Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Tet · Mishná 1 de 7

O altar consagra o que lhe é apto

הַמִּזְבֵּחַ מְקַדֵּשׁ אֶת הָרָאוּי לוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Com esta mishná abre o Perek Tet de Massechet Zevachim, que passa do problema da mistura entre sacrifícios — tema do Perek Chet — para o problema da retificação pelo altar: uma vez que algo desqualificado subiu sobre o altar, permanece ali ou deve descer? A mishná abre com a disputa fundamental entre Rabi Yehoshua e Rabán Gamliel sobre o próprio critério de "aptidão" que ativa o poder consagrador do altar — aptidão para ser consumido pelo fogo, ou aptidão simplesmente para o altar — e fecha com a posição intermediária de Rabi Shimon sobre o sangue e as libações.

A regra geral de que o altar consagra o que lhe é apto; a disputa entre Rabi Yehoshua (aptidão ao fogo) e Rabán Gamliel (aptidão ao altar) sobre o mesmo versículo; o ponto exato da divergência — sangue e libações; e a posição intermediária de Rabi Shimon.

O altar consagra o que lhe é apto.Esta é a regra geral que abre o capítulo: o altar tem o poder de tornar irrevogável aquilo que sobe sobre ele, desde que seja próprio da sua função. A mishná passa a explicar, através da disputa entre Rabi Yehoshua e Rabán Gamliel, o que exatamente significa "apto para ele".

Rabi Yehoshua diz: tudo o que é apto para o fogo — se subiu, não desce, pois foi dito: "Ela é a oferenda queimada sobre sua fogueira, sobre o altar." Assim como a oferenda queimada, que é apta ao fogo, se subiu, não desce, também qualquer coisa que seja apta ao fogo, se subiu, não desce.Para Rabi Yehoshua, o critério é a aptidão para ser consumido pelo fogo do altar: qualquer item — mesmo desqualificado por algum outro defeito — que em princípio poderia ser queimado ali, como uma oferenda de holocausto ou os eimurim de outros sacrifícios, permanece sobre o altar se já subiu, por analogia com o versículo sobre a oferenda queimada, cuja permanência "sobre sua fogueira" indica que, uma vez ali, ela não desce mais.

Rabán Gamliel diz: tudo o que é apto ao altar — se subiu, não desce, pois foi dito: "Ela é a oferenda queimada sobre sua fogueira, sobre o altar." Assim como a oferenda queimada, que é apta ao altar, se subiu, não desce, também qualquer coisa que seja apta ao altar, se subiu, não desce.Rabán Gamliel lê o mesmo versículo com ênfase diferente: o critério não é a aptidão para ser consumido pelo fogo, mas a aptidão para o próprio altar — isto é, para ser aspergido ou colocado sobre ele, mesmo que depois não seja queimado, como é o caso do sangue e das libações.

Não há diferença entre as palavras de Rabán Gamliel e as palavras de Rabi Yehoshua senão o sangue e as libações: que Rabán Gamliel diz não descem, e Rabi Yehoshua diz descem.A mishná isola o ponto exato da controvérsia: sangue e libações — vinho, água, azeite — são aspergidos ou derramados sobre o altar, mas não são consumidos pelo fogo. Para Rabi Yehoshua, por não serem "aptos ao fogo", se foram aplicados de forma desqualificada e depois subiram ao altar, devem descer; para Rabán Gamliel, por serem "aptos ao altar", uma vez ali permanecem.

Rabi Shimon diz: o sacrifício é válido e as libações são desqualificadas, as libações são válidas e o sacrifício é desqualificado — mesmo que ambos sejam desqualificados, o sacrifício não desce, e as libações descem.Rabi Shimon propõe uma terceira posição, que distingue não pela natureza do item, mas por sua relação com o sacrifício principal: a carne do próprio animal sacrificado, uma vez subida, nunca desce, seguindo aqui a posição de Rabi Yehoshua quanto ao holocausto; mas as libações — mesmo as que acompanham o sacrifício — sempre descem se desqualificadas, pois não vêm "por si mesmas", como a oferenda queimada, mas apenas em função do animal.

