A filha de Israel que se casou com um kohen come trumá. Se ele morre e ela tem dele um filho, continua comendo trumá. Se ela se casa com um levita, come maasser. Se ele morre e ela tem dele um filho, continua comendo maasser. Se ela se casa com um israelita, não come nem trumá nem maasser. Se ele morre e ela tem dele um filho, não come nem trumá nem maasser. Se seu filho do israelita morre, volta a comer maasser; se seu filho do levita morre, volta a comer trumá; se seu filho do kohen morre, não come nem trumá nem maasser. — A mishná narra a trajetória de uma mulher através de três casamentos sucessivos, cada um mudando seu direito alimentar, e mostra como a presença de um filho vivo de um marido anterior pode preservar ou obstruir o direito adquirido de um casamento posterior. No casamento com o kohen, ela ganha o direito pleno à trumá; ao enviuvar, se tem um filho dele, o filho por si só mantém esse direito ("yaalich beto hem yochlu belachmo"), mesmo sem o marido. Casando-se depois com um levita, seu novo casamento a torna elegível ao maasser (do lado do novo marido) — mas o texto não diz que ela perde a trumá do filho do kohen ao se tornar noiva/casada do levita; a sequência descrita é sobre acúmulo e depois perda desses direitos conforme a ordem dos acontecimentos, culminando no ponto crucial: quando ela se casa com um simples israelita, TODOS os direitos cessam — nem trumá (pois agora está vinculada a um israelita, que desqualifica) nem maasser —, mesmo tendo filhos vivos dos maridos anteriores, porque a lei entende que o vínculo atual com o marido israelita "sobrepõe-se" e bloqueia os direitos anteriores enquanto ele viver. Só quando cada filho morre, na ordem inversa, os direitos ressurgem: a morte do filho do israelita libera o direito ao maasser (do filho do levita, que volta a valer); a morte do filho do levita libera o direito à trumá (do filho do kohen); mas a morte do filho do kohen não libera nada, pois esse era o direito mais alto, e sua perda é definitiva.
A expressão "e o nascido em sua casa, estes comerão de seu pão" é a fonte, segundo a leitura talmúdica ("yaalich" em vez de "yochlu"), de que o filho de um kohen faz sua mãe comer trumá por causa dele, mesmo depois que o próprio pai kohen já morreu. A leitura homilética transforma a forma verbal "eles comerão" em "ele fará comer" — indicando que o filho tem o poder ativo de manter o direito da mãe, e não apenas o de comer ele próprio. Esse mesmo princípio, aplicado por analogia também ao filho de um levita (quanto ao maasser), é o eixo de toda esta mishná: cada filho vivo "trava" o direito correspondente ao status de seu pai, e sua morte "destrava" o próximo direito na fila, na ordem inversa dos casamentos.
A halachá segue integralmente esta mishná; o ponto central que a Guemará examina é por que a morte do filho do kohen (o último caso) não libera absolutamente nenhum direito, ao contrário dos dois casos anteriores.
Rambam explica o princípio geral: enquanto a filha de Israel tiver descendência viva de um casamento com kohen, esse filho a mantém comendo trumá — e, distintamente, também as porções elevadas (chazé va-shok, peito e coxa dos sacrifícios), pois o filho de kohen concede o direito mais completo. Já a filha de kohen que "retorna" à casa do pai depois de enviuvar de um marido zar — tema explorado na mishná seguinte —, mesmo tendo direito de voltar a comer trumá, não recupera automaticamente o direito às porções elevadas, que é mais restrito. Esta observação de Rambam serve de ponte entre as duas mishnayot: aqui, o filho do kohen concede o direito máximo (trumá e chazé va-shok); ali, o próprio retorno da bat kohen concede apenas a trumá.
Bartenura explica a leitura "yaalich" por trás do direito do filho, e detalha por que o casamento com o israelita bloqueia tudo; Rashi, na Guemará, esclarece o mecanismo do bloqueio e do desbloqueio conforme a ordem das mortes.
Bartenura explica a base textual da regra central: o versículo "e o nascido em sua casa, eles comerão de seu pão" é lido homileticamente como "yaalich" (fará comer) em vez de "yochlu" (comerão) — transformando o filho num agente ativo que concede o direito à mãe, e não apenas num beneficiário passivo. É por isso que o filho continua "alimentando" a mãe com trumá mesmo depois da morte do pai kohen. Bartenura explica também por que, ao se casar com o levita e ter um filho dele, ela come apenas maasser e não trumá: mesmo tendo ainda o filho vivo do kohen, a existência de um filho de um homem "estranho" (zar, ou seja, não kohen) — o próprio filho levita — já basta para lhe retirar o status pleno de "casa de kohen" necessário para a trumá; o "zera min ha-zar" (descendência de um estranho) interrompe o fluxo do direito à trumá, mesmo que o direito ao maasser continue disponível pelo filho levita.
Rashi confirma que "nisset le-Levi" pressupõe que ela já tinha dado à luz o filho do kohen antes de se casar com o levita, e explica por que, mesmo tendo o filho vivo do kohen, ela come apenas maasser (não trumá) enquanto casada com o levita: o novo casamento a torna, para efeitos de trumá, novamente "zará" (estranha) — o vínculo atual com um não-kohen sobrepõe-se ao direito latente do filho anterior, que fica temporariamente suspenso, não extinto. Rashi então enuncia o princípio geral que rege toda a sequência de mortes no final da mishná, citando uma regra mais ampla debatida na sugia: para efeitos de yibum, a lei "trata os mortos como vivos" (quando o marido morre e depois o filho também morre, ela ainda precisa de chalitzá, como se o filho "mantivesse" a obrigação); mas para efeitos de trumá, a lei "não trata os mortos como vivos" — a morte do filho de fato libera o direito represado, permitindo que o direito anterior (mais antigo) reapareça, como no caso da morte do filho do israelita liberando o maasser do filho do levita.