Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Tet · Mishná 4 de 6

A filha de Israel noiva, grávida, ou aguardando o yibum de um kohen ou levita

בַּת יִשְׂרָאֵל מְאֹרֶסֶת לְכֹהֵן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná deixa o tema das shniyot e retorna ao princípio, já estabelecido no Perek Zayin, de que certos vínculos com um kohen ou levita desqualificam a mulher da trumá ou do maasser sem, no entanto, lhe conceder o direito de comer — aplicando-o agora sistematicamente aos três pares kohen/israelita, levita/israelita, e kohen/levita.

A filha de Israel noiva (me'oreset) de um kohen, grávida (meuberet) de um kohen, ou aguardando o yibum (shomeret yavam) de um kohen — e o mesmo vale para a filha de kohen noiva de um israelita — não come trumá. A filha de Israel noiva de um levita, grávida de um levita, ou aguardando o yibum de um levita — e o mesmo vale para a filha de levita noiva de um israelita — não come maasser. A filha de levita noiva de um kohen, grávida de um kohen, ou aguardando o yibum de um kohen — e o mesmo vale para a filha de kohen noiva de um levita — não come nem trumá nem maasser.A mishná aplica sistematicamente, a três pares de status diferentes, o princípio de que três vínculos específicos com um homem — o noivado (erusin), a gravidez de um filho dele, e a condição de shomeret yavam esperando o yibum — desqualificam a mulher do privilégio alimentar do lado do homem, mas não chegam a concedê-lo, porque nenhum desses três vínculos equivale ainda a um casamento pleno e consumado. No primeiro bloco: uma bat Israel noiva de um kohen não pode comer trumá, pois o noivado sozinho não a torna esposa plena de kohen (que daria direito à trumá); e, simetricamente, uma bat kohen noiva de um israelita perde o direito de comer trumá que tinha na casa do pai, pois o noivado já a vincula ao israelita o suficiente para desqualificá-la, mesmo sem lhe dar nada em troca. O segundo bloco repete exatamente o mesmo padrão para o maasser, entre bat Israel/levita e bat levita/israelita. O terceiro bloco combina os dois: uma bat levita noiva de um kohen perde o direito ao maasser (que tinha como filha de levita) sem ganhar a trumá (pois ainda não é esposa plena de kohen) — e vice-versa para a bat kohen noiva de um levita, que perde a trumá sem ganhar o maasser.

בַּת יִשְׂרָאֵל מְאֹרֶסֶת לְכֹהֵן, מְעֻבֶּרֶת מִכֹּהֵן, שׁוֹמֶרֶת יָבָם לְכֹהֵן, וְכֵן בַּת כֹּהֵן לְיִשְׂרָאֵל, לֹא תֹאכַל בַּתְּרוּמָה. בַּת יִשְׂרָאֵל מְאֹרֶסֶת לְלֵוִי, מְעֻבֶּרֶת מִלֵּוִי, שׁוֹמֶרֶת יָבָם לְלֵוִי, וְכֵן בַּת לֵוִי לְיִשְׂרָאֵל, לֹא תֹאכַל בַּמַּעֲשֵׂר. בַּת לֵוִי מְאֹרֶסֶת לְכֹהֵן, מְעֻבֶּרֶת מִכֹּהֵן, שׁוֹמֶרֶת יָבָם לְכֹהֵן, וְכֵן בַּת כֹּהֵן לְלֵוִי, לֹא תֹאכַל לֹא בַתְּרוּמָה וְלֹא בַמַּעֲשֵׂר:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikra (Levítico) 22:12
וּבַת כֹּהֵן כִּי תִהְיֶה לְאִישׁ זָר, הִוא בִּתְרוּמַת הַקֳּדָשִׁים לֹא תֹאכֵל
E a filha de kohen, se se tornar de homem estranho, ela não comerá da oferta elevada de coisas sagradas.

Este verso é a base bíblica de que a filha de kohen perde a trumá ao se vincular a um homem que não é kohen — e a tradição oral ensina que esse mesmo verso abrange não apenas o casamento pleno, mas também o noivado, a gravidez, e o estado de shomeret yavam, os três vínculos "que desqualificam mas não alimentam" já estudados no Perek Zayin desta mesma massechet. A mishná generaliza o princípio em ambas as direções: assim como a filha de kohen se desqualifica ao se noivar de um israelita, a filha de Israel não se qualifica para a trumá apenas por se noivar de um kohen — pois, em ambos os casos, o noivado sozinho não cria o vínculo pleno que a lei exige para o direito de comer, mas já cria o vínculo suficiente para desqualificar quem antes tinha esse direito.

Halachot · הֲלָכוֹת

A mishná é ensinada, segundo a Guemará, de acordo com Rabi Meir, que sustenta que o maasser rishon também é proibido a estranhos (zarim) como a trumá — posição que não é a halachá final, mas que a mishná adota aqui por uma razão prática específica, explicada por Rambam.

