A Mishná · הַמִּשְׁנָה
A mishná final do Perek Zayin muda de tema uma última vez: não mais a intenção, o lugar ou o procedimento, mas o próprio corpo da ave — o caso em que, após uma meliká válida em todos os aspectos, descobre-se que a ave era trefá (portadora de uma lesão interna fatal). A questão é se a meliká, como o abate no animal, purifica também essa trefá da impureza do cadáver.
Uma disputa de três posições construída sobre um argumento a fortiori (kal vachomer) de Rabi Meir a partir do cadáver do animal, refinado por Rabi Yossei com o princípio de que uma inferência a fortiori não pode ser mais rigorosa do que a sua fonte (dayo).
Se ele beliscou e ela foi encontrada trefá — Rabi Meir diz: não contamina na garganta. Rabi Yehudá diz: contamina na garganta. — A meliká foi executada corretamente, sem nenhuma falha visível de lugar, procedimento ou intenção; só depois se descobre que a ave, internamente, já estava fatalmente lesionada. Rabi Meir sustenta que a meliká válida ainda assim purifica a ave dessa condição; Rabi Yehudá sustenta que não.
Disse Rabi Meir: se quanto ao cadáver do animal, que contamina por toque e por carregamento, o seu abate purifica a sua trefá da sua impureza — quanto ao cadáver da ave, que não contamina por toque e por carregamento, não é justo que o seu abate purifique a sua trefá da sua impureza? — Um argumento a fortiori: se o abate purifica a trefá mesmo no caso mais grave (o animal, cujo cadáver contamina por simples toque), com mais razão deveria purificar no caso mais leve (a ave, cujo cadáver só contamina quando engolido).
E assim como encontramos quanto ao seu abate, que a habilita para o consumo e purifica a sua trefá da sua impureza — também a sua meliká, que a habilita para o consumo, deveria purificar a sua trefá da sua impureza. — Rabi Meir estende o raciocínio: dentro da própria categoria da ave, se o abate de um pássaro comum (que a habilita ao consumo) purifica sua trefá, a meliká — que cumpre a mesma função de habilitar ao consumo dentro do âmbito sagrado — deveria produzir o mesmo efeito.
Rabi Yossei diz: basta que seja como o cadáver do animal — o seu abate a purifica, mas não a sua meliká. — Rabi Yossei aceita a inferência a fortiori de que a trefá da ave pode ser purificada — mas invoca o princípio de que uma conclusão obtida por kal vachomer nunca pode ser mais abrangente do que a sua própria fonte (“dayo lavá min hadin lihyot kanidon”): já que a inferência veio do abate do animal, ela só pode estabelecer que o abate da ave purifica — nunca que a meliká também purifica, pois isso excederia o que a fonte ensinou. A halachá segue Rabi Yossei.
מָלַק וְנִמְצָא טְרֵפָה, רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר, אֵינָהּ מְטַמְּאָה בְבֵית הַבְּלִיעָה. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, מְטַמְּאָה בְבֵית הַבְּלִיעָה. אָמַר רַבִּי מֵאִיר, מָה אִם נִבְלַת בְּהֵמָה, שֶׁהִיא מְטַמְּאָה בְמַגָּע וּבְמַשָּׂא, שְׁחִיטָתָהּ מְטַהֶרֶת אֶת טְרֵפָתָהּ מִטֻּמְאָתָהּ, נִבְלַת הָעוֹף שֶׁאֵינָהּ מְטַמְּאָה בְמַגָּע וּבְמַשָּׂא, אֵינוֹ דִין שֶׁתְּהֵא שְׁחִיטָתָהּ מְטַהֶרֶת אֶת טְרֵפָתָהּ מִטֻּמְאָתָהּ. מַה מָּצִינוּ בִשְׁחִיטָתָהּ, שֶׁהִיא מַכְשַׁרְתָּהּ בַּאֲכִילָה, וּמְטַהֶרֶת אֶת טְרֵפָתָהּ מִטֻּמְאָתָהּ, אַף מְלִיקָתָהּ, שֶׁהִיא מַכְשַׁרְתָּהּ בַּאֲכִילָה, תְּטַהֵר אֶת טְרֵפָתָהּ מִטֻּמְאָתָהּ. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, דַּיָּהּ כְּנִבְלַת בְּהֵמָה, שְׁחִיטָתָהּ מְטַהַרְתָּהּ, אֲבָל לֹא מְלִיקָתָהּ:
Halachot · הֲלָכוֹת
Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 7:6
מָלַק וְנִמְצָא טְרֵפָה, רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר אֵינָהּ מְטַמְּאָה בְבֵית הַבְּלִיעָה כוֹ': טְרֵפַת הָעוֹף עוֹד יִתְבָּאֵר עִנְיָנָהּ בַּשְּׁלִישִׁי מֵחֻלִּין… וְר' מֵאִיר מַשְׁוֶה בֵּין הַשְּׁחִיטָה וְהַמְּלִיקָה, וְאוֹמֵר כְּמוֹ שֶׁמֻּתָּר לְיִשְׂרָאֵל לֶאֱכֹל שְׁחוּטָה כֵּן מֻתָּר לַכֹּהֵן לֶאֱכֹל מְלִיקָה, וְלָמַד הָעוֹף מִן הַבְּהֵמָה בְּקַל וָחֹמֶר… וְאָמַר רַבִּי יוֹסֵי, דַּיּוֹ לַבָּא מִן הַדִּין לִהְיוֹת כַּנִּדּוֹן, הוֹאִיל וְלָמַדְנוּ אוֹתוֹ מִן הַבְּהֵמָה, יִהְיֶה כָּמוֹהָ כְּמוֹ שֶׁנִּתְבָּאֵר… וְהַלָּכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי.
