Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Hei · Mishná 5 de 6

Chalitzá ou relação com uma delas libera a outra por completo

חָלַץ וְחָלַץ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná fecha a série iniciada na anterior, mostrando que, assim que a chalitzá ou a relação é o primeiro ato praticado com uma das duas cunhadas, nenhum ato posterior — com qualquer uma das duas — tem mais efeito algum; e estende explicitamente essa regra também ao caso simétrico de dois cunhados vinculados à mesma yevamá.

Fez chalitzá e fez chalitzá, ou fez chalitzá e fez maamar, deu get e teve relação; ou teve relação e teve relação, ou teve relação e fez maamar, deu get e fez chalitzá — não há nada depois da chalitzá; seja um único yavam para duas yevamot, sejam dois yevamin para uma única yevamá.Se o yavam faz chalitzá a uma das duas cunhadas, a zika de ambas se desfaz por completo naquele momento — pois a chalitzá sempre dissolve o vínculo inteiro —, e por isso é permitido a ele se casar com as parentes da segunda; qualquer ato posterior que ele venha a fazer com ela, seja outra chalitzá, seja maamar seguido de get e relação, não tem efeito algum, pois ela já estava livre desde a chalitzá da primeira. O mesmo vale, simetricamente, quando a relação — e não a chalitzá — é o primeiro ato: se ele tem relação com uma das duas, essa relação já completa e conclui o vínculo por inteiro, liberando a outra de qualquer zika remanescente; por isso, seja uma segunda relação, seja maamar seguido de get e chalitzá, nenhum ato posterior com a segunda tem qualquer efeito. A mishná fecha esclarecendo que toda essa regra — válida para duas yevamot de um único yavam — vale igualmente, e pela mesma lógica, para dois yevamin vinculados a uma única yevamá.

חָלַץ וְחָלַץ, אוֹ חָלַץ וְעָשָׂה מַאֲמָר, נָתַן גֵּט וּבָעַל, אוֹ בָעַל וּבָעַל, אוֹ בָעַל וְעָשָׂה מַאֲמָר, נָתַן גֵּט וְחָלַץ, אֵין אַחַר חֲלִיצָה כְלוּם, בֵּין יָבָם אֶחָד לִשְׁתֵּי יְבָמוֹת, בֵּין שְׁנֵי יְבָמִין לִיבָמָה אֶחָת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 25:9-10
וְקָרְאוּ לוֹ זִקְנֵי עִירוֹ וְדִבְּרוּ אֵלָיו... וְחָלְצָה נַעֲלוֹ מֵעַל רַגְלוֹ... וְנִקְרָא שְׁמוֹ בְּיִשְׂרָאֵל בֵּית חֲלוּץ הַנָּעַל
Os anciãos de sua cidade o chamarão e falarão com ele... e ela lhe tirará o sapato do pé... e seu nome será chamado em Israel: a casa daquele a quem se tirou o sapato.

A força dissolutiva total da chalitzá — que a Torá descreve como um ato único e completo, capaz de encerrar por inteiro o vínculo do yavam com a família do irmão falecido — é o que permite que ela desfaça, de uma só vez, a zika de todas as cunhadas vinculadas àquele yavam, e não apenas da mulher em que foi realizada. Simetricamente, quando o vínculo é formado por dois cunhados a uma única viúva, a relação de qualquer um deles com ela já cumpre a mitzvá do yibum descrita no versículo anterior, liberando automaticamente o outro cunhado de qualquer obrigação remanescente.

Halachot · הֲלָכוֹת

Bartenura destaca um detalhe halachico importante: a segunda mulher, liberada pela chalitzá feita à primeira, não é considerada ela mesma uma chalutzá — e por isso não fica proibida de se casar com um cohen.

Bartenura · Yevamot 5:5
חָלַץ וְחָלַץ. מֻתָּר בִּקְרוֹבוֹת שְׁנִיָּה, שֶׁאֵין אַחַר חֲלִיצָה רִאשׁוֹנָה שׁוּם זִקַּת יְבָמִין, וַחֲלִיצָה בַּתְרַיְתָא לָאו כְּלוּם הִיא, וַאֲפִלּוּ לִכְהֻנָּה אֵינָהּ פְּסוּלָה.

