A Mishná · הַמִּשְׁנָה
A mishná final do Perek Yud muda de assunto pela última vez: Rabi Shimão ensina como identificar, apenas pelo contexto em que aparece, a origem de qualquer azeite encontrado no átrio do Templo — e nega, por princípio, que alguém possa contribuir azeite sozinho como oferenda voluntária; posição que Rabi Tarfão contesta, encerrando o capítulo em disputa.
O azeite distribuído no átrio para consumo dos sacerdotes só pode ser sobra dos bolos das oferendas vegetais de israelitas ou do log do leproso; o azeite queimado sobre as chamas só pode ser sobra dos bolos da oferenda vegetal de sacerdotes ou do sacerdote ungido — pois não se contribui azeite sozinho, palavras de Rabi Shimão; e a contestação de Rabi Tarfão.
Disse Rabi Shimão: se viste azeite que se distribui no átrio, não precisas perguntar o que é — antes, é sobra dos bolos das oferendas vegetais de israelitas, ou o log do leproso. — Rabi Shimão ensina um princípio de identificação prática: qualquer azeite que se vê sendo distribuído entre os sacerdotes para consumo só pode ter duas origens possíveis — o excedente do azeite untado sobre os bolos das ofertas vegetais trazidas por israelitas, ou o azeite restante do log usado no ritual de purificação do leproso.
Se viste azeite posto sobre as chamas, não precisas perguntar o que é — antes, é sobra dos bolos da oferenda vegetal de sacerdotes, ou da oferenda vegetal do sacerdote ungido, pois não se contribui azeite sozinho. — Da mesma forma, qualquer azeite visto sendo queimado sobre o altar só pode vir do excedente das oferendas vegetais que os próprios sacerdotes trazem — a comum, ou a especial do sumo sacerdote — porque, segundo Rabi Shimão, ninguém pode trazer azeite puro como oferenda voluntária independente; logo, nenhum azeite encontrado no átrio pode ter essa origem.
Rabi Tarfão diz: contribui-se azeite. — Rabi Tarfão discorda do princípio de Rabi Shimão e sustenta que é sim possível trazer azeite sozinho como oferenda voluntária ao Templo, independente de qualquer oferenda vegetal — posição que a halachá acaba por adotar.
אָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן, אִם רָאִיתָ שֶׁמֶן שֶׁהוּא מִתְחַלֵּק בָּעֲזָרָה, אִי אַתָּה צָרִיךְ לִשְׁאֹל מַה הוּא, אֶלָּא מוֹתַר רְקִיקֵי מִנְחוֹת יִשְׂרָאֵל אוֹ לֹג שֶׁל מְצֹרָע. אִם רָאִיתָ שֶׁמֶן שֶׁהוּא נָתוּן עַל גַּבֵּי הָאִשִּׁים, אִי אַתָּה צָרִיךְ לִשְׁאֹל מַה הוּא, אֶלָּא מוֹתַר רְקִיקֵי מִנְחַת כֹּהֲנִים, אוֹ מִנְחַת כֹּהֵן הַמָּשִׁיחַ, שֶׁאֵין מִתְנַדְּבִים שָׁמֶן. רַבִּי טַרְפוֹן אוֹמֵר, מִתְנַדְּבִים שָׁמֶן:
Halachot · הֲלָכוֹת
Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 10:8
