Seder Moed · Massechet Yoma · Perek Guimel · Mishná 2 de 11

O erro do luar e a regra da tevilá

כָּל הַמֵּסֵךְ אֶת רַגְלָיו טָעוּן טְבִילָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná explica por que se exigia tamanho cuidado antes de anunciar o amanhecer, narrando o precedente que motivou a cautela; em seguida, registra a regra geral do Templo sobre a impureza contraída por quem se alivia ou urina.

E por que precisaram disso? Porque certa vez surgiu o luar, e pensaram que havia amanhecido o oriente, e degolaram o tamid, e o levaram à casa da queima.Numa ocasião, num outro mês que não Tishrei, a claridade do luar foi confundida com a primeira luz do amanhecer; o tamid foi degolado antes do tempo devido, invalidando-o, e por isso teve de ser levado ao local onde se queimavam os sacrifícios desqualificados. Foi esse episódio que levou os sábios a instituir o duplo exame relatado na mishná anterior.

Desceram o Cohen Gadol à casa da imersão. Esta era a regra geral no Templo: todo aquele que cobre seus pés precisa de imersão, e todo aquele que urina precisa de santificação de mãos e pés.Assim que o observador confirmava o amanhecer, conduziam o Cohen Gadol à câmara de imersão, pois ele precisava imergir antes de degolar o tamid. E a mishná aproveita para registrar a regra válida para todo o Templo: quem se alivia — eufemismo para a necessidade maior — precisa de imersão completa antes de retomar o serviço; quem apenas urina precisa apenas lavar as mãos e os pés na pia.

וְלָמָה הֻצְרְכוּ לְכָךְ, שֶׁפַּעַם אַחַת עָלָה מְאוֹר הַלְּבָנָה וְדִמּוּ שֶׁהֵאִיר מִזְרָח, וְשָׁחֲטוּ אֶת הַתָּמִיד, וְהוֹצִיאוּהוּ לְבֵית הַשְּׂרֵפָה. הוֹרִידוּ כֹהֵן גָּדוֹל לְבֵית הַטְּבִילָה. זֶה הַכְּלָל הָיָה בַמִּקְדָּשׁ, כָּל הַמֵּסֵךְ אֶת רַגְלָיו טָעוּן טְבִילָה, וְכָל הַמַּטִּיל מַיִם טָעוּן קִדּוּשׁ יָדַיִם וְרַגְלָיִם:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikra 16:4
כְּתֹנֶת בַּד קֹדֶשׁ יִלְבָּשׁ, וּמִכְנְסֵי בַד יִהְיוּ עַל בְּשָׂרוֹ, וּבְאַבְנֵט בַּד יַחְגֹּר, וּבְמִצְנֶפֶת בַּד יִצְנֹף, בִּגְדֵי קֹדֶשׁ הֵם, וְרָחַץ בַּמַּיִם אֶת בְּשָׂרוֹ וּלְבֵשָׁם.
Túnica sagrada de linho vestirá, e calções de linho estarão sobre sua carne, e com cinto de linho se cingirá, e com turbante de linho se cobrirá; vestes sagradas são; e banhará em água a sua carne, e as vestirá.

É este versículo que estabelece a exigência-mãe de que o Cohen Gadol banhe todo o seu corpo em água antes de vestir cada conjunto de vestes de Yom Kipur. A partir dessa base, a tradição oral ampliou o princípio da imersão para toda ocasião de impureza maior contraída por qualquer pessoa no recinto do Templo — não apenas o Cohen Gadol e não apenas em Yom Kipur — enquanto reservou a simples lavagem de mãos e pés, prevista para o serviço cotidiano, aos casos de impureza menor, como a micção. O episódio do luar confundido com o amanhecer ilustra por que zelar por esses limites era indispensável: um sacrifício degolado fora do tempo devido tornava-se inválido e tinha de ser queimado.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam, no Perush HaMishná, explica por que o luar induziu ao erro justamente perto do fim de um mês, e como o tamid invalidado exigiu nova imersão antes que fosse degolado corretamente.

