Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Tet · Mishná 5 de 6

A filha de Israel casada com um kohen, e o direito à trumá por causa do filho

בַּת יִשְׂרָאֵל שֶׁנִּסֵּת לְכֹהֵן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Depois de tratar dos vínculos que desqualificam sem alimentar, a mishná passa ao caso do casamento pleno e consumado — que efetivamente concede o direito à trumá ou ao maasser — e rastreia, através de uma sequência de mortes e nichos casamentos, como esse direito pode persistir, cessar, e às vezes ressurgir por causa de um filho.

A filha de Israel que se casou com um kohen come trumá. Se ele morre e ela tem dele um filho, continua comendo trumá. Se ela se casa com um levita, come maasser. Se ele morre e ela tem dele um filho, continua comendo maasser. Se ela se casa com um israelita, não come nem trumá nem maasser. Se ele morre e ela tem dele um filho, não come nem trumá nem maasser. Se seu filho do israelita morre, volta a comer maasser; se seu filho do levita morre, volta a comer trumá; se seu filho do kohen morre, não come nem trumá nem maasser.A mishná narra a trajetória de uma mulher através de três casamentos sucessivos, cada um mudando seu direito alimentar, e mostra como a presença de um filho vivo de um marido anterior pode preservar ou obstruir o direito adquirido de um casamento posterior. No casamento com o kohen, ela ganha o direito pleno à trumá; ao enviuvar, se tem um filho dele, o filho por si só mantém esse direito ("yaalich beto hem yochlu belachmo"), mesmo sem o marido. Casando-se depois com um levita, seu novo casamento a torna elegível ao maasser (do lado do novo marido) — mas o texto não diz que ela perde a trumá do filho do kohen ao se tornar noiva/casada do levita; a sequência descrita é sobre acúmulo e depois perda desses direitos conforme a ordem dos acontecimentos, culminando no ponto crucial: quando ela se casa com um simples israelita, TODOS os direitos cessam — nem trumá (pois agora está vinculada a um israelita, que desqualifica) nem maasser —, mesmo tendo filhos vivos dos maridos anteriores, porque a lei entende que o vínculo atual com o marido israelita "sobrepõe-se" e bloqueia os direitos anteriores enquanto ele viver. Só quando cada filho morre, na ordem inversa, os direitos ressurgem: a morte do filho do israelita libera o direito ao maasser (do filho do levita, que volta a valer); a morte do filho do levita libera o direito à trumá (do filho do kohen); mas a morte do filho do kohen não libera nada, pois esse era o direito mais alto, e sua perda é definitiva.

בַּת יִשְׂרָאֵל שֶׁנִּסֵּת לְכֹהֵן, תֹּאכַל בַּתְּרוּמָה. מֵת, וְלָהּ הֵימֶנּוּ בֵן, תֹּאכַל בַּתְּרוּמָה. נִסֵּת לְלֵוִי, תֹּאכַל בַּמַּעֲשֵׂר. מֵת, וְלָהּ הֵימֶנּוּ בֵן, תֹּאכַל בַּמַּעֲשֵׂר. נִסֵּת לְיִשְׂרָאֵל, לֹא תֹאכַל לֹא בַתְּרוּמָה, וְלֹא בַמַּעֲשֵׂר. מֵת, וְלָהּ הֵימֶנּוּ בֵן, לֹא תֹאכַל לֹא בַתְּרוּמָה וְלֹא בַמַּעֲשֵׂר. מֵת בְּנָהּ מִיִּשְׂרָאֵל, תֹּאכַל בַּמַּעֲשֵׂר. מֵת בְּנָהּ מִלֵּוִי, תֹּאכַל בַּתְּרוּמָה. מֵת בְּנָהּ מִכֹּהֵן, לֹא תֹאכַל לֹא בַתְּרוּמָה וְלֹא בַמַּעֲשֵׂר:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikra (Levítico) 22:11
וְכֹהֵן כִּי יִקְנֶה נֶפֶשׁ קִנְיַן כַּסְפּוֹ הוּא יֹאכַל בּוֹ, וִילִיד בֵּיתוֹ הֵם יֹאכְלוּ בְלַחְמוֹ
E o kohen, se adquirir alguém por aquisição de seu dinheiro, este comerá dele; e o nascido em sua casa, estes comerão de seu pão.

A expressão "e o nascido em sua casa, estes comerão de seu pão" é a fonte, segundo a leitura talmúdica ("yaalich" em vez de "yochlu"), de que o filho de um kohen faz sua mãe comer trumá por causa dele, mesmo depois que o próprio pai kohen já morreu. A leitura homilética transforma a forma verbal "eles comerão" em "ele fará comer" — indicando que o filho tem o poder ativo de manter o direito da mãe, e não apenas o de comer ele próprio. Esse mesmo princípio, aplicado por analogia também ao filho de um levita (quanto ao maasser), é o eixo de toda esta mishná: cada filho vivo "trava" o direito correspondente ao status de seu pai, e sua morte "destrava" o próximo direito na fila, na ordem inversa dos casamentos.

Halachot · הֲלָכוֹת

A halachá segue integralmente esta mishná; o ponto central que a Guemará examina é por que a morte do filho do kohen (o último caso) não libera absolutamente nenhum direito, ao contrário dos dois casos anteriores.

