּא, וּבִזְכוּת זֶה הִקְדִּים אֵלִיָּהוּ לְדַבֵּר עִמּוֹ.

§ 11–13 · A crueldade legítima

11 A Torá disse (Vayikra 19:18): "E amarás o teu próximo como a ti mesmo" — e todo o que tem a disposição da crueldade está muito distante disso. Do cruel o espírito das criaturas não se agrada, e ele não tem graça aos olhos do mundo.

12 E mesmo no lugar da repreensão fomos advertidos a não repreender o companheiro com crueldade, como está escrito (Vayikra 19:17): "Repreender repreenderás o teu próximo, e não levantarás por causa dele pecado."

13 Explicação: não o repreendas com força e com crueldade, para o envergonhar, e então carregarás por causa dele pecado. Até aqui relatamos o mal da crueldade. Mas há lugares em que é preciso conduzir-se com crueldade contra os ímpios, como disse Iyov (29:17): "E quebrei as presas do iníquo, e dos seus dentes lancei fora a presa"; e como disse a Torá ao mandar matar os ímpios e açoitá-los. E assim disseram os nossos mestres (Ketubot 86a): quem não quer fazer a sucá, o tzitzit para o seu manto, e a mezuzá para a sua porta — golpeiam-no até que a sua alma saia. E tudo isto requer crueldade — perseguir os ímpios e pesar sobre eles para os fazer voltar ao bem.

הַתּוֹרָה אָמְרָה: ״וְאָהַבְתָּ לְרֵעֲךָ כָּמוֹךָ״ – וְכָל שֶׁיֵּשׁ בּוֹ מִדַּת הָאַכְזָרִיּוּת רָחוֹק מְאוֹד מִזֶּה. הָאַכְזָרִי אֵין רוּחַ הַבְּרִיּוֹת נוֹחָה הֵימֶנּוּ, וְאֵין חִנּוֹ נָטוּי בְּעֵינֵי הָעוֹלָם.

וַאֲפִלּוּ בִּמְקוֹם תּוֹכֵחָה הֻזְהַרְנוּ שֶׁלֹּא לְהוֹכִיחַ חֲבֵרוֹ בְּאַכְזָרִיּוּת, כְּדִכְתִיב: ״הוֹכֵחַ תּוֹכִיחַ אֶת עֲמִיתֶךָ, וְלֹא תִשָּׂא עָלָיו חֵטְא״.

פֵּרוּשׁ: אַל תּוֹכִיחֵהוּ בְּחָזְקָהּ וּבְאַכְזָרִיּוּת לְבַיְּשׁוֹ, וּתְקַבֵּל עָלָיו חֵטְא. עַד עַתָּה סִפַּרְנוּ רָעַת הָאַכְזָרִיּוּת. אַךְ יֵשׁ מְקוֹמוֹת שֶׁצָּרִיךְ לִנְהֹג בְּאַכְזָרִיּוּת כְּנֶגֶד הָרְשָׁעִים, כְּדֶרֶךְ שֶׁאָמַר אִיּוֹב: ״וָאֲשַׁבְּרָה מְתַלְּעוֹת עַוָּל, וּמִשִּׁנָּיו אַשְׁלִיךְ טָרֶף״; וּכְמוֹ שֶׁאָמְרָה הַתּוֹרָה לְהָמִית הָרְשָׁעִים וּלְהַלְקוֹתָם. וְכֵן אָמְרוּ רַבּוֹתֵינוּ: מִי שֶׁאֵינוֹ רוֹצֶה לַעֲשׂוֹת סֻכָּה, וְצִיצִית, וּמְזוּזָה – מַכִּין אוֹתוֹ עַד שֶׁתֵּצֵא נַפְשׁוֹ. וְכָל זֶה צָרִיךְ אַכְזָרִיּוּת, לִרְדֹּף הָרְשָׁעִים וּלְהַחֲזִירָם לַמּוּטָב.

§ 14–16 · Cruel no juízo e contra o instinto

14 E é preciso ser cruel no juízo, de modo que não se compadeça dos seus parentes, dos seus amados nem dos pobres, mas precisa decidir sobre eles o juízo. E ainda disseram os nossos mestres (Eruvin 22a): em quem achas as palavras de Torá? Em quem se faz cruel para com os seus filhos como o corvo. Como Rav Ada bar Matna, que ia à casa de estudo, e disse-lhe a mulher: os teus filhos, que farei deles? E respondeu-lhe: há ervas no charco.

