Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Chet · Mishná 12 de 12

A chatat com sangue em dois copos

חַטָּאת שֶׁקִּבֵּל דָּמָהּ בִּשְׁנֵי כוֹסוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A décima segunda e última mishná do Perek Chet fecha o capítulo com um caso de fronteira que não é mais de mistura entre dois sacrifícios, mas de divisão interna do sangue de um único animal: a chatat cujo sangue foi recolhido em dois copos separados, um dos quais sai do átrio ou entra no Santuário de forma indevida. Discute-se se o copo restante permanece válido, se a mera intenção ou entrada já desqualifica sem consumar a aspersão, e fecha com o alcance exato do tzitz — a lâmina de ouro do Sumo Sacerdote que resgata sacrifícios oferecidos com impureza, mas não os que saíram indevidamente do átrio.

Dois copos do mesmo sangue: se um sai, o outro permanece válido; se um entra, Rabi Yossei HaGelili aplica o mesmo raciocínio por analogia inversa, mas os Sábios discordam. Depois, a disputa sobre a mera entrada com intenção de expiar; e o limite exato do poder do tzitz.

Uma chatat cujo sangue recolheu em dois copos — se saiu um deles para fora, o interno é válido.Quando o sangue de uma única chatat é dividido, por precaução, em dois copos separados, e um deles sai indevidamente do átrio, isso não compromete o outro copo, que permaneceu dentro: o sacerdote pode aplicar normalmente o sangue do copo que ficou dentro, e o sacrifício é válido.

Se entrou um deles para dentro — Rabi Yossei HaGelili declara válido o externo, e os Sábios desqualificam.No caso inverso — um dos copos entra indevidamente no Santuário, onde o sangue da chatat não deveria ser levado — Rabi Yossei HaGelili sustenta que, por simetria, o copo que permaneceu fora continua válido; os Sábios discordam.

Disse Rabi Yossei HaGelili: se no lugar onde a intenção desqualifica — fora — não se fez do remanescente como o que saiu; no lugar onde a intenção não desqualifica — dentro — não é lógico que não façamos do remanescente como o que entrou?Rabi Yossei HaGelili sustenta seu argumento por inferência a fortiori: no caso mais severo (fora do átrio, onde até a mera intenção de aspergir ali desqualifica o sacrifício inteiro), vimos que o sangue restante não é tratado como se tivesse saltado junto com o que saiu. Logo, no caso mais leve (dentro do Santuário, onde a mera intenção de aspergir ali não desqualifica), com mais razão o sangue restante não deveria ser tratado como se tivesse entrado junto.

Se entrou para expiar, ainda que não tenha expiado, é desqualificado — palavras de Rabi Eliezer.Rabi Eliezer sustenta que a simples entrada do sangue no Santuário com a intenção de aspergi-lo ali já desqualifica o sangue restante, mesmo que a aspersão efetiva ainda não tenha ocorrido — a intenção de expiar, por si só, já consuma o efeito desqualificador.

Rabi Shimon diz: até que expie.Rabi Shimon exige mais: apenas a aspersão efetivamente realizada, e não a mera intenção ou entrada física, desqualifica o sangue restante.

Rabi Yehudá diz: se entrou por engano, é válido.Rabi Yehudá introduz uma distinção adicional: se a entrada foi involuntária, sem intenção deliberada, o sangue permanece válido, mesmo tendo fisicamente entrado. A halachá segue Rabi Yehudá.

Todos os sangues desqualificados que foram colocados sobre o altar — o tzitz só resgatou o impuro, pois o tzitz resgata o impuro, mas não resgata o que saiu.A mishná fecha com o alcance exato do tzitz, a lâmina de ouro sobre a testa do Sumo Sacerdote que "carrega o pecado das coisas sagradas": seu poder de resgate se limita a sacrifícios oferecidos em estado de impureza ritual — ele impede que essa impureza desqualifique retroativamente a oferenda já sobre o altar. Mas o tzitz não tem poder algum sobre sangue ou carne que saiu indevidamente dos limites do átrio ou de Jerusalém: essa desqualificação espacial permanece irreversível, mesmo com a intervenção do tzitz.

