Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Yud · Mishná 3 de 9

Quando a ordem dos relatos se inverte, e o filho nascido antes e depois do boato

חִלּוּף הָיוּ הַדְּבָרִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Esta mishná examina quatro variações do erro do relato: quando marido e filho vão para o além-mar e voltam relatos contraditórios sobre quem morreu primeiro, invertidos depois de ela já ter se casado ou feito yibum; quando o relato original é simplesmente desmentido; e o caso mais brando, em que o segundo vínculo era apenas noivado, não casamento — permitindo o retorno ao primeiro marido mesmo depois de um get formal do segundo.

A mulher cujo marido e filho foram para uma terra do além-mar, e vieram e lhe disseram "teu marido morreu, e depois morreu teu filho", e ela se casou de novo, e depois lhe disseram "os fatos eram invertidos" — ela sai, e o filho primeiro e o último são mamzerim. Disseram-lhe "morreu teu filho, e depois morreu teu marido", e ela fez yibum, e depois lhe disseram "os fatos eram invertidos" — ela sai, e o filho primeiro e o último são mamzerim. Disseram-lhe "teu marido morreu", e ela se casou, e depois lhe disseram "ele estava vivo e morreu" — ela sai, e o filho primeiro é mamzer, e o último não é mamzer. Disseram-lhe "teu marido morreu", e ela se noivou, e depois veio seu marido — é permitida a voltar para ele. Mesmo que o último lhe tenha dado get, não a desqualificou da kehuná. Isto expôs Rabi Elazar ben Matia: "e mulher divorciada de seu marido" (Vayikra 21) — e não de um homem que não é seu marido.As três primeiras cláusulas tratam de casos em que a inversão do relato revela que ela nunca esteve verdadeiramente livre — nem sequer no momento do primeiro relato — de modo que qualquer filho concebido, tanto antes quanto depois de ouvir o boato, é mamzer, seguindo a posição de Rabi Akiva de que existe mamzer também por transgressão de um simples lav. A quarta cláusula introduz um caso qualitativamente diferente: quando o segundo vínculo era apenas kidushin (noivado), sem nissuín (casamento pleno), a relação sexual nunca ocorreu de fato — daí não haver desqualificação da kehuná mesmo que o noivo tenha formalizado um get, pois a Torá fala de divórcio de "seu marido", e um noivo que nunca consumou o casamento não é, tecnicamente, "seu marido" para esse efeito.

הָאִשָּׁה שֶׁהָלַךְ בַּעֲלָהּ וּבְנָהּ לִמְדִינַת הַיָּם, וּבָאוּ וְאָמְרוּ לָהּ, מֵת בַּעְלֵךְ וְאַחַר כָּךְ מֵת בְּנֵךְ, וְנִשֵּׂאת, וְאַחַר כָּךְ אָמְרוּ לָהּ, חִלּוּף הָיוּ הַדְּבָרִים, תֵּצֵא, וְהַוָּלָד רִאשׁוֹן וְאַחֲרוֹן מַמְזֵר. אָמְרוּ לָהּ, מֵת בְּנֵךְ וְאַחַר כָּךְ מֵת בַּעְלֵךְ, וְנִתְיַבְּמָה, וְאַחַר כָּךְ אָמְרוּ לָהּ, חִלּוּף הָיוּ הַדְּבָרִים, תֵּצֵא, וְהַוָּלָד רִאשׁוֹן וְאַחֲרוֹן מַמְזֵר. אָמְרוּ לָהּ, מֵת בַּעְלֵךְ, וְנִסֵּת, וְאַחַר כָּךְ אָמְרוּ לָהּ, קַיָּם הָיָה וּמֵת, תֵּצֵא, וְהַוָּלָד רִאשׁוֹן מַמְזֵר, וְהָאַחֲרוֹן אֵינוֹ מַמְזֵר. אָמְרוּ לָהּ, מֵת בַּעְלֵךְ, וְנִתְקַדְּשָׁה, וְאַחַר כָּךְ בָּא בַעְלָהּ, מֻתֶּרֶת לַחֲזֹר לוֹ. אַף עַל פִּי שֶׁנָּתַן לָהּ אַחֲרוֹן גֵּט, לֹא פְסָלָהּ מִן הַכְּהֻנָּה. אֶת זוֹ דָרַשׁ רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן מַתְיָא, וְאִשָּׁה גְּרוּשָׁה מֵאִישָׁהּ (ויקרא כא), וְלֹא מֵאִישׁ שֶׁאֵינוֹ אִישָׁהּ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikra (Levítico) 21:7
אִשָּׁה זֹנָה וַחֲלָלָה לֹא יִקָּחוּ, וְאִשָּׁה גְּרוּשָׁה מֵאִישָׁהּ לֹא יִקָּחוּ, כִּי קָדֹשׁ הוּא לֵאלֹהָיו
Uma mulher prostituída ou profanada não tomarão, e uma mulher divorciada de seu marido não tomarão; pois ele é santo para seu Deus.