15 Pois é coisa clara: quem se compadece dos filhos em excesso, por isso pensa em lucrar dinheiro, e não se importa como lhe venha o dinheiro, se no proibido ou no permitido, pois o amor corrompe a linha reta. E também, pela ocupação em que se afadiga dia e noite para arranjar-lhes o sustento com folga — por isso fica ocioso das palavras de Torá, pois faz dos seus negócios o principal. E por isso todas as suas ações ficam confusas.

16 E é preciso ser cruel para com os ímpios, de modo a não se compadecer deles. E disseram os nossos mestres (Kohelet Rabá 7:33): todo o que se faz misericordioso no lugar em que se deve ser cruel — acaba por se fazer cruel no lugar em que se deve ser misericordioso. E assim achas em Saul, o rei: por se ter compadecido de Agag, saiu dele Hamã, que se tornou um opressor de Israel (Meguilá 13a). E também seja cruel para com o seu próprio corpo, a fim de afadigar-se sempre por fazer a vontade do Criador, exaltado seja. E não se compadeça do corpo para o agradar e andar na obstinação do coração, mas seja cruel consigo mesmo para dobrar o instinto mau, a fim de viver vida de aflição, ocupar-se da Torá e cumprir os mandamentos, ainda que a coisa lhe pese muito. E não seja cruel consigo mesmo em excesso, a ponto de estragar o corpo, mas segure uma disposição mediana.

וְצָרִיךְ לִהְיוֹת אַכְזָרִי בַּדִּין, שֶׁלֹּא יְרַחֵם עַל קְרוֹבָיו וְאוֹהֲבָיו וְעַל הַדַּלִּים, אַךְ צָרִיךְ לִפְסֹק עֲלֵיהֶם הַדִּין. וְעוֹד אָמְרוּ רַבּוֹתֵינוּ: בְּמִי אַתָּה מוֹצֵא דִבְרֵי תוֹרָה? בְּמִי שֶׁמֵּשִׂים עַצְמוֹ אַכְזָרִי עַל בָּנָיו כְּעוֹרֵב. כְּמוֹ רַב אַדָּא בַּר מַתְנָא שֶׁהָיָה הוֹלֵךְ לְבֵית הַמִּדְרָשׁ, וְאָמְרָה לוֹ אִשְׁתּוֹ: יְלָדֶיךָ מָה אֶעֱשֶׂה לָהֶם? וְהֵשִׁיב: אִיכָּא קוּרָמֵי בְּאַגְמָא.

כִּי זֶה דָּבָר בָּרוּר: הַמְּרַחֵם עַל בָּנָיו יוֹתֵר מִדַּי, מִתּוֹךְ כָּךְ חוֹשֵׁב לְהַרְוִיחַ מָמוֹן, וְלֹא יָחוּשׁ אֵיךְ יָבוֹא לוֹ הַמָּמוֹן בְּאִסּוּר אוֹ בְּהֶתֵּר, כִּי הָאַהֲבָה מְקַלְקֶלֶת אֶת הַשּׁוּרָה. וְגַם מִתּוֹךְ הַטִּרְדָּה שֶׁהוּא טוֹרֵחַ יוֹם וָלַיְלָה – מִתּוֹךְ כָּךְ הוּא בָּטֵל מִדִּבְרֵי תוֹרָה, כִּי יַעֲשֶׂה עֲסָקָיו עִקָּר.

וְצָרִיךְ לִהְיוֹת אַכְזָרִי עַל הָרְשָׁעִים, שֶׁלֹּא לְרַחֵם עֲלֵיהֶם. וְאָמְרוּ רַבּוֹתֵינוּ: כָּל מִי שֶׁנַּעֲשָׂה רַחֲמָן בִּמְקוֹם אַכְזָרִי – סוֹף שֶׁנַּעֲשָׂה אַכְזָרִי בִּמְקוֹם רַחֲמָן. וְכֵן תִּמְצָא בְּשָׁאוּל הַמֶּלֶךְ, בִּשְׁבִיל שֶׁרִחֵם עַל אֲגַג, יָצָא מִמֶּנּוּ הָמָן. גַּם יִהְיֶה אַכְזָר עַל גּוּפוֹ, לִטְרֹחַ תָּמִיד לַעֲשׂוֹת רְצוֹן הַבּוֹרֵא. וְלֹא יְרַחֵם עַל גּוּפוֹ לְעַדֵּן אוֹתוֹ, אַךְ יִתְאַכְזֵר עַל עַצְמוֹ לָכֹף אֶת יִצְרוֹ הָרַע. וְלֹא יִהְיֶה אַכְזָרִי עַל עַצְמוֹ יוֹתֵר מִדַּי לְקַלְקֵל גּוּפוֹ, אַךְ יִתְפֹּשׂ מִדָּה בֵּינוֹנִית.

