Seder Tehorot · Massechet Yadayim · Perek Dálet · Mishná 8 de 8 — última do capítulo e do tratado

O nome do governante no get e a palavra final de Faraó — encerramento de Massechet Yadayim

אָמַר צְדוֹקִי גְלִילִי, קוֹבֵל אֲנִי עֲלֵיכֶם, פְּרוּשִׁים, שֶׁאַתֶּם כּוֹתְבִין אֶת הַמּוֹשֵׁל עִם משֶׁה בַּגֵּט. אוֹמְרִים פְּרוּשִׁים, קוֹבְלִין אָנוּ עָלֶיךָ, צְדוֹקִי גְלִילִי, שֶׁאַתֶּם כּוֹתְבִים אֶת הַמּוֹשֵׁל עִם הַשֵּׁם בַּדַּף, וְלֹא עוֹד, אֶלָּא שֶׁאַתֶּם כּוֹתְבִין אֶת הַמּוֹשֵׁל מִלְמַעְלָן וְאֶת הַשֵּׁם מִלְּמַטָּן, שֶׁנֶּאֱמַר (שמות ה) וַיֹּאמֶר פַּרְעֹה מִי ה' אֲשֶׁר אֶשְׁמַע בְּקֹלוֹ לְשַׁלַּח אֶת יִשְׂרָאֵל. וּכְשֶׁלָּקָה מַהוּ אוֹמֵר (שם ט), ה' הַצַּדִּיק׃
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Mishná final do tratado: a disputa sobre o nome do governante no get, e a lição de encerrar com a justiça divina, não com a blasfêmia

Disse um saduceu galileu: reclamo contra vós, fariseus, porque escreveis o nome do governante junto com o de Moisés no get. Dizem os fariseus: reclamamos contra ti, saduceu galileu, porque escreveis o nome do governante junto com o Nome (divino) na (mesma) página; e não somente isso, mas escreveis o nome do governante acima e o Nome (divino) abaixo, como está dito (Êxodo 5:2): “E disse Faraó: quem é o Eterno, para que eu ouça a Sua voz e deixe ir Israel?” E quando foi castigado, o que ele disse? (Ali, 9:27): “O Eterno é justo.”

A última mishná do tratado — e, com ela, de toda a Massechet Yadayim — registra um último embate entre um “saduceu galileu” e os fariseus, desta vez sobre um costume escribá concreto: a datação dos guítin (documentos de divórcio) pelo ano de reinado do governante gentio vigente, seguida, ao final do documento, pela fórmula “conforme a lei de Moisés e de Israel”. O saduceu galileu protesta que unir o nome de um governante estrangeiro ao nome de Moisés no mesmo documento é um desrespeito ao próprio Moisés.

Os fariseus devolvem a acusação com um exemplo ainda mais incisivo: são os próprios interlocutores que escrevem o nome de um governante junto ao próprio Nome divino na mesma página — e, pior, colocam o nome do governante acima e o Nome divino abaixo, invertendo a ordem esperada de honra. Para justificar por que essa justaposição não é, em si, um desrespeito, os fariseus citam o precedente da própria Torá: as palavras insolentes de Faraó — “quem é o Eterno, para que eu ouça a Sua voz?” — justapõem diretamente, no próprio versículo (Êxodo 5:2), a arrogância de Faraó ao Nome divino.

Mas a Torá não encerra ali o episódio: registra também, mais adiante, a reversão e a confissão final de Faraó, após ser atingido pelas pragas: “O Eterno é justo” (Êxodo 9:27). Segundo explica o Bartenura, o ponto essencial é que a Torá deliberadamente não encerra a narrativa com a blasfêmia de Faraó, mas com sua confissão da justiça divina — ilustrando o princípio de que não se deve concluir um assunto (ou, aqui, um tratado inteiro) “em algo ruim”, mas sim em afirmação e vindicação. E, de modo deliberado e simbólico, os editores da Mishná encerram também Massechet Yadayim não com a provocação do saduceu, mas com a última palavra dos fariseus — ecoando, assim, o próprio princípio que citam: a mishná, como a história do Êxodo que ela invoca, termina afirmando a justiça do Eterno.