חַטָּאת שֶׁקִּבֵּל דָּמָהּ בִּשְׁנֵי כוֹסוֹת, יָצָא אַחַד מֵהֶן לַחוּץ, הַפְּנִימִי כָּשֵׁר. נִכְנַס אַחַד מֵהֶן לִפְנִים, רַבִּי יוֹסֵי הַגְּלִילִי מַכְשִׁיר בַּחִיצוֹן, וַחֲכָמִים פּוֹסְלִין. אָמַר רַבִּי יוֹסֵי הַגְּלִילִי, מָה אִם בְּמָקוֹם שֶׁהַמַּחֲשָׁבָה פוֹסֶלֶת, בַּחוּץ, לֹא עָשָׂה אֶת הַמְשׁוֹאָר כַּיוֹצֵא, מְקוֹם שֶׁאֵין הַמַּחֲשָׁבָה פוֹסֶלֶת, בִּפְנִים, אֵינוֹ דִין שֶׁלֹּא נַעֲשֶׂה אֶת הַמְשׁוֹאָר כַּנִּכְנָס. נִכְנַס לְכַפֵּר, אַף עַל פִּי שֶׁלֹּא כִפֵּר, פָּסוּל, דִּבְרֵי רַבִּי אֱלִיעֶזֶר. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, עַד שֶׁיְּכַפֵּר. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אִם הִכְנִיס שׁוֹגֵג, כָּשֵׁר. כָּל הַדָּמִים הַפְּסוּלִין שֶׁנִּתְּנוּ עַל גַּבֵּי הַמִּזְבֵּחַ, לֹא הִרְצָה הַצִּיץ אֶלָּא עַל הַטָּמֵא, שֶׁהַצִּיץ מְרַצֶּה עַל הַטָּמֵא, וְאֵינוֹ מְרַצֶּה עַל הַיּוֹצֵא:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 8:12
חַטָּאת שֶׁקִּבֵּל דָּמָהּ בִּשְׁתֵּי כוֹסוֹת כוֹ': דַּע שֶׁאִם יָצָא מִבְּשַׂר קָדְשֵׁי קָדָשִׁים חוּץ לָעֲזָרָה נִפְסַל וְאָסוּר בַּאֲכִילָה, וְסֹמֶךְ זֶה לְמַה שֶּׁנֶּאֱמַר וּבָשָׂר בַּשָּׂדֶה טְרֵפָה… וְאִם הוּבָא בְּשַׂר קָדְשֵׁי קָדָשִׁים אֶל הַהֵיכָל לֹא נִפְסַל, וְהוּא מֻתָּר בַּאֲכִילָה… וְהִנֵּה נִתְבָּאֵר שֶׁאִם יָצָא בָּשָׂר לַחוּץ נִפְסַל, וְאִם נִכְנַס לִפְנִים לֹא נִפְסַל… וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים וְרַבִּי יְהוּדָה.

Rambam explica a assimetria fundamental entre sair e entrar: carne de kodshei kodashim que sai para fora dos limites do átrio se torna proibida ao consumo, por analogia ao versículo sobre a carne trefá no campo — a carne que ultrapassa seu recinto próprio é como se fosse carne despedaçada por feras. Mas a mesma carne, se levada para dentro do Hechál, não se desqualifica, pois o versículo sobre a chatat fala apenas de "seu sangue", não de sua carne. Rambam conclui que a halachá segue os Sábios e Rabi Yehudá.

Bartenura · Zevachim 8:12
וּמָה אִם בְּמָקוֹם שֶׁהַמַּחֲשָׁבָה פוֹסֶלֶת בַּחוּץ. כְּלוֹמַר, וּמַה חוּץ, שֶׁהוּא מָקוֹם שֶׁהַמַּחֲשָׁבָה פּוֹסֶלֶת בּוֹ, שֶׁאִם חָשַׁב בַּשְּׁחִיטָה עַל מְנָת לִזְרֹק דָּמָהּ לַחוּץ, פְּסוּלָה… רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר כוֹ'. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה… וְאֵין הַצִּיץ מְרַצֶּה עַל הַיּוֹצֵא. וְאַף עַל גַּב דִּפְסוּלִים שֶׁעָלוּ לֹא יֵרְדוּ, אַרְצוֹיֵי מִיהָא לֹא אַרְצוֹ, דִּכְתִיב בַּצִּיץ וְנָשָׂא אַהֲרֹן אֶת עֲוֹן הַקֳּדָשִׁים.