§ 17–21 · A vingança verdadeira e o mérito dos pais

17 E tu, ó filho do homem, atenta sobre ti mesmo e afasta-te da crueldade. Mas compadece-te dos pobres e indigentes, e estejam os pobres entre os da tua casa: "E te dará misericórdia e se compadecerá de ti" (Devarim 13:18) — todo o que se compadece das criaturas, compadecem-se dele do Céu (Shabat 151b). Por isso não removas de ti a misericórdia, mas guarda-te da crueldade; e disse Salomão (Mishlei 5:9): "Para que não dês a outros o teu vigor, e os teus anos a um cruel." E acautela-te da vingança que sai da crueldade. Mas, se quiseres vingar-te dos teus inimigos, acrescenta boas dignidades e anda pelos caminhos retos; e com isto te vingarás do teu odiador, pois ele se aflige com a tua boa disposição e com o teu bom nome, e se entristece ao ouvir a tua boa fama. Mas se fizeres ações feias, então o teu odiador se alegrará com a tua desonra, e eis que ele se vinga de ti.

18 E se quiseres compadecer-te dos teus filhos e dos teus parentes, e honrá-los com grande honra — ocupa-te da Torá, das boas obras e da prática de bondade. E isto lhes é muito bom, pois se honram em ti e não carregam por tua causa afronta. E não há para ti vergonha maior que esta — a de quem tem pais e parentes ímpios, como aquele cujo pai é ladrão e roubador: toda a sua descendência é vituperada após ele por gerações, pois dirão: estes são a descendência daquele ímpio! E também, pela iniquidade dos pais, os filhos morrem, como está escrito (Shemot 20:5): "Que visita a iniquidade dos pais sobre os filhos, até a terceira e a quarta geração." Vê e entende: há alguém mais cruel que aquele cujos filhos morrem por causa do seu pecado?! E não há quem se compadeça dos filhos mais que o justo, pois o seu mérito permanece por mil gerações.

19 Abraão atou o seu filho na Akedá, e o Santo, bendito seja, jurou lembrar aquele mérito aos seus filhos por gerações e gerações. E na hora em que Israel pecou no bezerro de ouro, Moisés, nosso mestre, a paz esteja sobre ele, levantou-se em oração e disse (Shemot 32:13): "Lembra-te de Abraão, de Isaac e de Israel, teus servos." E assim Salomão (Divrei HaYamim II 6:42): "Lembra-te das bondades de David, teu servo" — e foram respondidos. E assim nós lembramos cada dia o mérito dos pais.

20 Por isso sabe que não há cruéis como os que cometem transgressões. Pois pela iniquidade do ódio gratuito foi destruído o Segundo Templo (Yoma 9b). E todos os castigos vêm ao mundo por causa das transgressões, como disseram os nossos mestres (Shabat 32b): pela iniquidade da chalá — não há bênção no que é guardado; pela iniquidade da anulação da terumá e dos dízimos — os céus se fecham; pela iniquidade da demora, da perversão e da corrupção do juízo, e da anulação da Torá — espada, pilhagem, peste e seca vêm ao mundo. E em verdade, estes que causam o castigo são cruéis para consigo mesmos, para com os seus filhos e para com os homens da sua geração; e os justos são misericordiosos para com eles, para com os seus filhos e para com a sua geração — como dizemos (Berachot 17b), que todo o mundo se sustenta pelo mérito de Rabi Chanina ben Dosa.