Rabi Elazar ben Matia extrai da expressão precisa "gerushá me-ishah" (divorciada de seu marido) que somente o get de um homem que é verdadeiramente seu marido desqualifica a mulher para o casamento com um kohen — não o get de um homem noivo com quem ela nunca teve relação sexual. A Guemará debate se essa isenção se aplica mesmo por decreto rabínico (o chamado "reiach ha-guet", o "cheiro do get" que normalmente desqualifica a mulher mesmo em casos duvidosos) — concluindo que, no caso específico de mero noivado desfeito, nem sequer o decreto rabínico se aplica, precisamente porque a própria mishná já ensina explicitamente que ela é "permitida a voltar" ao primeiro marido, o que seria impossível se o get do noivo produzisse qualquer efeito residual de desqualificação.

Halachot · הֲלָכוֹת

A halachá segue Rabi Akiva quanto ao status de mamzer nas três primeiras cláusulas, mas não segue sua posição geral de que há mamzer por transgressão de um simples lav em outros contextos.

Rambam · Perush HaMishná, Yevamot 10:3
כָּל מַה שֶּׁאָמַר הַוָּלָד רִאשׁוֹן וְאַחֲרוֹן מַמְזֵר, רְצוֹנוֹ לוֹמַר שֶׁנּוֹלַד לִפְנֵי הַשְּׁמוּעָה וּלְאַחַר הַשְּׁמוּעָה. וּמַאֲמַר רַבִּי אֶלְעָזָר אֲמִתִּי, וּבָזֶה הִפְסִיק עִנְיָן אַחֵר, וְהוּא כְּשֶׁיִּכְתֹּב אָדָם גֵּט לְאִשְׁתּוֹ וִיבָאֵר בּוֹ שֶׁהוּא מְגָרֵשׁ אוֹתָהּ מִמֶּנּוּ וְהִנִּיחָהּ אֲסוּרָה עַל שְׁאָר בְּנֵי אָדָם... הַגֵּט הוּא פָּסוּל וְהוּא חֶסְפָּא בְּעָלְמָא, אֲבָל הִיא אֲסוּרָה לְכֹהֵן בְּזֶה הַגֵּט וְאֵינָהּ מֻתֶּרֶת לְהִנָּשֵׂא עַד שֶׁיִּכְתֹּב לָהּ גֵּט כָּשֵׁר... וְזֶהוּ רֵיחַ הַגֵּט שֶׁפּוֹסֵל בַּכְּהֻנָּה.