Bartenura observa que, uma vez feita a chalitzá à primeira cunhada, a segunda chalitzá — feita depois, à outra — não é considerada nada, nem sequer para o efeito de desqualificá-la do casamento com um cohen. Isso significa que a segunda mulher, embora tecnicamente "liberada" por um ato ligado à chalitzá de sua rival, não carrega o status halachico de chalutzá — reservado a Torá, entre as proibições sacerdotais — e continua apta a se casar com um cohen, caso ele venha a se propor.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha todas as combinações da mishná; Rashi, na Guemará, confirma a leitura e explica a extensão explícita ao caso de dois yevamin.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 5:5
וְכֵן חָלַץ לְזוֹ וּמַאֲמָר לְזוֹ, וְכֵן נָתַן גֵּט לְזוֹ אַחַר הַחֲלִיצָה שֶׁל זוֹ, אוֹ אִם בָּעַל לְזוֹ אַחַר הַחֲלִיצָה שֶׁל זוֹ, אֵין מַעֲשֶׂה הָאַחֲרוֹן כְּלוּם. אוֹ אִם בָּעַל תְּחִלָּה וְחָזַר וּבָעַל לַשְּׁנִיָּה, אוֹ בָּעַל תְּחִלָּה וְעָשָׂה מַאֲמָר בַּשְּׁנִיָּה, אוֹ נָתַן גֵּט לַשְּׁנִיָּה אוֹ חָלַץ לַשְּׁנִיָּה, אֵין אַחַר בִּיאָה כְּלוּם, וּמַעֲשֶׂה אַחֲרוֹן לֹא חָשִׁיב וּמֻתָּר בִּקְרוֹבוֹת הַשְּׁנִיָּה. אֵין אַחַר חֲלִיצָה כְלוּם. אַרֵישָׁא קָאֵי. וְאַסֵּיפָא צָרִיךְ לְמֵימַר אֵין אַחַר בִּיאָה כְּלוּם.

Bartenura reúne todas as variantes num único princípio: uma vez feita a chalitzá com uma das duas, nenhum ato posterior com a segunda — maamar, get ou relação — tem qualquer efeito, e o ato final é considerado sem valor, deixando-a livre para se casar com as parentes dela. O mesmo vale, na direção inversa, quando a relação é o primeiro ato: uma vez que o yavam teve relação com uma das duas, nenhum ato posterior com a segunda tem efeito, e ela também fica livre. Bartenura nota que a expressão "não há nada depois da chalitzá" no final da mishná se refere estritamente ao primeiro grupo de casos (que começam por chalitzá), sendo necessário entender, para o segundo grupo (que começam por relação), a expressão paralela "não há nada depois da relação".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yevamot 50b
חָלַץ וְחָלַץ אוֹ חָלַץ וְעָשָׂה מַאֲמָר וְנָתַן גֵּט וּבָעַל — וְקָתָנֵי סֵיפָא אֵין לְאַחַר חֲלִיצָה כְּלוּם. וְהָכִי פֵּרוּשׁוֹ, חָלַץ לְזוֹ וְחָלַץ לְזוֹ מֻתָּר בִּקְרוֹבוֹת שְׁנִיָּה שֶׁאֵין אַחַר חֲלִיצָה כְלוּם... בֵּין שְׁנֵי יְבָמִין לִיבָמָה אַחַת — בְּכָל הַדִּין הָאָמוּר לְמַעְלָה בְּיָבָם אֶחָד וּבִשְׁתֵּי יְבָמוֹת.

Rashi confirma essa leitura: a chalitzá feita a uma das duas cunhadas já basta para permitir ao yavam as parentes da segunda, pois não há nada depois da chalitzá inicial. E explica que a última cláusula da mishná — "seja um único yavam para duas yevamot, sejam dois yevamin para uma única yevamá" — estende explicitamente todo o conjunto de regras já expostas para o caso de duas cunhadas de um yavam também ao caso inverso: dois irmãos cunhados vinculados à mesma viúva, onde o mesmo princípio determina que a chalitzá ou a relação feita por um dos dois cunhados libera automaticamente o outro de qualquer obrigação restante.