Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Hei · Mishná 8 de 8

Primogénito, dízimo e cordeiro pascal: uma só aplicação de sangue

הַפֶּסַח אֵינוֹ נֶאֱכָל אֶלָּא בַלַּיְלָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná final do capítulo trás três oferendas de santidade leve que compartilham uma característica única no capítulo inteiro: uma única aplicação de sangue, em vez de duas ou quatro. O primogênito e o dízimo se equiparam à oferenda de paz quanto ao prazo de consumo, mas o cordeiro pascal recebe um regime totalmente próprio, marcado por quatro restrições exclusivas.

O primogénito, o dízimo e o cordeiro pascal são santidade leve. Seu abate é em qualquer lugar do pátio, e seu sangue requer uma aplicação, contanto que a dê defronte à base.Estas três oferendas partilham o regime mais simples de todo o capítulo: abate em qualquer ponto do pátio e uma única aplicação de sangue — mas essa única aplicação deve necessariamente ser feita num ponto do altar que tenha base própria por baixo, excluindo o único chifre (o sudeste) que não a possui.

Diferem em sua alimentação: o primogénito é comido pelos sacerdotes, e o dízimo por qualquer pessoa; e são comidos em toda a cidade, por qualquer pessoa, em qualquer forma de alimento, por dois dias e uma noite.Apesar do regime idêntico de sangue, primogénito e dízimo diferem quanto a quem pode comer sua carne: o primogénito pertence inteiramente aos sacerdotes, enquanto o dízimo animal pode ser comido por qualquer israelita puro — equiparando-se, neste ponto, à oferenda de paz comum tanto no local (toda a cidade) quanto no prazo (dois dias e uma noite).

O cordeiro pascal não é comido senão à noite, e não é comido senão até a meia-noite, e não é comido senão por seus inscritos, e não é comido senão assado.A mishná encerra o capítulo com as quatro restrições exclusivas do cordeiro pascal, que o distinguem radicalmente de toda oferenda tratada até aqui: só pode ser comido à noite (nunca de dia), apenas até a meia-noite (prazo ainda mais curto que o das demais oferendas de um dia), somente por aqueles previamente inscritos para aquele animal específico, e somente se preparado assado ao fogo — nunca cozido ou de outra forma.

הַבְּכוֹר וְהַמַּעֲשֵׂר וְהַפֶּסַח, קָדָשִׁים קַלִּים, שְׁחִיטָתָן בְּכָל מָקוֹם בָּעֲזָרָה, וְדָמָן טָעוּן מַתָּנָה אַחַת, וּבִלְבָד שֶׁיִּתֵּן כְּנֶגֶד הַיְסוֹד. שִׁנָּה בַאֲכִילָתָן, הַבְּכוֹר נֶאֱכָל לַכֹּהֲנִים, וְהַמַּעֲשֵׂר לְכָל אָדָם, וְנֶאֱכָלִין בְּכָל הָעִיר, לְכָל אָדָם, בְּכָל מַאֲכָל, לִשְׁנֵי יָמִים וְלַיְלָה אֶחָד. הַפֶּסַח אֵינוֹ נֶאֱכָל אֶלָּא בַלַּיְלָה, וְאֵינוֹ נֶאֱכָל אֶלָּא עַד חֲצוֹת, וְאֵינוֹ נֶאֱכָל אֶלָּא לִמְנוּיָו, וְאֵינוֹ נֶאֱכָל אֶלָּא צָלִי:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 5:8
אָמַר רַחֲמָנָא בַּבְּכוֹר אֶת דָּמָם תִּזְרֹק עַל הַמִּזְבֵּחַ, וְלֹא אָמַר אֶת דָּמוֹ... וּמַעֲשַׂר בְּהֵמָה שֶׁמַּקְרִיבִין מִמֶּנָּה הָאֵימוּרִים וְאוֹכְלִין הַבְּעָלִים הַנּוֹתָר... וְהַבְּכוֹר אוֹכְלִים אוֹתוֹ הַכֹּהֲנִים, וְכֵן כָּתוּב בּוֹ וּבְשָׂרָם יִהְיֶה לְךָ כַּחֲזֵה הַתְּנוּפָה... וַאֲשֶׁר הִצְרַכְנוּ שֶׁתְּהֵא מַתָּנָה כְּנֶגֶד הַיְסוֹד, לְפִי שֶׁנֶּאֱמַר בָּעוֹלָה וְזָרְקוּ אֶת הַדָּם, וְאָמַר בְּאֵלּוּ אֶת דָּמָם תִּזְרֹק עַל הַמִּזְבֵּחַ.