Rambam explica a lógica de cada posição: Rabi Meir equipara inteiramente o abate e a meliká, dizendo que assim como o israelita pode comer o animal abatido, também o sacerdote pode comer a ave beliscada — e infere a purificação da trefá da ave a partir do animal por kal vachomer. Rabi Yossei aplica o princípio de que uma inferência a fortiori nunca ultrapassa a sua fonte: já que a inferência veio especificamente do abate do animal, ela só pode validar o abate da ave, não a sua meliká. Rambam conclui explicitamente: a halachá segue Rabi Yossei.
Bartenura · Zevachim 7:6
אֵינָהּ מְטַמְּאָה בְבֵית הַבְּלִיעָה. דִּמְלִיקָתָהּ מְטַהַרְתָּהּ מִידֵי נְבֵלָה: רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר מְטַמְּאָה בְבֵית הַבְּלִיעָה. דִּסְבִירָא לֵיהּ לְרַבִּי יְהוּדָה דְּלֹא אַהֲנֵי שְׁחִיטָה בְּעוֹף שֶׁל חֻלִּין וְלֹא מְלִיקָה בְּקָדָשִׁים בִּטְרֵפָה בָּעוֹף לְהוֹצִיאָהּ מִידֵי נְבֵלָה… רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר דַּיָּהּ כוֹ'. כֵּיוָן דְּלֹא אַשְׁכְּחַן בְּהֶדְיָא דִּשְׁחִיטָה מוֹצִיאָה מִידֵי נְבֵלָה בָּעוֹף, אֶלָּא מִקַּל וָחֹמֶר מִנִּבְלַת בְּהֵמָה אַתָּה בָא לִלְמֹד, דַּיָּהּ שֶׁתְּהֵא כְּנִבְלַת בְּהֵמָה שֶׁשְּׁחִיטָתָהּ מְטַהַרְתָּהּ מִידֵי נְבֵלָה וְלֹא מְלִיקָתָהּ… וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי.
Bartenura resume as três posições numa única frase: para Rabi Meir, tanto o abate quanto a meliká purificam a trefá da ave da impureza de cadáver; para Rabi Yehudá, nem um nem outro purificam; para Rabi Yossei, apenas o abate purifica, não a meliká — precisamente porque toda a noção de que o abate purifica a trefá da ave nunca foi ensinada explicitamente na Torá, mas apenas inferida por kal vachomer do animal, e uma inferência assim não pode ir além do que a sua fonte estabeleceu. Conclui: a halachá segue Rabi Yossei.
Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים
Rashi רש״י
Zevachim 69a–69b, sobre a Guemará desta mishná
מַתְנִי' רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר אֵינָהּ מְטַמְּאָה — בְּקַל וָחֹמֶר: רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר מְטַמֵּא — דְּלָא מַהֲנֵי מְלִיקָה לְטְרֵפָה, וְהוּא הַדִּין נַמֵּי דִּבִשְׁחִיטַת חֻלִּין טְרֵפָה פָּלֵיג רַבִּי יְהוּדָה… אַף מְלִיקָה — בְּקָדָשִׁים הַמַּכְשֶׁרֶת בַּאֲכִילָה כְּשֶׁאֵינָהּ טְרֵפָה תְּטַהֵר: דַּיָּהּ כְּנִבְלַת בְּהֵמָה — דְּהוֹאִיל וְלֹא יָלֵיף עוֹף אֶלָּא מִבְּהֵמָה לְטַהֵר טְרֵפָה מִטֻּמְאָתָהּ, דַּיּוֹ לַבָּא מִן הַדִּין לִהְיוֹת כַּנִּדּוֹן.
Rashi confirma que a posição de Rabi Meir se apoia inteiramente no kal vachomer, e nota que a disputa entre Rabi Meir e Rabi Yehudá sobre a trefá da ave espelha uma disputa paralela quanto ao abate de aves comuns, encontrada no tratado de Chulin. Explica com precisão o princípio de Rabi Yossei: como toda a noção de purificar a trefá da ave foi aprendida apenas do animal por inferência, ela não pode render mais do que a própria fonte rendeu.
סְלִיקָא לַהּ מַסֶּכְתָּא — פֶּרֶק ז׳
Aqui se conclui o Perek Zayin de Massechet Zevachim, o sétimo capítulo do primeiro tratado de Seder Kodashim. Enquanto o Perek Vav havia descrito o procedimento passo a passo da chatat ha-of e da olat ha-of, o Perek Zayin dedicou-se aos limites exatos de validade dessas duas avodot: primeiro cruzou lugar (embaixo ou em cima do fio de escarlate), procedimento técnico e intenção de nome para a chatat (7:1) e, espelhadamente, para a olá (7:2); depois estabeleceu que todas as combinações desqualificadas continuam puras da categoria de cadáver, mas geram apropriação indevida, exceto a chatat plenamente válida (7:3); aprofundou o caso-limite da olá inteiramente transformada em chatat, na célebre disputa entre Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua sobre a apropriação indevida, decidida como Rabi Yehoshua (7:4); listou os vários modos em que a própria meliká pode falhar, com o princípio geral da desqualificação dentro ou fora da santidade (7:5); e encerrou com o caso da ave trefá beliscada, na disputa entre Rabi Meir, Rabi Yehudá e Rabi Yossei, decidida como Rabi Yossei (7:6). Por possuir Guemará no Talmud Bavli, as mishnayot deste capítulo se distribuem por Zevachim 66a–69b, e todas reuniram, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva sugya. O estudo de Massechet Zevachim prossegue nos sete perakim seguintes, ainda por construir.