Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Tet-Zayin · Mishná 7 de 7 — última do tratado

O relato de Rabban Gamliel e a estalajadeira

אָמַר רַבִּי עֲקִיבָא כְּשֶׁיָּרַדְתִּי לִנְהַרְדְּעָא
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A última mishná do tratado inteiro fecha com o relato histórico mais longo e mais célebre de todo o perek: como a tradição de casar a mulher com base num único testemunho, recebida por Rabban Gamliel o Velho de seus antepassados, foi confirmada por Rabi Akiva através de Nechemia Ish Bet Dli, reforçada pelo precedente de Tel Arza, e finalmente ilustrada pelo episódio da estalajadeira gentia cuja palavra libertou uma viúva.

Disse Rabi Akiva: quando desci a Neharde'a para intercalar o ano, encontrei Nechemia Ish Bet Dli, que me disse: ouvi dizer que não se casa a mulher em Eretz Israel com base num único testemunho, exceto segundo Rabi Yehudá ben Bava. E eu lhe respondi: assim são as coisas. Disse-me ele: diga-lhes em meu nome: vós sabeis que esta província está transtornada por tropas; recebi de Rabán Gamliel o Velho que se casa a mulher com base num único testemunho. E quando vim e apresentei as palavras diante de Rabán Gamliel, ele se alegrou com minhas palavras, e disse: encontramos um companheiro para Rabi Yehudá ben Bava. A partir dessas palavras, Rabán Gamliel lembrou-se de que foram mortos assassinados em Tel Arza, e Rabán Gamliel o Velho casou suas esposas com base num único testemunho, e ficou estabelecido que se casa com base num único testemunho, e ficou estabelecido que se casa com testemunho ouvido de segunda mão, da boca de um escravo, da boca de uma mulher, da boca de uma escrava. Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua dizem: não se casa a mulher com base num único testemunho. Rabi Akiva diz: nem com base numa mulher, nem com base num escravo, nem com base numa escrava, nem com base em parentes. Disseram-lhe: houve um caso dos filhos de Levi que foram a Tzoar, a cidade das palmeiras, e um deles adoeceu no caminho, e o trouxeram a uma pousada; e no retorno, disseram à estalajadeira: onde está nosso companheiro? Disse-lhes ela: morreu, e eu o enterrei. E casaram sua esposa. Disseram-lhe: e não seria uma sacerdotisa como a estalajadeira? Disse-lhes ele: quando a estalajadeira for confiável. A estalajadeira trouxe-lhes seu bastão, seu alforje, e o rolo da Torá que estava em sua mão.O relato reconstrói, passo a passo, como a leniência mais ampla desta mishná se estabeleceu na prática: Nechemia transmite, através de Rabi Akiva, a tradição recebida de Rabán Gamliel o Velho de que se casa com base num único testemunho — uma tradição que, num primeiro momento, parecia contradita pela regra restritiva atribuída apenas a Rabi Yehudá ben Bava, até Nechemia revelar que ela remonta, na verdade, ao próprio patriarca fundador. Ao ouvir a confirmação, Rabán Gamliel (o neto) alegra-se por encontrar apoio para sua própria posição, e a lembrança do episódio de Tel Arza — onde seu avô já havia aplicado essa mesma leniência na prática, diante de mortes em massa — consolida definitivamente a halachá, estendendo-a até mesmo a testemunho indireto e a fontes normalmente desqualificadas em outras áreas do direito, como escravos e mulheres. A disputa final entre Rabi Eliezer, Rabi Yehoshua e Rabi Akiva mostra que nem todos os Sábios aceitaram de imediato essa extensão máxima — Rabi Akiva, em particular, ainda hesitava quanto a mulheres, escravos e parentes —, até que o episódio da estalajadeira gentia, contado por seus próprios colegas, o convence: se uma simples estalajadeira gentia, falando casualmente e sem qualquer intenção de prestar testemunho formal, foi confiável o suficiente para libertar uma viúva — confirmado pelos objetos pessoais do falecido que ela trouxe como prova adicional —, com muito mais razão deveria ser aceita a palavra de uma mulher judia. É com esse episódio, e com a ironia final de Rabi Akiva reconhecendo que talvez nem mesmo ele fosse mais confiável do que a estalajadeira, que se encerra Massechet Yevamot inteira — o maior tratado da Mishná.

