Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Dalet · Mishná 11 de 13

Quatro irmãos casados a quatro mulheres, e a rival desqualificada

אַרְבָּעָה אַחִין נְשׂוּאִין אַרְבַּע נָשִׁים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Uma mishná em três partes: primeiro, o caso extremo de um único irmão sobrevivente diante de quatro cunhadas; depois, o princípio de que a rival é isenta pela relação ou chalitzá feita com sua companheira; e por fim, o caso prático de uma esposa apta e outra desqualificada para a kehuná.

Quatro irmãos casados a quatro mulheres, e morreram — se o maior deles quis fazer o yibum com todas elas, a permissão está em sua mão. Aquele que era casado a duas mulheres, e morreu, a relação ou a chalitzá de uma delas isenta sua rival. Se uma era apta e outra desqualificada — se ele for fazer chalitzá, que faça chalitzá com a desqualificada; e se for fazer yibum, que faça yibum com a apta.Se quatro irmãos, cada um casado a uma mulher diferente, morrem todos sem filhos, restando apenas um quinto irmão vivo, esse irmão sobrevivente não está limitado a desposar apenas uma das quatro viúvas: se ele desejar, tem plena permissão de realizar o yibum com todas as quatro, tomando-as como esposas simultaneamente, pois cada uma delas caiu perante ele por um vínculo de yibum independente e distinto, oriundo de um irmão diferente. Já o segundo caso trata de um homem comum, casado com duas esposas ao mesmo tempo, que morre sem filhos: a relação de yibum, ou a chalitzá, realizada com uma delas — qualquer uma — automaticamente isenta a outra de qualquer obrigação adicional, pois ambas eram esposas do mesmo homem falecido, e um único ato de yibum ou chalitzá já resolve o vínculo comum das duas. O terceiro caso lida com uma complicação prática: se, entre as duas esposas rivais, uma é apta a se casar com um cohen — uma virgem comum, por exemplo — e a outra é desqualificada dessa possibilidade — por já ter sido divorciada de outro homem, digamos —, o cunhado deve escolher cuidadosamente com qual delas realiza cada ato: se optar pela chalitzá, deve fazê-la com a que já está desqualificada, evitando desqualificar desnecessariamente também a apta; e se optar pelo yibum, deve fazê-lo com a apta, preservando ao máximo as possibilidades futuras de ambas as mulheres envolvidas.

אַרְבָּעָה אַחִין נְשׂוּאִין אַרְבַּע נָשִׁים, וָמֵתוּ, אִם רָצָה הַגָּדוֹל שֶׁבָּהֶם לְיַבֵּם אֶת כֻּלָּן, הָרְשׁוּת בְּיָדוֹ. מִי שֶׁהָיָה נָשׂוּי לִשְׁתֵּי נָשִׁים, וָמֵת, בִּיאָתָהּ אוֹ חֲלִיצָתָהּ שֶׁל אַחַת מֵהֶן פּוֹטֶרֶת צָרָתָהּ. הָיְתָה אַחַת כְּשֵׁרָה, וְאַחַת פְּסוּלָה, אִם הָיָה חוֹלֵץ, חוֹלֵץ לַפְּסוּלָה. וְאִם הָיָה מְיַבֵּם, מְיַבֵּם לַכְּשֵׁרָה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 25:9
וְקָרְאוּ לוֹ זִקְנֵי עִירוֹ וְדִבְּרוּ אֵלָיו וְעָמַד וְאָמַר לֹא חָפַצְתִּי לְקַחְתָּהּ
Os anciãos de sua cidade o chamarão e falarão com ele; e ele se levantará e dirá: não desejo tomá-la.

Bartenura observa, a partir da expressão "aquele que não constrói a casa de seu irmão" — asher lo yivneh —, que o versículo fala sempre de uma única casa por vez: um homem constrói uma casa, e não constrói duas casas simultaneamente com a mesma cunhada. É desse princípio que se deriva a regra de que a relação ou a chalitzá com uma das rivais já resolve o vínculo comum de ambas: assim como não se pode fazer yibum com as duas esposas de um único irmão falecido, também não se pode — nem é necessário — fazer chalitzá com ambas, pois tudo que não é apto para o yibum tampouco é apto para a chalitzá, e o vínculo de uma única "casa" já se extingue com o ato realizado sobre qualquer uma das duas.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica por que a mishná menciona especificamente quatro irmãos, e detalha a razão prática do terceiro caso da mishná.

Rambam · Perush HaMishná, Yevamot 4:11
הַשִּׁעוּר בְּאָמְרוֹ אַרְבָּעָה אַחִים, וְכַוָּנָתוֹ לְאַרְבָּעָה, עֵצָה טוֹבָה קָא מַשְׁמַע לָן, שֶׁלֹּא יִשָּׂא אָדָם יוֹתֵר מֵאַרְבַּע נָשִׁים, וְהַטַּעַם לְפִי שֶׁאִי אֶפְשָׁר לוֹ לְאָדָם לַעֲמֹד בְּעוֹנָתָן עַל הַיּוֹתֵר.

