Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Guimel · Mishná 10 de 10 — fim do perek

Os noivos trocados sob a chuppá, e o fim do Perek Guimel

שְׁנַיִם שֶׁקִּדְּשׁוּ שְׁתֵּי נָשִׁים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná fecha o Perek Guimel com um caso totalmente diferente dos anteriores — não mais sobre irmãos e zika, mas sobre dois noivos que trocaram suas noivas por engano ao entrarem sob a chuppá — examinando as diferentes transgressões conforme o grau de parentesco entre os casais, e a precaução prática de afastamento por três meses.

Dois que desposaram duas mulheres, e na hora de entrarem sob a chuppá trocaram a deste por aquele, e a daquele por este — eis que estes são culpados por esposa de outro homem. Se eram irmãos, por esposa de irmão. E se eram irmãs, por mulher junto com sua irmã. E se eram niddot, por niddá. E as afastam três meses, temendo que estejam grávidas. E se eram menores, incapazes de gerar, devolvem-nas imediatamente. E se eram filhas de cohanim, ficam desqualificadas da teruma.Dois homens desposaram, cada um, uma mulher diferente; mas, no momento de consumar o casamento sob a chuppá, houve confusão, e cada um acabou tendo relações com a noiva do outro, por engano. A mishná examina as transgressões resultantes conforme o grau de relação entre os dois casais envolvidos: se os dois homens não eram parentes entre si, a transgressão de cada um é simplesmente ter relações com a esposa de outro homem — adultério, ainda que involuntário quanto à identidade, mas culposo quanto à falta de cuidado. Se os dois homens eram irmãos, a transgressão passa a ser também de esposa de irmão, categoria distinta e mais grave. Se as duas mulheres eram irmãs entre si, soma-se ainda a transgressão de tomar uma mulher junto com sua irmã. E se qualquer uma delas estava em estado de nidá no momento, soma-se também essa transgressão. Como todas essas transgressões ocorreram sem intenção — os homens agiram por engano, pensando estar com suas próprias noivas —, elas trazem consigo a obrigação de trazer korbán, um sacrifício por cada transgressão distinta em que incorreram. Por precaução prática, todas as mulheres envolvidas são afastadas de seus maridos originais por três meses, tempo necessário para que se possa distinguir se estão grávidas e de quem, evitando dúvidas sobre a paternidade dos filhos. Se eram meninas ainda incapazes de engravidar, devolvem-se imediatamente aos maridos originais, sem necessidade de espera. E se eram filhas de cohanim, ficam permanentemente desqualificadas de comer da teruma da casa paterna, mesmo tendo sido vítimas involuntárias do erro.

שְׁנַיִם שֶׁקִדְּשׁוּ שְׁתֵּי נָשִׁים, וּבִשְׁעַת כְּנִיסָתָן לַחֻפָּה הֶחֱלִיפוּ אֶת שֶׁל זֶה לָזֶה, וְאֶת שֶׁל זֶה לָזֶה, הֲרֵי אֵלּוּ חַיָּבִים מִשּׁוּם אֵשֶׁת אִישׁ. הָיוּ אַחִין, מִשּׁוּם אֵשֶׁת אָח. וְאִם הָיוּ אֲחָיוֹת, מִשּׁוּם אִשָּׁה אֶל אֲחוֹתָהּ. וְאִם הָיוּ נִדּוֹת, מִשּׁוּם נִדָּה. וּמַפְרִישִׁין אוֹתָן שְׁלֹשָׁה חֳדָשִׁים, שֶׁמָּא מְעֻבָּרוֹת הֵן. וְאִם הָיוּ קְטַנּוֹת שֶׁאֵינָן רְאוּיוֹת לֵילֵד, מַחֲזִירִין אוֹתָן מִיָּד. וְאִם הָיוּ כֹהֲנוֹת, נִפְסְלוּ מִן הַתְּרוּמָה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikra (Levítico) 21:7
אִשָּׁה זֹנָה וַחֲלָלָה לֹא יִקָּחוּ וְאִשָּׁה גְּרוּשָׁה מֵאִישָׁהּ לֹא יִקָּחוּ כִּי קָדֹשׁ הוּא לֵאלֹהָיו
Mulher prostituída ou profanada não tomarão, nem mulher divorciada de seu marido tomarão, pois ele é santo para o seu D-us.

A razão pela qual a filha de cohen fica desqualificada da teruma mesmo tendo sido vítima de um erro alheio é que, segundo o princípio talmúdico, uma relação de "zenut" — relação fora do casamento válido, ainda que sem culpa da mulher — a torna, para efeitos de santidade sacerdotal, semelhante à categoria vedada por este versículo. Ainda que ela permaneça permitida a se casar com seu próprio marido depois — pois a Torá isenta a mulher forçada ou enganada de qualquer culpa pessoal —, essa mesma relação involuntária basta para impedi-la de voltar a comer da teruma da casa de seu pai cohen, mostrando que a santidade sacerdotal exige um padrão mais estrito do que a permissão conjugal comum.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, em seu comentário a esta mishná final do perek, explica o princípio dos três tipos de proibição sobreposta que permitem múltiplos korbanot pelo mesmo ato, e por que a mulher forçada é desqualificada da teruma apesar de sua inocência.