21 Também isto é uma resposta aos pobres que dizem: com que faremos o bem? Ora, não temos nas mãos coisa alguma para dar caridade aos pobres. E estas são palavras vãs, pois o pobre pode dar caridade com as suas boas obras e com o cumprimento dos mandamentos, ao acautelar-se no serviço do Criador, exaltado seja, com toda a sua capacidade; e pelo mérito dos bons e dos justos o Santo, bendito seja, faz bem ao mundo e o sustenta. Há caridade maior que esta?! Também o pobre dê caridade pouca, ainda que se sustente da caridade; e a sua recompensa será dobrada e redobrada, pois o pouco do que é seu é considerado como o muito do rico. E assim disseram os nossos mestres (Menachot 110a): tanto o que faz muito como o que faz pouco, contanto que dirija o coração ao seu Pai que está nos Céus.

וְאַתָּה, בֶּן אָדָם, עַיֵּן עַל עַצְמְךָ וְתִתְרַחֵק מִן הָאַכְזָרִיּוּת. אַךְ תְּרַחֵם עַל עֲנִיִּים וְאֶבְיוֹנִים: ״וְנָתַן לְךָ רַחֲמִים וְרִחַמְךָ״ – כָּל הַמְרַחֵם עַל הַבְּרִיּוֹת, מְרַחֲמִים עָלָיו מִן הַשָּׁמַיִם. וְהִזָּהֵר מִן הַנְּקָמָה הַיּוֹצֵא מִן הָאַכְזָרִיּוּת. אַךְ אִם תִּרְצֶה לְהִנָּקֵם מֵאוֹיְבֶיךָ תּוֹסִיף מַעֲלוֹת טוֹבוֹת, וְתֵלֵךְ בְּדַרְכֵי יְשָׁרִים; וּבָזֶה תִּנָּקֵם מִשּׂוֹנַאֲךָ, כִּי הוּא מִצְטַעֵר עַל מִדָּתְךָ הַטּוֹבָה וְעַל שִׁמְךָ הַטּוֹב. אֲבָל אִם תַּעֲשֶׂה מַעֲשִׂים מְכֹעָרִים, אָז יִשְׂמַח שׂוֹנַאֲךָ עַל קְלוֹנְךָ.

וְאִם תִּרְצֶה לְרַחֵם עַל בָּנֶיךָ וּלְכַבְּדָם כָּבוֹד גָּדוֹל – תַּעֲסֹק בַּתּוֹרָה וּבְמַעֲשִׂים טוֹבִים. וְאֵין לְךָ בּוּשָׁה גְּדוֹלָה מִמִּי שֶׁאֲבוֹתָיו וּקְרוֹבָיו רְשָׁעִים, שֶׁיֹּאמְרוּ: אֵלּוּ הֵן זַרְעוֹ שֶׁל אוֹתוֹ רָשָׁע! גַּם בְּעָווֹן אָבוֹת בָּנִים מֵתִים, כְּדִכְתִיב: ״פֹּקֵד עֲוֹן אָבוֹת עַל בָּנִים״. הֲיֵשׁ יוֹתֵר אַכְזָרִי מִמִּי שֶׁבָּנָיו מֵתִים בִּשְׁבִיל חֶטְאוֹ?! וְאֵין לְךָ מְרַחֵם עַל בָּנָיו יוֹתֵר מִן הַצַּדִּיק, כִּי זְכוּתוֹ עוֹמֵד לְאֶלֶף דּוֹר.

אַבְרָהָם עָקַד אֶת בְּנוֹ, וְנִשְׁבַּע הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לִזְכֹּר הַזְּכוּת הַהוּא לְבָנָיו לְדוֹרֵי דּוֹרוֹת. וּבְשָׁעָה שֶׁחָטְאוּ יִשְׂרָאֵל בָּעֵגֶל, עָמַד מֹשֶׁה בִּתְפִלָּה וְאָמַר: ״זְכֹר לְאַבְרָהָם לְיִצְחָק וּלְיִשְׂרָאֵל עֲבָדֶיךָ״. וְכֵן שְׁלֹמֹה: ״זָכְרָה לְחַסְדֵי דָּוִיד עַבְדֶּךָ״ – וְנַעֲנוּ. וְכֵן אָנוּ מַזְכִּירִים בְּכָל יוֹם זְכוּת אָבוֹת.