אָמַר רַבִּי עֲקִיבָא, כְּשֶׁיָּרַדְתִּי לִנְהַרְדְּעָא לְעַבֵּר הַשָּׁנָה, מָצָאתִי נְחֶמְיָה אִישׁ בֵּית דְּלִי, אָמַר לִי, שָׁמַעְתִּי שֶׁאֵין מַשִּׂיאִין אֶת הָאִשָּׁה בְאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל עַל פִּי עֵד אֶחָד, אֶלָּא רַבִּי יְהוּדָה בֶן בָּבָא. וְנוּמֵתִי לוֹ, כֵּן הַדְּבָרִים. אָמַר לִי, אֱמֹר לָהֶם מִשְּׁמִי, אַתֶּם יוֹדְעִים שֶׁהַמְּדִינָה מְשֻׁבֶּשֶׁת בִּגְיָסוֹת, מְקֻבְּלָנִי מֵרַבָּן גַּמְלִיאֵל הַזָּקֵן, שֶׁמַּשִּׂיאִין אֶת הָאִשָּׁה עַל פִּי עֵד אֶחָד. וּכְשֶׁבָּאתִי וְהִרְצֵיתִי הַדְּבָרִים לִפְנֵי רַבָּן גַּמְלִיאֵל, שָׂמַח לִדְבָרַי, וְאָמַר, מָצָאנוּ חָבֵר לְרַבִּי יְהוּדָה בֶן בָּבָא. מִתּוֹךְ הַדְּבָרִים נִזְכַּר רַבָּן גַּמְלִיאֵל, שֶׁנֶּהֶרְגוּ הֲרוּגִים בְּתֵל אַרְזָא, וְהִשִּׂיא רַבָּן גַּמְלִיאֵל הַזָּקֵן נְשׁוֹתֵיהֶם עַל פִּי עֵד אֶחָד, וְהֻחְזְקוּ לִהְיוֹת מַשִּׂיאִין עַל פִּי עֵד אֶחָד, וְהֻחְזְקוּ לִהְיוֹת מַשִּׂיאִין עֵד מִפִּי עֵד, מִפִּי עֶבֶד, מִפִּי אִשָּׁה, מִפִּי שִׁפְחָה. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר וְרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמְרִים, אֵין מַשִּׂיאִין אֶת הָאִשָּׁה עַל פִּי עֵד אֶחָד. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, לֹא עַל פִּי אִשָּׁה, וְלֹא עַל פִּי עֶבֶד וְלֹא עַל פִּי שִׁפְחָה, וְלֹא עַל פִּי קְרוֹבִים. אָמְרוּ לוֹ, מַעֲשֶׂה בִבְנֵי לֵוִי שֶׁהָלְכוּ לְצֹעַר עִיר הַתְּמָרִים, וְחָלָה אַחַד מֵהֶם בַּדֶּרֶךְ, וֶהֱבִיאוּהוּ בְפֻנְדָּק, וּבַחֲזָרָתָם אָמְרוּ לַפֻּנְדָּקִית אַיֵּה חֲבֵרֵנוּ, אָמְרָה לָהֶם מֵת וּקְבַרְתִּיו, וְהִשִּׂיאוּ אֶת אִשְׁתּוֹ. אָמְרוּ לוֹ, וְלֹא תְהֵא כֹהֶנֶת כַּפֻּנְדָּקִית. אָמַר לָהֶם, לִכְשֶׁתְּהֵא פֻּנְדָּקִית נֶאֱמֶנֶת. הַפֻּנְדָּקִית הוֹצִיאָה לָהֶם מַקְלוֹ וְתַרְמִילוֹ וְסֵפֶר תּוֹרָה שֶׁהָיָה בְיָדוֹ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 19:15
לֹא־יָקוּם עֵד אֶחָד בְּאִישׁ לְכָל־עָוֹן וּלְכָל־חַטָּאת בְּכָל־חֵטְא אֲשֶׁר יֶחֱטָא עַל־פִּי שְׁנֵי עֵדִים אוֹ עַל־פִּי שְׁלֹשָׁה־עֵדִים יָקוּם דָּבָר
Não se levantará testemunha única contra um homem, por qualquer iniquidade ou por qualquer pecado, dentre todo pecado que cometer; por depoimento de duas testemunhas, ou por depoimento de três testemunhas, se estabelecerá o caso.

