Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Guimel · Mishná 4 de 6

Pele, caldo e ossos: partes que não contam para o pigul

לֶאֱכֹל כַּזַּיִת מִן הָעוֹר, מִן הָרֹטֶב, מִן הַקִּיפָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Continuando o tema de 3:3 — a intenção só invalida quando recai sobre o destino natural de uma parte da oferenda —, a mishná agora lista concretamente uma série de partes do animal que, mesmo comidas na prática, não são consideradas "a carne" da oferenda para fins de pigul, notar ou impureza.

Quem abate a oferenda com a intenção de comer um azeitona da pele, do caldo, do tempero, dos restos [de carne aderidos à pele], dos ossos, dos tendões, dos cascos, dos chifres — fora de seu tempo ou fora de seu lugar — é válido, e não há responsabilidade por eles quanto a pigul, notar e tameh.A mishná enumera oito categorias de material que, embora tecnicamente comestíveis ou usados na preparação da carne, não são consideradas parte do "corpo" da oferenda para efeitos destas três leis: a pele, o caldo do cozimento, o tempero que se deposita no fundo da panela junto com fiapos de carne, os restos de carne que ficam grudados na pele ao esfolar o animal, os ossos, os tendões, os cascos e os chifres (mesmo a parte próxima à carne viva, de onde sai sangue ao cortar). A intenção de comer um azeitona inteiro de qualquer uma dessas partes fora do tempo ou do lugar devido não transforma a oferenda em pigul, nem torna quem a come depois responsável por notar (sobra além do prazo) ou por comer em impureza — precisamente porque nenhuma delas é considerada "carne" da oferenda no sentido halachico pleno.

הַשּׁוֹחֵט אֶת הַזֶּבַח לֶאֱכֹל כַּזַּיִת מִן הָעוֹר, מִן הָרֹטֶב, מִן הַקִּיפָה, מִן הָאָלָל, מִן הָעֲצָמוֹת, מִן הַגִּידִים, מִן הַטְּלָפַיִם, מִן הַקַּרְנַיִם, חוּץ לִזְמַנּוֹ אוֹ חוּץ לִמְקוֹמוֹ, כָּשֵׁר, וְאֵין חַיָּבִים עֲלֵיהֶם מִשּׁוּם פִּגּוּל וְנוֹתָר וְטָמֵא:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 3:4
רֹטֶב הוּא הַמָּרָק, וְקִיפָּה הוּא הַתַּבְלִין שֶׁמְּבַשְּׁלִים בַּתַּבְשִׁיל הָרָאוּי לָהֶן. וְאָלָל, שְׁיוּרֵי הַבָּשָׂר הַמִּתְדַּבְּקִים בָּעוֹר בִּשְׁעַת הֶפְשֵׁט. וְגִידִים, שֵׁם נוֹפֵל עַל הַגִּידִים מַמָּשׁ וְעַל הָעוֹרְקִים הַדּוֹפְקִים וְשֶׁאֵינָן דּוֹפְקִין, וְעַל הַמֵּיתָרִים, וְעַל הַגִּידִים הַקּוֹשְׁרִים הַפְּרָקִים. וּכְשֶׁהוּא אוֹמֵר בָּזֶה הָעִנְיָן קְרָנַיִם וּטְלָפַיִם, רְצוֹנוֹ לוֹמַר קְצוֹת הַדַּקּוֹת מֵהַקְּרָנַיִם וְהַטְּלָפַיִם הַסְּמוּכוֹת לַגּוּף, שֶׁכְּשֶׁחוֹתְכִין אוֹתָם מְבַצְבֵּץ מֵהֶם דָּם. אָמַר: אִם חָשַׁב עַל כַּזַּיִת עַל שׁוּם דָּבָר מִכָּל זֶה לְאָכְלוֹ חוּץ לִמְקוֹמוֹ, לֹא פָּסַל הַזֶּבַח, אֲבָל הוּא זֶבַח כָּשֵׁר, לְפִי שֶׁאֵלֶּה הַדְּבָרִים אַף עַל פִּי שֶׁנֶּאֱכָלִין אֵין חוֹשְׁשִׁין לָהֶן וְאֵין סוֹמְכִין עֲלֵיהֶם לְאָכְלָם. וְכֵן אִם הָיָה הַקָּרְבָּן עַצְמוֹ פִּגּוּל אוֹ נוֹתָר, וְאָכַל כַּזַּיִת מֵאוֹתוֹ הַפִּגּוּל אוֹ הַנּוֹתָר, אוֹ אָכַל מִזֶּבַח כָּשֵׁר וְהָיָה הָאוֹכֵל טָמֵא, וְלֹא אָכַל מִשּׁוּם אֶחָד מֵהֶן הַבָּשָׂר עַצְמוֹ רַק מִן הַקְּרָנַיִם וּמִן הַטְּלָפַיִם וּמִן הָעוֹר, וְכָל מַה שֶּׁסִּפַּרְנוּ, אֵינוֹ חַיָּב כָּרֵת, כְּמוֹ שֶׁחַיָּב הָאוֹכֵל בְּשַׂר נוֹתָר אוֹ פִּגּוּל, אוֹ הָאוֹכֵל בְּשַׂר קָדָשִׁים וְהוּא טָמֵא.

