Seder Moed · Massechet Yoma · Perek Chet · Mishná 6 de 9

Fome extrema, mordida de cão raivoso e o risco de vida em Shabat

מִי שֶׁאֲחָזוֹ בֻלְמוּס
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná aprofunda o princípio de que a preservação da vida se sobrepõe à proibição de comer, tratando de um caso extremo de fome súbita e perigosa, do debate sobre remédios de eficácia duvidosa, e conclui com o princípio geral de que toda dúvida sobre risco de vida afasta até mesmo o Shabat.

Quem é tomado por bulmos, alimentam-no mesmo com coisas impuras, até que clareiem seus olhos.Uma pessoa acometida por bulmos — uma condição súbita e perigosa de fraqueza extrema por fome, que pode levar à morte — deve ser alimentada imediatamente, mesmo com alimentos normalmente proibidos por impureza ritual, até que seus olhos recuperem o brilho normal, sinal de que a condição foi revertida.

Quem foi mordido por cão raivoso não é alimentado com sua víscera hepática, mas Rabi Matia ben Charash permite.A prática popular de tratar a mordida de um cão raivoso alimentando a vítima com uma parte específica do fígado do próprio cão é rejeitada pela maioria dos sábios, por não ser considerada uma cura médica genuína; Rabi Matia ben Charash, porém, discorda e a permite, considerando-a eficaz.

E ainda disse Rabi Matia ben Charash: quem sofre de dor na garganta, colocam-lhe remédio na boca em Shabat, pois é dúvida de vida, e toda dúvida de vida afasta o Shabat.Rabi Matia ben Charash acrescenta outro ensinamento: uma dor de garganta, mesmo que sua gravidade não seja certa, é tratada como potencial risco de vida, e por isso justifica a administração de remédio mesmo em Shabat, pois o princípio geral é que qualquer dúvida razoável sobre risco de vida basta para suspender as proibições do Shabat.

מִי שֶׁאֲחָזוֹ בֻלְמוּס, מַאֲכִילִין אוֹתוֹ אֲפִלּוּ דְבָרִים טְמֵאִים, עַד שֶׁיֵּאוֹרוּ עֵינָיו. מִי שֶׁנְּשָׁכוֹ כֶלֶב שׁוֹטֶה, אֵין מַאֲכִילִין אוֹתוֹ מֵחֲצַר כָּבֵד שֶׁלוֹ, וְרַבִּי מַתְיָא בֶן חָרָשׁ מַתִּיר. וְעוֹד אָמַר רַבִּי מַתְיָא בֶן חָרָשׁ, הַחוֹשֵׁשׁ בִּגְרוֹנוֹ, מַטִּילִין לוֹ סַם בְּתוֹךְ פִּיו בְּשַׁבָּת, מִפְּנֵי שֶׁהוּא סְפֵק נְפָשׁוֹת, וְכָל סְפֵק נְפָשׁוֹת דּוֹחֶה אֶת הַשַּׁבָּת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikra 18:5
וּשְׁמַרְתֶּם אֶת חֻקֹּתַי וְאֶת מִשְׁפָּטַי, אֲשֶׁר יַעֲשֶׂה אֹתָם הָאָדָם וָחַי בָּהֶם, אֲנִי יְהֹוָה.
E guardareis os meus estatutos e os meus juízos, que o homem cumprirá e por eles viverá; eu sou o Eterno.

O mesmo princípio de "e viverá por eles" — e não morrerá por eles — que fundamenta a permissão de alimentar a grávida e o doente na mishná anterior, se estende aqui até a suspensão do próprio Shabat, um dia cuja santidade rivaliza com a de Yom Kipur. A mishná demonstra, através do ensinamento de Rabi Matia ben Charash, que o princípio de preservação da vida não se limita a Yom Kipur: qualquer dúvida razoável sobre risco à vida, mesmo que não haja certeza de perigo, é suficiente para afastar proibições sagradas, incluindo as do Shabat, refletindo a prioridade absoluta que a tradição confere à vida humana sobre quase todos os demais preceitos.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam explica a condição médica do bulmos, e formula o princípio decisivo por trás da disputa entre os sábios e Rabi Matia ben Charash: a diferença entre uma cura comprovada pela razão e pela experiência, e uma prática baseada em superstição.