Bartenura explica o argumento a fortiori de Rabi Yossei HaGelili apontando que fora do átrio é um "lugar onde a intenção desqualifica" — isto é, se durante o abate o sacerdote apenas pensou em aspergir o sangue lá fora, a chatat inteira já fica desqualificada por essa mera intenção, sem qualquer ação consumada. Conclui explicitamente que a halachá segue Rabi Yehudá quanto à entrada por engano. Sobre o tzitz, esclarece que, embora sacrifícios desqualificados que já subiram ao altar não desçam mais, o tzitz não os torna aceitáveis (meratzá) quando a causa da desqualificação foi saírem indevidamente — seu poder de resgate, conforme o versículo "e Aarão carregará o pecado das coisas sagradas", se limita à impureza ritual.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Zevachim 82a, sobre a Guemará desta mishná
מַתְנִי' יָצָא אֶחָד מֵהֶם לַחוּץ — חוּץ לָעֲזָרָה: נִיתִיב בִּפְנִים וְהָדַר נִיתִיב בַּחוּץ — דְּהָא לְרַבִּי אֱלִיעֶזֶר שְׁאָר דָּמִים הַנִּכְנָסִין לַהֵיכָל כְּשֵׁרִין חוּץ מֵחַטָּאת וְאָשָׁם, כִּדְקָתָנֵי מַתְנִי'.

Rashi confirma o cenário exato descrito pela mishná: quando o texto fala de sangue "fora", refere-se especificamente aos limites do átrio (a azará), e não de Jerusalém como um todo. Observa ainda, retomando a mishná anterior, que para Rabi Eliezer todo sangue que entra no Hechál permanece válido para aplicação posterior no altar externo, exceto especificamente o sangue da chatat e do asham — a mesma exceção discutida na mishná 8:11, que agora se projeta sobre o caso dos dois copos.

סְלִיקָא לַהּ מַסֶּכְתָּא — פֶּרֶק ח׳
Aqui se conclui o Perek Chet de Massechet Zevachim, o mais longo do tratado, com suas doze mishnayot inteiramente dedicadas ao problema da mistura (ta'arovet). O capítulo avança numa progressão cuidadosa: primeiro os animais inteiros ainda vivos — a mistura com issurei hana'a que exige deixar tudo morrer (8:1), a mistura entre consagrados de tipos iguais e diferentes, culminando na regra de que tudo se mistura menos a chatat com o asham (8:2), e o caso especial do asham com o shelamim, onde Rabi Shimon e os Sábios divergem sobre trazer consagrados a um estado de desqualificação (8:3); depois os membros já separados do animal — a chatat misturada com a olá no altar (8:4) e as olot com defeito misturadas entre si, com a disputa recorrente de Rabi Eliezer sobre a presunção retroativa (8:5); em seguida o sangue — primeiro o critério geral da aparência visual para água, vinho e sangue comum (8:6), depois os decretos preventivos sobre sangue desqualificado e de exsudação (8:7), e de novo a disputa sobre copos de sangue misturados (8:8); depois o eixo espacial do próprio altar — acima e abaixo do fio de escarlate (8:9), o número de aplicações exigido por cada sacrifício, com o célebre debate entre Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua sobre acrescentar e diminuir (8:10), e a fronteira entre o Santuário interno e o altar externo, com a disputa de Rabi Akiva (8:11); e finalmente, encerrando o capítulo, o caso dos dois copos de uma única chatat e o alcance exato do tzitz, que resgata a impureza mas não a saída indevida (8:12). Por possuir Guemará no Talmud Bavli, as mishnayot deste capítulo se distribuem por Zevachim 70b–82a, e todas reuniram, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva sugya. O estudo de Massechet Zevachim prossegue nos seis perakim seguintes, ainda por construir.