Rambam explica que a escolha específica do número quatro na mishná não é uma limitação halachica rígida, mas um bom conselho prático: um homem não deveria, idealmente, tomar mais do que quatro esposas, pois além desse número torna-se praticamente impossível cumprir adequadamente com todas elas a obrigação conjugal regular de "oná" a que tem direito cada esposa.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha a razão do número quatro e o princípio bíblico por trás do segundo caso; Rashi, na Guemará, explica a preocupação prática levantada na sugia sobre como um único irmão sustentaria quatro esposas.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Yevamot 4:11
אַרְבָּעָה אַחִין נְשׂוּאִין אַרְבַּע נָשִׁים וָמֵתוּ כוּ׳: וְאָמְרוּ אִם הָיָה חוֹלֵץ, חוֹלֵץ לַפְּסוּלָה, רְצוֹנוֹ לוֹמַר לְאוֹתָהּ שֶׁהִיא פְּסוּלָה לִכְהֻנָּה, כְּדֵי שֶׁלֹּא יִפְסֹל הַכְּשֵׁרָה וְיַחֲזִירֶנָּה חֲלוּצָה וְתֵאָסֵר לִכְהֻנָּה.

Rambam explica que a escolha de fazer chalitzá especificamente com a esposa já desqualificada visa preservar a aptidão da outra esposa para se casar futuramente com um cohen — pois, se ele fizesse chalitzá com a apta, ela se tornaria uma chalutzá, o que a desqualificaria permanentemente da kehuná, uma perda evitável.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 4:11
אַרְבָּעָה אַחִין וְכוּ׳. הוּא הַדִּין אֲפִלּוּ נָשֵׁי טוּבָא נַמִּי, אִם אֶפְשָׁר בְּסִפּוּקַיְהוּ, הָרְשׁוּת בְּיָדוֹ. וְהַאי דְּנָקַט אַרְבַּע, עֵצָה טוֹבָה קָמַשְׁמַע לָן. בִּיאָתָהּ אוֹ חֲלִיצָתָהּ שֶׁל אַחַת מֵהֶן פּוֹטֶרֶת צָרָתָהּ. דִּכְתִיב אֲשֶׁר לֹא יִבְנֶה אֶת בֵּית אָחִיו, בַּיִת אֶחָד הוּא בּוֹנֶה וְאֵינוֹ בּוֹנֶה שְׁנֵי בָתִּים.

Bartenura esclarece que o mesmo princípio se aplicaria mesmo a um número ainda maior de esposas, se o homem tivesse condições reais de sustentá-las — a menção específica a quatro é apenas um bom conselho prático quanto ao limite razoável, não uma barreira halachica absoluta. Quanto ao segundo caso, ele cita a base bíblica: o versículo fala de "construir a casa de seu irmão" no singular — uma única casa —, indicando que o yavam constrói apenas uma casa, e não duas simultaneamente com a mesma dupla de rivais.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yevamot 44a
מַתְנִי׳ הָיְתָה אַחַת כְּשֵׁרָה — לִכְהֻנָּה, וְאַחַת פְּסוּלָה, כְּגוֹן שֶׁנִּתְגָּרְשָׁה מֵאִישׁ אַחֵר. אִם בָּא יָבָם לַחֲלֹץ, חוֹלֵץ לַפְּסוּלָה — וְלֹא יִפְסֹל אֶת הַכְּשֵׁרָה לִכְהֻנָּה, דְּלֹא יִשְׁפֹּךְ אָדָם מֵי בּוֹרוֹ וַאֲחֵרִים צְרִיכִין לָהֶם, אַף עַל גַּב דְּהוּא אֵין צָרִיךְ לָהֶם. גְּמָ׳ אַרְבָּעָה אַחִין סָלְקָא דַעְתָּךְ — כֵּיוָן דְּלָא הָווּ אֶלָּא ד׳ וְכֻלָּן מֵתוּ, מַאן מְיַבֵּם.

Rashi explica que o exemplo típico de uma "esposa desqualificada" é aquela que já havia sido divorciada de outro homem antes deste casamento — uma divorciada é proibida a se casar com um cohen. E, quanto à escolha de fazer chalitzá com a desqualificada, ele cita o dito popular: "não se derrama a água do próprio poço quando outros ainda precisam dela" — mesmo que o próprio yavam não tenha interesse em preservar a aptidão sacerdotal daquela mulher para si, ele deve evitar prejudicá-la desnecessariamente, já que outros poderiam se beneficiar de sua condição preservada. Na Guemará, os sábios chegam a questionar o próprio cenário inicial da mishná: se todos os quatro irmãos morreram, quem restaria para realizar o yibum com as quatro?