Rabi Yochanan ben Gudgada testemunhou sobre a surda-muda que seu pai casou, que ela é divorciada com um get. Disseram-lhe: esta também é semelhante a ela. — Quando o pai casa sua filha menor, é a vontade e o discernimento dele — não os dela — que tornam o casamento pleno e válido pela Torá, mesmo que a própria menina seja surda-muda e nunca tenha tido, ela mesma, capacidade de consentir. Rabi Yochanan ben Gudgada testemunha que, mesmo depois de crescer e sair da autoridade paterna, essa mulher continua podendo receber um get válido, exatamente como a mulher da mishná anterior que era são de mente ao se casar e depois se tornou surda-muda. Os Sábios respondem confirmando o testemunho, mas esclarecendo que ele não traz, de fato, nenhuma novidade halâchica: trata-se exatamente do mesmo princípio já estabelecido — o get não exige o discernimento atual de quem o recebe, apenas que o casamento subjacente tenha sido pleno.
A Torá não exige, para a validade do get, que a mulher que o recebe tenha discernimento próprio no momento — apenas que o casamento do qual ela sai tenha sido, em sua origem, um casamento pleno e válido segundo a Torá. No caso de uma menina casada por seu pai, é a autoridade e o discernimento paterno (זְכוּת הָאָב) que tornam válido o casamento mesmo sendo ela surda-muda; a mesma lógica que permite divorciar a mulher que ficou surda-muda depois de um casamento pleno também permite divorciar, mais tarde, a que nunca teve discernimento próprio, desde que o casamento original tenha sido pleno pela via do pai.
Rambam explica por que o caso é idêntico, em sua raiz jurídica, ao da mulher que se tornou surda-muda depois de casada com discernimento pleno.
Rambam explica que a resposta dos Sábios — 'esta também é semelhante a ela' — quer dizer precisamente que o caso testemunhado por Rabi Yochanan ben Gudgada é idêntico, em sua raiz jurídica, ao da mulher que se casou são de mente e depois se tornou surda-muda: assim como o casamento desta última foi pleno (pois ela tinha discernimento no momento), também o casamento da menina surda-muda casada por seu pai é pleno — porque o discernimento relevante, nesse caso, é o do próprio pai, e não o dela. E, assim como aquela é divorciada com um get válido, também esta o é, pela mesma razão. Rambam confirma que este é, de fato, o entendimento correto e verdadeiro do texto.
Bartenura detalha o mecanismo da autoridade paterna sobre a kiddushin da filha menor; Rashi, na Guemará, traz a mesma explicação em termos quase idênticos.
Bartenura esclarece que, quando o pai casa sua filha menor surda-muda e recebe os kiddushin em nome dela, o casamento é pleno e válido pela Torá — não porque a menina tenha consentido (o que ela, sendo surda-muda, não poderia fazer), mas porque foi consagrada segundo o discernimento do próprio pai. Por isso, mesmo depois de crescer e sair da autoridade paterna, ela mesma pode receber validamente um get. E a resposta 'esta também é semelhante a ela' compara esse caso ao da mulher que era são de mente ao se casar e depois se tornou surda-muda: em ambos, o casamento foi pleno na origem, e por isso o get funciona igualmente em ambos.
Rashi confirma, em termos praticamente idênticos aos de Bartenura, que o casamento realizado pelo pai em nome da filha menor surda-muda é pleno pela Torá, e que o get continua válido mesmo depois de ela crescer e deixar de estar sob a autoridade paterna — pois o que importa para a validade do get é a plenitude do casamento original, não o discernimento presente de quem o recebe. Rashi nota ainda que a resposta dos Sábios efetivamente encerra o testemunho de Rabi Yochanan ben Gudgada como mera confirmação de um princípio já estabelecido, sem trazer halachá nova.