A Torá exige duas ou três testemunhas para qualquer questão de proibição — e todo este perek, culminando neste relato histórico, documenta como os Sábios, através de sucessivas gerações e precedentes concretos de guerra e morte em massa, expandiram deliberadamente a exceção a essa regra até seu limite mais amplo, sempre movidos pelo mesmo temor: o de deixar uma mulher presa para sempre como agunah. A mishná final do tratado mostra essa expansão não como uma dedução teórica abstrata, mas como uma tradição viva, transmitida de mestre a discípulo através de precedentes históricos concretos — Tel Arza, os filhos de Levi em Tzoar — até se consolidar como halachá estabelecida.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica o contexto do relato de Nechemia e confirma a halachá final, mais ampla do que qualquer uma das três opiniões citadas na mishná — e assinala, com uma nota latina de fechamento, que aqui se conclui todo o Perush HaMishná de Rambam sobre Massechet Yevamot.

Rambam · Perush HaMishná, Yevamot 16:7
אָמְרוּ שֶׁהַמְּדִינָה הַזֹּאת מְשֻׁבֶּשֶׁת בִּגְיָסוֹת הוּא הִתְנַצְּלוּת שֶׁלֹּא יָכוֹל לְהַגִּיעַ שֶׁיַּגִּיד הָעֵדוּת אֶצְלָם... אֶלָּא הַדִּין אֶצְלֵנוּ מַשִּׂיאִים עַל פִּי אִשָּׁה וְעַל פִּי קְרוֹבִים חוּץ מִן הַנָּשִׁים הַמְּנוּיוֹת, וְעֵד מִפִּי עֵד מִפִּי אִשָּׁה מִפִּי עֶבֶד מִפִּי שִׁפְחָה כָּשֵׁר לְעֵדוּת אִשָּׁה. וְזֹאת הַפֻּנְדָּקִית הָיְתָה עוֹבֶדֶת כּוֹכָבִים וּמְסִיחָה לְפִי תֻּמָּהּ, וּלְכָךְ אָמְרוּ לֹא תְהֵא כֹהֶנֶת כַּפֻּנְדָּקִית, שֶׁאָנוּ מְקַבְּלִים עֵדוּתָהּ

Rambam explica que a observação de Nechemia sobre a província 'transtornada por tropas' é uma explicação de sua própria ausência — ele não podia comparecer pessoalmente para testemunhar perante os Sábios devido à instabilidade das estradas, e por isso pediu a Rabi Akiva que transmitisse a tradição em seu nome. Rambam então decide a halachá final, mais ampla do que qualquer uma das posições citadas na mishná: casa-se a mulher com base na palavra de uma mulher e de parentes, exceto as cinco já excluídas, e mesmo testemunho de segunda mão — ouvido de um escravo, uma mulher ou uma escrava — é válido para este fim. E explica o episódio final: como a estalajadeira era gentia e falava casualmente, sem qualquer intenção de testemunhar formalmente, sua palavra foi aceita — e por isso os colegas questionam ironicamente se uma sacerdotisa judia não deveria ser tão confiável quanto ela.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica a halachá final estabelecida a partir das três posições em disputa, e detalha a ironia do episódio da estalajadeira que fecha o tratado.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 16:7
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר וְרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמְרִים כוּ' וְרַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר כוּ', וְלֵית הִלְכָתָא כְּחַד מִנַּיְהוּ, אֶלָּא הֲלָכָה מַשִּׂיאִים עַל פִּי אִשָּׁה וְעַל פִּי קְרוֹבִים חוּץ מֵחָמֵשׁ נָשִׁים דִּתְנַן בְּמַתְנִיתִין, וְעֵד מִפִּי עֵד, מִפִּי אִשָּׁה, מִפִּי עֶבֶד, מִפִּי שִׁפְחָה, כָּשֵׁר לְעֵדוּת אִשָּׁה. לֹא תְּהֵא כֹהֶנֶת כַּפֻּנְדָּקִית, כְּלוֹמַר מְיֻחֶסֶת לֹא תְהֵא נֶאֱמֶנֶת כְּפֻנְדָּקִית גּוֹיָה, בִּתְמִיהַּ, וְאִם הֶאֱמִינוּ הַפֻּנְדָּקִית גּוֹיָה מְסִיחָה לְפִי תֻּמָּהּ, כָּל שֶׁכֵּן שֶׁיַּאֲמִינוּ בְּאִשָּׁה יִשְׂרְאֵלִית. לִכְשֶׁתְּהֵא פֻּנְדָּקִית נֶאֱמֶנֶת, כְּלוֹמַר שֶׁגַּם הַפֻּנְדָּקִית אֵינָהּ נֶאֱמֶנֶת

