Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Zayin · Mishná 6 de 6 — fim do perek

O Sumo Sacerdote que desqualifica sua própria avó

כֹּהֵן גָּדוֹל פְּעָמִים שֶׁהוּא פוֹסֵל
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná final do Perek Zayin leva ao extremo o princípio do mamzer que desqualifica e alimenta, aplicando-o à posição mais elevada possível na kehuná — o próprio Sumo Sacerdote — e fecha o perek com o lamento irônico da avó que ele desqualifica.

Mesmo o Sumo Sacerdote, às vezes ele desqualifica sua própria avó. Como assim? A filha do kohen casada com um israelita, e ela deu à luz dele uma filha, e a filha foi e se casou com um kohen, e deu à luz dele um filho, este é apto a ser Sumo Sacerdote, de pé, servindo sobre o altar. Ele alimenta sua mãe e desqualifica a mãe de sua mãe. E esta diz: que não haja muitos como o filho de minha filha, o Sumo Sacerdote, pois ele me desqualifica da trumá.A mishná fecha o Perek Zayin com o exemplo mais dramático possível do princípio "o mamzer desqualifica e alimenta" enunciado na mishná anterior — só que substituindo o mamzer, o descendente mais desprezado, pelo Sumo Sacerdote, o mais elevado dos kohanim. A cadeia é: uma filha de kohen casa com um israelita — perdendo, enquanto durar esse casamento, o direito de comer trumá; ela tem uma filha, que por sua vez casa com um kohen; essa neta tem um filho, que, sendo filho de kohen numa linhagem impecável, é apto a alcançar a mais alta posição sacerdotal, oficiando pessoalmente sobre o altar do Templo. Este filho, sendo kohen, alimenta sua própria mãe — a neta da primeira mulher — que agora, como esposa de kohen, come trumá por direito do casamento e por direito de ter filho kohen. Mas, quanto à bisavó original — a filha do kohen que casou com o israelita —, o nascimento deste bisneto kohen na verdade a prejudica: enquanto ele viver, ela permanece definitivamente sem "descendência" que a devolva à trumá paterna, pois seu vínculo de retorno passa por sua filha, casada com israelita, e o neto israelita perpetuado por essa linha (mesmo sendo o pai do futuro Sumo Sacerdote) já bastou, quando nasceu, para fechar essa porta. Encerrando o perek com um toque de humor amargo, a mishná dá voz à avó: ela declara, com ironia, que preferiria não ter tantos descendentes como aquele que se tornou Sumo Sacerdote — pois é justamente essa grandeza sacerdotal do neto, do lado errado da linhagem, que a mantém para sempre excluída da trumá que ela própria, por nascença, tinha todo direito de comer.

כֹּהֵן גָּדוֹל פְּעָמִים שֶׁהוּא פוֹסֵל. כֵּיצַד, בַּת כֹּהֵן לְיִשְׂרָאֵל, וְיָלְדָה הֵימֶנּוּ בַת, וְהָלְכָה הַבַּת וְנִסֵּת לְכֹהֵן, וְיָלְדָה הֵימֶנּוּ בֵן, הֲרֵי זֶה רָאוּי לִהְיוֹת כֹּהֵן גָּדוֹל עוֹמֵד וּמְשַׁמֵּשׁ עַל גַּבֵּי הַמִּזְבֵּחַ, מַאֲכִיל אֶת אִמּוֹ וּפוֹסֵל אֶת אֵם אִמּוֹ, וְזֹאת אוֹמֶרֶת, לֹא כִבְנִי כֹּהֵן גָּדוֹל, שֶׁהוּא פּוֹסְלֵנִי מִן הַתְּרוּמָה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikra (Levítico) 22:13
וּבַת כֹּהֵן כִּי תִהְיֶה אַלְמָנָה וּגְרוּשָׁה, וְזֶרַע אֵין לָהּ, וְשָׁבָה אֶל בֵּית אָבִיהָ כִּנְעוּרֶיהָ, מִלֶּחֶם אָבִיהָ תֹּאכֵל
E a filha de um kohen, se ficar viúva ou divorciada, e não tiver descendência, e voltar à casa de seu pai como em sua juventude, do pão de seu pai ela comerá.

