Seder Tehorot · Massechet Yadayim · Perek Dálet · Mishná 3 de 8

O dízimo de Amon e Moabe no ano sábado: o debate entre Rabi Tarfon e Rabi Elazar ben Azariá, e a lágrima de Rabi Eliezer

בּוֹ בַיּוֹם אָמְרוּ, עַמּוֹן וּמוֹאָב, מַה הֵן בַּשְּׁבִיעִית. גָּזַר רַבִּי טַרְפוֹן, מַעְשַׂר עָנִי. וְגָזַר רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה, מַעֲשֵׂר שֵׁנִי. אָמַר רַבִּי יִשְׁמָעֵאל, אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה, עָלֶיךָ רְאָיָה לְלַמֵּד, שֶׁאַתָּה מַחְמִיר, שֶׁכָּל הַמַּחְמִיר, עָלָיו רְאָיָה לְלַמֵּד. אָמַר לוֹ רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה, יִשְׁמָעֵאל אָחִי, אֲנִי לֹא שִׁנִּיתִי מִסֵּדֶר הַשָּׁנִים, טַרְפוֹן אָחִי שִׁנָּה, וְעָלָיו רְאָיָה לְלַמֵּד. הֵשִׁיב רַבִּי טַרְפוֹן, מִצְרַיִם חוּץ לָאָרֶץ, עַמּוֹן וּמוֹאָב חוּץ לָאָרֶץ, מַה מִּצְרַיִם מַעְשַׂר עָנִי בַשְּׁבִיעִית, אַף עַמּוֹן וּמוֹאָב מַעְשַׂר עָנִי בַשְּׁבִיעִית. הֵשִׁיב רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה, בָּבֶל חוּץ לָאָרֶץ, עַמּוֹן וּמוֹאָב חוּץ לָאָרֶץ, מַה בָּבֶל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי בַשְּׁבִיעִית, אַף עַמּוֹן וּמוֹאָב מַעֲשֵׂר שֵׁנִי בַשְּׁבִיעִית. אָמַר רַבִּי טַרְפוֹן, מִצְרַיִם שֶׁהִיא קְרוֹבָה, עֲשָׂאוּהָ מַעְשַׂר עָנִי, שֶׁיִּהְיוּ עֲנִיֵּי יִשְׂרָאֵל נִסְמָכִים עָלֶיהָ בַּשְּׁבִיעִית, אַף עַמּוֹן וּמוֹאָב, שֶׁהֵם קְרוֹבִים, נַעֲשִׂים מַעְשַׂר עָנִי, שֶׁיִּהְיוּ עֲנִיֵּי יִשְׂרָאֵל נִסְמָכִים עֲלֵיהֶם בַּשְּׁבִיעִית. אָמַר לוֹ רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה, הֲרֵי אַתָּה כִמְהַנָּן מָמוֹן, וְאֵין אַתָּה אֶלָּא כְמַפְסִיד נְפָשׁוֹת. קוֹבֵעַ אַתָּה אֶת הַשָּׁמַיִם מִלְּהוֹרִיד טַל וּמָטָר, שֶׁנֶּאֱמַר (מלאכי ג), הֲיִקְבַּע אָדָם אֱלֹהִים כִּי אַתֶּם קֹבְעִים אֹתִי וַאֲמַרְתֶּם בַּמֶּה קְבַעֲנוּךָ הַמַּעֲשֵׂר וְהַתְּרוּמָה. אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ, הֲרֵינִי כְמֵשִׁיב עַל טַרְפוֹן אָחִי, אֲבָל לֹא לְעִנְיַן דְּבָרָיו. מִצְרַיִם מַעֲשֶׂה חָדָשׁ, וּבָבֶל מַעֲשֶׂה יָשָׁן, וְהַנִּדּוֹן שֶׁלְּפָנֵינוּ מַעֲשֶׂה חָדָשׁ. יִדּוֹן מַעֲשֶׂה חָדָשׁ מִמַּעֲשֶׂה חָדָשׁ, וְאַל יִדּוֹן מַעֲשֶׂה חָדָשׁ מִמַּעֲשֶׂה יָשָׁן. מִצְרַיִם מַעֲשֵׂה זְקֵנִים, וּבָבֶל מַעֲשֵׂה נְבִיאִים, וְהַנִּדּוֹן שֶׁלְּפָנֵינוּ מַעֲשֵׂה זְקֵנִים. יִדּוֹן מַעֲשֵׂה זְקֵנִים מִמַּעֲשֵׂה זְקֵנִים, וְאַל יִדּוֹן מַעֲשֵׂה זְקֵנִים מִמַּעֲשֵׂה נְבִיאִים. נִמְנוּ וְגָמְרוּ, עַמּוֹן וּמוֹאָב מְעַשְּׂרִין מַעְשַׂר עָנִי בַּשְּׁבִיעִית. וּכְשֶׁבָּא רַבִּי יוֹסֵי בֶּן דֻּרְמַסְקִית אֵצֶל רַבִּי אֱלִיעֶזֶר בְּלוֹד, אָמַר לוֹ, מַה חִדּוּשׁ הָיָה לָכֶם בְּבֵית הַמִּדְרָשׁ הַיּוֹם. אָמַר לוֹ, נִמְנוּ וְגָמְרוּ, עַמּוֹן וּמוֹאָב מְעַשְּׂרִים מַעְשַׂר עָנִי בַּשְּׁבִיעִית. בָּכָה רַבִּי אֱלִיעֶזֶר וְאָמַר, סוֹד ה' לִירֵאָיו וּבְרִיתוֹ לְהוֹדִיעָם (תהלים כה). צֵא וֶאֱמֹר לָהֶם, אַל תָּחֹשּׁוּ לְמִנְיַנְכֶם. מְקֻבָּל אֲנִי מֵרַבָּן יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי, שֶׁשָּׁמַע מֵרַבּוֹ, וְרַבּוֹ מֵרַבּוֹ עַד הֲלָכָה לְמשֶׁה מִסִּינַי, שֶׁעַמּוֹן וּמוֹאָב מְעַשְּׂרִין מַעְשַׂר עָנִי בַּשְּׁבִיעִית׃
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O longo debate sobre qual dízimo se aplica a Amon e Moabe no sétimo ano, e a revelação final de que a halachá votada remontava a Moisés no Sinai

