Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Chet · Mishná 11 de 12

Sangue de dentro misturado com sangue de fora

הַנִּתָּנִין בִּפְנִים שֶׁנִּתְעָרְבוּ עִם הַנִּתָּנִין בַּחוּץ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A décima primeira mishná cruza a fronteira mais radical do Templo: o sangue destinado ao interior do Santuário — aplicado entre as varas da Arca, sobre o Véu, ou no altar de ouro — e o sangue destinado ao altar externo, no átrio. Diferentemente de todas as misturas anteriores, aqui não há nenhum recurso possível: qualquer confusão entre esses dois sangues é irrecuperável. A mishná então examina o que acontece quando um sacerdote, agindo por conta própria, já aplicou sangue em um lado e depois no outro — abrindo a disputa entre Rabi Akiva e os Sábios, e a extensão de Rabi Eliezer.

Mistura entre sangue de dentro e de fora não tem remédio; mas se o sacerdote já aplicou fora e depois dentro, é válido; se aplicou dentro e depois fora, Rabi Akiva desqualifica todo sangue externo que já entrou para expiar, e os Sábios limitam essa regra à chatat — regra que Rabi Eliezer estende também ao asham, com base num versículo.

Os que são dados dentro, que se misturaram com os que são dados fora, irão para o canal.Sangue destinado ao interior do Santuário não pode, em nenhuma hipótese, trocar de lugar com o sangue destinado ao altar externo — são dois regimes de aplicação inteiramente distintos, e nenhum artifício de "considerar como se fosse" pode resolver essa mistura. A única solução é despejar tudo no canal.

Se aplicou fora e voltou a aplicar dentro, é válido.Se um sacerdote, por iniciativa própria, sem consultar, já aplicou a mistura fora e depois voltou a aplicá-la também dentro, o resultado é válido: aplicar sangue misturado dentro do Santuário não desqualifica retroativamente o que já foi corretamente aplicado fora.

Se aplicou dentro e voltou a aplicar fora — Rabi Akiva desqualifica, e os Sábios declaram válido.Na ordem inversa surge a disputa: para Rabi Akiva, qualquer sangue que já entrou no Santuário para fins de expiação está automaticamente desqualificado para qualquer aplicação posterior no altar externo — sua entrada já consumiu, por assim dizer, seu potencial de expiação. Os Sábios limitam essa desqualificação apenas à chatat.

Pois Rabi Akiva dizia: todo sangue que entrou para expiar no Hechál está desqualificado.Rabi Akiva formula seu princípio geral, aplicável a qualquer tipo de sangue, não apenas à chatat.

E os Sábios dizem: apenas a chatat.Os Sábios fundamentam sua restrição num versículo específico sobre a chatat cujo sangue entrou no Santúario para expiar — e por isso limitam a regra apenas a esse tipo de sacrifício, não a todos.

Rabi Eliezer diz: também o asham, pois se diz: "como a chatat, assim o asham".Rabi Eliezer estende a regra restritiva dos Sábios também ao asham, apoiando-se no versículo que equipara explicitamente as leis do asham às da chatat — uma equivalência que não se aplica, no entanto, aos demais tipos de sacrifícios.

הַנִּתָּנִין בִּפְנִים שֶׁנִּתְעָרְבוּ עִם הַנִּתָּנִין בַּחוּץ, יִשָּׁפְכוּ לָאַמָּה. נָתַן בַּחוּץ וְחָזַר וְנָתַן בִּפְנִים, כָּשֵׁר. בִּפְנִים וְחָזַר וְנָתַן בַּחוּץ, רַבִּי עֲקִיבָא פוֹסֵל, וַחֲכָמִים מַכְשִׁירִים. שֶׁהָיָה רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, כָּל הַדָּמִים שֶׁנִּכְנְסוּ לְכַפֵּר בַּהֵיכָל, פְּסוּלִין. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, חַטָּאת בִּלְבָד. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, אַף הָאָשָׁם, שֶׁנֶּאֱמַר כַּחַטָּאת כָּאָשָׁם:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת מִן הַתּוֹרָה

