Quem abate as [fêmeas] consagradas com a intenção de comer o feto ou a placenta fora [do lugar devido] — não fez pigul. — Quando uma fêmea grávida é abatida como oferenda, seu feto (shalil) e sua placenta (shilyá) tecnicamente se tornam permitidos ao consumo junto com o abate da mãe — mas nenhum dos dois é, halachicamente, "o corpo da oferenda" propriamente dito. Por isso, a intenção de comê-los fora do lugar devido, tida durante o abate, não tem poder de transformar a oferenda em pigul.
Quem faz a melica das rolinhas dentro [do átrio] com a intenção de comer seus ovos fora — não fez pigul. — O mesmo princípio se aplica à melica (a forma especial de abate das aves, feita com a unha do sacerdote na nuca) de rolinhas oferecidas: se, durante esse ato, o sacerdote tiver em mente comer os ovos que a ave ainda carrega dentro do corpo fora do átrio, essa intenção não produz pigul — pois os ovos, como o feto e a placenta, não são o corpo da ave em si.
Do leite das [fêmeas] consagradas e dos ovos das rolinhas, não há responsabilidade por eles quanto a pigul, notar e tameh. — A mishná generaliza o princípio para além do momento do abate: mesmo depois de pronta a oferenda, quem consome o leite de uma fêmea consagrada ou os ovos de uma rolinha oferecida não incorre em nenhuma das três transgressões que normalmente recaem sobre a carne da oferenda — pigul, notar (sobra além do prazo) ou consumo em impureza —, precisamente porque leite e ovos, como feto, placenta, pele e ossos, nunca são considerados o corpo da oferenda.
Rambam observa que o texto da mishná, ao dizer apenas "não fez pigul" (em vez de "não invalidou"), pressupõe o princípio já estabelecido: uma oferenda só se torna pigul quando a intenção proibida recai sobre "fora de seu tempo". Por isso a mishná deveria, a rigor, ser lida com ambas as possibilidades: tanto a intenção de comer o feto ou a placenta fora do lugar quanto fora do tempo não produzem qualquer efeito — nem invalidação, nem pigul —, pois esses elementos são "repugnantes" ao paladar humano da mesma forma que a pele e os restos mencionados na mishná anterior. Rambam define os termos: shalil é o feto ainda dentro do corpo do animal, antes de completar sua formação; shilyá é a membrana que o envolve.
Bartenura observa, como nota de leitura, que a expressão "os consagrados" (no feminino, muksdashin) usada nesta mishná sempre se refere a fêmeas. Define shalil como o que está em suas entranhas, e shilyá como a membrana que envolve o feto. Explica que a fórmula econômica da mishná ("não fez pigul") deve ser desdobrada em dois casos: quem tem a intenção de comer feto ou placenta fora do lugar não invalida a oferenda; quem a tem fora do tempo, não a torna pigul. E, sobre a cláusula final, esclarece que ela se aplica mesmo quando a oferenda já foi tornada pigul por outro motivo — quem come do leite que está nas tetas da fêmea não se torna responsável por pigul, precisamente porque o leite não é o corpo da oferenda.
Rashi confirma que "os consagrados", nesta formulação, refere-se sempre a fêmeas, e que o shalil é o feto contido nas entranhas do animal. Explica que a razão de a intenção de comê-lo fora do lugar não constituir pigul é simplesmente que ele "não é o corpo da oferenda" — a mesma lógica que já apareceu para pele, ossos e chifres na mishná anterior. E, sobre o leite, esclarece o caso concreto: mesmo que a oferenda já tenha sido tornada pigul por intenção sobre a carne, quem depois come do leite presente nas tetas do animal não fica sujeito a karet, precisamente porque o leite não é a oferenda em si.