Seder Tehorot · Massechet Yadayim · Perek Dálet · Mishná 7 de 8

O nitzoq, a água do cemitério e os danos do escravo: mais duas disputas entre saduceus e fariseus

אוֹמְרִים צְדוֹקִין, קוֹבְלִין אָנוּ עֲלֵיכֶם, פְּרוּשִׁים, שֶׁאַתֶּם מְטַהֲרִים אֶת הַנִּצּוֹק. אוֹמְרִים הַפְּרוּשִׁים, קוֹבְלִין אָנוּ עֲלֵיכֶם, צְדוֹקִים, שֶׁאַתֶּם מְטַהֲרִים אֶת אַמַּת הַמַּיִם הַבָּאָה מִבֵּית הַקְּבָרוֹת. אוֹמְרִים צְדוֹקִין, קוֹבְלִין אָנוּ עֲלֵיכֶם, פְּרוּשִׁים, שֶׁאַתֶּם אוֹמְרִים, שׁוֹרִי וַחֲמוֹרִי שֶׁהִזִּיקוּ, חַיָּבִין. וְעַבְדִּי וַאֲמָתִי שֶׁהִזִּיקוּ, פְּטוּרִין. מָה אִם שׁוֹרִי וַחֲמוֹרִי, שֶׁאֵינִי חַיָּב בָּהֶם מִצְוֹת, הֲרֵי אֲנִי חַיָּב בְּנִזְקָן. עַבְדִּי וַאֲמָתִי, שֶׁאֲנִי חַיָּב בָּהֶן מִצְוֹת, אֵינוֹ דִין שֶׁאֱהֵא חַיָּב בְּנִזְקָן. אָמְרוּ לָהֶם, לֹא. אִם אֲמַרְתֶּם בְּשׁוֹרִי וַחֲמוֹרִי, שֶׁאֵין בָּהֶם דַּעַת, תֹּאמְרוּ בְּעַבְדִּי וּבַאֲמָתִי, שֶׁיֵּשׁ בָּהֶם דָּעַת. שֶׁאִם אַקְנִיטֵם, יֵלֵךְ וְיַדְלִיק גְּדִישׁוֹ שֶׁל אַחֵר וֶאֱהֵא חַיָּב לְשַׁלֵּם׃
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Três disputas entre saduceus e fariseus: a pureza do nitzoq, a água do cemitério, e a responsabilidade por danos causados por animais versus escravos

Dizem os saduceus: reclamamos contra vós, fariseus, porque declarais puro o nitzoq. Dizem os fariseus: reclamamos contra vós, saduceus, porque declarais puro o canal de água que vem do cemitério. Dizem os saduceus: reclamamos contra vós, fariseus, porque dizeis: meu boi e meu asno, se causaram dano, são responsáveis; mas meu servo e minha serva, se causaram dano, estão isentos. Se, quanto ao meu boi e meu asno, pelos quais não sou obrigado em mitzvot, ainda assim sou responsável por seu dano — quanto ao meu servo e minha serva, pelos quais sou obrigado em mitzvot, não é justo que eu seja responsável por seu dano? Disseram-lhes: não. Se dissestes (essa lógica) a respeito do meu boi e do meu asno, que não têm entendimento, diríeis o mesmo a respeito do meu servo e da minha serva, que têm entendimento? Pois, se eu os irritar, ele poderia ir e incendiar o monte de trigo de outra pessoa, e eu ficaria obrigado a pagar.

A mishná prossegue com mais duas disputas entre saduceus e fariseus, agora no campo das leis de pureza e, em seguida, no direito de danos. A primeira é técnica: os saduceus reclamam da regra farisaica de que o nitzoq — o fio contínuo de líquido ao ser despejado de um recipiente para outro — não constitui ligação (chibur) para efeitos de pureza (regra tratada em Massechet Machshirin). Assim, se alguém despeja de um jarro puro para um recipiente impuro, o líquido que permanece no jarro superior continua puro, pois o fio de líquido em queda não transmite a impureza de volta para cima. Os saduceus rejeitavam essa distinção.

Na segunda disputa, são os fariseus que reclamam de uma leniência saducaica: o canal ou riacho de água que atravessa ou nasce de um cemitério, que os saduceus declaravam puro. Segundo o Bartenura, mesmo os saduceus concordam, neste caso específico, que a água corrente permanece pura, com base no versículo de Vayikrá (Levítico 11:36) sobre o “ajuntamento de águas” que se mantém puro — um princípio técnico sobre águas em movimento e fontes vivas, cuja aplicação precisa é discutida pelos comentaristas posteriores.