דָּבָר תּוֹרָה שֶׁמִּנְחַת יִשְׂרָאֵל מַקְרִיבִין מִמֶּנָּה הַקֹּמֶץ וְאוֹכְלִים הַכֹּהֲנִים הַנּוֹתָר, וְהוּא הַשְּׁיָרִים; וּמִנְחַת כֹּהֵן שׂוֹרְפִים אוֹתָהּ כֻּלָּהּ, שֶׁנֶּאֱמַר "וְכָל מִנְחַת כֹּהֵן כָּלִיל תִּהְיֶה לֹא תֵאָכֵל". עַל כֵּן שׂוֹרְפִים הַנּוֹתָר מִן הַשֶּׁמֶן שֶׁצָּף עַל מִנְחַת כֹּהֵן, וְאוֹכְלִין שְׁאָר הַשֶּׁמֶן מִמִּנְחַת יִשְׂרָאֵל. וְעַל דַּעַת הָאוֹמֵר שֶׁאֵין מִתְנַדֵּב שׁוּם אָדָם שֶׁמֶן לְבַדּוֹ, אֵין שָׁם מַה שֶּׁיִּשָּׂרֵף וְלֹא יִתְחַלֵּק אֶלָּא מַה שֶּׁנִּזְכַּר לְמַעְלָה. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי טַרְפוֹן שֶׁאוֹמֵר מִתְנַדְּבִים שֶׁמֶן, וְלֹא פָּחוֹת מִלֹּג, וּמַקְרִיבִין מִמֶּנָּה קֹמֶץ לָאִשִּׁים, וְהַנּוֹתָר יֵאָכֵל כִּשְׁאָר הַמְּנָחוֹת אִם הָיְתָה מִנְחַת יִשְׂרָאֵל כְּמוֹ שֶׁזָּכַרְנוּ. וְכֵן יָכוֹל אָדָם לְהִתְנַדֵּב יַיִן בִּלְבַד, וְלֹא פָּחוֹת מִשְּׁלֹשָׁה לֻגִּין, כְּמוֹ שֶׁיִּתְבָּאֵר בְּסוֹף מְנָחוֹת, וְזוֹרְקִין אוֹתוֹ כֻּלּוֹ עַל גַּבֵּי הָאִשִּׁים; וְאַף עַל פִּי שֶׁהוּא מְכַבֶּה הָאֵשׁ בַּמִּזְבֵּחַ שֶׁהוּא מִצְוַת לֹא תַעֲשֶׂה, לְפִי שֶׁנֶּאֱמַר "לֹא תִכְבֶּה", וְאָמְרוּ הַנּוֹטֵל גַּחֶלֶת מֵעַל גַּבֵּי הַמִּזְבֵּחַ וְכִבָּה חַיָּב, אֲבָל הוּא דָּבָר שֶׁאֵין מִתְכַּוֵּן, מֻתָּר. וְעוֹד יֵשׁ לְהוֹסִיף עַל הָעִנְיָן הַזֶּה מַה שֶּׁאָמְרוּ: נְסָכִים שֶׁנִּטְמְאוּ, עוֹשֶׂה לָהֶם מַעֲרָכָה בִּפְנֵי עַצְמָהּ וְשׂוֹרְפָן. וְדַע שֶׁהַתּוֹדָה קוֹדֶמֶת לְאֵיל הַנָּזִיר, לְפִי שֶׁיֵּשׁ בָּהּ מִינֵי מִנְחָה יוֹתֵר כְּמוֹ שֶׁבֵּאַרְנוּ בִּמְנָחוֹת, וְכֵן חַטַּאת הָעוֹף קוֹדֶמֶת לְעוֹלַת בְּהֵמָה.
Rambam explica que, por lei da Torá, da oferenda vegetal de um israelita se oferece o punhado, e os sacerdotes comem o restante — que são as sobras; já da oferenda vegetal de um sacerdote, queima-se por inteiro, como está dito “e toda oferenda vegetal de sacerdote será inteiramente queimada, não se comerá”. Por isso se queima o restante do azeite que flutua sobre a oferenda vegetal de sacerdote, e come-se o restante do azeite da oferenda vegetal de um israelita. E, segundo quem diz que ninguém pode contribuir azeite sozinho como oferenda voluntária, não haveria ali nada além do já mencionado que se queimasse ou se distribuísse. Mas a lei segue Rabi Tarfão, que diz que se pode contribuir azeite, e não menos que um log, dele se oferece um punhado para as chamas, e o restante é comido como as demais oferendas vegetais, se for de um israelita, como mencionamos; e da mesma forma pode-se contribuir vinho sozinho, não menos que três logs, como se explicará no final de Menachot, derramando-o todo sobre as chamas — e ainda que isso apague parte do fogo do altar, o que seria transgressão de “não se apagará”, disseram que quem toma um carvão de cima do altar e o apaga é responsável, mas isso é algo sem intenção de fazer, sendo permitido. Acrescenta que as libações que se tornaram impuras recebem uma pira à parte, onde são queimadas; e que a oferenda de agradecimento precede o carneiro do nazireu, por conter mais tipos de oferenda vegetal, como se explica em Menachot, e que, do mesmo modo, a oferenda de pecado da ave precede a oferenda de subida do animal.
