Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Chet · Mishná 1 de 6 — início do perek

O órlo e os impuros não comem da trumá

הֶעָרֵל וְכָל הַטְּמֵאִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abrindo o Perek Chet, a mishná deixa o tema da trumá através dos escravos da mulher — assunto de todo o Perek Zayin — e volta-se para a trumá do próprio kohen: quais defeitos corporais o impedem de comer, e como esse impedimento pessoal afeta, ou não, sua esposa e seus escravos.

O órlo (incircunciso) e todos os impuros não comem da trumá. Suas esposas e seus escravos comem da trumá. O pazua dacá (de testículo esmagado) e o kerut shafchá (de membro decepado), eles e seus escravos comem, mas suas esposas não comem. E se ele não a conheceu desde que se tornou pazua dacá e kerut shafchá, eis que estas comem.A mishná abre o Perek Chet com quatro categorias de kohen incapacitado de comer trumá por razões corporais, dividindo-as em dois grupos de efeito muito diferente sobre a família. No primeiro grupo — o órlo, cujos irmãos morreram por causa da circuncisão e que por isso permanece incircunciso, e o kohen impuro em qualquer de suas formas — o impedimento é inteiramente pessoal: ele mesmo, enquanto estiver nesse estado, não come; mas sua esposa e seus escravos, que nunca deixaram de pertencer à "casa" de um kohen legítimo, continuam comendo normalmente, pois a órla e a impureza não os excluem da condição sacerdotal da família. No segundo grupo — o pazua dacá e o kerut shafchá, cujos órgãos genitais foram esmagados ou decepados — o próprio homem e seus escravos comem, mas sua esposa deixa de comer; a razão, como explicam os comentadores, é que, tendo-se tornado assim depois do casamento, toda relação conjugal subsequente com ela é considerada uma "relação de libertinagem" que a transforma em chalalá, desqualificada para a trumá. Por fim, a mishná acrescenta uma ressalva importante: se ele nunca teve relação com ela desde que se tornou pazua dacá ou kerut shafchá — ou seja, se o casamento já existia antes desse defeito e não houve relação depois dele —, ela continua comendo, pois não se tornou chalalá por uma relação que nunca ocorreu.

הֶעָרֵל וְכָל הַטְּמֵאִים, לֹא יֹאכְלוּ בַתְּרוּמָה. נְשֵׁיהֶן וְעַבְדֵיהֶן, יֹאכְלוּ בַתְּרוּמָה. פְּצוּעַ דַּכָּא וּכְרוּת שָׁפְכָה, הֵן וְעַבְדֵיהֶן יֹאכְלוּ, וּנְשֵׁיהֶן לֹא יֹאכֵלוּ. וְאִם לֹא יְדָעָהּ מִשֶּׁנַּעֲשָׂה פְצוּעַ דַּכָּא וּכְרוּת שָׁפְכָה, הֲרֵי אֵלּוּ יֹאכֵלוּ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikra (Levítico) 22:4
אִישׁ אִישׁ מִזֶּרַע אַהֲרֹן וְהוּא צָרוּעַ אוֹ זָב בַּקֳּדָשִׁים לֹא יֹאכַל עַד אֲשֶׁר יִטְהָר, וְהַנֹּגֵעַ בְּכָל טְמֵא נֶפֶשׁ אוֹ אִישׁ אֲשֶׁר תֵּצֵא מִמֶּנּוּ שִׁכְבַת זָרַע
Qualquer homem da descendência de Aharon que seja leproso ou tenha fluxo, dos objetos sagrados não comerá até que se purifique; e o que tocar em qualquer impuro por contato com morto, ou o homem de quem sair emissão seminal.