אָמַר צְדוֹקִי גְלִילִי, קוֹבֵל אֲנִי עֲלֵיכֶם, פְּרוּשִׁים, שֶׁאַתֶּם כּוֹתְבִין אֶת הַמּוֹשֵׁל עִם משֶׁה בַּגֵּט. אוֹמְרִים פְּרוּשִׁים, קוֹבְלִין אָנוּ עָלֶיךָ, צְדוֹקִי גְלִילִי, שֶׁאַתֶּם כּוֹתְבִים אֶת הַמּוֹשֵׁל עִם הַשֵּׁם בַּדַּף, וְלֹא עוֹד, אֶלָּא שֶׁאַתֶּם כּוֹתְבִין אֶת הַמּוֹשֵׁל מִלְמַעְלָן וְאֶת הַשֵּׁם מִלְּמַטָּן, שֶׁנֶּאֱמַר (שמות ה) וַיֹּאמֶר פַּרְעֹה מִי ה' אֲשֶׁר אֶשְׁמַע בְּקֹלוֹ לְשַׁלַּח אֶת יִשְׂרָאֵל. וּכְשֶׁלָּקָה מַהוּ אוֹמֵר (שם ט), ה' הַצַּדִּיק׃

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Êxodo 5:2
וַיֹּ֣אמֶר פַּרְעֹ֔ה מִ֤י יְהֹוָה֙ אֲשֶׁ֣ר אֶשְׁמַ֣ע בְּקֹל֔וֹ לְשַׁלַּ֖ח אֶת־יִשְׂרָאֵ֑ל לֹ֤א יָדַ֙עְתִּי֙ אֶת־יְהֹוָ֔ה וְגַ֥ם אֶת־יִשְׂרָאֵ֖ל לֹ֥א אֲשַׁלֵּֽחַ׃
“E disse Faraó: quem é o Eterno, para que eu ouça a Sua voz e deixe ir Israel? Não conheço o Eterno, e tampouco deixarei ir Israel.”
Os fariseus citam esta insolência inicial de Faraó para mostrar que a própria Torá justapõe, no mesmo versículo, o nome de um governante arrogante ao Nome divino.
Êxodo 9:27
וַיִּשְׁלַ֣ח פַּרְעֹ֗ה וַיִּקְרָא֙ לְמֹשֶׁ֣ה וּֽלְאַהֲרֹ֔ן וַיֹּ֥אמֶר אֲלֵהֶ֖ם חָטָ֣אתִי הַפָּ֑עַם יְהֹוָה֙ הַצַּדִּ֔יק וַאֲנִ֥י וְעַמִּ֖י הָרְשָׁעִֽים׃
“E enviou Faraó e chamou a Moisés e a Arão, e disse-lhes: pequei desta vez; o Eterno é justo, e eu e o meu povo somos os culpados.”
Os fariseus citam esta confissão posterior de Faraó para mostrar que a Torá encerra o episódio com a afirmação da justiça divina, e não com a blasfêmia inicial — o modelo que a própria mishná segue ao se encerrar.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Yadayim 4:8

Diz o saduceu que vós diminuís o nome de Moisés, nosso mestre, ao escrevê-lo nos documentos junto com o nome do rei — isto é, que escrevemos a data segundo tal rei, e escrevemos nesse documento “conforme a lei de Moisés e de Israel”. E os sábios lhes disseram que isso não é uma diminuição de seu nome; ao contrário, com isso há grandeza até para aquele rei, pois escrevemos na própria Torá o Nome (divino) junto com (o nome de) Faraó — e não somente isso, mas ainda antecipamos o nome de Faraó, como está dito (ali, 5): “E disse Faraó: quem é o Eterno…”. E, visto que o versículo o menciona, não é apropriado que um tratado se encerre com a negação de um que renega a Divindade, mas sim com a fé n’Ele; por isso disse: “e quando foi castigado, o que disse? O Eterno é justo.”