הַמִּזְבֵּחַ מְקַדֵּשׁ אֶת הָרָאוּי לוֹ. רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר, כָּל הָרָאוּי לָאִשִּׁים, אִם עָלָה לֹא יֵרֵד, שֶׁנֶּאֱמַר, הִוא הָעֹלָה עַל מוֹקְדָה עַל הַמִּזְבֵּחַ. מָה עוֹלָה שֶׁהִיא רְאוּיָה לָאִשִּׁים, אִם עָלְתָה לֹא תֵרֵד, אַף כָּל דָּבָר שֶׁהוּא רָאוּי לָאִשִּׁים, אִם עָלָה לֹא יֵרֵד. רַבָּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר, כָּל הָרָאוּי לַמִּזְבֵּחַ, אִם עָלָה לֹא יֵרֵד, שֶׁנֶּאֱמַר, הִוא הָעֹלָה עַל מוֹקְדָה עַל הַמִּזְבֵּחַ. מַה עוֹלָה שֶׁהִיא רְאוּיָה לַמִּזְבֵּחַ אִם עָלְתָה לֹא תֵרֵד, אַף כָּל דָּבָר שֶׁהוּא רָאוּי לַמִּזְבֵּחַ אִם עָלָה לֹא יֵרֵד. אֵין בֵּין דִּבְרֵי רַבָּן גַּמְלִיאֵל לְדִבְרֵי רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אֶלָּא הַדָּם וְהַנְּסָכִים, שֶׁרַבָּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר לֹא יֵרְדוּ, וְרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר יֵרֵדוּ. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, הַזֶּבַח כָּשֵׁר וְהַנְּסָכִים פְּסוּלִים, הַנְּסָכִים כְּשֵׁרִין וְהַזֶּבַח פָּסוּל, אֲפִלּוּ זֶה וָזֶה פְּסוּלִין, הַזֶּבַח לֹא יֵרֵד, וְהַנְּסָכִים יֵרֵדוּ:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Vayikrá 6:2
צַו אֶת אַהֲרֹן וְאֶת בָּנָיו לֵאמֹר, זֹאת תּוֹרַת הָעֹלָה, הִוא הָעֹלָה עַל מוֹקְדָה עַל הַמִּזְבֵּחַ כָּל הַלַּיְלָה עַד הַבֹּקֶר, וְאֵשׁ הַמִּזְבֵּחַ תּוּקַד בּוֹ.
"Ordena a Aarão e a seus filhos, dizendo: esta é a lei da oferenda queimada — ela é a oferenda queimada sobre sua fogueira, sobre o altar, toda a noite até a manhã, e o fogo do altar arderá nele."
O mesmo versículo é a base da disputa entre Rabi Yehoshua e Rabán Gamliel: ambos leem a palavra "הִוא" ("ela") como um termo restritivo que ensina "em sua condição ela permanece" — mas discordam sobre o que a comparação com a oferenda queimada exatamente estende: a aptidão para o fogo (Rabi Yehoshua) ou a aptidão para o altar como tal (Rabán Gamliel).

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 9:1
הָרָאוּי לוֹ הָרָאוּי לִיקָּרֵב, אֲבָל קֹמֶץ הַמִּנְחָה אִם לֹא נִתְקַדֵּשׁ בִּכְלִי שָׁרֵת שֶׁאֵינוֹ רָאוּי לִיקָּרֵב אֵינוֹ מִתְקַדֵּשׁ וַאֲפִלּוּ עָלָה עַל גַּבֵּי הַמִּזְבֵּחַ. וּמַחֲלֹקֶת רַבָּן גַּמְלִיאֵל וְרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ מְבֹאָר, וְיֵשׁ לְכָל אֶחָד מִשְּׁנֵיהֶן דְּחִיָּה בְּטַעֲנוֹת חֲבֵרוֹ. וְרַבִּי שִׁמְעוֹן הוֹלֵךְ אַחַר דַּעַת רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ, וְכֻלָּן סוֹמְכִים עַל מַה שֶּׁנֶּאֱמַר "כָּל הַנּוֹגֵעַ בַּמִּזְבֵּחַ יִקְדָּשׁ", עַל מְנָת שֶׁיְּהֵא רָאוּי כְּמוֹ שֶׁהִתְנָה בִּתְחִלַּת הַמִּשְׁנָה. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ.