Rambam · Perush HaMishná, Yevamot 9:5-6
כָּל זְמַן שֶׁיִּהְיֶה לַיִּשְׂרְאֵלִית זֶרַע מִכֹּהֵן, כְּפִי מַה שֶּׁפֵּרַשְׁתִּי בְּפֶרֶק ז׳, תֹּאכַל בַּתְּרוּמָה וְחָזֶה וָשׁוֹק. וְעוֹד יֵשׁ לָךְ אַחֶרֶת שֶׁאוֹכֶלֶת בַּקֳּדָשִׁים כְּגוֹן תְּרוּמָה וְאֵינָהּ אוֹכֶלֶת בַּמּוּרָם, וְאֵיזוֹ זוֹ, הַחוֹזֶרֶת.

Rambam explica o princípio geral: enquanto a filha de Israel tiver descendência viva de um casamento com kohen, esse filho a mantém comendo trumá — e, distintamente, também as porções elevadas (chazé va-shok, peito e coxa dos sacrifícios), pois o filho de kohen concede o direito mais completo. Já a filha de kohen que "retorna" à casa do pai depois de enviuvar de um marido zar — tema explorado na mishná seguinte —, mesmo tendo direito de voltar a comer trumá, não recupera automaticamente o direito às porções elevadas, que é mais restrito. Esta observação de Rambam serve de ponte entre as duas mishnayot: aqui, o filho do kohen concede o direito máximo (trumá e chazé va-shok); ali, o próprio retorno da bat kohen concede apenas a trumá.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica a leitura "yaalich" por trás do direito do filho, e detalha por que o casamento com o israelita bloqueia tudo; Rashi, na Guemará, esclarece o mecanismo do bloqueio e do desbloqueio conforme a ordem das mortes.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 9:5
מֵת וְלָהּ מִמֶּנּוּ בֵן תֹּאכַל בַּתְּרוּמָה. דִּכְתִיב "וִילִיד בֵּיתוֹ הֵם יֹאכְלוּ בְלַחְמוֹ", קְרֵי בֵּיהּ יַאֲכִילוּ, וְכָל זְמַן שֶׁבְּנָהּ קַיָּם מַאֲכִילָהּ בַּתְּרוּמָה. מֵת וְלָהּ מִמֶּנּוּ בֵן אוֹכֶלֶת בַּמַּעֲשֵׂר, בִּשְׁבִיל בְּנָהּ מִלֵּוִי, אֲבָל לֹא בַתְּרוּמָה בִּשְׁבִיל בְּנָהּ מִכֹּהֵן, שֶׁהֲרֵי יֵשׁ לָהּ זֶרַע מִן הַזָּר.

Bartenura explica a base textual da regra central: o versículo "e o nascido em sua casa, eles comerão de seu pão" é lido homileticamente como "yaalich" (fará comer) em vez de "yochlu" (comerão) — transformando o filho num agente ativo que concede o direito à mãe, e não apenas num beneficiário passivo. É por isso que o filho continua "alimentando" a mãe com trumá mesmo depois da morte do pai kohen. Bartenura explica também por que, ao se casar com o levita e ter um filho dele, ela come apenas maasser e não trumá: mesmo tendo ainda o filho vivo do kohen, a existência de um filho de um homem "estranho" (zar, ou seja, não kohen) — o próprio filho levita — já basta para lhe retirar o status pleno de "casa de kohen" necessário para a trumá; o "zera min ha-zar" (descendência de um estranho) interrompe o fluxo do direito à trumá, mesmo que o direito ao maasser continue disponível pelo filho levita.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yevamot 86b-87a
מַתְנִי׳ נִסֵּת לְלֵוִי — אַחַר שֶׁיָּלְדָה מִכֹּהֵן. תֹּאכַל בַּמַּעֲשֵׂר, וְלֹא בַתְּרוּמָה, וְאַף עַל גַּב דְּיֵשׁ לָהּ בֵּן מִכֹּהֵן, דְּהַדְרָא הַוְיָא לָהּ זָרָה. גַּבֵּי מֵת בְּנָהּ מִיִּשְׂרָאֵל תֹּאכַל בַּמַּעֲשֵׂר, לְעִנְיַן יִבּוּם שֶׁעָשָׂה מֵתִים כְּחַיִּים, לְעִנְיַן תְּרוּמָה שֶׁלֹּא עָשָׂה מֵתִים כְּחַיִּים.

Rashi confirma que "nisset le-Levi" pressupõe que ela já tinha dado à luz o filho do kohen antes de se casar com o levita, e explica por que, mesmo tendo o filho vivo do kohen, ela come apenas maasser (não trumá) enquanto casada com o levita: o novo casamento a torna, para efeitos de trumá, novamente "zará" (estranha) — o vínculo atual com um não-kohen sobrepõe-se ao direito latente do filho anterior, que fica temporariamente suspenso, não extinto. Rashi então enuncia o princípio geral que rege toda a sequência de mortes no final da mishná, citando uma regra mais ampla debatida na sugia: para efeitos de yibum, a lei "trata os mortos como vivos" (quando o marido morre e depois o filho também morre, ela ainda precisa de chalitzá, como se o filho "mantivesse" a obrigação); mas para efeitos de trumá, a lei "não trata os mortos como vivos" — a morte do filho de fato libera o direito represado, permitindo que o direito anterior (mais antigo) reapareça, como no caso da morte do filho do israelita liberando o maasser do filho do levita.