O órlo (incircunciso) e todos os impuros não comem da trumá. Suas esposas e seus escravos comem da trumá. O pazua dacá (de testículo esmagado) e o kerut shafchá (de membro decepado), eles e seus escravos comem, mas suas esposas não comem. E se ele não a conheceu desde que se tornou pazua dacá e kerut shafchá, eis que estas comem. — A mishná abre o Perek Chet com quatro categorias de kohen incapacitado de comer trumá por razões corporais, dividindo-as em dois grupos de efeito muito diferente sobre a família. No primeiro grupo — o órlo, cujos irmãos morreram por causa da circuncisão e que por isso permanece incircunciso, e o kohen impuro em qualquer de suas formas — o impedimento é inteiramente pessoal: ele mesmo, enquanto estiver nesse estado, não come; mas sua esposa e seus escravos, que nunca deixaram de pertencer à "casa" de um kohen legítimo, continuam comendo normalmente, pois a órla e a impureza não os excluem da condição sacerdotal da família. No segundo grupo — o pazua dacá e o kerut shafchá, cujos órgãos genitais foram esmagados ou decepados — o próprio homem e seus escravos comem, mas sua esposa deixa de comer; a razão, como explicam os comentadores, é que, tendo-se tornado assim depois do casamento, toda relação conjugal subsequente com ela é considerada uma "relação de libertinagem" que a transforma em chalalá, desqualificada para a trumá. Por fim, a mishná acrescenta uma ressalva importante: se ele nunca teve relação com ela desde que se tornou pazua dacá ou kerut shafchá — ou seja, se o casamento já existia antes desse defeito e não houve relação depois dele —, ela continua comendo, pois não se tornou chalalá por uma relação que nunca ocorreu.
O verso fala explicitamente de um kohen impuro — descendência de Aharon "צָרוּעַ אוֹ זָב" — e o proíbe de comer dos "קֳדָשִׁים", que a tradição identifica com a trumá, já que é o único קֹדֶשׁ comido por machos e fêmeas da família sacerdotal por igual. A fonte para o órlo vem, por analogia, do próprio korban Pêssach: "וְכָל עָרֵל לֹא יֹאכַל בּוֹ" (Shemot 12:48) — assim como o órlo não come do Pêssach, também não come da trumá. Em ambos os casos, o impedimento recai sobre a pessoa do kohen, não sobre sua casa: a mishná explora exatamente esse ponto ao mostrar que esposas e escravos continuam comendo normalmente.
Rambam, em Mishné Torá, codifica a proibição do kohen impuro de comer trumá diretamente a partir do verso de Vayikra citado pela mishná.
Rambam deriva a proibição do kohen impuro exatamente da leitura que a mishná pressupõe: o verso fala de "קֳדָשִׁים" comidos por toda a descendência de Aharon, machos e fêmeas — e o único item sagrado com essa característica é a trumá, já que os korbanot próprios do Templo têm outras regras. Por isso, todo kohen impuro, qualquer que seja o tipo de impureza, está proibido de comer trumá, seja ela pura ou já impura, até que se purifique — o mesmo princípio que a mishná aplica ao órlo por analogia ao Pêssach, e que, no caso do pazua dacá e do kerut shafchá, se desloca da pessoa do kohen para o status conjugal de sua esposa.
Bartenura explica a distinção entre as duas categorias de kohanim incapacitados; Rambam nota a base comum no verso do Pêssach; Rashi, na Guemará, precisa os termos técnicos da mishná no início do Perek Chet.
Bartenura explica logo de início que o órlo desta mishná não é um bebê ainda não circuncidado por atraso comum, mas um kohen cujos irmãos morreram por causa da circuncisão — e que, portanto, é dispensado da mitzvá por perigo de vida, permanecendo órlo permanentemente. Sua fonte para a proibição é a analogia direta com o korban Pêssach. Quanto à razão pela qual esposas e escravos continuam comendo: eles nunca saíram da condição sacerdotal por causa da órla ou da impureza do kohen — só ele mesmo, pessoalmente, está impedido, faltando-lhe apenas "conserto" (a cura, ou a purificação). Já no caso do pazua dacá, a esposa deixa de comer porque a relação conjugal, depois de ele se tornar assim, é considerada relação de libertinagem, que a torna chalalá — desqualificada mesmo depois; mas se o casamento já existia antes disso e não houve relação depois, ela nunca se tornou chalalá.
Rambam explica que a fonte da proibição do órlo se apoia numa dupla analogia textual: assim como a Torá usa a mesma linguagem para excluir "tושב ושכיר" tanto do Pêssach quanto da trumá, e assim como o Pêssach exclui explicitamente o órlo ("וְכָל עָרֵל לֹא יֹאכַל בּוֹ"), a trumá segue a mesma regra por analogia verbal entre as duas leis. E, resumindo em uma frase o mecanismo por trás da segunda metade da mishná, Rambam lembra que "já se sabe" — de discussões anteriores no tratado — que a relação conjugal do pazua dacá e do kerut shafchá com sua esposa é considerada "bi'at znut", relação de libertinagem, e é exatamente essa qualificação que desqualifica a esposa da trumá, e não simplesmente o defeito físico do marido em si.
Rashi confirma, com quase as mesmas palavras usadas por Bartenura séculos depois, o mecanismo central da mishná: órla e impureza são condições que "faltam conserto" apenas na pessoa do próprio kohen — ele precisa curar-se ou purificar-se —, mas nunca tiraram nem ele nem sua família da condição sacerdotal, por isso esposas e escravos continuam comendo. Já o pazua dacá e o kerut shafchá "tornam" a esposa chalalá por meio da própria relação conjugal ocorrida depois do defeito, porque essa relação — sendo com um homem tecnicamente impróprio para gerar filhos — é classificada como relação de libertinagem; e o ponto final da mishná, "e se ele não a conheceu", esclarece que a chalalá só se produz quando essa relação de fato ocorreu, não pelo simples fato de ela permanecer casada com ele.