A décima primeira mishná cruza a fronteira mais radical do Templo: o sangue destinado ao interior do Santuário — aplicado entre as varas da Arca, sobre o Véu, ou no altar de ouro — e o sangue destinado ao altar externo, no átrio. Diferentemente de todas as misturas anteriores, aqui não há nenhum recurso possível: qualquer confusão entre esses dois sangues é irrecuperável. A mishná então examina o que acontece quando um sacerdote, agindo por conta própria, já aplicou sangue em um lado e depois no outro — abrindo a disputa entre Rabi Akiva e os Sábios, e a extensão de Rabi Eliezer.
Os que são dados dentro, que se misturaram com os que são dados fora, irão para o canal. — Sangue destinado ao interior do Santuário não pode, em nenhuma hipótese, trocar de lugar com o sangue destinado ao altar externo — são dois regimes de aplicação inteiramente distintos, e nenhum artifício de "considerar como se fosse" pode resolver essa mistura. A única solução é despejar tudo no canal.
Se aplicou fora e voltou a aplicar dentro, é válido. — Se um sacerdote, por iniciativa própria, sem consultar, já aplicou a mistura fora e depois voltou a aplicá-la também dentro, o resultado é válido: aplicar sangue misturado dentro do Santuário não desqualifica retroativamente o que já foi corretamente aplicado fora.
Se aplicou dentro e voltou a aplicar fora — Rabi Akiva desqualifica, e os Sábios declaram válido. — Na ordem inversa surge a disputa: para Rabi Akiva, qualquer sangue que já entrou no Santuário para fins de expiação está automaticamente desqualificado para qualquer aplicação posterior no altar externo — sua entrada já consumiu, por assim dizer, seu potencial de expiação. Os Sábios limitam essa desqualificação apenas à chatat.
Pois Rabi Akiva dizia: todo sangue que entrou para expiar no Hechál está desqualificado. — Rabi Akiva formula seu princípio geral, aplicável a qualquer tipo de sangue, não apenas à chatat.
E os Sábios dizem: apenas a chatat. — Os Sábios fundamentam sua restrição num versículo específico sobre a chatat cujo sangue entrou no Santúario para expiar — e por isso limitam a regra apenas a esse tipo de sacrifício, não a todos.
Rabi Eliezer diz: também o asham, pois se diz: "como a chatat, assim o asham". — Rabi Eliezer estende a regra restritiva dos Sábios também ao asham, apoiando-se no versículo que equipara explicitamente as leis do asham às da chatat — uma equivalência que não se aplica, no entanto, aos demais tipos de sacrifícios.
Rambam identifica o fundamento textual dos Sábios: o versículo sobre a chatat cujo sangue é trazido à Tenda da Reunião para expiar no Santúario declara a carne dessa chatat proibida ao consumo — e daí se infere, por analogia, que seu sangue tampouco pode mais ser aplicado no altar externo. Como esse versículo fala especificamente de chatat, os Sábios restringem a regra a ela, ao passo que Rabi Akiva a generaliza a todo sangue. Rambam conclui explicitamente que a halachá segue os Sábios em todos os pontos desta mishná.
Bartenura explica por que a mistura entre sangue interno e externo não tem remédio algum: não se aplica aqui nenhum tipo de presunção visual ou lógica, pois além disso seria preciso alterar deliberadamente o próprio local sagrado de aplicação de um sangue em favor do outro — algo que nunca é permitido. Sobre a disputa de Rabi Akiva com os Sábios, esclarece que a controvérsia recai especificamente sobre o sangue de fora, que Rabi Akiva desqualifica após ter entrado no Santúario, e que os Sábios limitam apenas à chatat com base no versículo.
A Guemará discute o alcance exato da regra que permite aplicar o remédio da mistura mesmo a animais inteiros vivos, e não apenas a sangue já recolhido. Rashi esclarece que a extensão de Rabi Eliezer ao asham deriva do mesmo verso que fundamenta a regra geral sobre a chatat, sem necessidade de um verso adicional, precisamente porque ambos — chatat e asham — pertencem à categoria de kodshei kodashim, a mais elevada santidade sacrificial.