Seder Tehorot · Massechet Yadayim · Perek Dálet · Mishná 5 de 8

O targum de Ezra e Daniel: a língua, a escrita e o material que determinam se um texto contamina as mãos

תַּרְגּוּם שֶׁבְּעֶזְרָא וְשֶׁבְּדָנִיֵּאל, מְטַמֵּא אֶת הַיָּדַיִם. תַּרְגּוּם שֶׁכְּתָבוֹ עִבְרִית וְעִבְרִית שֶׁכְּתָבוֹ תַּרְגּוּם, וּכְתָב עִבְרִי, אֵינוֹ מְטַמֵּא אֶת הַיָּדַיִם. לְעוֹלָם אֵינוֹ מְטַמֵּא, עַד שֶׁיִּכְתְּבֶנּוּ אַשּׁוּרִית, עַל הָעוֹר, וּבִדְיוֹ׃
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Os trechos em aramaico de Ezra e Daniel contaminam as mãos; a regra material final: escrita assurit, pergaminho e tinta

O targum que está em Ezra e em Daniel contamina as mãos. O targum que se escreveu em (letras) hebraicas, e o hebraico que se escreveu como targum, ou em escrita ivri, não contamina as mãos. Nunca contamina, até que se escreva em (escrita) assurit, sobre pergaminho, e com tinta.

A mishná retoma o tema central do Perek Guimel — quais textos contaminam as mãos por serem sagrados — e examina um caso particular: os trechos em aramaico (targum) presentes nos livros de Ezra e Daniel. Ainda que a maior parte da Escritura esteja em hebraico, esses dois livros contêm longas seções originalmente redigidas em aramaico bíblico. A mishná esclarece que, por serem parte integral e original do texto canônico transmitido — e não uma tradução posterior — essas seções carregam a mesma santidade do restante da Escritura e, portanto, contaminam as mãos como qualquer outro escrito sagrado.

Essa exceção, porém, não se estende além do texto original: se alguém transcreve esses mesmos trechos aramáicos usando letras hebraicas (fonemicamente, sem alterar a língua), ou, inversamente, transcreve uma passagem bíblica hebraica traduzindo-a foneticamente para o aramaico (targum), o resultado perde o status de Escritura e não contamina as mãos — pois já não é a forma textual autenticamente transmitida. O mesmo vale para a escrita em ktav ivri (a escrita hebraica antiga, usada antes do exílio e ainda hoje pelos samaritanos), em contraste com a ktav assurit (a escrita quadrada, em uso desde a época de Ezra) — escrever um texto sagrado na escrita antiga também não lhe confere santidade suficiente para contaminar as mãos.

A mishná fecha com a regra formal e material que resume a condição mínima para que qualquer texto sagrado contamine as mãos: nunca contamina, a menos que reúna três condições simultâneas — que esteja escrito em ktav assurit (a escrita quadrada), sobre pergaminho (or, couro processado ritualmente), e com tinta (diô).

תַּרְגּוּם שֶׁבְּעֶזְרָא וְשֶׁבְּדָנִיֵּאל, מְטַמֵּא אֶת הַיָּדַיִם. תַּרְגּוּם שֶׁכְּתָבוֹ עִבְרִית וְעִבְרִית שֶׁכְּתָבוֹ תַּרְגּוּם, וּכְתָב עִבְרִי, אֵינוֹ מְטַמֵּא אֶת הַיָּדַיִם. לְעוֹלָם אֵינוֹ מְטַמֵּא, עַד שֶׁיִּכְתְּבֶנּוּ אַשּׁוּרִית, עַל הָעוֹר, וּבִדְיוֹ׃

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Yadayim 4:5

“Ivrit”: a língua hebraica; e a escrita ivrit é a escrita “ever” — é a escrita com a qual escrevem a Torá os samaritanos (chamados, no texto original, al-Samira). E esta escrita com a qual nós escrevemos a Torá é a escrita assurit; e a escrita com que o Bendito escreveu a Torá chama-se assurit por causa de sua grandeza e beleza, como em (Gênesis 30:13): “be’oshri ki ishruni banot” (em minha felicidade, pois as filhas me chamam feliz) — e é isso que dizem: “assurit”, que é a mais afortunada (meussheret) das escritas, pois não se altera e nunca se confunde, porque suas letras não se assemelham (umas às outras), e porque suas letras não se unem umas às outras na linha da escrita — o que não ocorre com as demais escritas.

Bartenura · Yadayim 4:5

“O targum que se escreveu em (letras) hebraicas”: o targum que está em Daniel e Ezra, como por exemplo “kidná teimrun lehom” (Jeremias 10:11) — se o escreveu em língua sagrada (hebraico); e do mesmo modo, as palavras do profeta ditas em língua sagrada que se escreveram como targum, não contaminam as mãos.

“Escrita ivri”: a escrita que veio de além do rio (ever hanahar); e os cutim (samaritanos) escrevem nela até hoje, e Israel costumava usar essa escrita em assuntos seculares. E nas moedas de escrita que se encontram em nossas mãos hoje, que eram da época dos reis de Israel, estão gravadas nessa mesma escrita. Mas a escrita com que hoje escrevemos os livros (sagrados) chama-se escrita assurit, e é a escrita que estava nas Tábuas (da Lei). E chama-se assurit porque é a mais afortunada (meussheret) das escritas, expressão de “be’oshri ki ishruni banot” (Gênesis 30).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Yadayim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido em todas as mishnayot deste tratado.