Bartenura · Yadayim 4:8

“Saduceu galileu”: um saduceu que era da terra da Galileia.

“O governante junto com Moisés no get”: pois costumavam contar pelos anos dos reis, e escreviam “em tal e tal ano de tal rei”, e ao final do get escreviam “conforme a lei de Moisés e de Israel” — e isso é um desrespeito para com Moisés.

“O nome do governante acima e o Nome abaixo”: porque antecipam o nome de Faraó ao Nome (divino), como está escrito: “e disse Faraó: quem é o Eterno.”

“E quando foi castigado”: Faraó.

“O que ele disse? O Eterno é justo”: para não encerrar o tratado com (a frase) “quem é o Eterno, a quem eu deveria ouvir a Sua voz”, por causa (do princípio) de “não permaneças em uma coisa má”, encerrou-se com (a frase) “o Eterno é justo.”

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Yadayim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido em todas as mishnayot deste tratado.
הֲדַרָן עֲלָךְ מַסֶּכֶת יָדַיִם

Com esta oitava mishná, encerra-se não apenas o Perek Dálet, mas toda a Massechet Yadayim — o décimo primeiro tratado de Seder Tehorot, com seus 4 perakim e suas 22 mishnayot.

O tratado percorreu, do início ao fim, as leis da netilat yadayim e da tumat yadayim — a impureza própria das mãos. O Perek Alef abriu com a quantidade de água necessária para a netilat yadayim, segundo o número de pessoas que a usam (1:1); tratou de quais utensílios servem para dar água às mãos (1:2); da água imprópria para a bebida do animal (1:3); da água usada para enxaguar utensílios sujos (1:4); e fechou com a água do padeiro e os modos de derramá-la sem uma pessoa segurando o utensílio (1:5).

O Perek Bet abriu com o efeito de lavar uma só mão ou as duas juntas, e o pão de teruma que caiu na água (2:1); tratou de onde caem as águas primeiras e segundas após a lavagem (2:2); do princípio de que as mãos se tornam impuras e se purificam até o punho (2:3); e fechou com o princípio de que toda dúvida sobre as mãos se resolve para a pureza (2:4).

O Perek Guimel abriu com o grau de impureza das mãos de quem entra numa casa contaminada (3:1); tratou do que desqualifica a teruma e contamina as mãos em segundo grau (3:2); das correias dos tefilin (3:3); da margem em branco do rolo (3:4); e fechou com a célebre disputa sobre se Shir HaShirim e Kohélet contaminam as mãos, e a palavra final de Rabi Akiva (3:5).

E, por fim, este Perek Dálet, que reuniu as decisões votadas no dia histórico da presidência de Rabi Elazar ben Azariá — a gamela dos pés rachada (4:1); os sacrifícios oferecidos com nome trocado (4:2); o longo debate sobre o dízimo de Amon e Moabe, que se revelou remontar a Moisés no Sinai (4:3); a admissão de Yehudá, o convertido amonita, na assembleia (4:4) — e depois avançou para o targum de Ezra e Daniel e a regra material do pergaminho sagrado (4:5), e culminou nas quatro disputas históricas entre saduceus e fariseus: os livros de Homero e os ossos do sumo sacerdote (4:6); o nitzoq, a água do cemitério e os danos do escravo (4:7); e, por fim, esta última mishná, sobre o nome do governante no get e a palavra final de Faraó (4:8).

Como os demais tratados de Seder Tehorot com exceção de Massechet Nidá, Massechet Yadayim não possui Guemará no Talmud Bavli: é um tratado de mishnayot puras, do início ao fim, sem o debate amoraico que caracteriza a maioria dos demais tratados — e assim permaneceu, com Rambam e Bartenura acompanhando cada mishná, do Perek Alef ao Perek Dálet.

Massechet Yadayim é assim o décimo primeiro tratado completo de Seder Tehorot neste site. O estudo da Mishná prossegue agora, e por último, para Massechet Uktzin — o décimo segundo e derradeiro tratado de Seder Tehorot, e, na ordem tradicional, o último tratado de toda a Mishná, encerrando os seis Sedarim por completo.