Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Tet · Mishná 2 de 6

Permitidas ao cunhado e proibidas ao marido; proibidas a ambos; e todas as demais

וְאֵלּוּ מֻתָּרוֹת לִיְבָמֵיהֶן וַאֲסוּרוֹת לְבַעֲלֵיהֶן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná completa a estrutura anunciada na mishná anterior: depois dos quatro casos "permitida ao marido, proibida ao cunhado", vêm agora os quatro casos espelhados "permitida ao cunhado, proibida ao marido", os quatro casos "proibida a ambos", e a regra final de que todas as demais mulheres são permitidas tanto ao marido quanto ao cunhado.

E estas são as permitidas a seus cunhados e proibidas a seus maridos: o sumo sacerdote que apenas desposou (kidesh, sem consumar) a viúva e tem um irmão kohen comum; o apto (kasher) que desposou uma chalalah e tem um irmão chalal; o israelita que desposou uma mamzeret e tem um irmão mamzer; o mamzer que desposou uma filha de Israel e tem um irmão israelita — estas são permitidas a seus cunhados e proibidas a seus maridos. Proibidas a estes e àqueles: o sumo sacerdote que desposou (consumou) a viúva e tem um irmão sumo sacerdote ou kohen comum; o apto que desposou uma chalalah e tem um irmão apto; o israelita que desposou uma mamzeret e tem um irmão israelita; o mamzer que desposou uma filha de Israel e tem um irmão mamzer — estas são proibidas a estes e àqueles. E todas as demais mulheres são permitidas a seus maridos e a seus cunhados.O primeiro bloco espelha exatamente a mishná anterior, trocando o resultado: agora é o marido quem fica sem ela, e o cunhado quem pode tomá-la em yibum. No caso do sumo sacerdote, a chave é o verbo "kidesh" (apenas desposar, sem consumar): como ele só a noivou e não teve relações com ela, ela nunca se tornou sua esposa plena nem foi "profanada" por ele; assim, permanece proibida a ele (pois um sumo sacerdote não pode se casar com viúva), mas, como o noivado não a transformou em nada, ela permanece plenamente apta para o irmão kohen comum, que pode desposá-la ou tomá-la em yibum normalmente. Os outros três casos deste bloco seguem a mesma lógica invertida do bloco anterior. O segundo bloco reúne os casos mais graves, em que a mulher fica proibida tanto ao marido quanto ao cunhado — como quando o próprio sumo sacerdote consuma o casamento com a viúva (violando sua própria proibição) e tem um irmão que também é sumo sacerdote ou kohen comum igualmente proibido de casar com viúva profanada por sumo sacerdote. E a mishná fecha com a regra geral: fora desses casos especiais de status pessoal desigual entre irmãos, toda mulher casada validamente permanece permitida tanto ao marido quanto, se necessário, ao cunhado que a tomaria em yibum.

