Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Tet-Zayin · Mishná 6 de 7

Testemunho à luz da vela, e o casamento por bat kol

מְעִידִין לְאוֹר הַנֵּר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A sexta mishná traz dois precedentes históricos ainda mais extremos do que os anteriores: casos em que ninguém sequer confirmou a identidade do falecido, e mesmo assim os Sábios permitiram que a esposa se casasse novamente com base numa voz ouvida à distância.

Testemunha-se à luz da vela e à luz da lua, e casa-se com base numa voz ecoada. Houve um caso de um homem que ficou de pé no topo do monte e disse 'fulano, filho de fulano, de tal lugar, morreu' — foram e não encontraram ninguém ali, e casaram sua esposa. E houve outro caso, em Tzalmon, de um homem que disse 'eu sou fulano, filho de fulano, uma cobra me mordeu, e eis que estou morrendo' — foram e não o reconheceram, e ainda assim casaram sua esposa.Mesmo condições de iluminação limitada — luz de vela ou de lua — não invalidam um testemunho visual válido de identificação. E, num salto ainda maior de leniência, os Sábios permitiram basear o novo casamento até mesmo numa voz ouvida sem que se visse quem falava — desde que as circunstâncias tornem a mensagem plausível e não haja motivo para suspeitar de engano. Os dois casos históricos ilustram esse limite extremo: no primeiro, uma voz anônima vinda do topo de um monte anunciou a morte de um homem específico, e mesmo sem encontrar ninguém no local — nem o cadáver, nem quem falou —, os Sábios confiaram na mensagem e permitiram o casamento da viúva. No segundo, foi o próprio moribundo quem se identificou antes de morrer, mordido por uma cobra, mas quando finalmente chegaram ao local ninguém conseguiu reconhecer seu rosto — e, ainda assim, confiando na plausibilidade da autoidentificação nas circunstâncias descritas, permitiram o casamento de sua esposa.

מְעִידִין לְאוֹר הַנֵּר וּלְאוֹר הַלְּבָנָה, וּמַשִּׂיאִין עַל פִּי בַת קוֹל. מַעֲשֶׂה בְאֶחָד שֶׁעָמַד עַל רֹאשׁ הָהָר וְאָמַר, אִישׁ פְּלוֹנִי בֶן פְּלוֹנִי מִמָּקוֹם פְּלוֹנִי מֵת, הָלְכוּ וְלֹא מָצְאוּ שָׁם אָדָם, וְהִשִּׂיאוּ אֶת אִשְׁתּוֹ. וְשׁוּב מַעֲשֶׂה בְצַלְמוֹן בְּאֶחָד שֶׁאָמַר, אֲנִי אִישׁ פְּלוֹנִי בֶּן אִישׁ פְּלוֹנִי, נְשָׁכַנִי נָחָשׁ, וַהֲרֵי אֲנִי מֵת, וְהָלְכוּ וְלֹא הִכִּירוּהוּ, וְהִשִּׂיאוּ אֶת אִשְׁתּוֹ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 19:15
לֹא־יָקוּם עֵד אֶחָד בְּאִישׁ לְכָל־עָוֹן וּלְכָל־חַטָּאת בְּכָל־חֵטְא אֲשֶׁר יֶחֱטָא עַל־פִּי שְׁנֵי עֵדִים אוֹ עַל־פִּי שְׁלֹשָׁה־עֵדִים יָקוּם דָּבָר
Não se levantará testemunha única contra um homem, por qualquer iniquidade ou por qualquer pecado, dentre todo pecado que cometer; por depoimento de duas testemunhas, ou por depoimento de três testemunhas, se estabelecerá o caso.

Os dois precedentes desta mishná representam o ponto mais distante que a leniência dos Sábios já alcançou: nem visão direta do corpo, nem identificação facial, nem sequer confirmação de que a pessoa que falou é quem dizia ser — apenas a plausibilidade circunstancial da mensagem, aceita retroativamente como base suficiente para permitir um novo casamento. É o extremo prático da lógica que abriu todo este perek: o temor de deixar mulheres presas como agunot supera, nesses casos-limite, até a ausência quase total de prova direta.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam confirma que a bat kol dos dois relatos históricos é precisamente o mecanismo que a mishná já havia introduzido em sua primeira cláusula, aplicado na prática.

Rambam · Perush HaMishná, Yevamot 16:6
בַּת קוֹל הוּא אֲשֶׁר בֵּאֵר בְּמַעֲשֶׂה בְאֶחָד וּמַעֲשֶׂה בְצַלְמוֹן

Rambam esclarece, com brevidade, que os dois relatos históricos citados na mishná são precisamente exemplos concretos daquilo que a primeira cláusula chama de 'bat kol' — uma voz ouvida sem visão direta de quem a emitiu, aceita como base suficiente para permitir o casamento quando as circunstâncias tornam a mensagem plausível.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura esclarece o sentido de bat kol nesta mishná e localiza geograficamente o segundo relato.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 16:6
וּמַשִּׂיאִים עַל פִּי בַת קוֹל, אִם שָׁמְעוּ קוֹל צִוְחַת פְּלוֹנִי מֵת. בְּצַלְמוֹן, שֵׁם מָקוֹם

Bartenura explica que 'bat kol', neste contexto, refere-se a uma voz ouvida anunciando ou clamando a morte de determinada pessoa, sem que se tenha visto diretamente quem falou ou o próprio corpo. E identifica Tzalmon simplesmente como o nome do lugar onde ocorreu o segundo episódio, do homem mordido por uma cobra que se autoidentificou antes de morrer.