Disse um saduceu galileu: reclamo contra vós, fariseus, porque escreveis o nome do governante junto com o de Moisés no get. Dizem os fariseus: reclamamos contra ti, saduceu galileu, porque escreveis o nome do governante junto com o Nome (divino) na (mesma) página; e não somente isso, mas escreveis o nome do governante acima e o Nome (divino) abaixo, como está dito (Êxodo 5:2): “E disse Faraó: quem é o Eterno, para que eu ouça a Sua voz e deixe ir Israel?” E quando foi castigado, o que ele disse? (Ali, 9:27): “O Eterno é justo.”
A última mishná do tratado — e, com ela, de toda a Massechet Yadayim — registra um último embate entre um “saduceu galileu” e os fariseus, desta vez sobre um costume escribá concreto: a datação dos guítin (documentos de divórcio) pelo ano de reinado do governante gentio vigente, seguida, ao final do documento, pela fórmula “conforme a lei de Moisés e de Israel”. O saduceu galileu protesta que unir o nome de um governante estrangeiro ao nome de Moisés no mesmo documento é um desrespeito ao próprio Moisés.
Os fariseus devolvem a acusação com um exemplo ainda mais incisivo: são os próprios interlocutores que escrevem o nome de um governante junto ao próprio Nome divino na mesma página — e, pior, colocam o nome do governante acima e o Nome divino abaixo, invertendo a ordem esperada de honra. Para justificar por que essa justaposição não é, em si, um desrespeito, os fariseus citam o precedente da própria Torá: as palavras insolentes de Faraó — “quem é o Eterno, para que eu ouça a Sua voz?” — justapõem diretamente, no próprio versículo (Êxodo 5:2), a arrogância de Faraó ao Nome divino.
Mas a Torá não encerra ali o episódio: registra também, mais adiante, a reversão e a confissão final de Faraó, após ser atingido pelas pragas: “O Eterno é justo” (Êxodo 9:27). Segundo explica o Bartenura, o ponto essencial é que a Torá deliberadamente não encerra a narrativa com a blasfêmia de Faraó, mas com sua confissão da justiça divina — ilustrando o princípio de que não se deve concluir um assunto (ou, aqui, um tratado inteiro) “em algo ruim”, mas sim em afirmação e vindicação. E, de modo deliberado e simbólico, os editores da Mishná encerram também Massechet Yadayim não com a provocação do saduceu, mas com a última palavra dos fariseus — ecoando, assim, o próprio princípio que citam: a mishná, como a história do Êxodo que ela invoca, termina afirmando a justiça do Eterno.
Diz o saduceu que vós diminuís o nome de Moisés, nosso mestre, ao escrevê-lo nos documentos junto com o nome do rei — isto é, que escrevemos a data segundo tal rei, e escrevemos nesse documento “conforme a lei de Moisés e de Israel”. E os sábios lhes disseram que isso não é uma diminuição de seu nome; ao contrário, com isso há grandeza até para aquele rei, pois escrevemos na própria Torá o Nome (divino) junto com (o nome de) Faraó — e não somente isso, mas ainda antecipamos o nome de Faraó, como está dito (ali, 5): “E disse Faraó: quem é o Eterno…”. E, visto que o versículo o menciona, não é apropriado que um tratado se encerre com a negação de um que renega a Divindade, mas sim com a fé n’Ele; por isso disse: “e quando foi castigado, o que disse? O Eterno é justo.”
“Saduceu galileu”: um saduceu que era da terra da Galileia.
“O governante junto com Moisés no get”: pois costumavam contar pelos anos dos reis, e escreviam “em tal e tal ano de tal rei”, e ao final do get escreviam “conforme a lei de Moisés e de Israel” — e isso é um desrespeito para com Moisés.
“O nome do governante acima e o Nome abaixo”: porque antecipam o nome de Faraó ao Nome (divino), como está escrito: “e disse Faraó: quem é o Eterno.”
“E quando foi castigado”: Faraó.
“O que ele disse? O Eterno é justo”: para não encerrar o tratado com (a frase) “quem é o Eterno, a quem eu deveria ouvir a Sua voz”, por causa (do princípio) de “não permaneças em uma coisa má”, encerrou-se com (a frase) “o Eterno é justo.”
Com esta oitava mishná, encerra-se não apenas o Perek Dálet, mas toda a Massechet Yadayim — o décimo primeiro tratado de Seder Tehorot, com seus 4 perakim e suas 22 mishnayot.
O tratado percorreu, do início ao fim, as leis da netilat yadayim e da tumat yadayim — a impureza própria das mãos. O Perek Alef abriu com a quantidade de água necessária para a netilat yadayim, segundo o número de pessoas que a usam (1:1); tratou de quais utensílios servem para dar água às mãos (1:2); da água imprópria para a bebida do animal (1:3); da água usada para enxaguar utensílios sujos (1:4); e fechou com a água do padeiro e os modos de derramá-la sem uma pessoa segurando o utensílio (1:5).
O Perek Bet abriu com o efeito de lavar uma só mão ou as duas juntas, e o pão de teruma que caiu na água (2:1); tratou de onde caem as águas primeiras e segundas após a lavagem (2:2); do princípio de que as mãos se tornam impuras e se purificam até o punho (2:3); e fechou com o princípio de que toda dúvida sobre as mãos se resolve para a pureza (2:4).
O Perek Guimel abriu com o grau de impureza das mãos de quem entra numa casa contaminada (3:1); tratou do que desqualifica a teruma e contamina as mãos em segundo grau (3:2); das correias dos tefilin (3:3); da margem em branco do rolo (3:4); e fechou com a célebre disputa sobre se Shir HaShirim e Kohélet contaminam as mãos, e a palavra final de Rabi Akiva (3:5).
E, por fim, este Perek Dálet, que reuniu as decisões votadas no dia histórico da presidência de Rabi Elazar ben Azariá — a gamela dos pés rachada (4:1); os sacrifícios oferecidos com nome trocado (4:2); o longo debate sobre o dízimo de Amon e Moabe, que se revelou remontar a Moisés no Sinai (4:3); a admissão de Yehudá, o convertido amonita, na assembleia (4:4) — e depois avançou para o targum de Ezra e Daniel e a regra material do pergaminho sagrado (4:5), e culminou nas quatro disputas históricas entre saduceus e fariseus: os livros de Homero e os ossos do sumo sacerdote (4:6); o nitzoq, a água do cemitério e os danos do escravo (4:7); e, por fim, esta última mishná, sobre o nome do governante no get e a palavra final de Faraó (4:8).
Como os demais tratados de Seder Tehorot com exceção de Massechet Nidá, Massechet Yadayim não possui Guemará no Talmud Bavli: é um tratado de mishnayot puras, do início ao fim, sem o debate amoraico que caracteriza a maioria dos demais tratados — e assim permaneceu, com Rambam e Bartenura acompanhando cada mishná, do Perek Alef ao Perek Dálet.
Massechet Yadayim é assim o décimo primeiro tratado completo de Seder Tehorot neste site. O estudo da Mishná prossegue agora, e por último, para Massechet Uktzin — o décimo segundo e derradeiro tratado de Seder Tehorot, e, na ordem tradicional, o último tratado de toda a Mishná, encerrando os seis Sedarim por completo.