וְאֵלּוּ מֻתָּרוֹת לִיְבָמֵיהֶן וַאֲסוּרוֹת לְבַעֲלֵיהֶן. כֹּהֵן גָּדוֹל שֶׁקִּדֵּשׁ אֶת הָאַלְמָנָה וְיֶשׁ לוֹ אָח כֹּהֵן הֶדְיוֹט, כָּשֵׁר שֶׁנָּשָׂא חֲלָלָה וְיֶשׁ לוֹ אָח חָלָל, יִשְׂרָאֵל שֶׁנָּשָׂא מַמְזֶרֶת וְיֶשׁ לוֹ אָח מַמְזֵר, מַמְזֵר שֶׁנָּשָׂא בַת יִשְׂרָאֵל וְיֶשׁ לוֹ אָח יִשְׂרָאֵל, מֻתָּרוֹת לִיְבָמֵיהֶן וַאֲסוּרוֹת לְבַעֲלֵיהֶן. אֲסוּרוֹת לָאֵלּוּ וְלָאֵלּוּ, כֹּהֵן גָּדוֹל שֶׁנָּשָׂא אֶת הָאַלְמָנָה וְיֶשׁ לוֹ אָח כֹּהֵן גָּדוֹל אוֹ כֹהֵן הֶדְיוֹט, כָּשֵׁר שֶׁנָּשָׂא חֲלָלָה וְיֶשׁ לוֹ אָח כָּשֵׁר, יִשְׂרָאֵל שֶׁנָּשָׂא מַמְזֶרֶת וְיֶשׁ לוֹ אָח יִשְׂרָאֵל, מַמְזֵר שֶׁנָּשָׂא בַת יִשְׂרָאֵל וְיֶשׁ לוֹ אָח מַמְזֵר, אֲסוּרוֹת לָאֵלּוּ וְלָאֵלּוּ. וּשְׁאָר כָּל הַנָּשִׁים, מֻתָּרוֹת לְבַעֲלֵיהֶן וְלִיְבָמֵיהֶן:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikra (Levítico) 21:7
אִשָּׁה זֹנָה וַחֲלָלָה לֹא יִקָּחוּ, וְאִשָּׁה גְּרוּשָׁה מֵאִישָׁהּ לֹא יִקָּחוּ, כִּי קָדֹשׁ הוּא לֵאלֹהָיו
Mulher prostituta ou profanada não tomarão, e mulher divorciada de seu marido não tomarão, pois santo é para seu Deus.

O verso proíbe todo kohen — comum ou sumo — de desposar uma chalalah, base do segundo caso de cada bloco desta mishná; e o verso anterior (21:14) especifica que somente ao sumo sacerdote é vedada até mesmo a viúva. A distinção entre "kidesh" (apenas noivar) e "nasa" (consumar o casamento) é o eixo que separa o primeiro bloco do segundo: a Torá proíbe ao sumo sacerdote tomar a viúva por esposa; se ele apenas a noivou, sem consumar, a proibição foi violada apenas no ato do noivado, sem gerar o efeito de "profanação" que a relação provocaria — e por isso ela permanece intocada para o irmão kohen comum. Mas se ele chegou a consumar o casamento, violando a proibição plenamente, ela é então profanada por essa relação — tornando-se proibida a qualquer kohen, inclusive ao próprio irmão sumo sacerdote ou kohen comum que a quisesse em yibum.

Halachot · הֲלָכוֹת

Não há disputa tanaítica nesta mishná; a halachá aceita todos os casos como apresentados. O ponto central discutido pela Guemará é por que a mitzvá do yibum (um preceito positivo) não é suficiente para afastar as proibições envolvidas nos casos do segundo bloco.

Rambam · Perush HaMishná, Yevamot 9:2
מַה שֶּׁחַיָּב לוֹמַר כָּאן קִדֵּשׁ וְלֹא אָמַר נָשָׂא, לְפִי שֶׁאִלּוּ נָשָׂא תִּהְיֶה חֲלָלָה וַאֲסוּרָה אֲפִלּוּ לְכֹהֵן הֶדְיוֹט וְתִהְיֶה אֲסוּרָה לָזֶה וְלָזֶה.

Rambam explica precisamente por que a mishná precisou especificar "kidesh" (noivou) e não "nasa" (casou plenamente) no caso do sumo sacerdote com a viúva neste primeiro bloco: se ele tivesse consumado o casamento, ela se tornaria chalalah por essa relação proibida, e ficaria proibida não apenas a ele mas a qualquer kohen — inclusive ao irmão kohen comum que, de outra forma, poderia tomá-la em yibum. Só porque o casamento ficou no estágio de noivado, sem consumação, é que ela permanece "limpa" o suficiente para ser permitida ao cunhado kohen comum, ainda que proibida ao próprio sumo sacerdote que a noivou.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura confirma a distinção entre kidesh e nasa; Rashi, na Guemará, detalha o mesmo ponto e acrescenta a pergunta talmúdica sobre por que o preceito positivo do yibum não afasta as proibições envolvidas; Rambam resume a estrutura dos dois blocos.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 9:2
כֹּהֵן גָּדוֹל שֶׁקִּדֵּשׁ אֶת הָאַלְמָנָה. אֲבָל נְשָׂאָהּ נִתְחַלְּלָה בְּבִיאָתוֹ וַאֲסוּרָה לַבַּעַל וְלַיָּבָם.