Rambam · Perush HaMishná, Yoma 8:6
בֻּלְמוּס מִין מִמִּינֵי הַחֳלָאִים שֶׁנּוֹפֵל בּוֹ הָאָדָם וְאֵינוֹ מַרְגִּישׁ כְּלָל... וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי מַתְיָא בֶּן חָרָשׁ בָּזֶה, שֶׁהוּא מַתִּיר לְהַאֲכִיל לְאָדָם הַכָּבֵד שֶׁל כֶּלֶב שׁוֹטֶה כְּשֶׁנָּשַׁךְ, כִּי זֶה אֵינוֹ מוֹעִיל אֶלָּא בְּדֶרֶךְ סְגֻלָּה. וַחֲכָמִים סוֹבְרִים כִּי אֵין עוֹבְרִין עַל הַמִּצְוֹת אֶלָּא בִּרְפוּאָה בִּלְבַד, רְצוֹנִי לוֹמַר בִּדְבָרִים הַמְּרַפְּאִים בְּטֶבַע, וְהוּא דָּבָר אֲמִתִּי הוֹצִיאוֹ הַדַּעַת וְהַנִּסָּיוֹן הַקָּרוֹב לֶאֱמֶת. אֲבָל לְהִתְרַפְּאוֹת בִּדְבָרִים שֶׁהֵם מְרַפְּאִים בִּסְגֻלָּתָן, אָסוּר, כִּי כֹּחָם חַלָּשׁ, אֵינוֹ מִצַּד הַדַּעַת וְנִסָּיוֹנוֹ רָחוֹק, וְהִיא טַעֲנָה חַלָּשָׁה מִן הַטּוֹעֶה.

Bulmos é um tipo de doença que acomete a pessoa e a faz perder completamente a sensibilidade... E a halachá não é como Rabi Matia ben Charash nisto, que permite alimentar a pessoa com o fígado de um cão raivoso quando este a mordeu, pois isso não ajuda senão por via de "segulá" [remédio popular sem base racional]. E os Sábios entendem que não se transgridem os preceitos senão por cura genuína, ou seja, por coisas que curam por natureza, sendo algo verdadeiro que a razão e a experiência próxima da verdade demonstram. Mas curar-se com coisas que curam apenas por sua propriedade mística é proibido, pois seu poder é fraco, não vem do lado da razão, e sua comprovação experimental é remota — é um argumento fraco, próprio de quem se engana.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura descreve os sinais que identificam um cão raivoso; Rashi explica por que o Talmud enfatiza "toda" dúvida de vida, incluindo casos de perigo apenas futuro e não imediato.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yoma 8:6
בֻּלְמוּס. חֹלִי הָאוֹחֵז מֵחֲמַת רְעָבוֹן וּמְסֻכָּן לָמוּת, וּכְשֶׁמַּרְאִיתוֹ חוֹזֶרֶת בְּיָדוּעַ שֶׁנִּתְרַפֵּא. כֶּלֶב שׁוֹטֶה. רוּחַ רָעָה שׁוֹרָה עָלָיו, וְסִימָנִים שֶׁלּוֹ: פִּיו פָּתוּחַ, רִירוֹ נוֹטֵף, אָזְנָיו סְרוּחוֹת, וּזְנָבוֹ מוּנַחַת לוֹ בֵּין יַרְכוֹתָיו, וּמְהַלֵּךְ עַל צִדֵּי רְשׁוּת הָרַבִּים. וְרַבִּי מַתְיָא בֶן חָרָשׁ מַתִּיר. קָסָבַר רְפוּאָה גְּמוּרָה הִיא. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי מַתְיָא בֶּן חָרָשׁ.

"Bulmos" — é uma doença que acomete por causa da fome, e é perigosa a ponto de matar; e quando sua aparência retorna ao normal, sabe-se que se curou. "Cão raivoso" — um espírito maligno repousa sobre ele, e seus sinais são: sua boca está aberta, sua saliva escorre, suas orelhas estão caídas, seu rabo fica entre suas pernas, e caminha pelas margens do domínio público. "E Rabi Matia ben Charash permite" — pois entende que é uma cura genuína. E a halachá não é como Rabi Matia ben Charash.

Rashi · רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Yoma 84a–84b
וְכָל סְפֵק נְפָשׁוֹת דּוֹחֶה אֶת הַשַּׁבָּת. כֹּל, לְאַתּוֹיֵי כְּגוֹן דִּפְשִׁיטָא לָן דִּבְשַׁבָּת זוֹ לֹא יָמוּת, אֶלָּא סָפֵק שֶׁאִם לֹא יַעֲשׂוּ לוֹ הַיּוֹם, שֶׁמָּא יָמוּת לְשַׁבָּת הַבָּאָה. וּכְגוֹן דַּאֲמָדוּהוּ לִשְׁתּוֹת סַם זֶה לִתְמַנְיָא יוֹמֵי, וְיוֹמָא קַמָּא שַׁבְּתָא, מַהוּ דְּתֵימָא לְעַכְּבִינְהוּ עַד לְאוֹרְתָּא כִּי הֵיכִי דְּלֹא נֵיחוּל עֲלֵיהּ תְּרֵי שַׁבָּתָא, קָא מַשְׁמַע לָן.

"E toda dúvida de vida afasta o Shabat" — a palavra "toda" vem incluir até mesmo o caso em que é evidente para nós que neste Shabat a pessoa não morrerá, mas há dúvida de que, se não fizerem o tratamento hoje, talvez ela morra no Shabat seguinte. Por exemplo, quando os médicos avaliaram que ela deve tomar este remédio por oito dias, e o primeiro dia cai em Shabat — poder-se-ia pensar que se deveria adiar até a noite, para não se violarem dois Shabatot; por isso a mishná nos ensina que se começa imediatamente, mesmo em Shabat.