Vayikra 7:7
כַּחַטָּאת כָּאָשָׁם תּוֹרָה אַחַת לָהֶם הַכֹּהֵן אֲשֶׁר יְכַפֶּר בּוֹ לוֹ יִהְיֶה:
"Como a chatat, assim o asham: uma única lei há para ambos; o sacerdote que expiar com ele, dele será."
Rabi Eliezer lê a equivalência explícita — "uma única lei há para ambos" — como fundamento textual para estender ao asham a mesma regra de desqualificação que os Sábios reconhecem apenas quanto ao sangue da chatat que entrou no Hechál para expiar.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 8:11
הַנִּתָּנִין בִּפְנִים שֶׁנִּתְעָרְבוּ עִם הַנִּתָּנִין בַּחוּץ כוֹ': אוֹמֵר שֶׁאִם נִמְלַךְ אוֹמְרִים לוֹ יִשָּׁפֵךְ לָאַמָּה, וְאִם לֹא שָׁאַל וְנָתַן מִן הַדָּם הַמְּעֹרָב בִּפְנִים מַה שֶּׁיִּהְיֶה רָאוּי לָתֵת מִדָּם שֶׁל חוּץ, כָּשֵׁר… וְחֲכָמִים אוֹמְרִים הַחַטָּאת בִּלְבַד, לְפִי שֶׁנֶּאֱמַר וְכָל חַטָּאת אֲשֶׁר יוּבָא מִדָּמָהּ אֶל אֹהֶל מוֹעֵד לְכַפֵּר בַּקֹּדֶשׁ וְגוֹ'… וְהַלָּכָה כַּחֲכָמִים בְּכֻלָּן.

Rambam identifica o fundamento textual dos Sábios: o versículo sobre a chatat cujo sangue é trazido à Tenda da Reunião para expiar no Santúario declara a carne dessa chatat proibida ao consumo — e daí se infere, por analogia, que seu sangue tampouco pode mais ser aplicado no altar externo. Como esse versículo fala especificamente de chatat, os Sábios restringem a regra a ela, ao passo que Rabi Akiva a generaliza a todo sangue. Rambam conclui explicitamente que a halachá segue os Sábios em todos os pontos desta mishná.

Bartenura · Zevachim 8:11
הַנִּתָּנִין בִּפְנִים כוֹ'ׂ יִשָּׁפְכוּ לָאַמָּה. דְּלֹא אָמְרִינַן רוֹאִים, וְאָסוּר לְשַׁנּוֹת אֶת אֵלּוּ מִפְּנֵי הֶכְשֵׁרָן שֶׁל אֵלּוּ… רַבִּי עֲקִיבָא פוֹסֵל. הַחִיצוֹן, שֶׁכָּל דָּמִים הַחִיצוֹנִים שֶׁנִּכְנְסוּ לִפְנִים נִפְסְלוּ… וַחֲכָמִים מַכְשִׁירִים. בְּכָל הַקָּרְבָּנוֹת, חוּץ מֵחַטָּאת הַחִיצוֹנָה דְּמִפַּסְלָא מִשּׁוּם וְכָל חַטָּאת אֲשֶׁר יוּבָא כוֹ'. וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים.

Bartenura explica por que a mistura entre sangue interno e externo não tem remédio algum: não se aplica aqui nenhum tipo de presunção visual ou lógica, pois além disso seria preciso alterar deliberadamente o próprio local sagrado de aplicação de um sangue em favor do outro — algo que nunca é permitido. Sobre a disputa de Rabi Akiva com os Sábios, esclarece que a controvérsia recai especificamente sobre o sangue de fora, que Rabi Akiva desqualifica após ter entrado no Santúario, e que os Sábios limitam apenas à chatat com base no versículo.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Zevachim 81b, sobre a Guemará desta mishná
יָכוֹל אֵין לִי אֶלָּא נִתְעָרֵב בְּאֵלּוּ — דְּקָא מְרַבִּינַן מִנֵּיהּ דְּיִקְרְבוּ, שֶׁכֵּן תַּעֲרֻבְתָּן רְאוּיָה לִקְרַב, אֲפִלּוּ נִתְעָרְבוּ בְּהֵמָה בִּבְהֵמָה מֵחַיִּים… אָבִיא אֶת אֲשֶׁר נִתְעָרֵב בָּאָשָׁם — מֵהַאי רִבּוּיָא גּוּפֵיהּ, וְלֹא בָעֵי קְרָא אַחֲרִינָא, הוֹאִיל וּשְׁנֵיהֶם קָדְשֵׁי קָדָשִׁים.

A Guemará discute o alcance exato da regra que permite aplicar o remédio da mistura mesmo a animais inteiros vivos, e não apenas a sangue já recolhido. Rashi esclarece que a extensão de Rabi Eliezer ao asham deriva do mesmo verso que fundamenta a regra geral sobre a chatat, sem necessidade de um verso adicional, precisamente porque ambos — chatat e asham — pertencem à categoria de kodshei kodashim, a mais elevada santidade sacrificial.