Rambam nota uma sutileza gramatical: a Torá fala do sangue do primogénito no plural (“seu sangue”, referindo-se a vários animais), o que ensina que basta uma única aplicação para cada um, diferentemente da oferenda de subida. Explica que o dízimo animal é tratado como a oferenda de paz — os donos comem o que sobra, sem porção sacerdotal alguma — enquanto o primogénito pertence integralmente aos sacerdotes, por equiparação explícita ao peito e à coxa da oferenda de paz. E deriva a exigência de que a aplicação seja feita “defronte à base” por analogia verbal (gezeirá shavá) com a mesma expressão usada para a oferenda de subida.

Bartenura · Zevachim 5:8
וְדָמָן טָעוּן מַתָּנָה אַחַת. דְּלֹא כְתִיב בְּהוּ סָבִיב, אֶלָּא וְאֶת דָּמָם תִּזְרוֹק כְּתִיב גַּבֵּי בְּכוֹר. כְּנֶגֶד הַיְסוֹד. בְּמָקוֹם שֶׁיֵּשׁ יְסוֹד תַּחְתָּיו, לְמַעוֹטֵי מִזְרָחִית דְּרוֹמִית שֶׁאֵין שָׁם יְסוֹד... הַמַּעֲשֵׂר לְכָל אָדָם. שֶׁלֹּא מָצִינוּ בְּכָל הַתּוֹרָה שֶׁיִּהְיֶה לַכֹּהֲנִים חֵלֶק בּוֹ. וְנֶאֱכָלִין בְּכָל הָעִיר. דִּכְתִיב וַהֲבֵאתֶם שָׁמָּה עֹלֹתֵיכֶם וְזִבְחֵיכֶם וְאֶת מַעְשְׂרֹתֵיכֶם. לִמְנוּיָו. לְאוֹתָם שֶׁנִּמְנוּ בִּדְמֵי לְקִיחָתוֹ, כְּדִכְתִיב אִישׁ לְפִי אָכְלוֹ תָּכֹסּוּ.

Bartenura explica que a única aplicação de sangue destas três oferendas decorre da ausência, em seus versículos, da palavra “ao redor” (saviv) usada para a oferenda de subida — e que “defronte à base” exclui especificamente o chifre sudeste, o único sem base própria. Justifica o dízimo ser comido por qualquer pessoa por não haver, em toda a Torá, menção de porção sacerdotal nele; localiza a fonte para o consumo em toda a cidade; e explica “seus inscritos” como aqueles que se registraram previamente para participar daquele cordeiro pascal específico, conforme o versículo do Êxodo sobre contar as pessoas segundo o que cada uma pode comer.

סְלִיקָא לַהּ מַסֶּכְתָּא — פֶּרֶק ה׳
Aqui se conclui o Perek Hei de Massechet Zevachim, o quinto capítulo do primeiro tratado de Seder Kodashim — o célebre “Eizehu Mekoman” (qual é o lugar deles), recitado tradicionalmente todas as manhãs na seção dos Korbanot da oração. Ao longo de oito mishnayot, o capítulo percorreu sistematicamente toda a hierarquia das oferendas, do grau de santidade mais elevado ao mais simples: primeiro as oferendas de santidade suprema cujo sangue penetra no Santo dos Santos — o touro e o bode de Yom Kipur (5:1) e os demais touros e bodes queimados (5:2); depois as oferendas de pecado cujo sangue é aplicado nos quatro chifres do altar externo (5:3); a oferenda de subida, consumida por inteiro pelo fogo (5:4); as oferendas de paz da comunidade e as seis oferendas de culpa (5:5); e, por fim, as oferendas de santidade leve — a oferenda de agradecimento e o carneiro do nazireu (5:6), a oferenda de paz comum (5:7) e, nesta última mishná, o primogênito, o dízimo animal e o cordeiro pascal (5:8), cada um com sua própria particularidade de consumo. Por possuir Guemará no Talmud Bavli, as mishnayot deste capítulo se distribuem por Zevachim 47a–47b, 53a, 53b–54b, 54b–55a e 55a–57b, e a maioria reuniu, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva sugya — exceto onde a própria Guemará não registrou comentário específico de Rashi sobre aquele trecho. O estudo de Massechet Zevachim prossegue nos nove perakim seguintes, ainda por construir.