O verso fala explicitamente de um kohen impuro — descendência de Aharon "צָרוּעַ אוֹ זָב" — e o proíbe de comer dos "קֳדָשִׁים", que a tradição identifica com a trumá, já que é o único קֹדֶשׁ comido por machos e fêmeas da família sacerdotal por igual. A fonte para o órlo vem, por analogia, do próprio korban Pêssach: "וְכָל עָרֵל לֹא יֹאכַל בּוֹ" (Shemot 12:48) — assim como o órlo não come do Pêssach, também não come da trumá. Em ambos os casos, o impedimento recai sobre a pessoa do kohen, não sobre sua casa: a mishná explora exatamente esse ponto ao mostrar que esposas e escravos continuam comendo normalmente.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, em Mishné Torá, codifica a proibição do kohen impuro de comer trumá diretamente a partir do verso de Vayikra citado pela mishná.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Terumot 7:3
כֹּהֵן טָמֵא אָסוּר לֶאֱכל תְּרוּמָה בֵּין טְמֵאָה בֵּין טְהוֹרָה, שֶׁנֶּאֱמַר אִישׁ אִישׁ מִזֶּרַע אַהֲרֹן וְהוּא צָרוּעַ אוֹ זָב בַּקֳּדָשִׁים לֹא יֹאכַל. אֵי זֶהוּ קֹדֶשׁ שֶׁאוֹכְלִין אוֹתוֹ כָּל זֶרַע אַהֲרֹן זְכָרִים וּנְקֵבוֹת, הֱוֵי אוֹמֵר זוֹ תְּרוּמָה.

Rambam deriva a proibição do kohen impuro exatamente da leitura que a mishná pressupõe: o verso fala de "קֳדָשִׁים" comidos por toda a descendência de Aharon, machos e fêmeas — e o único item sagrado com essa característica é a trumá, já que os korbanot próprios do Templo têm outras regras. Por isso, todo kohen impuro, qualquer que seja o tipo de impureza, está proibido de comer trumá, seja ela pura ou já impura, até que se purifique — o mesmo princípio que a mishná aplica ao órlo por analogia ao Pêssach, e que, no caso do pazua dacá e do kerut shafchá, se desloca da pessoa do kohen para o status conjugal de sua esposa.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica a distinção entre as duas categorias de kohanim incapacitados; Rambam nota a base comum no verso do Pêssach; Rashi, na Guemará, precisa os termos técnicos da mishná no início do Perek Chet.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 8:1
הֶעָרֵל. כֹּהֵן עָרֵל שֶׁמֵּתוּ אֶחָיו מֵחֲמַת מִילָה. אֵינוֹ אוֹכֵל בַּתְּרוּמָה. דְּיָלְפִינַן מִפֶּסַח דִּכְתִיב בֵּיהּ וְכָל עָרֵל לֹא יֹאכַל בּוֹ. נְשֵׁיהֶם וְעַבְדֵיהֶם יֹאכְלוּ. דְּהָא מִשּׁוּם עָרְלָה וְטֻמְאָה לֹא נָפְקֵי מִכְּלַל כֹּהֲנִים, אֶלָּא דְּאִינְהוּ גּוּפַיְהוּ מְחֻסָּרִים תַּקָּנָה. נְשֵׁיהֶם לֹא יֹאכֵלוּ. דְּשַׁוְיָהּ חֲלָלָה בְּבִיאָתוֹ, דְּנִבְעֲלָה לַפָּסוּל לָהּ. וְאִם לֹא יְדָעָהּ. שֶׁהָיְתָה נְשׂוּאָה לוֹ קֹדֶם לָכֵן וְלֹא בָּא עָלֶיהָ לְאַחַר שֶׁנַּעֲשָׂה פְּצוּעַ דַּכָּא.

