Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Yud-Dalet · Mishná 9 de 10

Consagração e oferenda em tempos de proibição ou permissão dos altares particulares

כָּל הַקֳּדָשִׁים שֶׁהִקְדִּישָׁן בִּשְׁעַת אִסּוּר בָּמוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Depois de narrar a sequência histórica de proibições e permissões, a mishná retorna ao plano legal e examina uma questão que essa própria alternância torna possível: o que ocorre quando a consagração de um sacrifício e sua oferenda indevida em altar particular acontecem em momentos de status jurídico diferente. A resposta depende inteiramente de qual dos dois momentos — a consagração ou a oferenda — ocorreu em tempo de proibição.

Todas as consagrações que consagrou no tempo da proibição dos altares particulares, e as ofereceu no tempo da proibição dos altares particulares fora, eis que transgridem um preceito positivo e um preceito negativo, e há responsabilidade de extirpação por elas.

Todas as consagrações que consagrou no tempo da proibição dos altares particulares, e as ofereceu no tempo da proibição dos altares particulares fora, eis que transgridem um preceito positivo e um preceito negativo, e há responsabilidade de extirpação por elas.Quando tanto a consagração quanto a oferenda indevida ocorrem em período de proibição dos altares particulares, a transgressão é completa nos dois planos: viola-se o preceito positivo de trazer as oferendas ao lugar escolhido, e o preceito negativo de não as oferecer em qualquer outro lugar — e, como se trata do caso mais grave, em que a proibição vigorava em todo o processo, há responsabilidade pela pena máxima de extirpação.

כָּל הַקֳּדָשִׁים שֶׁהִקְדִּישָׁן בִּשְׁעַת אִסּוּר בָּמוֹת, וְהִקְרִיבָן בִּשְׁעַת אִסּוּר בָּמוֹת בַּחוּץ, הֲרֵי אֵלּוּ בַעֲשֵׂה וְלֹא תַעֲשֶׂה, וְחַיָּבִין עֲלֵיהֶן כָּרֵת.
Consagrou-as no tempo da permissão dos altares particulares, e as ofereceu no tempo da proibição dos altares particulares, eis que transgridem um preceito positivo e um preceito negativo, mas não há responsabilidade de extirpação por elas.

Consagrou-as no tempo da permissão dos altares particulares, e as ofereceu no tempo da proibição dos altares particulares, eis que transgridem um preceito positivo e um preceito negativo, mas não há responsabilidade de extirpação por elas.Quando a consagração ocorreu em período de permissão — momento em que oferecer em altar particular ainda não seria transgressão alguma — mas a oferenda efetiva foi adiada até um período de proibição, ainda se transgridem os dois preceitos, pois a proibição vigora no momento decisivo da oferenda. Mas a extirpação, a pena mais grave, exige que a própria consagração já tivesse ocorrido sob proibição — condição que aqui não se cumpre.

הִקְדִּישָׁן בִּשְׁעַת הֶתֵּר בָּמוֹת, וְהִקְרִיבָן בִּשְׁעַת אִסּוּר בָּמוֹת, הֲרֵי אֵלּוּ בַעֲשֵׂה וְלֹא תַעֲשֶׂה, וְאֵין חַיָּבִין עֲלֵיהֶן כָּרֵת.
Consagrou-as no tempo da proibição dos altares particulares e as ofereceu no tempo da permissão dos altares particulares, eis que transgridem apenas um preceito positivo, e não há nelas preceito negativo.

Consagrou-as no tempo da proibição dos altares particulares e as ofereceu no tempo da permissão dos altares particulares, eis que transgridem apenas um preceito positivo, e não há nelas preceito negativo.No caso inverso — consagração em tempo de proibição, mas a oferenda adiada até um período em que os altares particulares voltaram a ser permitidos —, resta apenas a transgressão do preceito positivo de não ter trazido a oferenda ao lugar devido enquanto ainda era obrigatório, um descumprimento que já se consumou com o simples atraso. Mas, como no momento em que a oferenda de fato ocorreu os altares particulares já eram permitidos, não há mais preceito negativo algum a transgredir.

הִקְדִּישָׁן בִּשְׁעַת אִסּוּר בָּמוֹת וְהִקְרִיבָן בִּשְׁעַת הֶתֵּר בָּמוֹת, הֲרֵי אֵלּוּ בַעֲשֵׂה וְאֵין בָּהֶם בְּלֹא תַעֲשֶׂה.

