Testemunha-se à luz da vela e à luz da lua, e casa-se com base numa voz ecoada. Houve um caso de um homem que ficou de pé no topo do monte e disse 'fulano, filho de fulano, de tal lugar, morreu' — foram e não encontraram ninguém ali, e casaram sua esposa. E houve outro caso, em Tzalmon, de um homem que disse 'eu sou fulano, filho de fulano, uma cobra me mordeu, e eis que estou morrendo' — foram e não o reconheceram, e ainda assim casaram sua esposa. — Mesmo condições de iluminação limitada — luz de vela ou de lua — não invalidam um testemunho visual válido de identificação. E, num salto ainda maior de leniência, os Sábios permitiram basear o novo casamento até mesmo numa voz ouvida sem que se visse quem falava — desde que as circunstâncias tornem a mensagem plausível e não haja motivo para suspeitar de engano. Os dois casos históricos ilustram esse limite extremo: no primeiro, uma voz anônima vinda do topo de um monte anunciou a morte de um homem específico, e mesmo sem encontrar ninguém no local — nem o cadáver, nem quem falou —, os Sábios confiaram na mensagem e permitiram o casamento da viúva. No segundo, foi o próprio moribundo quem se identificou antes de morrer, mordido por uma cobra, mas quando finalmente chegaram ao local ninguém conseguiu reconhecer seu rosto — e, ainda assim, confiando na plausibilidade da autoidentificação nas circunstâncias descritas, permitiram o casamento de sua esposa.
Os dois precedentes desta mishná representam o ponto mais distante que a leniência dos Sábios já alcançou: nem visão direta do corpo, nem identificação facial, nem sequer confirmação de que a pessoa que falou é quem dizia ser — apenas a plausibilidade circunstancial da mensagem, aceita retroativamente como base suficiente para permitir um novo casamento. É o extremo prático da lógica que abriu todo este perek: o temor de deixar mulheres presas como agunot supera, nesses casos-limite, até a ausência quase total de prova direta.
Rambam confirma que a bat kol dos dois relatos históricos é precisamente o mecanismo que a mishná já havia introduzido em sua primeira cláusula, aplicado na prática.
Rambam esclarece, com brevidade, que os dois relatos históricos citados na mishná são precisamente exemplos concretos daquilo que a primeira cláusula chama de 'bat kol' — uma voz ouvida sem visão direta de quem a emitiu, aceita como base suficiente para permitir o casamento quando as circunstâncias tornam a mensagem plausível.
Bartenura esclarece o sentido de bat kol nesta mishná e localiza geograficamente o segundo relato.
Bartenura explica que 'bat kol', neste contexto, refere-se a uma voz ouvida anunciando ou clamando a morte de determinada pessoa, sem que se tenha visto diretamente quem falou ou o próprio corpo. E identifica Tzalmon simplesmente como o nome do lugar onde ocorreu o segundo episódio, do homem mordido por uma cobra que se autoidentificou antes de morrer.