Bartenura explica logo de início que o órlo desta mishná não é um bebê ainda não circuncidado por atraso comum, mas um kohen cujos irmãos morreram por causa da circuncisão — e que, portanto, é dispensado da mitzvá por perigo de vida, permanecendo órlo permanentemente. Sua fonte para a proibição é a analogia direta com o korban Pêssach. Quanto à razão pela qual esposas e escravos continuam comendo: eles nunca saíram da condição sacerdotal por causa da órla ou da impureza do kohen — só ele mesmo, pessoalmente, está impedido, faltando-lhe apenas "conserto" (a cura, ou a purificação). Já no caso do pazua dacá, a esposa deixa de comer porque a relação conjugal, depois de ele se tornar assim, é considerada relação de libertinagem, que a torna chalalá — desqualificada mesmo depois; mas se o casamento já existia antes disso e não houve relação depois, ela nunca se tornou chalalá.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Yevamot 8:1
הֶעָרֵל וְכָל הַטְּמֵאִים לֹא יֹאכְלוּ בַתְּרוּמָה כוּ׳: הַטַּעַם בִּהְיוֹת הַכֹּהֵן עָרֵל לֹא יֹאכַל בַּתְּרוּמָה וְקָדָשִׁים, מַה שֶּׁנֶּאֱמַר בְּפֶסַח תּוֹשָׁב וְשָׂכִיר לֹא יֹאכַל בּוֹ, וְאָמַר בַּתְּרוּמָה תּוֹשָׁב כֹּהֵן וְשָׂכִיר לֹא יֹאכַל. וּכְמוֹ שֶׁהָעָרֵל אֵינוֹ אוֹכֵל פֶּסַח לְאָמְרוֹ וְכָל עָרֵל לֹא יֹאכַל בּוֹ, כְּמוֹ כֵן לֹא יֹאכַל הֶעָרֵל בַּתְּרוּמָה וְקָדָשִׁים. וּכְבָר יָדַעְתָּ שֶׁפְּצוּעַ דַּכָּא וּכְרוּת שָׁפְכָה בְּעִילָתָן בְּעִילַת זְנוּת.

Rambam explica que a fonte da proibição do órlo se apoia numa dupla analogia textual: assim como a Torá usa a mesma linguagem para excluir "tושב ושכיר" tanto do Pêssach quanto da trumá, e assim como o Pêssach exclui explicitamente o órlo ("וְכָל עָרֵל לֹא יֹאכַל בּוֹ"), a trumá segue a mesma regra por analogia verbal entre as duas leis. E, resumindo em uma frase o mecanismo por trás da segunda metade da mishná, Rambam lembra que "já se sabe" — de discussões anteriores no tratado — que a relação conjugal do pazua dacá e do kerut shafchá com sua esposa é considerada "bi'at znut", relação de libertinagem, e é exatamente essa qualificação que desqualifica a esposa da trumá, e não simplesmente o defeito físico do marido em si.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yevamot 70a
מַתְנִיתִין. הֶעָרֵל — כֹּהֵן שֶׁמֵּתוּ אֶחָיו מֵחֲמַת מִילָה. נְשֵׁיהֶם וְעַבְדֵיהֶם יֹאכְלוּ — דְּהָא מִשּׁוּם עָרְלוּת וְטֻמְאָה לֹא נָפְקֵי מִכְּלַל כֹּהֲנִים, אֶלָּא דְּאִינְהוּ גּוּפַיְיהוּ מְחֻסְּרֵי תַקָּנְתָא. נְשֵׁיהֶם — שֶׁל פְּצוּעַ דַּכָּא וּכְרוּת שָׁפְכָה לֹא יֹאכְלוּ, דְּשַׁוְיוּהָ חֲלָלָה בְּבִיאָתָן, שֶׁהֲרֵי נִבְעֲלָה לְפָסוּל לָהּ. וְאִם לֹא יְדָעָהּ — לֹא בָא עָלֶיהָ אַחֲרֵי כֵן, וְהָיְתָה נְשׂוּאָה לוֹ קֹדֶם לָכֵן.

Rashi confirma, com quase as mesmas palavras usadas por Bartenura séculos depois, o mecanismo central da mishná: órla e impureza são condições que "faltam conserto" apenas na pessoa do próprio kohen — ele precisa curar-se ou purificar-se —, mas nunca tiraram nem ele nem sua família da condição sacerdotal, por isso esposas e escravos continuam comendo. Já o pazua dacá e o kerut shafchá "tornam" a esposa chalalá por meio da própria relação conjugal ocorrida depois do defeito, porque essa relação — sendo com um homem tecnicamente impróprio para gerar filhos — é classificada como relação de libertinagem; e o ponto final da mishná, "e se ele não a conheceu", esclarece que a chalalá só se produz quando essa relação de fato ocorreu, não pelo simples fato de ela permanecer casada com ele.