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Devarim 12:8,11 · e Vayikra 17:4
לֹא תַעֲשׂוּן כְּכֹל אֲשֶׁר אֲנַחְנוּ עֹשִׂים פֹּה הַיּוֹם, אִישׁ כׇּל־הַיָּשָׁר בְּעֵינָיו. — וְהָיָה הַמָּקוֹם אֲשֶׁר־יִבְחַר יְהֹוָה אֱלֹהֵיכֶם בּוֹ לְשַׁכֵּן שְׁמוֹ שָׁם, שָׁמָּה תָבִיאוּ אֵת כׇּל־אֲשֶׁר אָנֹכִי מְצַוֶּה אֶתְכֶם, עֹלֹתֵיכֶם וְזִבְחֵיכֶם...
Não fareis como tudo o que fazemos aqui hoje, cada um o que é reto a seus próprios olhos. — E será que, ao lugar que o Senhor vosso Deus escolher para ali fazer habitar o Seu nome, ali trareis tudo o que eu vos ordeno: as vossas oferendas queimadas e os vossos sacrifícios...
A mishná combina três fontes: o preceito negativo de "não fareis como tudo o que fazemos aqui hoje" (Devarim 12:8), lido como proibição de oferecer fora do lugar escolhido; o preceito positivo de "ali trareis" (Devarim 12:11), que obriga a trazer as oferendas ao lugar devido; e o verso de Vayikra 17:4, fonte da extirpação para quem abate sacrifícios fora do lugar próprio — cuja aplicação, como a mishná demonstra, depende do momento exato da consagração, e não apenas do momento da oferenda.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 14:9
כל הקדשים שהקדישן בשעת איסור במות והקריבן כו': בעשה ולא תעשה, שעבר על מצות עשה ועל מצות לא תעשה, שנאמר השמר לך פן תעלה עולותיך, וכבר בארנו בסוף מכות שהעיקר בידינו כל מקום שנאמר השמר פן ואל אינו אלא מצות לא תעשה, והעברה על עשה הוא מה שנאמר שמה תביאו עולותיכם וגו'... וחייבים עליהן כרת לפי שהקדישן בשעת היתר במות, אפילו הקריב אותו בחוץ אינו חייב כלום, ואינו חייב כרת אם הקריבן בחוץ אלא על קרבן שאם הקריבו בשעת הקדישו בחוץ חייב כרת, כמו שהיה במדבר בזמן שהיה אסור להקריב בחוץ; והפרק השלישי שאמר בו הרי אלו בעשה, לפי שהקדיש בשעת איסור הבמות ולא הקריב אז במקדש, והואיל והקריב חוץ למקדש כבר עבר על מה שנאמר שמה תביאו:

Rambam esclarece que a transgressão de preceito positivo e negativo deriva, respectivamente, de "guarda-te, para que não ofereças tuas oferendas queimadas" — que, como já explicou no fim de Makot, é sempre um preceito negativo quando formulado como advertência — e de "ali trareis vossas oferendas queimadas". Sobre a extirpação, explica o princípio central da mishná: ela só se aplica quando a própria consagração já ocorreu em tempo de proibição, pois a regra é que só há extirpação por oferecer fora quando, no momento da consagração, oferecer fora já teria sido punível com extirpação — como ocorria no deserto, quando a proibição vigorava desde o início. Sobre o terceiro caso, em que resta apenas o preceito positivo, explica que a consagração em tempo de proibição sem a oferenda imediata já configura, por si só, o descumprimento desse preceito, independentemente de a oferenda futura ocorrer já em tempo de permissão.

Bartenura · Zevachim 14:9
הֲרֵי אֵלּוּ בַעֲשֵׂה. דְּשָׁמָּה תָבִיאוּ אֶת עוֹלוֹתֵיכֶם, דְּמַשְׁמַע אֲבָל לֹא בַּבָּמָה, וְלָאו הַבָּא מִכְּלָל עֲשֵׂה עֲשֵׂה; אִי נַמִּי, עֲשֵׂה וֶהֱבִיאוּם לַה', וְלֹא תַעֲשֶׂה דְּהִשָּׁמֵר לְךָ פֶּן תַּעֲלֶה עוֹלוֹתֶיךָ, וְכָל מָקוֹם שֶׁנֶּאֱמָר הִשָּׁמֵר פֶּן וְאַל אֵינוֹ אֶלָּא לֹא תַעֲשֶׂה: וְאֵין חַיָּבִין עֲלֵיהֶם כָּרֵת. כֵּיוָן שֶׁהִקְדִּישָׁם בִּשְׁעַת הֶתֵּר הַבָּמוֹת, שֶׁאֵין הַמַּקְרִיב בַּחוּץ חַיָּב כָּרֵת אֶלָּא עַל קָרְבָּן שֶׁאִם הִקְרִיבוֹ בַּחוּץ בִּשְׁעַת הֶקְדֵּשׁוֹ הָיָה חַיָּב, דּוּמְיָא דְמִדְבָּר, דְּבְכָרֵת דִּשְׁחוּטֵי חוּץ כְּתִיב חֻקַּת עוֹלָם תִּהְיֶה זֹאת לָהֶם, זֹאת לָהֶם וְאֵין אַחֶרֶת לָהֶם: הִקְדִּישָׁן בִּשְׁעַת אִסּוּר הַבָּמוֹת. מֵהַהִיא שַׁעְתָּא קָרִינַן בְּהוּ וֶהֱבִיאוּם לַה', וְכֵיוָן שֶׁהִמְתִּין עַד שֶׁלֹּא יָכוֹל לְקַיְּמוֹ נִתְבַּטֵּל הָעֲשֵׂה עַל יָדוֹ; אֲבָל לָאו וְכָרֵת לֵיכָּא, דְּאַזְהָרָה וְעֹנֶשׁ בִּשְׁעַת הַקְרָבָה כְתִיבֵי, וַהֲרֵי הֻתְּרוּ הַבָּמוֹת:

Bartenura oferece duas leituras possíveis para a fonte do preceito positivo e negativo do primeiro caso, ambas derivadas de versos de Devarim sobre trazer as oferendas ao lugar escolhido e sobre não as oferecer em qualquer outro lugar. Sobre a ausência de extirpação no segundo caso, explica o princípio central: só há extirpação por oferecer fora quando o próprio ato de consagrar já teria sido, naquele momento, uma consagração para algo cuja oferenda fora seria punível com extirpação — situação análoga à do deserto, e derivada da expressão "este é o estatuto perpétuo para eles", lida como "para eles, e não para outra situação". Sobre o terceiro caso, esclarece que, a partir do momento da consagração em tempo de proibição, já se aplica a obrigação de trazer a oferenda; e, ao deixar passar o tempo sem poder cumpri-la, o preceito positivo já foi violado por essa demora — mas não há preceito negativo nem extirpação, pois a advertência e a punição estão vinculadas ao momento da oferenda em si, e nesse momento os altares particulares já haviam voltado a ser permitidos.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Zevachim 112b, sobre a Guemará desta mishná
בְּעֲשֵׂה — וֶהֱבִיאוּם לַה' וְגוֹ': וְלֹא תַעֲשֶׂה — כִּדְיָלְפִינַן מִשָּׁם תַּעֲלֶה לִשְׁחִיטָה, וְאַזְהָרָה דְהַעֲלָאָה הִשָּׁמֶר לְךָ פֶּן תַּעֲלֶה עוֹלוֹתֶיךָ: וְחַיָּבִין עֲלֵיהֶן כָּרֵת — כִּדְכְתִיב וְאֶל פֶּתַח אֹהֶל מוֹעֵד לֹא הֱבִיאוֹ: וְאֵין חַיָּבִין עֲלֵיהֶן כָּרֵת — כִּדְאָמְרַן בְּהַשּׁוֹחֵט (לְעֵיל זבחים קו:), עַד כָּאן הוּא מְדַבֵּר בְּקָדָשִׁים שֶׁהִקְדִּישָׁן כוּ', וְקָתָנֵי סֵיפָא יָכוֹל יְהוּ חַיָּבִין עֲלֵיהֶן כָּרֵת, תַּלְמוּד לוֹמַר זֹאת לָהֶם וְאֵין אַחֶרֶת לָהֶם: הִקְדִּישָׁן בִּשְׁעַת אִסּוּר הַבָּמוֹת — מֵהַהִיא שַׁעְתָּא קָרִינַא בְּהוּ וֶהֱבִיאוּם לַה', וְכֵיוָן שֶׁהִמְתִּין עַד שֶׁלֹּא יָבֹא לְקַיְּמוֹ נִתְבַּטֵּל הָעֲשֵׂה עַל יָדוֹ; אֲבָל לָאו וְכָרֵת לֵיכָּא, דְּאַזְהָרָה וְעֹנֶשׁ בִּשְׁעַת הַקְרָבָה כְתִיבֵי, וַהֲרֵי הֻתְּרוּ הַבָּמוֹת:

Rashi confirma as duas fontes já citadas por Bartenura para o preceito positivo e negativo, e localiza a fonte da extirpação no mesmo verso já usado na primeira mishná do capítulo. Sobre a isenção de extirpação, remete a uma sugya anterior do tratado que já estabeleceu, a partir da expressão "este é para eles", o princípio de que a extirpação por oferecer fora exige que a consagração tenha ocorrido em tempo de proibição. Sobre o terceiro caso, explica com as mesmas palavras que a demora em cumprir o preceito positivo de trazer a oferenda, uma vez que os altares particulares foram proibidos no momento da consagração, já consuma a transgressão desse preceito por si só, independentemente do que ocorra depois — mas, como a proibição já havia terminado no momento em que a oferenda de fato se realizou, não há preceito negativo nem extirpação a aplicar.