A leitura midráshica de "וְזֶרַע אֵין לָהּ" — "e descendência não tem" — não se limita a filhos diretos: a tradição recebida (segundo o Sifra, base do comentário de Rambam) estende a exigência a netos e bisnetos por qualquer linha, "עַיֵּן עָלֶיהָ" ("observe-a"), até que a linhagem se extinga por completo. É essa mesma leitura ampla que sustenta o caso desta mishná: mesmo um bisneto Sumo Sacerdote, descendente por uma linha que passa por um casamento israelita no meio, ainda conta como "זֶרַע" suficiente para impedir a avó original de jamais voltar a comer trumá — encerrando, de modo memorável, o tema de todo o Perek Zayin.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, em Mishné Torá, codifica o princípio geral de que qualquer descendente, por qualquer linha, mesmo remota, impede definitivamente o retorno da mulher à trumá paterna.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Terumot 6:11
אֶחָד בְּנָהּ וְאֶחָד בַּת בְּנָהּ וּבֶן בִּתָּהּ, וְכֵן זֶרַע זַרְעָהּ עַד סוֹף כָּל הַדּוֹרוֹת, אֲפִלּוּ הָיָה זֶה הַזֶּרַע כֹּהֵן גָּדוֹל, כֵּיוָן שֶׁהוּא בָּא מִצַּד יִשְׂרָאֵל שֶׁבָּאֶמְצַע, הֲרֵי זֶה פּוֹסְלָהּ מִלָּשׁוּב לְבֵית אָבִיהָ, וְאֵינָהּ חוֹזֶרֶת לֶאֱכל בַּתְּרוּמָה כָּל יְמֵי חַיָּיו.

Rambam codifica, no fim das leis de trumá, o princípio geral que esta última mishná do Perek Zayin ilustra de forma tão vívida: qualquer descendente vivo — filho, neto, bisneto, por qualquer combinação de linhagens —, ainda que seja um Sumo Sacerdote na plenitude de sua dignidade, impede sua ancestral de voltar a comer trumá na casa paterna, contanto que haja, em algum ponto da cadeia, um elo passando por um casamento israelita; a grandeza do descendente não muda o princípio: o que importa é apenas a existência de "descendência" viva, não a sua estatura.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica a fonte midráshica de "זֶרַע אֵין לָהּ" que sustenta o caso; Rambam nota a ironia estrutural do princípio "quanto mais elevado o neto, mais fechada a porta"; Rashi, na Guemará, encerra o Perek Zayin com o sentido exato da queixa final da avó.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 7:6
וּפוֹסֵל אֶת אֵם אִמּוֹ. דְּאִי לָאו הוּא, הָיְתָה אֵם אִמּוֹ חוֹזֶרֶת לִתְרוּמָה דְּבֵית אָבִיהָ לְאַחַר מִיתַת בִּתָּהּ. וְכָל זְמַן שֶׁזֶּה קַיָּם אֵינָהּ חוֹזֶרֶת לִתְרוּמָה, דִּכְתִיב וְזֶרַע אֵין לָהּ, עַיֵּן עָלֶיהָ, אוֹ בַּת בַּת הַבַּת, אוֹ בֶּן בֶּן הַבֵּן, אוֹ בַּת בַּת הַבֵּן, וְכֵן לְעוֹלָם.

