Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Hei · Mishná 7 de 8

As oferendas de paz: comidas por dois dias e uma noite

לִשְׁנֵי יָמִים וְלַיְלָה אֶחָד
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A sétima mishná trata da oferenda de paz comum (shelamim), irmã da oferenda de agradecimento tratada na mishná anterior, mas sem a exigência de pães que a acompanham — razão pela qual seu prazo de consumo é consideravelmente mais longo: dois dias e a noite intermediária, em vez de apenas um dia e uma noite.

As oferendas de paz são santidade leve. Seu abate é em qualquer lugar do pátio, e seu sangue requer duas aplicações que são quatro.Como a oferenda de agradecimento e o carneiro do nazireu, a oferenda de paz comum também pode ser abatida em qualquer ponto do pátio, com o mesmo regime de duas aplicações diagonais do sangue.

E são comidas em toda a cidade, por qualquer pessoa, em qualquer forma de alimento, por dois dias e uma noite.Aqui está a diferença decisiva em relação à mishná anterior: por não vir acompanhada de pães que apressariam sua deterioração, a oferenda de paz comum recebe um prazo de consumo muito mais generoso — o dia do abate, a noite seguinte e ainda todo o dia posterior.

O que é retirado delas é como elas, exceto que o retirado é comido pelos sacerdotes, suas mulheres, seus filhos e seus servos.Tal como na oferenda de agradecimento, a porção sacerdotal (peito e coxa) segue o mesmo prazo e local de consumo da carne comum, mas pode ser partilhada com toda a casa do sacerdote — esposa, filhos e escravos — e não apenas com ele.

שְׁלָמִים, קָדָשִׁים קַלִּים, שְׁחִיטָתָן בְּכָל מָקוֹם בָּעֲזָרָה, וְדָמָן טָעוּן שְׁתֵּי מַתָּנוֹת שֶׁהֵן אַרְבַּע, וְנֶאֱכָלִין בְּכָל הָעִיר לְכָל אָדָם, בְּכָל מַאֲכָל, לִשְׁנֵי יָמִים וְלַיְלָה אֶחָד. הַמּוּרָם מֵהֶם כַּיּוֹצֵא בָהֶן, אֶלָּא שֶׁהַמּוּרָם נֶאֱכָל לַכֹּהֲנִים, לִנְשֵׁיהֶם וְלִבְנֵיהֶם וּלְעַבְדֵיהֶם:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 5:7
אָמַר רַחֲמָנָא עַל הַשְּׁלָמִים וּשְׁחָטוֹ פֶּתַח אֹהֶל מוֹעֵד, וְאָמְרוּ לְהַכְשִׁיר כָּל הָרוּחוֹת, לְפִי שֶׁלֹּא יִחֵד בּוֹ צָפוֹנָה... וְאָמַר בְּמִינֵי שְׁלָמִים מִלְּבַד תּוֹדָה וְאֵיל נָזִיר שֶׁדּוֹמֶה לוֹ, אָמַר בּוֹ וְהַנּוֹתָר מִבְּשַׂר הַזֶּבַח בַּיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי בָּאֵשׁ יִשָּׂרֵף, וְאֵינָן נֶאֱכָלִין אֶלָּא בְּיוֹם הַשְּׁחִיטָה וְהַלַּיְלָה וּמִמָּחֳרָת עַד לֵיל שְׁלִישִׁי.

Rambam explica que a Torá menciona “à porta da Tenda do Encontro” a respeito da oferenda de paz, sem especificar o norte, precisamente para habilitar todos os lados do pátio como local de abate. E deriva o prazo de dois dias e uma noite do versículo que declara que a carne remanescente deve ser queimada “no terceiro dia” — o que implica que ela era comestível até então, ou seja, no dia do abate, na noite seguinte e em todo o dia posterior.

Bartenura · Zevachim 5:7
שְׁחִיטָתָן בְּכָל מָקוֹם בָּעֲזָרָה. שָׁלֹשׁ פָּרָשִׁיּוֹת נֶאֶמְרוּ בִּשְׁחִיטַת שְׁלָמִים, חֲדָא בְּבֶן בָּקָר וַחֲדָא בְּכֶשֶׂב וַחֲדָא בְּעֵז. בְּקַמַּיְתָא כְתִיב וּשְׁחָטוֹ פֶּתַח אֹהֶל מוֹעֵד, וּבְתַרְתֵּי בָתְרַיְתָא כְתִיב לִפְנֵי אֹהֶל מוֹעֵד, לְהַכְשִׁיר אֶת כָּל הָרוּחוֹת שֶׁבָּעֲזָרָה. לִשְׁנֵי יָמִים וְלַיְלָה אֶחָד. דְּהָכִי כְתִיב בִּשְׁלָמִים וְהַנּוֹתָר מִבְּשַׂר הַזֶּבַח בַּיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי בָּאֵשׁ יִשָּׂרֵף.

Bartenura observa que a Torá trata da oferenda de paz em três passagens distintas (bovino, ovino e caprino), e que a variação de linguagem entre elas — “à porta” na primeira, “perante a porta” nas outras duas — ensina que todo o pátio, e não apenas o ponto exato diante da entrada, é válido para o abate. Confirma o prazo de dois dias e uma noite a partir do mesmo versículo citado por Rambam sobre a queima no terceiro dia.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Rashi sobre a Guemará de Zevachim, 55b
דְּנִיבָּעֵי פֶּתַח אֹהֶל מוֹעֵד — כִּדְאָמְרִינַן לְקַמָּן שֶׁאִם אֵין שָׁם פֶּתַח... וְחַד לְהַכְשִׁיר צְדָדִין — כָּל רֹחַב הָעֲזָרָה, דְּלָא תֵּימָא כְּנֶגֶד הַפֶּתַח דַּוְקָא... וְחַד לִפְסֹל צִדֵּי צְדָדִין — כְּגוֹן לְשָׁכוֹת, וַאֲפִלּוּ תּוֹכָן קֹדֶשׁ, פְּסוּלוֹת לִשְׁחִיטָה.

Rashi detalha a lógica das três expressões bíblicas: uma exige que haja de fato uma “porta” aberta do Santuário no momento do abate (senão o abate é inválido); outra habilita toda a largura do pátio, não apenas o ponto exatamente diante da porta; e a terceira, ainda assim, desqualifica as câmaras laterais construídas junto ao pátio — mesmo aquelas cujo interior tem santidade plena — como locais válidos para o abate, por não estarem verdadeiramente “diante” da porta.