Rambam esclarece que "o filho primeiro e o último" refere-se, em todas as três primeiras cláusulas, ao filho nascido antes do boato inicial e ao nascido depois — ambos mamzerim, porque a inversão dos fatos revela que o vínculo com o primeiro marido nunca de fato se rompeu. Quanto ao ensinamento de Rabi Elazar ben Matia, Rambam nota que ele introduz um tema distinto sobre gittin condicionais: se um homem escreve um get para sua esposa especificando que a divorcia apenas de si mesmo, deixando-a proibida a todos os outros homens, esse get é tecnicamente inválido para efeitos gerais — mas ainda assim a torna proibida a um kohen, e ela permanece impedida de se casar de novo até receber um get válido. Este é o fenômeno do "reiach ha-guet" (o cheiro do get) que desqualifica a kehuná mesmo quando o próprio get não teve efeito jurídico pleno.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura resume os quatro cenários e identifica a posição de Rabi Akiva por trás das três primeiras cláusulas; Rashi, na Guemará, precisa o sentido exato de "nitkadshá" (apenas noivado) e o motivo pelo qual o get do noivo não desqualifica.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 10:3
וְאַחַר כָּךְ מֵת בְּנֵךְ — וְלֹא הֻזְקְקָה לְיִבּוּם. וְנִשֵּׂאת — לַשּׁוּק. רִאשׁוֹן וְאַחֲרוֹן — רִאשׁוֹן שֶׁלִּפְנֵי הַשְּׁמוּעָה, וְאַחֲרוֹן שֶׁלְּאַחַר הַשְּׁמוּעָה. וּכְרַבִּי עֲקִיבָא מִתּוֹקְמָא, דְּאָמַר יֵשׁ מַמְזֵר מֵחַיְּבֵי לָאוִין, וְאֵינָהּ הֲלָכָה.

Bartenura precisa a estrutura de cada uma das três primeiras cláusulas: na primeira, dizem-lhe que o marido morreu antes do filho — ela nunca ficou vinculada ao yibum, casando-se livremente no mercado; na segunda, dizem-lhe que o filho morreu antes do marido — ela ficou vinculada ao yibum e o realizou. Em ambos os casos, quando os fatos se revelam invertidos, tanto o filho concebido antes quanto o concebido depois do boato original são mamzerim — posição que, segundo Bartenura, segue especificamente Rabi Akiva, para quem existe mamzer também por transgressão de proibições mais brandas (chayevei lavin), como a proibição de "não será a esposa do falecido casada com um estranho" que rege a shomeret yavam. Bartenura confirma que a halachá final não acompanha essa posição mais ampla de Rabi Akiva em geral.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yevamot 89a
שֶׁנָּתַן לָהּ אַחֲרוֹן גֵּט — שֶׁאֵרְסָהּ. מִכְּלָל דְּלֹא בָּעְיָא גֵּט — אֲפִלּוּ מִדְּרַבָּנָן, דְּאִי בָּעְיָא גֵּט הָא קַיְּמָא לָן דַּאֲפִלּוּ רֵיחַ הַגֵּט פּוֹסֵל בַּכְּהֻנָּה. סֵיפָא — לְגַבֵּי קִדּוּשִׁין וַדַּאי כִּדְקָאָמַרְתְּ דְּלֹא בָּעְיָא גֵּט, וּדְקָשְׁיָא לָךְ שֶׁמָּא יֹאמְרוּ גֵּרַשׁ זֶה וְקִדֵּשׁ זֶה כוּ' — לֹא אָתֵי לְמֵימַר הָכִי, אֶלָּא אָמְרֵי מִדְּנָפְקָא בְּלֹא גֵט קִדּוּשֵׁי טָעוּת הָווּ, כְּגוֹן עַל מְנָת שֶׁאֲנִי כֹהֵן וְנִמְצָא יִשְׂרָאֵל.

Rashi esclarece que "אחרון" (o último) refere-se aqui ao homem que apenas a noivou (eirasah), não a um marido pleno. A Guemará conclui que ela não precisa de get algum dele — nem mesmo por decreto rabínico —, pois se precisasse, o princípio de que "até o cheiro de um get desqualifica a kehuná" (uma leniência excepcional aplicada em outros contextos duvidosos) já bastaria para proibi-la. Rashi antecipa e resolve a objeção óbvia: por que os sábios não temeram que as pessoas, vendo-a se casar de novo sem get do noivo, concluíssem erroneamente que "este divorciou e aquele desposou sem exigir documento"? A resposta é que o público, ao vê-la sair sem get, corretamente concluirá que aquele noivado foi um erro desde o início — como um caso de "kidushin ta'ut" (noivado sob condição não cumprida, por exemplo, "sob a condição de eu ser kohen" quando na verdade era israelita) — e não que um get comum foi dispensado sem motivo.