Rambam esclarece que "o que lhe é apto" significa apto a ser oferecido: por isso o punhado (komeç) da oferenda de farinha, se não foi consagrado em recipiente de serviço sagrado e por isso não é apto a ser oferecido, não se consagra mesmo que tenha subido sobre o altar. Observa que as posições de Rabán Gamliel e Rabi Yehoshua têm argumentos válidos, cada um refutando o outro, e que Rabi Shimon segue basicamente a opinião de Rabi Yehoshua. Todos se apoiam no princípio de que "tudo o que toca o altar se consagra", desde que seja apto, conforme a condição estabelecida no início da mishná. Conclui que a halachá segue Rabi Yehoshua.

Bartenura · Zevachim 9:1
רַבָּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר כָּל הָרָאוּי לַמִּזְבֵּחַ. וַאֲפִלּוּ דָּם וּנְסָכִים שֶׁנִּפְסְלוּ, אִם עָלוּ לֹא יֵרְדוּ. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר הַזֶּבַח כָּשֵׁר וְהַנְּסָכִים פְּסוּלִים. רַבִּי שִׁמְעוֹן סְבִירָא לֵיהּ בִּנְסָכִים שֶׁל זֶבַח כְּרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ, וּבְדָם וּבִנְסָכִים הַבָּאִים בִּפְנֵי עַצְמָן כְּרַבָּן גַּמְלִיאֵל… הִלְכָּךְ בֵּין שֶׁהַזֶּבַח כָּשֵׁר וְהַנְּסָכִים פְּסוּלִים, בֵּין שֶׁהַזֶּבַח פָּסוּל וְהַנְּסָכִים כְּשֵׁרִים — הוֹאִיל וְהֵן בָּאִים בִּגְלָלוֹ, נִפְסָלִים עִמּוֹ. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ.

Bartenura explica que Rabán Gamliel inclui até o sangue e as libações desqualificados no princípio de que o altar consagra o que lhe é apto: uma vez subidos, não descem. Sobre Rabi Shimon, esclarece que ele combina as duas posições conforme o caso: quanto às libações que acompanham um sacrifício, segue Rabi Yehoshua (descem se desqualificadas); mas quanto ao próprio sangue e às libações que vêm sozinhas, segue Rabán Gamliel. Por isso, seja o sacrifício válido e as libações desqualificadas, seja o inverso, as libações — por virem em função do sacrifício — são desqualificadas junto com ele. Conclui que a halachá segue Rabi Yehoshua.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Zevachim 83a, sobre a Guemará desta mishná
מַתְנִי' הַמִּזְבֵּחַ מְקַדֵּשׁ — אֲפִלּוּ דָּבָר פָּסוּל שֶׁעָלָה לַמִּזְבֵּחַ, קִדְּשׁוֹ הַמִּזְבֵּחַ לֵיעָשׂוֹת לַחְמוֹ, וְאֵין מוֹרִידִין אוֹתוֹ: אֶת הָרָאוּי לוֹ — מִשֶּׁהוּבְרַר לְחֶלְקוֹ, וּבַגְּמָרָא מְפָרֵשׁ לְמַעוּטֵי קְמָצִים שֶׁלֹּא קָדְשׁוּ בִּכְלִי לְאַחַר קְמִיצָה, שֶׁלֹּא הוּבְרְרוּ לְחֵלֶק גָּבוֹהַּ — דְּאַף עַל גַּב דְּקִדְּשָׁה הַמִּנְחָה כֻלָּהּ בִּכְלִי, אֵין זֶה חֵלֶק גָּבוֹהַּ בָּרוּר, שֶׁאֵין הַמִּנְחָה קְרֵבָה כֻלָּהּ; וּבִקְמִיצָה בְּלֹא מַתַּן כְּלִי, אֵין זֶה מְבֹרָר לַמִּזְבֵּחַ.

Rashi explica que a expressão "o altar consagra" significa que mesmo um item desqualificado, uma vez subido ao altar, é consagrado por ele para tornar-se "seu pão" — isto é, para ser queimado ali — e não se faz descer. Sobre "o que lhe é apto", explica que se refere ao que já foi claramente destinado à porção do Altíssimo: por isso o punhado da oferenda de farinha que não foi consagrado num recipiente de serviço sagrado depois de retirado não se qualifica como "apto", pois, embora toda a oferenda tenha sido consagrada no recipiente, isso não constitui uma porção claramente separada para o Alto — já que nem toda a oferenda é oferecida — e o punhado retirado sem passar por um recipiente não está claramente destinado ao altar.