Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Guimel · Mishná 5 de 6

Feto, placenta e ovos: o que não é o corpo da oferenda

הַשּׁוֹחֵט אֶת הַמֻּקְדָּשִׁין לֶאֱכֹל שָׁלִיל אוֹ שִׁלְיָא בַחוּץ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná continua a série de "partes que não contam" iniciada em 3:4, mas passa de partes do próprio corpo do animal para elementos ainda mais externos a ele: o que uma fêmea gestante carrega dentro de si, e os ovos que uma ave ainda porta no corpo no momento de sua melica.

Quem abate as [fêmeas] consagradas com a intenção de comer o feto ou a placenta fora [do lugar devido] — não fez pigul.Quando uma fêmea grávida é abatida como oferenda, seu feto (shalil) e sua placenta (shilyá) tecnicamente se tornam permitidos ao consumo junto com o abate da mãe — mas nenhum dos dois é, halachicamente, "o corpo da oferenda" propriamente dito. Por isso, a intenção de comê-los fora do lugar devido, tida durante o abate, não tem poder de transformar a oferenda em pigul.

Quem faz a melica das rolinhas dentro [do átrio] com a intenção de comer seus ovos fora — não fez pigul.O mesmo princípio se aplica à melica (a forma especial de abate das aves, feita com a unha do sacerdote na nuca) de rolinhas oferecidas: se, durante esse ato, o sacerdote tiver em mente comer os ovos que a ave ainda carrega dentro do corpo fora do átrio, essa intenção não produz pigul — pois os ovos, como o feto e a placenta, não são o corpo da ave em si.

Do leite das [fêmeas] consagradas e dos ovos das rolinhas, não há responsabilidade por eles quanto a pigul, notar e tameh.A mishná generaliza o princípio para além do momento do abate: mesmo depois de pronta a oferenda, quem consome o leite de uma fêmea consagrada ou os ovos de uma rolinha oferecida não incorre em nenhuma das três transgressões que normalmente recaem sobre a carne da oferenda — pigul, notar (sobra além do prazo) ou consumo em impureza —, precisamente porque leite e ovos, como feto, placenta, pele e ossos, nunca são considerados o corpo da oferenda.

הַשּׁוֹחֵט אֶת הַמֻּקְדָּשִׁין לֶאֱכֹל שָׁלִיל אוֹ שִׁלְיָא בַחוּץ, לֹא פִגֵּל. הַמּוֹלֵק תּוֹרִין בִּפְנִים לֶאֱכֹל בֵּיצֵיהֶם בַּחוּץ, לֹא פִגֵּל. חֲלֵב הַמֻּקְדָּשִׁין וּבֵיצֵי תוֹרִין, אֵין חַיָּבִין עֲלֵיהֶן מִשּׁוּם פִּגּוּל וְנוֹתָר וְטָמֵא:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 3:5
כְּבָר יָדַעְתָּ שֶׁהַזֶּבַח לֹא יִהְיֶה פִּגּוּל אֶלָּא אִם חָשַׁב עָלָיו חוּץ לִזְמַנּוֹ כְּמוֹ שֶׁנִּזְכַּר. וּלְפִיכָךְ יִהְיֶה סֵדֶר הַמִּשְׁנָה כָּךְ: הַשּׁוֹחֵט אֶת הַמֻּקְדָּשִׁים לֶאֱכֹל שָׁלִיל אוֹ שִׁלְיָא בַּחוּץ, לֹא פָּסַל, וְכֵן אִם חָשַׁב לֶאֱכֹל מֵהֶם חוּץ לִזְמַנָּן לֹא פִגֵּל, לְפִי שֶׁהֵן מְאוּסִים עַל הָאָדָם כְּמוֹ הָעוֹר וְהָאָלָל. וְשָׁלִיל הוּא הָעֻבָּר הַנִּמְצָא בְּגוּף הַבְּהֵמָה קֹדֶם גְּמַר בְּרִיָּתוֹ, וְשִׁלְיָא הוּא הַמְכַסֶּה אֲשֶׁר עַל הַשָּׁלִיל בְּגוּף. וּשְׁאָר הַהֲלָכָה מְבֹאֶרֶת מִמַּה שֶּׁרָמַזְנוּ בְּכָאן וְזָכַרְנוּ בְּפֵרוּשׁ הַהֲלָכָה שֶׁלִּפְנֵי זֹאת.