Bartenura confirma exatamente o mecanismo apontado por Rambam: a diferença entre "kidesh" e "nasa" é o que decide se a mulher permanece disponível para o cunhado. Se o sumo sacerdote apenas a noivou, a proibição da Torá foi violada sem gerar chilul (profanação) por relação; mas se ele chegou a consumá-la em casamento, aí sim ela se torna chalalah por essa própria relação, e passa a ser proibida tanto ao marido (que já sabia ser proibido) quanto ao cunhado — pois agora ela carrega o status de chalalah para qualquer kohen que a tomasse.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yevamot 84a
שֶׁקִּדֵּשׁ — אֲבָל נָשָׂא נִתְחַלְּלָה בְּבִיאָתוֹ וַאֲסוּרָה לְיִבְמָהּ הֶדְיוֹט. דְּהָוָה לֵיהּ עֲשֵׂה — "בְּתוּלָה מֵעַמָּיו יִקַּח" (וַיִּקְרָא כא) וְלֹא בְעוּלָה, וְלֹא תַעֲשֶׂה — "אַלְמָנָה לֹא יִקָּח" (שָׁם), וְאֵין עֲשֵׂה דְּיִבּוּם דּוֹחֶה אֶת לֹא תַעֲשֶׂה וַעֲשֵׂה. אֲבָל קִדֵּשׁ הֶדְיוֹט בְּתוּלָה אַלְמָנָה מִן הָאֵרוּסִין וּמֵת גַּם הוּא בָּאֵרוּסִין, מְיַיְּבֵם לָהּ כֹּהֵן גָּדוֹל, דְּאָתֵי עֲשֵׂה וְדָחֵי לֹא תַעֲשֶׂה דְּאַלְמָנָה.

Rashi apresenta a pergunta central da sugia da Guemará sobre esta mishná: por que, quando o sumo sacerdote consuma o casamento proibido com a viúva, o preceito positivo do yibum não pode "empurrar" (docheh) a proibição e permitir que o irmão a tome mesmo assim? Rashi explica que, neste caso, há duas transgressões simultâneas — um preceito positivo violado ("virgem tomará", implicando não viúva) e uma proibição violada ("viúva não tomará") —, e a regra geral é que um preceito positivo isolado (como o do yibum) não tem força para afastar simultaneamente uma proibição e um preceito positivo já violados. Mas Rashi nota o caso inverso, mencionado depois na sugia: se um kohen comum noivou de uma virgem que se tornou viúva ainda durante o noivado (antes da consumação) e ele morreu nessa condição, o sumo sacerdote pode sim tomá-la em yibum — porque ali há apenas uma proibição isolada (viúva), sem o preceito positivo adicional, e o preceito positivo do yibum tem força para afastar essa proibição isolada.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Yevamot 9:2
וְאֵלּוּ אֲסוּרוֹת לָאֵלּוּ וְלָאֵלּוּ, כֹּהֵן גָּדוֹל שֶׁנָּשָׂא אֶת הָאַלְמָנָה כוּ׳: רְצוֹנוֹ לוֹמַר, שְׁאָר כָּל הַנָּשִׁים חוּץ מֵאֵלּוּ שֶׁזָּכַרְנוּ מֻתָּרוֹת לְבַעֲלֵיהֶן וְלִיבְמֵיהֶן, וְאֵין בְּעִנְיָנָם שׁוּם צַד סָפֵק.

Rambam fecha o comentário a esta mishná notando o propósito da frase final "e todas as demais mulheres são permitidas a seus maridos e a seus cunhados": trata-se de uma cláusula de fechamento que evita qualquer dúvida — fora dos oito casos específicos detalhados nas duas mishnayot (quatro em cada bloco), toda a vasta maioria dos casamentos segue seu curso normal, sem qualquer conflito de status entre o destino da esposa perante o marido e perante um eventual cunhado no yibum.