Rambam · Perush HaMishná, Yevamot 3:10
טַעַם הֱיוֹתוֹ כּוֹלֵל יַחַד אֵלּוּ הָאֲסוּרִין, לְפִי שֶׁהֵן שׁוֹגְגִין, וּלְפִיכָךְ יָבִיאוּ קָרְבָּן עַל כָּל אַחַת מֵאֵלּוּ הָעֲרָיוֹת, אַף עַל פִּי שֶׁהָעִקָּר אֶצְלֵנוּ אֵין אִסּוּר חָל עַל אִסּוּר... וְטַעַם הֱיוֹתָם פְּסוּלוֹת מִן הַכְּהֻנָּה לְפִי שֶׁנִּבְעֲלוּ בְּעִילַת זְנוּת, וְאַף עַל פִּי שֶׁהֵן שׁוֹגְגוֹת, נִפְסְלוּ מִן הַכְּהֻנָּה.

Rambam explica o princípio técnico por trás da multiplicidade de korbanot: embora a regra geral seja que uma proibição não recai sobre outra já existente, aqui, como as diferentes proibições — esposa de outro homem, esposa de irmão, mulher junto com sua irmã, nidá — surgiram todas simultaneamente no mesmo ato involuntário, cada uma se soma às demais, gerando obrigação de trazer um korbán distinto para cada uma. Quanto à desqualificação da teruma, Rambam explica que, tendo havido uma relação classificada como "zenut" — fora dos parâmetros do casamento válido, ainda que involuntária —, isso basta para desqualificar a mulher, mesmo sendo ela plenamente isenta de culpa e permitida a permanecer com seu próprio marido.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha os três tipos técnicos de sobreposição de proibições que fundamentam a multiplicidade de korbanot; Rashi, na Guemará, fecha o Perek Guimel discutindo a razão prática do afastamento de três meses.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Yevamot 3:10
שְׁנַיִם שֶׁקִּדְּשׁוּ שְׁתֵּי נָשִׁים כוּ׳: וְעוֹד נְבָאֵר אֵלּוּ הָעִקָּרִים כֻּלָּם בְּפֶרֶק ג׳ מִכְּרִיתוֹת.

Rambam remete o leitor ao Tratado Keritot, onde ele desenvolverá com mais detalhe os três princípios técnicos de "proibição abrangente", "proibição acrescida" e "proibição simultânea" — as três formas pelas quais múltiplas proibições podem recair juntas sobre o mesmo ato, gerando obrigação de trazer um korbán para cada uma delas.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 3:10
הָיוּ אַחִין. אַף מִשּׁוּם אֵשֶׁת אָח וְכוּ׳. אַף עַל גַּב דְּקַיְמָא לָן אֵין אִסּוּר חָל עַל אִסּוּר, אִית לֵיהּ לְהַאי תַּנָּא דִּבְאִסּוּר כּוֹלֵל וְאִסּוּר מוֹסִיף וְאִסּוּר בַּת אַחַת כִּי הָכָא, אִסּוּר חָל עַל אִסּוּר, וְחַיָּב לְהָבִיא קָרְבָּן עַל כָּל אִסּוּר וְאִסּוּר: וְאִם הָיוּ כֹהֲנוֹת. בְּנוֹת כֹּהֲנִים.

Bartenura confirma que, apesar da regra geral de que uma proibição não se soma a outra já vigente, o tanna desta mishná reconhece exceções: quando as proibições surgem juntas — "abrangente", "acrescida" ou "simultânea" —, como ocorre aqui com todas as transgressões nascendo do mesmo ato único, cada proibição se soma às demais, e o homem se torna obrigado a trazer um korbán distinto por cada uma. Ele esclarece também que "cohanot" refere-se às filhas de cohanim, e não a esposas de cohanim.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yevamot 33b
מַתְנִי׳ וּמַפְרִישִׁין אוֹתָן ג׳ חֳדָשִׁים — שֶׁלֹּא לַחֲזֹר לְבַעֲלֵיהֶן, שֶׁמָּא מְעֻבָּרוֹת הֵן וּבְנֵיהֶם מַמְזֵרִים, וּבָעִינַן הַבְחָנָה בֵּין זֶרַע כָּשֵׁר לְזֶרַע פָּסוּל שֶׁלֹּא יִתְלוּ הָעֻבָּרִים בְּבַעֲלֵיהֶן.

Rashi fecha o Perek Guimel explicando a razão prática do afastamento de três meses: se as mulheres voltassem imediatamente a seus maridos originais, um filho nascido logo depois poderia ser atribuído erroneamente ao marido legítimo, quando na verdade foi concebido no ato do engano — o que tornaria essa criança um mamzer sem que ninguém percebesse. O período de espera permite discernir com clareza entre descendência legítima e ilegítima, evitando que uma gravidez proveniente do erro seja atribuída, por engano, ao marido correto.