A terceira disputa muda de área: os saduceus questionam a lógica da halachá farisaica sobre danos causados por animais versus por escravos. A Torá determina que o dono é responsável pelo dano causado por seu boi ou seu asno (Êxodo 21:28 e 22:4), mas a halachá isenta o dono de responsabilidade pelo dano causado por seu servo ou serva (escravos cananeus). Os saduceus argumentam por kal vachomer (inferência do menor para o maior): se, quanto ao boi e ao asno — pelos quais o dono não tem responsabilidade religiosa (não precisa educá-los em mitzvot) — ele ainda assim é responsável por seus danos, quanto mais deveria ser responsável pelos danos de seu servo e sua serva, pelos quais tem responsabilidade de zelar pelo cumprimento das mitzvot.

Os fariseus rejeitam a comparação: o boi e o asno não possuem da’at (entendimento, vontade própria) — agem por puro instinto, de modo que a responsabilidade recai naturalmente sobre quem os controla. O servo e a serva, porém, possuem da’at — são agentes pensantes, com vontade própria — e por isso seus atos são de sua própria responsabilidade, não uma simples extensão da negligência do dono. Mais que isso: se a halachá responsabilizasse o dono pelos danos maliciosos de seu servo, um servo rancoroso poderia, deliberadamente, incendiar o monte de trigo de outra pessoa apenas para prejudicar financeiramente seu próprio dono — um risco moral intolerável, pois a malícia de um agente com entendimento não pode ser precificada como o comportamento puramente reflexivo de um animal.

אוֹמְרִים צְדוֹקִין, קוֹבְלִין אָנוּ עֲלֵיכֶם, פְּרוּשִׁים, שֶׁאַתֶּם מְטַהֲרִים אֶת הַנִּצּוֹק. אוֹמְרִים הַפְּרוּשִׁים, קוֹבְלִין אָנוּ עֲלֵיכֶם, צְדוֹקִים, שֶׁאַתֶּם מְטַהֲרִים אֶת אַמַּת הַמַּיִם הַבָּאָה מִבֵּית הַקְּבָרוֹת. אוֹמְרִים צְדוֹקִין, קוֹבְלִין אָנוּ עֲלֵיכֶם, פְּרוּשִׁים, שֶׁאַתֶּם אוֹמְרִים, שׁוֹרִי וַחֲמוֹרִי שֶׁהִזִּיקוּ, חַיָּבִין. וְעַבְדִּי וַאֲמָתִי שֶׁהִזִּיקוּ, פְּטוּרִין. מָה אִם שׁוֹרִי וַחֲמוֹרִי, שֶׁאֵינִי חַיָּב בָּהֶם מִצְוֹת, הֲרֵי אֲנִי חַיָּב בְּנִזְקָן. עַבְדִּי וַאֲמָתִי, שֶׁאֲנִי חַיָּב בָּהֶן מִצְוֹת, אֵינוֹ דִין שֶׁאֱהֵא חַיָּב בְּנִזְקָן. אָמְרוּ לָהֶם, לֹא. אִם אֲמַרְתֶּם בְּשׁוֹרִי וַחֲמוֹרִי, שֶׁאֵין בָּהֶם דַּעַת, תֹּאמְרוּ בְּעַבְדִּי וּבַאֲמָתִי, שֶׁיֵּשׁ בָּהֶם דָּעַת. שֶׁאִם אַקְנִיטֵם, יֵלֵךְ וְיַדְלִיק גְּדִישׁוֹ שֶׁל אַחֵר וֶאֱהֵא חַיָּב לְשַׁלֵּם׃

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Yadayim 4:7

Já se antecipou, no quinto (capítulo) de Machshirin, o ensinamento da mishná de que todo nitzoq é puro, ainda que a coluna (de líquido) que escorre esteja parcialmente ligada ao utensílio impuro — como se diz a respeito das águas que vêm do cemitério, que são puras, ainda que sua origem esteja ligada a um lugar impuro. E já sabes que, segundo nossas leis, os escravos que causam dano não são responsáveis por pagamentos de forma alguma, como se explica em Bavá Kamá (fólio 87a): mulheres, escravos e menores — seu encontro (com outros) é ruim: se causaram dano a outros, estão isentos. Porém, o ser humano ser responsável quando seu animal causa dano é expressão da própria Torá (Êxodo 21:28): “ki yigach shor…” e (ali, 22): “ki yav’er ish…”.

“Se eu os irritar”: se eu os enfurecer.

Bartenura · Yadayim 4:7

“Declarais puro o nitzoq”: pois ensinamos em Massechet Machshirin: todo nitzoq é puro. Se despeja de um recipiente puro para um recipiente impuro, o que resta no recipiente superior é puro, pois o nitzoq não é ligação.

“O canal de água que vem dos sepulcros”: os saduceus concordam a esse respeito que é puro, pois está escrito (Vayikrá 11): “um ajuntamento de águas será puro.”

“Pois não têm entendimento”: que se proponham a prejudicar financeiramente seus donos.

“Ele iria e incendiaria o monte de trigo de outra pessoa”: e assim faria seu dono perder cem manés a cada dia.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Yadayim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido em todas as mishnayot deste tratado.