Bartenura traz a fonte exata da leitura ampla de "descendência": a tradição recebida lê a frase "וְזֶרַע אֵין לָהּ" como um convite a "observar" toda a linhagem descendente — filhos, netos e bisnetos por qualquer combinação de filhas e filhos —, e enquanto qualquer um deles estiver vivo, a mulher original não pode voltar a comer trumá na casa paterna. Sem este filho apto a ser Sumo Sacerdote, sua bisavó já teria voltado a comer trumá desde a morte de sua própria filha; é precisamente a existência contínua deste último elo da corrente que a mantém, para sempre, excluída.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Yevamot 7:6
כֹּהֵן גָּדוֹל פְּעָמִים שֶׁהוּא פוֹסֵל כֵּיצַד בַּת כֹּהֵן לְיִשְׂרָאֵל כוּ׳. וּמִן הָעִקָּרִים שֶׁלָּנוּ, שֶׁכָּל זְמַן שֶׁיִּהְיֶה לַכֹּהֶנֶת זֶרַע מִיִּשְׂרָאֵל, בֵּין שֶׁיִּהְיוּ זְכָרִים אוֹ נְקֵבוֹת, לֹא תֹאכַל בַּתְּרוּמָה, וּלְשׁוֹן סִפְרָא: וּבֵן אֵין לָהּ — אֵין לִי אֶלָּא בְּנָהּ; בִּתָּהּ וּבַת בְּנָהּ וּבַת בִּתָּהּ וּבֶן בִּתָּהּ וּבֶן בַּת בִּתָּהּ מִנַּיִן? תַּלְמוּד לוֹמַר: וְזֶרַע אֵין לָהּ, עַיֵּן עָלֶיהָ.

Rambam nota a beleza estrutural do exemplo escolhido pela mishná: dentre todos os casos possíveis de "descendência que desqualifica", ela escolhe justamente o mais elevado — o próprio Sumo Sacerdote — para ilustrar que a regra não depende, de forma alguma, da dignidade do descendente. Um princípio de nossos fundamentos, nota Rambam, é que enquanto a filha do kohen tiver qualquer descendência através de um casamento israelita, seja por linha masculina ou feminina, ela permanece desqualificada da trumá — e o próprio Sifra deriva essa amplitude da palavra aparentemente redundante "עַיֵּן עָלֶיהָ" do verso.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yevamot 69b
כֹּהֵן גָּדוֹל פְּעָמִים שֶׁהוּא פוֹסֵל — אֶת בַּת כֹּהֵן מִן הַתְּרוּמָה מִשּׁוּם זַרְעָהּ מִיִּשְׂרָאֵל. מַאֲכִיל אֶת אִמּוֹ — לְאַחַר מִיתַת אָבִיו. וּפוֹסֵל אֶת אֵם אִמּוֹ — אֲפִלּוּ לְאַחַר מִיתַת אִמּוֹ, דְּאִי לָאו הוּא הָוָה הַדְרָה אֵם אִמּוֹ לִתְרוּמָה דְּבֵי נָשָׁא לְאַחַר מִיתַת בִּתָּהּ. וְזֹאת — הָאִשָּׁה אוֹמֶרֶת לֹא כִבְנֵי כֹהֵן גָּדוֹל, כְּלוֹמַר לֹא יִרְבּוּ כְּמוֹתוֹ.

Rashi fecha o Perek Zayin explicando o mecanismo exato de cada elo: o futuro Sumo Sacerdote alimenta sua mãe (a neta da bisavó) por direito de kohen, mesmo depois da morte de seu próprio pai; mas desqualifica a mãe de sua mãe — sua bisavó — mesmo depois que a filha desta última já morreu, pois, se ele não existisse, a bisavó já teria voltado à trumá paterna assim que sua filha (a mãe da atual esposa do kohen) morresse. E, quanto à queixa final da avó — "que não haja muitos como o filho de minha filha, o Sumo Sacerdote" —, Rashi explica que ela não deseja mal ao próprio neto elevado; deseja apenas, com ironia amarga, que não se multipliquem casos como o dele — pois é precisamente a existência dele, em toda sua dignidade sacerdotal, que a mantém excluída da trumá para sempre, fechando o Perek Zayin, inteiramente dedicado às complexas leis de quem desqualifica e quem alimenta a mulher ligada à casa de um kohen.