Bartenura · Zevachim 10:8
שֶׁהוּא מִתְחַלֵּק. לַאֲכִילַת כֹּהֲנִים. מוֹתַר רְקִיקֵי מִנְחוֹת יִשְׂרָאֵל. מִנְחַת מַאֲפֶה שֶׁבָּאָה חַלּוֹת וּרְקִיקִין: חַלּוֹת בּוֹלְלָן, וּרְקִיקִין מוֹשְׁחָן. וְאָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן בְּמַסֶּכֶת מְנָחוֹת (דַּף עה) "מוֹשְׁחָן כְּמִין כ"י [כַּ"ף יְוָנִית]", וּשְׁאָר הַשֶּׁמֶן נֶאֱכָל לַכֹּהֲנִים. מוֹתַר רְקִיקֵי מִנְחַת כֹּהֲנִים. דְּמִנְחַת כֹּהֲנִים כֻּלָּהּ כָּלִיל, הַשֶּׁמֶן שֶׁצָּף עַל גַּבָּהּ וְנוֹתָר שֶׁאֵינוֹ נִבְלָע בָּהּ, שׂוֹרְפִים אוֹתוֹ בִּפְנֵי עַצְמוֹ. וּמוֹתַר מִנְחַת כֹּהֵן הַמָּשִׁיחַ. לְפִי שֶׁשַּׁמְנָהּ מְרֻבָּה, שְׁלֹשָׁה לֻגִּין לְעִשָּׂרוֹן, וּמִתּוֹךְ שֶׁהִיא אֲפוּיָה תְּחִלָּה אֵין שַׁמְנָהּ נִבְלָע בִּפְתִיתֶיהָ, וְצָרִיךְ לְהַקְטִיר הַמּוֹתָר בִּפְנֵי עַצְמוֹ. שֶׁאֵין מִתְנַדְּבִים שָׁמֶן. לְפִיכָךְ לֹא יַעֲלֶה עַל דַּעְתְּךָ שֶׁיְּהֵא הַשֶּׁמֶן הַמִּתְחַלֵּק אוֹ הַנִּקְטָר נְדָבָה. רַבִּי טַרְפוֹן אוֹמֵר מִתְנַדְּבִים שָׁמֶן. בִּפְנֵי עַצְמוֹ, וְאֵין פָּחוֹת מִלֹּג, וְנִשְׂרָף בִּפְנֵי עַצְמוֹ, וַהֲלָכָה כְּרַבִּי טַרְפוֹן. וְכֵן הֲלָכָה שֶׁמִּתְנַדְּבִים יַיִן בִּפְנֵי עַצְמוֹ, וְאֵין מִתְנַדְּבִים פָּחוֹת מִשְּׁלֹשָׁה לֻגִּין, וְזוֹרְקִין אוֹתוֹ עַל גַּבֵּי הָאִשִּׁים וְנִשְׂרָף שָׁם; וְאַף עַל גַּב דְּהוּא מְכַבֶּה אֵשׁ הַמַּעֲרָכָה וְרַחֲמָנָא אָמַר "לֹא תִכְבֶּה", הוֹאִיל וְאֵינוֹ מִתְכַּוֵּן לְכַבּוֹת שָׁרֵי, דִּכְרַבִּי שִׁמְעוֹן קַיְמָא לָן דְּדָבָר שֶׁאֵינוֹ מִתְכַּוֵּן מֻתָּר, וְלֹא הָוֵי פְּסִיק רֵישֵׁיהּ, דְּאֶפְשָׁר שֶׁתִּהְיֶה הָאֵשׁ גְּדוֹלָה וַחֲזָקָה וּתְנַצֵּחַ אֶת הַיַּיִן וְלֹא יְכַבֶּנָּה.
Bartenura precisa: “que se distribui” — para o consumo dos sacerdotes. “O restante dos bolos das oferendas vegetais de israelitas” — a oferenda vegetal assada que vem em pães ou bolachas: os pães se misturam com azeite, e as bolachas se untam; e disse Rabi Shimão, no tratado Menachot, que se untavam em forma de “caf” grego, e o restante do azeite é comido pelos sacerdotes. “O restante dos bolos da oferenda vegetal dos sacerdotes” — pois a oferenda vegetal dos sacerdotes é inteiramente queimada; o azeite que flutua sobre ela e o que resta sem se absorver, queima-se à parte. “E o restante da oferenda vegetal do sacerdote ungido” — porque seu azeite é abundante, três logs por décimo, e por ser assada primeiro, seu azeite não se absorve em seus pedaços, sendo necessário queimar o restante à parte. “Pois não se contribui azeite” — por isso não te ocorra pensar que o azeite distribuído ou queimado seja oferenda voluntária. “Rabi Tarfão diz que se contribui azeite” — à parte, não menos que um log, e é queimado à parte; e a lei segue Rabi Tarfão. E é também lei que se contribui vinho à parte, não menos que três logs, derramando-o sobre as chamas, onde se queima; e ainda que isso apague o fogo da pira, e a Torá tenha dito “não se apagará”, já que não há intenção de apagar, é permitido — pois seguimos Rabi Shimão, que sustenta que um ato sem intenção é permitido; e não é considerado consequência inevitável, pois é possível que o fogo esteja grande e forte e vença o vinho, sem apagá-lo.
Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים
Rashi רש״י
Zevachim 91b–92a, sobre a Guemará desta mishná
גְּמָרָא: אָמַר שְׁמוּאֵל, הַמִּתְנַדֵּב שֶׁמֶן לְדִבְרֵי רַבִּי טַרְפוֹן קוֹמְצוֹ — וּמַקְטִיר הַקֹּמֶץ וּשְׁיָרָיו נֶאֱכָלִים: קָרְבַּן מִנְחָה — דְּמָצֵי לְמִכְתַּב "כִּי תַקְרִיב" וּכְתַב "קָרְבָּן" יְתֵרָא לִדְרָשָׁא: אֲבָל לֹא שֶׁל עֵץ — דְּבַת כִּבּוּי הוּא וְאִסּוּרָא דְאוֹרַיְתָא הוּא, וְאִי כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן לֹא מַשְׁכַּחַתְּ כִּבּוּי אֶלָּא בְּמִתְכַּוֵּן לַעֲשׂוֹת פֶּחָמִין בְּכִבּוּיוֹ וְצָרִיךְ לָהֶם:
Rashi explica a posição de Rabi Tarfão, aceita como lei: segundo Shmuel, quem contribui azeite como oferenda voluntária o traz como uma minchá comum — o sacerdote tira um punhado que é queimado no altar, e o restante é comido pelos sacerdotes. Sobre o versículo que fundamenta a oferenda voluntária de azeite, Rashi observa que a Torá poderia ter escrito apenas “quando trouxeres”, mas acrescentou a palavra “oferenda” como termo redundante, do qual se deriva essa permissão. Discutindo a oferenda voluntária de vinho, derramado sobre as chamas do altar, Rashi trata da objeção de que isso apagaria parte do fogo, violando o preceito de não apagar o fogo do altar: como o oferente não tem intenção de apagar, e o ato não é uma consequência inevitável — pois o fogo grande do altar normalmente vence o pouco líquido derramado —, o ato é permitido; mas isso não se aplicaria à lenha, cujo apagamento é certo e proibido pela Torá, mesmo sem essa intenção, já que ali o próprio apagamento seria necessário para produzir carvão.
סְלִיקָא לַהּ מַסֶּכְתָּא — פֶּרֶק י׳
Aqui se conclui o Perek Yud de Massechet Zevachim, também conhecido como “Kol HaTadir” por sua abertura. O capítulo, mais curto e sistemático que o anterior, dedica-se inteiramente aos dois princípios gerais que ordenam a precedência entre sacrifícios concorrentes no Templo: primeiro o princípio da frequência — o mais frequente precede o menos frequente, aplicado às ofertas contínuas e adicionais de Shabat, Rosh Chodesh e Rosh HaShaná, com sua fonte no versículo de Números 28 (10:1); depois o princípio da santidade — o mais sagrado precede o menos sagrado —, percorrido numa cadeia descendente que vai do sangue da chatát até o primogênito, cada passo justificado por um traço técnico concreto do próprio serviço (10:2); a cadeia prossegue do primogênito ao dízimo animal e deste às aves (10:3), das aves às oferendas vegetais, com a distinção entre a oferenda do pecador e a voluntária, e a extensão da precedência até o próprio ato de consagração (10:4); uma nova mishná generaliza a precedência da chatát sobre o asham, com a exceção do asham do leproso, e fixa o valor padrão das ofertas de culpa, com as exceções do nazireu e do leproso (10:5); a precedência se estende do sacrifício à consumição da carne, com o caso-limite da oferenda de paz de ontem contra a de pecado ou culpa de hoje, disputado entre Rabi Meir e os Sábios (10:6); os sacerdotes recebem liberdade para variar o modo de consumo da carne que lhes cabe, com a disputa pontual sobre temperos de teruma entre Rabi Shimão e Rabi Meir (10:7); e o capítulo se encerra com o ensinamento de Rabi Shimão sobre como identificar a origem de qualquer azeite encontrado no átrio, e sua negação da oferenda voluntária de azeite puro — posição contestada por Rabi Tarfão, cuja opinião prevalece na halachá (10:8). Por possuir Guemará no Talmud Bavli, as mishnayot deste capítulo se distribuem por Zevachim 89a–92a, e a maior parte delas reuniu, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva sugya — ausente apenas nas mishnayot 10:5 e 10:7, para as quais não há comentário de Rashi digitalizado disponível nesta seção específica da guemará. O estudo de Massechet Zevachim prossegue nos quatro perakim seguintes, ainda por construir.