Rambam · Perush HaMishná, Yevamot 9:4
כֻּלָּהּ מַתְנִיתִין רַבִּי מֵאִיר הִיא, שֶׁאוֹמֵר מַעֲשֵׂר רִאשׁוֹן אָסוּר לְזָרִים. אֲבָל הַנִּרְאֶה מִן הַשַּׁ"ס שֶׁמַּעֲשֵׂר רִאשׁוֹן מֻתָּר לְזָרִים, וּמַה שֶּׁאָמַר רַבִּי מֵאִיר בְּכָאן כִּי בַּת כֹּהֵן לֹא תֹאכַל בַּתְּרוּמָה וְלֹא בַמַּעֲשֵׂר, רְצוֹנוֹ לוֹמַר אֵין חוֹלְקִין לָהּ מַעֲשֵׂר בְּבֵית הַגְּרָנוֹת, גְּזֵרָה מִשּׁוּם גְּרוּשָׁה בַּת יִשְׂרָאֵל.

Rambam esclarece que toda esta mishná, ao falar de "não come maasser", reflete a opinião de Rabi Meir, que considera o maasser rishon (o primeiro dízimo, devido aos levitas) proibido também a estranhos (zarim) — assim como a trumá. Mas essa não é a halachá final: segundo o consenso talmúdico, o maasser rishon é, na verdade, permitido a qualquer pessoa, incluindo israelitas comuns, e não carrega a mesma santidade restritiva da trumá. Rambam explica então o real sentido da posição de Rabi Meir nesta mishná: quando ele diz que a bat kohen ou bat levita "não come maasser", isso não significa que lhe seria proibido comê-lo em casa — significa apenas que os sábios decretaram que não se deve distribuir maasser a mulheres na eira (bet ha-goranot) enquanto elas ainda estão vinculadas a um marido levita ou noivo de um kohen, como salvaguarda para não confundir com o caso da mulher já divorciada, que de fato não teria mais direito.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica o pano de fundo da posição de Rabi Meir e a lógica do decreto sobre a eira; Rashi, na Guemará, detalha o mesmo raciocínio a partir do texto talmúdico.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 9:4
לֹא תֹאכַל בַּתְּרוּמָה. כְּדִתְנַן בְּפֶרֶק אַלְמָנָה לְכֹהֵן גָּדוֹל, הָעֻבָּר וְהַיָּבָם וְהָאֵרוּסִין פּוֹסְלִין וְלֹא מַאֲכִילִין. לֹא תֹאכַל בַּמַּעֲשֵׂר. כֻּלָּהּ מַתְנִיתִין רַבִּי מֵאִיר הִיא, דְּאָמַר מַעֲשֵׂר רִאשׁוֹן אָסוּר לְזָרִים, וְאֵינָהּ הֲלָכָה. בַּת כֹּהֵן לְלֵוִי לֹא תֹאכַל לֹא בַתְּרוּמָה וְלֹא בַמַּעֲשֵׂר. הָכִי קָאָמַר, אֵין חוֹלְקִין תְּרוּמָה וְלֹא מַעֲשֵׂר בְּבֵית הַגְּרָנוֹת לֹא לְבַת כֹּהֵן וְלֹא לְבַת לֵוִי, גְּזֵרָה מִשּׁוּם גְּרוּשָׁה בַּת יִשְׂרָאֵל.

Bartenura confirma que a mishná é toda de acordo com Rabi Meir, cuja opinião de que o maasser rishon é proibido a estranhos não é a halachá aceita. Sobre o terceiro bloco (bat kohen para levita e bat levita para kohen), Bartenura explica o sentido prático real: os sábios decretaram que, na eira, ao distribuir trumá ou maasser, não se deve entregar diretamente a nenhuma mulher — nem à bat kohen nem à bat levita — porque quem observa de fora não sabe se ela está atualmente casada validamente (e portanto tem direito) ou se, por acaso, já se divorciou (e não teria mais direito); para evitar essa confusão pública, o decreto se aplica de forma geral a todas as mulheres na eira, independentemente do seu status momentâneo real.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yevamot 86a
הָנִיחָא לְמַאן דְּאָמַר מִשּׁוּם יִחוּד, אֶלָּא לְמַאן דְּאָמַר מִשּׁוּם גְּרוּשָׁה, גְּרוּשָׁה בַּת לֵוִי מִי לֹא אָכְלָה בַּמַּעֲשֵׂר? וּלְטַעְמָיךְ גְּרוּשָׁה בַּת כֹּהֵן מִי לֹא אָכְלָה בַּתְּרוּמָה? אֶלָּא גְּזֵרָה מִשּׁוּם גְּרוּשָׁה בַּת יִשְׂרָאֵל.

Rashi traz a discussão talmúdica sobre a razão do decreto de não distribuir trumá ou maasser a mulheres na eira: há duas opiniões na Guemará — uma que atribui o decreto ao receio de "yichud" (isolamento indevido entre homem e mulher na entrega), e outra que o atribui ao receio de confundir com uma "gerushá" (mulher já divorciada, que não teria mais direito). Rashi explica a dificuldade da segunda opinião: se o motivo fosse confundir com uma gerushá, isso já valeria mesmo para uma bat levita ou bat kohen genuinamente divorciada — pois ela mesma, sendo levita ou kohenet de nascença, continuaria tendo direito próprio ao maasser ou à trumá independentemente do divórcio do marido, então não haveria razão de fato para restringi-la. A resposta da Guemará é que o decreto não visa protegê-la a ela mesma, mas evitar que, ao ver mulheres recebendo normalmente na eira, alguém erre e distribua também a uma bat Israel genuinamente divorciada de um levita ou kohen — que de fato perderia todo direito com o divórcio.