Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Hei · Mishná 6 de 6 — fim do perek

A posição da chalitzá e da relação numa sequência mais longa

אֵין אַחֲרֶיהָ כְלוּם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná final do Perek Hei examina uma questão distinta das anteriores: não mais o efeito de duas cunhadas ou dois cunhados, mas a posição da chalitzá e da relação dentro de uma sequência mais longa de atos — no início, no meio, ou no fim —, e fecha com a disputa de Rabi Nechemia, que equipara os dois atos em todos os casos.

Fez chalitzá e fez maamar, deu get e teve relação — ou teve relação e fez maamar, deu get e fez chalitzá —, não há nada depois da chalitzá, seja no início, seja no meio, seja no fim. Já a relação: quando está no início, não há nada depois dela; no meio e no fim, há algo depois dela. Rabi Nechemia diz: tanto a relação quanto a chalitzá, seja no início, seja no meio, seja no fim, não há nada depois delas.Esta mishná repete casos formalmente já ensinados no início do perek, mas com um propósito novo: mostrar que a posição em que a chalitzá ocorre dentro de uma sequência mais longa de atos não importa — sempre que ela acontece, seja como primeiro ato, seja no meio de uma cadeia mais longa, seja como último ato depois de vários outros, ela sempre encerra por completo o vínculo, sem exigência adicional. Já a relação se comporta de modo diferente: apenas quando ocorre como primeiro ato — antes de qualquer get ou maamar — ela completa o vínculo por inteiro, sem exigir mais nada depois dela, exatamente como ensinado na mishná anterior. Mas se a relação ocorre no meio de uma sequência — depois que já houve um get, por exemplo — ou no fim, depois de vários atos anteriores, ela passa a ser uma relação proibida, que não completa plenamente o kinyan; e por isso ainda resta algo a fazer depois dela — tipicamente, um get ou uma chalitzá adicional. Rabi Nechemia discorda dos sábios exatamente neste último ponto: para ele, a relação se equipara à chalitzá em todos os aspectos — não importa se ocorre no início, no meio ou no fim, ela sempre encerra o vínculo por completo, sem exigência adicional alguma.

חָלַץ וְעָשָׂה מַאֲמָר, נָתַן גֵּט וּבָעַל, אוֹ בָעַל וְעָשָׂה מַאֲמָר, וְנָתַן גֵּט וְחָלַץ, אֵין אַחַר חֲלִיצָה כְלוּם, בֵּין בַּתְּחִלָּה, בֵּין בָּאֶמְצַע, בֵּין בַּסּוֹף. וְהַבְּעִילָה, בִּזְמַן שֶׁהִיא בַתְּחִלָּה, אֵין אַחֲרֶיהָ כְלוּם. בָּאֶמְצַע וּבַסּוֹף, יֵשׁ אַחֲרֶיהָ כְלוּם. רַבִּי נְחֶמְיָה אוֹמֵר, אַחַת בְּעִילָה וְאַחַת חֲלִיצָה, בֵּין בַּתְּחִלָּה, בֵּין בָּאֶמְצַע, בֵּין בַּסּוֹף, אֵין אַחֲרֶיהָ כְלוּם:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 25:5-10
יְבָמָהּ יָבֹא עָלֶיהָ... וְאִם לֹא יַחְפֹּץ הָאִישׁ לָקַחַת אֶת יְבִמְתּוֹ... וְחָלְצָה נַעֲלוֹ מֵעַל רַגְלוֹ
Seu cunhado virá a ela... E se o homem não quiser tomar sua cunhada... ela lhe tirará o sapato do pé.

A Torá apresenta a relação e a chalitzá como dois caminhos completos e definitivos — não parciais — para encerrar o vínculo do yibum, cada um por si só suficiente. A disputa entre os sábios e Rabi Nechemia gira em torno de saber se essa força definitiva da relação se mantém mesmo quando ela ocorre depois de outros atos que já a tornaram, em certo sentido, uma "relação proibida" — ou se, nesse caso, ela perde parte de seu poder de encerrar o vínculo por completo, ao contrário da chalitzá, cuja força a Torá descreve sem qualquer condição.

