Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Yud · Mishná 5 de 9

As cinco irmãs em sucessão, e a cadeia de casamentos alternados

מֻתָּר בָּרִאשׁוֹנָה בַּשְּׁלִישִׁית וּבַחֲמִישִׁית
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Levando a lógica da mishná anterior ao seu extremo, esta mishná constrói uma cadeia de cinco irmãs: a cada relato de morte, ele se casa com a próxima irmã, até que se descobre que todas estão vivas. A mishná resolve a cadeia inteira aplicando o princípio de que kidushin não se firma sobre a irmã de uma esposa viva — daí um padrão alternado de permissão e proibição.

Disseram-lhe "tua esposa morreu", e ele se casou com a irmã dela por parte de pai; ela morreu, e ele se casou com a irmã dela por parte de mãe; ela morreu, e ele se casou com a irmã dela por parte de pai; ela morreu, e ele se casou com a irmã dela por parte de mãe — e descobriu-se que todas estavam vivas: ele é permitido à primeira, à terceira e à quinta, e elas isentam suas rivais; e é proibido à segunda e à quarta, e a relação de nenhuma delas isenta sua rival. E se ele veio à segunda depois da morte da primeira, é permitido à segunda e à quarta, e elas isentam suas rivais; e é proibido à terceira e à quinta, e a relação de nenhuma delas isenta sua rival. — A chave da mishná é que kidushin não se firma sobre a irmã de uma mulher com quem já se tem kidushin válido — daí a segunda mulher (irmã da primeira, que continua viva e casada) nunca ter sido, de fato, sua esposa; a relação com ela foi mera znut. Mas, precisamente por isso, o kidushin com a terceira (irmã da segunda) se firma normalmente, pois a segunda nunca foi esposa válida dele. O padrão se repete: quarta é proibida (irmã da terceira, que é esposa válida), quinta é permitida (irmã da quarta, que nunca foi esposa válida). O resultado é uma cadeia alternada — ímpares permitidas, pares proibidas —, e a mishná fecha invertendo a premissa: se ficar provado que apenas a primeira estava viva desde o início (e as demais mortes eram reais), a cadeia se inverte por completo, e são as pares que se tornam permitidas.

אָמְרוּ לוֹ, מֵתָה אִשְׁתְּךָ, וְנָשָׂא אֲחוֹתָהּ מֵאָבִיהָ, מֵתָה, וְנָשָׂא אֲחוֹתָהּ מֵאִמָּהּ, מֵתָה, וְנָשָׂא אֲחוֹתָהּ מֵאָבִיהָ, מֵתָה, וְנָשָׂא אֲחוֹתָהּ מֵאִמָּהּ, וְנִמְצְאוּ כֻלָּן קַיָּמוֹת, מֻתָּר בָּרִאשׁוֹנָה, בַּשְּׁלִישִׁית, וּבַחֲמִישִׁית, וּפוֹטְרוֹת צָרוֹתֵיהֶן, וְאָסוּר בַּשְּׁנִיָּה וּבָרְבִיעִית, וְאֵין בִּיאַת אַחַת מֵהֶן פּוֹטֶרֶת צָרָתָהּ. וְאִם בָּא עַל הַשְּׁנִיָּה לְאַחַר מִיתַת הָרִאשׁוֹנָה, מֻתָּר בַּשְּׁנִיָּה וּבָרְבִיעִית, וּפוֹטְרוֹת צָרוֹתֵיהֶן, וְאָסוּר בַּשְּׁלִישִׁית וּבַחֲמִישִׁית, וְאֵין בִּיאַת אַחַת מֵהֶן פּוֹטֶרֶת צָרָתָהּ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikra (Levítico) 18:18
וְאִשָּׁה אֶל אֲחֹתָהּ לֹא תִקָּח לִצְרֹר, לְגַלּוֹת עֶרְוָתָהּ עָלֶיהָ בְּחַיֶּיהָ
E não tomarás uma mulher junto com sua irmã, para rivalizá-la, descobrindo sua nudez além dela, em vida dela.

A proibição de tomar a irmã de uma esposa se aplica apenas "em vida dela" — enquanto a primeira irmã ainda é esposa válida; e é exatamente essa mesma cláusula que a Guemará usa para explicar por que o kidushin nunca se firma sobre a irmã de uma esposa viva, tornando essa relação, tecnicamente, uma relação sem efeito jurídico de casamento. Como o kidushin não se firma, a mulher com quem ele teve relação nessas condições nunca se tornou, de fato, sua esposa — o que libera, paradoxalmente, o kidushin da irmã seguinte dela. É esse mecanismo puramente técnico — não qualquer julgamento moral sobre a situação — que produz o padrão alternado de permissões e proibições ao longo de toda a cadeia de cinco irmãs.

Halachot · הֲלָכוֹת

A halachá segue integralmente esta mishná; Rambam nota que o princípio é simples uma vez compreendido, mas exige acompanhar cuidadosamente cada elo da cadeia.

Rambam · Perush HaMishná, Yevamot 10:5
מִן הַמְבֹאָר, כְּשֶׁתִּהְיֶה לֵאָה אֲחוֹת רָחֵל מִן הָאָב בִּלְבַד, וְרָחֵל אֲחוֹת רִבְקָה מִן הָאֵם בִּלְבַד, שֶׁהַזִּוּוּג בְּלֵאָה וְרִבְקָה מֻתָּר, לְפִי שֶׁאֵין בֵּינֵיהֶן קוּרְבָה כְּלָל. וְעַל זֶה הָעִנְיָן תִּתְבָּאֵר הַהֲלָכָה בְּקַלּוּת.