Rambam define tecnicamente cada termo: rotev é o caldo do cozimento; kipá é o tempero cozido junto ao prato próprio para ele; alal são os restos de carne que ficam aderidos à pele no momento de esfolar; guidim abrange tanto os tendões propriamente ditos quanto as artérias (que pulsam) e veias (que não pulsam), os ligamentos e os tendões que unem as articulações; e, ao mencionar chifres e cascos, refere-se especificamente às pontas finas, próximas ao corpo, de onde escorre sangue quando cortadas. Rambam então generaliza: quem tem a intenção de comer um azeitona de qualquer uma dessas partes fora do lugar devido não invalida a oferenda — que permanece plenamente válida —, porque, embora tecnicamente comestíveis, ninguém se preocupa com elas nem conta com elas para efetivamente alimentar-se. E aplica o mesmo princípio de forma ainda mais ampla: mesmo que a oferenda já seja, por outro motivo, pigul ou notar, e alguém coma um azeitona inteiro dessas partes — pele, chifres, cascos — em vez da carne propriamente dita, ou as coma em estado de impureza, não há responsabilidade de karet, ao contrário do que ocorre com quem come a carne real de uma oferenda pigul, notar, ou consumida em impureza.

Bartenura · Zevachim 3:4
קִיפָּה. תַּבְלִין וְדַק דַּק שֶׁבְּשׁוּלֵי קְדֵרָה. אָלָל. שִׁיּוּרֵי הַבָּשָׂר הַנִּדְבָּקִים בָּעוֹר בִּשְׁעַת הֶפְשֵׁט. פֵּרוּשׁ אַחֵר: גִּיד הַצַּוָּאר, שֶׁהוּא קָשֶׁה וְאֵינוֹ רָאוּי לַאֲכִילָה. הַקַּרְנַיִם וְהַטְּלָפַיִם. וַאֲפִלּוּ מַה שֶּׁיֵּשׁ בָּהֶן קָרוֹב לַבָּשָׂר, שֶׁכְּשֶׁחוֹתְכִין אוֹתוֹ יוֹצֵא מִמֶּנּוּ דָם, לָא חֲשִׁיב כְּבָשָׂר. וְאֵין חַיָּבִין עֲלֵיהֶם מִשּׁוּם פִּגּוּל. אִם הָיָה הַזֶּבַח פִּגּוּל, שֶׁחָשַׁב עַל בְּשָׂרוֹ לְאָכְלוֹ חוּץ לִזְמַנּוֹ, וְאָכַל מֵאֵלּוּ, פָּטוּר. וְטָמֵא. אִם אָכַל מֵאַחַת מֵאֵלֶּה בְּטֻמְאַת הַגּוּף מִזֶּבַח כָּשֵׁר, אֵינוֹ חַיָּב מִשּׁוּם אוֹכֵל קָדָשִׁים בְּטֻמְאַת הַגּוּף.

Bartenura acrescenta uma segunda explicação para alal: em vez de "restos de carne aderidos à pele", pode ser o tendão do pescoço, que é duro e impróprio para consumo. Sobre chifres e cascos, esclarece que mesmo a porção próxima à carne viva — de onde sai sangue quando cortada — não é considerada carne. E, importante, expande o alcance da mishná para além do caso de pigul por intenção durante o abate: se a oferenda já é pigul por outro motivo e alguém depois come dessas partes (pele, chifres, cascos etc.) em vez da carne, está isento de karet; da mesma forma, quem come essas partes em estado de impureza corporal, tendo a oferenda em si sido abatida corretamente, não é responsável pela transgressão de comer coisas sagradas em impureza.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Rashi sobre a Guemará de Zevachim, 35a
קיפה — מפרש בהעור והרוטב (חולין דף קכ.), תבלין ודקדקת הבשר השוכנת בשולי קדרה:

אלל — גיד הצואר שהוא קשה ואין ראוי לאכילה:

ואין חייבין עליהן משום פיגול — אם היה הזבח פגול שחישב על בשרו או על אימוריו חוץ לזמנו ונתפגל, האוכל מאלו פטור:

וטמא — אם אכל בטומאת הגוף מאחת מאלה, הזבח כשר:

Rashi remete a definição de kipá ao tratado de Chulin, onde é explicada como o tempero e os fragmentos finos de carne que se depositam no fundo da panela durante o cozimento. Adota, para alal, a explicação do tendão do pescoço — duro e impróprio para consumo. E confirma os dois princípios finais da mishná: se a oferenda já se tornou pigul por causa da intenção sobre a carne ou sobre as partes destinadas ao altar, quem depois come dessas oito categorias periféricas em vez da carne está isento de karet; e, mesmo comendo-as em estado de impureza corporal quando a oferenda em si foi abatida validamente, também não há responsabilidade.