Halachot · הֲלָכוֹת

Bartenura confirma que esta mishná não é apenas uma repetição, mas serve especificamente para introduzir a disputa entre os sábios e Rabi Nechemia sobre a posição da relação numa sequência mais longa.

Bartenura · Yevamot 5:6
אַף עַל גַּב דְּתָנָא לְעֵיל, הֲדַר תַּנְיָא הָכָא מִשּׁוּם סֵיפָא דְּבָעֵי לְאִפְלוּגֵי בֵּין בִּיאָה לַחֲלִיצָה, דַּחֲלִיצָה בֵּין בַּתְּחִלָּה בֵּין בָּאֶמְצַע בֵּין בַּסּוֹף אֵין אַחֲרֶיהָ כְּלוּם, וְהַבִּיאָה דַּוְקָא בִּזְמַן שֶׁהִיא בַּתְּחִלָּה. וּלְאַשְׁמוֹעִינַן נַמִּי פְּלֻגְתָּא דְּרַבִּי נְחֶמְיָה וְרַבָּנָן.

Bartenura explica que, embora esta mishná repita, em parte, o que já foi ensinado, ela é trazida de novo justamente por causa de sua parte final, que distingue entre a relação e a chalitzá: a chalitzá — seja no início, seja no meio, seja no fim de uma sequência — sempre encerra o vínculo por completo; já a relação só faz isso quando é especificamente o primeiro ato. E o propósito principal de repetir esses casos é dar a base para apresentar a disputa entre os sábios, que fazem essa distinção, e Rabi Nechemia, que a rejeita e equipara os dois atos em qualquer posição. A halachá segue os sábios contra Rabi Nechemia, mantendo a distinção entre a força incondicional da chalitzá e a força condicional da relação.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, na Guemará, confirma a posição de Rabi Nechemia e menciona a opinião intermediária de Abba Yossi ben Chanan trazida na beraita — fechando o Perek Hei, dedicado inteiramente à combinatória do get, do maamar, da relação e da chalitzá.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yevamot 53b
וְשָׁלֹשׁ מַחְלֹקֶת בַּדָּבָר, תַּנָּא קַמָּא — דְּמַתְנִיתִין דְּאָמַר חֲלִיצָה פְּסוּלָה אֵין אַחֲרֶיהָ כְּלוּם אֲבָל בִּיאָה פְּסוּלָה יֵשׁ אַחֲרֶיהָ כְּלוּם. וְרַבִּי נְחֶמְיָה — דְּאָמַר אַחַת זוֹ וְאַחַת זוֹ אֵין אַחֲרֶיהָ כְּלוּם. וְאַבָּא יוֹסֵי בַּר חָנָן — דְּאָמַר אַחַת זוֹ וְאַחַת זוֹ יֵשׁ אַחֲרֶיהָ כְּלוּם בָּאֶמְצַע וּבַסּוֹף.

Rashi explica que existem, na verdade, três posições sobre esta questão: a do tana kama da mishná, que distingue entre chalitzá — que sempre encerra o vínculo, mesmo se pesulá, isto é, feita em circunstâncias imperfeitas — e relação, que só encerra quando é o primeiro ato; a de Rabi Nechemia, que equipara os dois atos, dizendo que nenhum dos dois deixa algo pendente, em qualquer posição; e a de Abba Yossi ben Chanan, citada numa beraita, que vai ainda mais longe na direção oposta, sustentando que tanto a relação quanto a chalitzá, quando ocorrem no meio ou no fim de uma sequência, sempre deixam algo pendente. Com esta mishná, fecha-se o Perek Hei: dedicado inteiramente à ordem e à combinação do get, do maamar, da relação e da chalitzá — seja para um único yavam e uma única yevamá, seja para duas cunhadas de um yavam, seja para dois cunhados de uma yevamá —, e à disputa central entre Rabban Gamliel e os sábios que o abriu.