Rambam · Perush HaMishná, Yoma 3:2
יָדוּעַ כִּי הַלְּבָנָה אֵינָהּ עוֹלָה מִן הַמִּזְרָח אֶלָּא אַחַר חֲצוֹת הַחֹדֶשׁ. וְאָמְרוּ עָלָה מְאוֹר הַלְּבָנָה, וְאֵרַע בְּסוֹף חֹדֶשׁ מִשְּׁאָר חָדְשֵׁי הַשָּׁנָה, וְאֵרַע בְּלֵיל צוֹם כִּפּוּר גַּם כֵּן פַּעַם אַחֶרֶת, וְדִמּוּ שֶׁהֵאִיר הַמִּזְרָח וְשָׁחֲטוּ אֶת הַתָּמִיד. וְעוֹד יִתְבָּאֵר כִּי כֹּהֵן גָּדוֹל טוֹבֵל וְשׁוֹחֵט הַתָּמִיד בְּצוֹם כִּפּוּר, וְכַאֲשֶׁר נִפְסַל הַתָּמִיד כְּמוֹ שֶׁזָּכַר מִפְּנֵי שֶׁנִּשְׁחַט בַּלַּיְלָה, יִצְטָרֵךְ טְבִילָה אַחֶרֶת אַחַר כָּךְ שָׁחַט אֶת הַתָּמִיד.

Sabe-se que a lua só nasce no oriente depois da metade do mês. E disseram "surgiu o luar" — isso ocorreu no fim de um mês, entre os demais meses do ano, e aconteceu também, numa outra vez, na noite de Yom Kipur; e pensaram que o oriente havia clareado, e degolaram o tamid. E ainda se explicará que o Cohen Gadol imerge e degola o tamid em Yom Kipur; e quando o tamid foi invalidado, como mencionado, por ter sido degolado de noite, foi necessária outra imersão, e depois disso degolou o tamid corretamente.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura esclarece que o episódio do luar não ocorreu na própria noite de Yom Kipur, e explica o eufemismo usado pela mishná para a necessidade maior.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yoma 3:2
שֶׁפַּעַם אַחַת עָלָה מְאוֹר הַלְּבָנָה. לָאו בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים קָאָמַר, דְּאִי אֶפְשָׁר לַעֲלוֹת מְאוֹר הַלְּבָנָה סָמוּךְ לַשַּׁחַר בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים, שֶׁהוּא בִּשְׁלִישׁ הַחֹדֶשׁ, אֶלָּא בְּסוֹף אֶחָד מִן הֶחֳדָשִׁים כְּשֶׁהַלְּבָנָה עוֹלָה סָמוּךְ לַעֲלוֹת הַשַּׁחַר אֵרַע זֶה הַטָּעוּת, וְחָשְׁשׁוּ שֶׁמָּא בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים יֶאֱרַע טָעוּת אַחֵר כַּיּוֹצֵא בּוֹ, לְכָךְ הֻצְרְכוּ לְכָל זֶה: הוֹרִידוּ כֹהֵן גָּדוֹל. מִלְּתָא בְּאַנְפֵי נַפְשָׁהּ הִיא, וְהַשְׁתָּא מְהַדֵּר לְהָא דִּתְנֵינַן לְעֵיל עַד חֶבְרוֹן וְהוּא אוֹמֵר הֵן, וּלְאַחַר שֶׁהֵשִׁיב הָרוֹאֶה הֵן, הָיוּ מוֹרִידִין כֹּהֵן גָּדוֹל לְבֵית הַטְּבִילָה, שֶׁהָיָה טָעוּן טְבִילָה קֹדֶם שֶׁיִּשְׁחַט הַתָּמִיד: הַמֵּסֵךְ רַגְלָיו. כִּנּוּי לִנְקָבִים גְּדוֹלִים.

"Que certa vez surgiu o luar" — não fala de Yom Kipur, pois é impossível que o luar suba perto do amanhecer em Yom Kipur, que é no terceiro dia do mês; mas sim no fim de algum dos meses, quando a lua nasce perto do amanhecer, é que ocorreu esse engano; e temeram que em Yom Kipur ocorresse outro engano semelhante, e por isso precisaram de tudo isto. "Desceram o Cohen Gadol" — é um assunto à parte, e agora a mishná retoma o que ensinamos acima, "até Hevron, e ele diz sim"; e depois que o observador respondeu "sim", desciam o Cohen Gadol à casa da imersão, pois ele precisava de imersão antes de degolar o tamid. "Aquele que cobre seus pés" — eufemismo para a necessidade maior.