Seder Moed · Massechet Yoma · Perek Chet · Mishná 5 de 9

A grávida que sentiu o cheiro, e o doente

עֻבָּרָה שֶׁהֵרִיחָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná trata de duas situações em que a preservação da vida ou da saúde justifica romper o jejum: a mulher grávida tomada por um desejo incontrolável ao sentir o cheiro de comida, e o doente cuja necessidade de se alimentar é avaliada por especialistas ou, na ausência destes, por sua própria palavra.

A grávida que sentiu o cheiro, alimentam-na até que recupere o ânimo.Uma mulher grávida que, ao sentir o cheiro de determinado alimento, é tomada por um desejo intenso e potencialmente perigoso para si e para o feto, deve ser alimentada com uma pequena porção daquele alimento até que seu estado se estabilize e o desejo passe.

O doente é alimentado segundo a opinião dos especialistas.Quando uma pessoa doente necessita se alimentar por razão médica, a decisão de alimentá-la em Yom Kipur é tomada com base na avaliação de médicos experientes na sua área.

E se não há ali especialistas, alimentam-no segundo sua própria palavra, até que diga: "basta".Na ausência de médicos qualificados para avaliar a situação, confia-se no próprio julgamento do doente sobre sua necessidade, e ele é alimentado até que declare que já não precisa mais.

עֻבָּרָה שֶׁהֵרִיחָה, מַאֲכִילִין אוֹתָהּ עַד שֶׁתָּשִׁיב נַפְשָׁהּ. חוֹלֶה מַאֲכִילִין אוֹתוֹ עַל פִּי בְקִיאִין. וְאִם אֵין שָׁם בְּקִיאִין, מַאֲכִילִין אוֹתוֹ עַל פִּי עַצְמוֹ, עַד שֶׁיֹּאמַר דָּי:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikra 18:5
וּשְׁמַרְתֶּם אֶת חֻקֹּתַי וְאֶת מִשְׁפָּטַי, אֲשֶׁר יַעֲשֶׂה אֹתָם הָאָדָם וָחַי בָּהֶם, אֲנִי יְהֹוָה.
E guardareis os meus estatutos e os meus juízos, que o homem cumprirá e por eles viverá; eu sou o Eterno.

O versículo, ao dizer que os preceitos foram dados para que o homem "viva por eles", é a base talmúdica do princípio segundo o qual quase todos os mandamentos da Torá — inclusive o jejum de Yom Kipur — cedem diante de uma situação de risco real à vida. É por força desse princípio que a mishná permite alimentar tanto a grávida tomada por um desejo intenso, cuja recusa poderia colocar em risco a ela ou ao feto, quanto o doente cuja condição exige nutrição, mesmo que isso signifique violar, naquele momento específico, a proibição de comer no dia mais sagrado do calendário.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam explica o critério de decisão quando há desacordo entre médicos, ou entre o doente e os médicos, estabelecendo a regra de que em caso de dúvida sobre risco de vida, decide-se pela leniência.

Rambam · Perush HaMishná, Yoma 8:5
וְהַחוֹלֶה כְּשֶׁשָּׁאַל לֶאֱכֹל, אֲפִלּוּ כָּל הָרוֹפְאִים אוֹמְרִים אֵינוֹ צָרִיךְ, מַאֲכִילִין אוֹתוֹ עַל פִּי עַצְמוֹ עַד שֶׁיִּשְׂבַּע. וְאִם הוֹרָה רוֹפֵא בָּקִי שֶׁהוּא צָרִיךְ לֶאֱכֹל וְהוּא אוֹמֵר אֵינִי צָרִיךְ, מַאֲכִילִין אוֹתוֹ עַל פִּי רוֹפֵא, וְאֵין שׁוֹמְעִין לַחוֹלֶה. וְאִם נֶחְלְקוּ הָרוֹפְאִים, שׁוֹמְעִין לְרֻבָּם. וְאִם הֵם שָׁוִים בְּמִנְיָן וּבְחָכְמָה, מַאֲכִילִין אוֹתוֹ, כִּי הָעִקָּר אֶצְלֵנוּ סְפֵק נְפָשׁוֹת לְהָקֵל.

E o doente, quando pede para comer, mesmo que todos os médicos digam que não precisa, alimentam-no segundo sua própria palavra, até que se sacie. E se um médico experiente instruiu que ele precisa comer, e ele diz que não precisa, alimentam-no segundo o médico, e não se dá ouvidos ao doente. E se os médicos discordam entre si, segue-se a maioria. E se estão empatados em número e em conhecimento, alimentam-no, pois o princípio entre nós é que a dúvida sobre risco de vida se resolve para a leniência.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica por que na ausência de especialistas se confia na palavra do próprio doente, e a Guemará, citada por Rashi, esclarece a hierarquia entre a palavra dos médicos e a do doente.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yoma 8:5
עֻבָּרָה שֶׁהֵרִיחָה. הָעֻבָּר מֵרִיחַ רֵיחַ הַתַּבְשִׁיל וְהִיא מִתְאַוָּה לוֹ, וְאִם אֵינָהּ אוֹכֶלֶת שְׁנֵיהֶם מְסֻכָּנִים. עַל פִּי בְקִיאִים. רוֹפְאִים מֻמְחִין בְּאֻמָּנוּתָן. אֵין שָׁם בְּקִיאִין מַאֲכִילִין אוֹתוֹ עַל פִּי עַצְמוֹ. הָכִי מְפָרְשָׁהּ מַתְנִיתִין בַּגְּמָרָא: בַּמֶּה דְּבָרִים אֲמוּרִים דְּסוֹמְכִין עַל דִּבְרֵי בְּקִיאִין, בִּזְמַן שֶׁהַחוֹלֶה אוֹמֵר "אֵינִי צָרִיךְ" אוֹ שׁוֹתֵק; אֲבָל אָמַר "צָרִיךְ", אֵין בְּקִיאוּתָן חֲשׁוּבָה לִכְלוּם, אֶלָּא מַאֲכִילִין אוֹתוֹ עַל פִּי עַצְמוֹ.

"A grávida que sentiu o cheiro" — o feto sente o cheiro do prato e ela sente desejo por ele, e se ela não comer, ambos ficam em perigo. "Segundo os especialistas" — médicos peritos em sua profissão. "Se não há ali especialistas, alimentam-no segundo sua própria palavra" — assim explica a mishná na Guemará: quando se aplica que se confia na palavra dos especialistas? Quando o doente diz "não preciso" ou permanece calado; mas se disse "preciso", a perícia deles não vale nada, e alimentam-no segundo sua própria palavra.

Rashi · רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Yoma 82a–83a
עֻבָּרָה דְּאָרְחָא. שֶׁהֵרִיחָה, וְיוֹם הַכִּפּוּרִים הָיָה: לָחֲשׁוּ לָהּ. בְּאָזְנָהּ, שֶׁיּוֹם הַכִּפּוּרִים הַיּוֹם, אוּלַי תּוּכַל לְהִתְאַפֵּק: וְאִלְחִישָׁהּ. קִבְּלָה אֶת הַלְּחִישָׁה, שֶׁפָּסַק הָעֻבָּר מִתַּאֲוָתוֹ.

Sobre a grávida que sentiu o cheiro, conta-se na Guemará: certa grávida, e era Yom Kipur, sentiu o cheiro de comida — sussurraram-lhe ao ouvido que era Yom Kipur, talvez conseguisse se conter — e ela aceitou o sussurro, e o feto cessou seu desejo.