Rambam ilustra com nomes o mecanismo que rege toda a cadeia: se Leia é irmã de Rachel apenas por parte de pai, e Rachel é irmã de Rivka apenas por parte de mãe, então Leia e Rivka não têm parentesco algum entre si — cada elo da cadeia rompe a proibição em relação ao elo seguinte, mas não em relação a elos mais distantes. Rambam observa que, uma vez compreendido esse princípio básico — que a proibição de "irmã de esposa" opera apenas entre vizinhos imediatos da cadeia, e que o kidushin inválido de um elo permite o kidushin válido do próximo —, toda a halachá da mishná se torna simples de seguir.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha passo a passo a construção da cadeia de cinco irmãs e explica o princípio por trás do padrão alternado; Rashi, na Guemará, confirma o mesmo mecanismo com formulação sucinta.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 10:5
מֻתָּר בָּרִאשׁוֹנָה בַּשְּׁלִישִׁית וּבַחֲמִישִׁית — שֶׁאֵינָן קְרוֹבוֹת זוֹ לָזוֹ. וְאַף עַל פִּי שֶׁהַשְּׁלִישִׁית אֲחוֹת הַשְּׁנִיָּה, שַׁרְיָא, דְּקִדּוּשֵׁי שְׁנִיָּה לֹא תָּפְסֵי, דַּאֲחוֹת אִשָּׁה הִיא לָרִאשׁוֹנָה שֶׁלְּקָחָהּ מִקֹּדֶם, וְהַוְיָא לָהּ כַּאֲנוּסָה וּמְפֻתָּה... וְכֵן הַחֲמִישִׁית, אַף עַל פִּי שֶׁהִיא אֲחוֹת הָרְבִיעִית, מֻתֶּרֶת, דְּהוֹאִיל וְתָפְסֵי קִדּוּשִׁין בַּשְּׁלִישִׁית, נִמְצֵאת בִּיאַת רְבִיעִית שֶׁהִיא אֲחוֹת שְׁלִישִׁית בִּיאַת זְנוּת, וְלֹא נֶאֶסְרָה חֲמִישִׁית עָלָיו.

Bartenura demonstra que o padrão se sustenta por indução ao longo de toda a cadeia: como o kidushin da segunda mulher nunca se firmou (por ser irmã da primeira, que permanecia esposa válida), a relação com ela foi, tecnicamente, relação de znut — equiparada à de uma mulher estuprada ou seduzida —, o que libera o kidushin da terceira (irmã da segunda). E como o kidushin da terceira se firma normalmente, a relação com a quarta (irmã da terceira) é a proibida, liberando por sua vez o kidushin da quinta. O resultado é uma alternância perfeita: primeira, terceira e quinta são esposas plenas — e cada uma delas, se um cunhado depois vier fazer yibum, isenta sua "rival" (tzarah) da chalitzá; segunda e quarta nunca foram esposas de fato, e por isso sua relação com um eventual yavam não isenta rival alguma.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yevamot 96a
מֻתָּר בָּרִאשׁוֹנָה וּבַשְּׁלִישִׁית וּבַחֲמִישִׁית — שֶׁאֵין קְרוֹבוֹת זוֹ לָזוֹ, וְאַף עַל גַּב דְּהַשְּׁלִישִׁית אֲחוֹת הַשְּׁנִיָּה הִיא, שַׁרְיָא, דְּקִדּוּשֵׁי שְׁנִיָּה לֹא תָּפְסֵי, דַּאֲחוֹת אִשָּׁה הִיא... וְאָסוּר בַּשְּׁנִיָּה וּבָרְבִיעִית — בַּשְּׁנִיָּה מִשּׁוּם רִאשׁוֹנָה, וּבָרְבִיעִית מִשּׁוּם שְׁלִישִׁית. לְאַחַר מִיתַת הָרִאשׁוֹנָה — שֶׁאֱמֶת הָיוּ הַדְּבָרִים שֶׁל רִאשׁוֹנָה, וּשְׁאָר הַדְּבָרִים שֶׁקֶר הָיוּ.

Rashi confirma, com a mesma formulação sucinta de Bartenura, que a proibição de cada elo par decorre diretamente do elo ímpar anterior — "a segunda é proibida por causa da primeira, a quarta por causa da terceira" — enquanto os elos ímpares permanecem sempre válidos porque o kidushin nunca se firmou sobre suas antecessoras pares. Sobre a cláusula final da mishná, Rashi esclarece que ela descreve um cenário totalmente diferente: descobre-se que apenas o primeiro relato de morte era falso — a primeira esposa estava viva o tempo todo —, mas todos os relatos posteriores eram verdadeiros, ou seja, cada mulher de fato morreu antes de ele se casar com a seguinte. Nesse cenário invertido, é a própria estrutura da cadeia que se inverte: agora a segunda mulher é a primeira esposa válida dele (pois a primeira nunca deixou de ser viva e continua sendo a única barreira), e o padrão de permissão e proibição se desloca inteiramente para as posições pares.