לָכֵן תֵּדַע, שֶׁאֵין אַכְזָרִים כְּבַעֲלֵי עֲבֵרוֹת. כִּי בַּעֲווֹן שִׂנְאַת חִנָּם נֶחֱרַב בַּיִת שֵׁנִי. וְכָל פֻּרְעָנוּיוֹת בָּאוֹת לָעוֹלָם בִּשְׁבִיל עֲבֵרוֹת, כְּמוֹ שֶׁאָמְרוּ רַבּוֹתֵינוּ: בַּעֲווֹן חַלָּה – אֵין בְּרָכָה בַּמְּכֻנָּס; בַּעֲווֹן בִּטּוּל תְּרוּמָה וּמַעַשְׂרוֹת – הַשָּׁמַיִם נֶעֱצָרִים; בַּעֲווֹן עִנּוּי הַדִּין וְעִוּוּת הַדִּין וּבִטּוּל תּוֹרָה – חֶרֶב וּבִזָּה וְדֶבֶר וּבַצֹּרֶת בָּא לָעוֹלָם. וּבֶאֱמֶת אֵלּוּ הַגּוֹרְמִים הַפֻּרְעָנוּת הֵמָּה אַכְזָרִים עַל עַצְמָם וְעַל בְּנֵיהֶם, וְהַצַּדִּיקִים הֵם רַחֲמָנִים עֲלֵיהֶם וְעַל דּוֹרָם, שֶׁכָּל הָעוֹלָם נִזּוֹן בִּזְכוּת רַבִּי חֲנִינָא בֶּן דּוֹסָא.

גַּם זֶה תְּשׁוּבָה לָעֲנִיִּים הָאוֹמְרִים: בַּמֶּה נַעֲשֶׂה טוֹבָה? הֲלוֹא אֵין בְּיָדֵינוּ מְאוּמָה לִתֵּן צְדָקָה. וְאֵלּוּ דְּבָרִים שֶׁל הֶבֶל הֵם, כִּי יָכוֹל לִתֵּן צְדָקָה בְּמַעֲשָׂיו הַטּוֹבִים וּבְקִיּוּם הַמִּצְווֹת, וּבִזְכוּת הַטּוֹבִים וְהַצַּדִּיקִים הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מֵיטִיב לָעוֹלָם. הֲיֵשׁ צְדָקָה גְּדוֹלָה מִזֹּאת?! גַּם הֶעָנִי יִתֵּן צְדָקָה מְעַט, וְיִהְיֶה שְׂכָרוֹ כָּפוּל, כִּי הַמְּעַט מִשֶּׁלּוֹ חָשׁוּב כְּמוֹ הַרְבֵּה שֶׁל הֶעָשִׁיר. וְכֵן אָמְרוּ רַבּוֹתֵינוּ: אֶחָד הַמַּרְבֶּה וְאֶחָד הַמַּמְעִיט, וּבִלְבַד שֶׁיְּכַוֵּן לִבּוֹ לְאָבִיו שֶׁבַּשָּׁמַיִם.

Sobre este portão · עִיּוּן

A gravidade da opressão

Como reverso do portão da misericórdia, este expõe a crueldade — disposição "que não se encontra nos justos". O autor concentra-se nas suas formas sociais: o roubo do pobre (cujo castigo, segundo Sanhedrin 108a, "acusa mais que todas as iniquidades"), a opressão do órfão e da viúva (punível "medida por medida"), e a ona'at devarim, a aflição por palavras — sobre a qual disseram os sábios que "todas as portas se fecham, exceto as portas da opressão por palavras" (§ 6). A compaixão estende-se aos animais (a proibição de tza'ar ba'alei chayim) e aos servos, "entregues ao trabalho, não à vergonha" (§§ 9-10).

A crueldade que é virtude

A segunda metade (§§ 12-16) faz a inversão característica do livro: há lugares em que "é preciso conduzir-se com crueldade" — no juízo, que não pode poupar parentes nem pobres; contra os ímpios, pois "quem é misericordioso onde deveria ser cruel acaba cruel onde deveria ser misericordioso" (Saul e Agag, de onde saiu Hamã); e contra o próprio corpo e instinto. Tudo, porém, "numa disposição mediana", sem estragar o corpo.

Quem é o verdadeiro cruel

O fecho (§§ 17-21) reorienta a definição: o pecador é "o mais cruel de todos", pois a sua iniquidade traz castigo sobre os filhos e sobre a geração inteira, enquanto o mérito do justo "permanece por mil gerações" e sustenta o mundo. A verdadeira vingança contra um inimigo é o próprio aperfeiçoamento — "ele se aflige com o teu bom nome" (§ 17). E mesmo o pobre que nada tem para dar pratica a maior caridade: as boas obras, cujo mérito sustenta o mundo.