Rambam observa que o texto da mishná, ao dizer apenas "não fez pigul" (em vez de "não invalidou"), pressupõe o princípio já estabelecido: uma oferenda só se torna pigul quando a intenção proibida recai sobre "fora de seu tempo". Por isso a mishná deveria, a rigor, ser lida com ambas as possibilidades: tanto a intenção de comer o feto ou a placenta fora do lugar quanto fora do tempo não produzem qualquer efeito — nem invalidação, nem pigul —, pois esses elementos são "repugnantes" ao paladar humano da mesma forma que a pele e os restos mencionados na mishná anterior. Rambam define os termos: shalil é o feto ainda dentro do corpo do animal, antes de completar sua formação; shilyá é a membrana que o envolve.

Bartenura · Zevachim 3:5
הַשּׁוֹחֵט אֶת הַמֻּקְדָּשִׁין. כָּל הֵיכָא דְּנָקַט הַאי לִישָׁנָא, מַיְרֵי בִּנְקֵבוֹת. לֶאֱכֹל שָׁלִיל. שֶׁבְּמֵעֶיהָ. אוֹ שִׁלְיָא. הָעוֹר הַחוֹפֶה אֶת הַוָּלָד. אֵין מַחֲשָׁבָה זוֹ פּוֹסֶלֶת אֶת הַזֶּבַח, דִּשְׁלִיל וְשִׁלְיָא לָאו גּוּפָא דְזִבְחָא הוּא. לֹא פִגֵּל. הָכִי קָאָמַר: הַשּׁוֹחֵט אֶת הַמֻּקְדָּשִׁין לֶאֱכֹל שְׁלִיל אוֹ שִׁלְיָא חוּץ לִמְקוֹמוֹ, לֹא פָסַל, וְאִם חָשַׁב לֶאֱכֹל מֵהֶן חוּץ לִזְמַנּוֹ, לֹא פִגֵּל. חֲלֵב הַמֻּקְדָּשִׁין וּבֵיצֵי תוֹרִין אֵין חַיָּבִין עֲלֵיהֶן מִשּׁוּם פִּגּוּל. אִם פִּגֵּל בַּזֶּבַח וְאָכַל מֵחָלָב שֶׁבְּדַדֶּיהָ, לֹא מְחֻיָּב עָלֶיהָ מִשּׁוּם פִּגּוּל, דְּלָאו גּוּפָא דְזִבְחָא הוּא.

Bartenura observa, como nota de leitura, que a expressão "os consagrados" (no feminino, muksdashin) usada nesta mishná sempre se refere a fêmeas. Define shalil como o que está em suas entranhas, e shilyá como a membrana que envolve o feto. Explica que a fórmula econômica da mishná ("não fez pigul") deve ser desdobrada em dois casos: quem tem a intenção de comer feto ou placenta fora do lugar não invalida a oferenda; quem a tem fora do tempo, não a torna pigul. E, sobre a cláusula final, esclarece que ela se aplica mesmo quando a oferenda já foi tornada pigul por outro motivo — quem come do leite que está nas tetas da fêmea não se torna responsável por pigul, precisamente porque o leite não é o corpo da oferenda.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Rashi sobre a Guemará de Zevachim, 35a
את המוקדשין — כל היכא דנקיט האי לישנא מיירי בנקבות:

לאכול שליל — שבמעיה:

לא פיגל — את הזבח, דלאו גופיה דזיבחא הוא:

חלב המוקדשין — חלב שבדדיה:

אין חייבין עליהן משום פיגול — אם פיגל בזבח ואכל מחלבה, לא מחייב כרת, דלאו זיבחא הוא:

Rashi confirma que "os consagrados", nesta formulação, refere-se sempre a fêmeas, e que o shalil é o feto contido nas entranhas do animal. Explica que a razão de a intenção de comê-lo fora do lugar não constituir pigul é simplesmente que ele "não é o corpo da oferenda" — a mesma lógica que já apareceu para pele, ossos e chifres na mishná anterior. E, sobre o leite, esclarece o caso concreto: mesmo que a oferenda já tenha sido tornada pigul por intenção sobre a carne, quem depois come do leite presente nas tetas do animal não fica sujeito a karet, precisamente porque o leite não é a oferenda em si.