Bartenura confirma que a halachá não segue nenhuma das três posições em disputa isoladamente, mas uma síntese mais ampla: casa-se com base na palavra de uma mulher e de parentes — excetuadas apenas as cinco parentes já mencionadas no perek anterior —, e mesmo testemunho de segunda mão é válido. Quanto ao episódio final, Bartenura explica a réplica irônica dos colegas de Rabi Akiva: se uma simples estalajadeira gentia, sem qualquer credencial especial, foi considerada confiável o bastante para libertar uma viúva, com muito mais razão deveria ser confiável a palavra de uma mulher israelita de linhagem sacerdotal. E explica a resposta final, ainda mais surpreendente, de Rabi Akiva: sua ironia reconhece que, no fundo, a confiabilidade não depende do status formal de quem fala, mas da espontaneidade genuína do relato — o mesmo princípio que percorreu todo este perek, do início ao fim, e que agora fecha, com essa nota memorável, Massechet Yevamot inteira.

סְלִיק מַסֶּכְתָּא דִּיבָמוֹת
Aqui se conclui Massechet Yevamot — o primeiro tratado de Seder Nashim, e o maior de toda a Mishná, com dezesseis perakim e cento e vinte e oito mishnayot. O Perek Tet-Zayin, último do tratado, com sete mishnayot, fechou o grande tema da confiabilidade da mulher sobre a própria viuvez: a preocupação residual com a rival grávida e o cunhado ainda não nascido (16:1); a impossibilidade de duas cunhadas testemunharem uma pela outra, com suas quatro variações de prova (16:2); os requisitos técnicos da identificação de um corpo — rosto com nariz, certeza plena da morte, prazo de três dias (16:3); os casos-limite de quem cai n'água, com os precedentes opostos de Rabi Meir e Rabi Yosei (16:4); a leniência estendida a mulheres e crianças que falam sem intenção de testemunhar (16:5); o testemunho à luz de vela e à luz da lua, e o casamento por bat kol, com dois relatos históricos em que nem sequer a identidade do falecido foi confirmada (16:6); e, nesta última mishná, o relato histórico de Rabi Akiva sobre Rabban Gamliel o Velho, que baseado na tradição recebida de seus antepassados, e depois em seu próprio precedente de Tel Arza, estabeleceu que se casa a mulher com base num único testemunho — mesmo vindo de uma mulher, de um escravo, de uma escrava, ou de testemunho ouvido de segunda mão —, e o episódio final da estalajadeira gentia que, falando sem qualquer intenção deliberada, foi considerada confiável o bastante para libertar uma viúva.

Massechet Yevamot percorreu, em seus dezesseis perakim, o arco completo das leis do casamento levirato: os Perakim Alef a Guimel estabeleceram as relações proibidas cuja presença isenta a rival do yibum e da chalitzá, e os casos complexos de zika entre irmãos; os Perakim Dalet a Yud tra taram a mecânica prática do yibum e da chalitzá, a ordem de prioridade entre irmãos, a combinatória dos quatro atos do yibum, as leis do casamento sacerdotal e da trumá, e o caso da mulher casada por engano; os Perakim Yud-Alef a Yud-Guimel voltaram-se para questões de status pessoal, a mecânica processual da própria chalitzá, e o mi'un da órfã menor; e os Perakim Yud-Dalet a Tet-Zayin, finalmente, trataram das leis do surdo-mudo e — no maior desenvolvimento halachico de toda a segunda metade do tratado — da extraordinária leniência dos Sábios em aceitar a palavra de uma única testemunha, muitas vezes a própria mulher, para libertar uma agunah da situação mais dolorosa do direito de família judaico: a incerteza permanente sobre se ainda está casada. Por possuir Guemará completa no Talmud Bavli, cada mishná do tratado reuniu, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva folha do Talmud.

Com o encerramento de Massechet Yevamot, abre-se caminho para os demais tratados de Seder Nashim — Ketubot, Nedarim, Nazir, Sotá, Guitin e Kidushin — que seguem agora em construção, somando-se a Seder Zeraim e Seder Moed, já concluídas anteriormente.