Naquele dia disseram: Amon e Moabe, o que são (eles) quanto ao (ano) sétimo? Rabi Tarfon decretou: maasser ani. E Rabi Elazar ben Azariá decretou: maasser sheni. Disse Rabi Yishmael: Elazar ben Azariá, cabe a ti trazer prova para ensinar, pois tu és o que rigoriza; porque todo aquele que rigoriza, cabe a ele trazer prova para ensinar. Disse-lhe Rabi Elazar ben Azariá: Yishmael, meu irmão, eu não mudei a ordem dos anos; Tarfon, meu irmão, é que mudou, e cabe a ele trazer prova para ensinar. Respondeu Rabi Tarfon: o Egito está fora da Terra, Amon e Moabe estão fora da Terra; assim como no Egito há maasser ani no sétimo (ano), também em Amon e Moabe há maasser ani no sétimo (ano). Respondeu Rabi Elazar ben Azariá: a Babilônia está fora da Terra, Amon e Moabe estão fora da Terra; assim como na Babilônia há maasser sheni no sétimo (ano), também em Amon e Moabe há maasser sheni no sétimo (ano). Disse Rabi Tarfon: o Egito, que é próximo, fizeram-no (sujeito a) maasser ani, para que os pobres de Israel se apoiassem nele no sétimo (ano); também Amon e Moabe, que são próximos, tornam-se (sujeitos a) maasser ani, para que os pobres de Israel se apoiem neles no sétimo (ano). Disse-lhe Rabi Elazar ben Azariá: eis que és como quem beneficia (o pobre) com dinheiro, mas não és senão como quem faz perecer vidas. Privas os céus de fazer descer orvalho e chuva, como está dito (Malaquias 3:8): “Roubará o homem a Deus? Contudo vós me roubais. E dizeis: em que te roubamos? Nos dízimos e na teruma.” Disse Rabi Yehoshua: eis que serei como quem responde em favor de Tarfon, meu irmão, mas não quanto ao teor de suas palavras. O (caso do) Egito é um ato recente, e o (caso da) Babilônia é um ato antigo; e o caso que está diante de nós é um ato recente. Que se julgue um ato recente a partir de um ato recente, e não se julgue um ato recente a partir de um ato antigo. O (caso do) Egito é um ato dos anciãos, e o (caso da) Babilônia é um ato dos profetas; e o caso que está diante de nós é um ato dos anciãos. Que se julgue um ato dos anciãos a partir de um ato dos anciãos, e não se julgue um ato dos anciãos a partir de um ato dos profetas. Contaram os votos e decidiram: Amon e Moabe dão o maasser ani no sétimo (ano). E quando Rabi Yossei ben Durmasskit veio à casa de Rabi Eliezer, em Lod, disse-lhe: que novidade houve para vós na casa de estudo hoje? Disse-lhe: contaram os votos e decidiram que Amon e Moabe dão o maasser ani no sétimo (ano). Chorou Rabi Eliezer e disse: “O segredo do Eterno é para os que O temem, e Sua aliança, para lhes fazer conhecer” (Salmos 25:14). Vai e diz-lhes: não vos preocupeis com vossa contagem. Recebi (esta tradição) de Rabão Yochanan ben Zakai, que a ouviu de seu mestre, e seu mestre de seu mestre, até (chegar a) uma halachá (dada) a Moisés no Sinai: que Amon e Moabe dão o maasser ani no sétimo (ano).

Esta é a mais longa das decisões votadas “naquele dia”, e trata de uma questão prática de agricultura e caridade: qual dízimo se aplica às produções de Amon e Moabe (territórios a leste do Jordão, tratados como fora da Terra de Israel para este fim) durante o ano shevi’it (sétimo ano do ciclo sabático), quando, dentro da Terra, a produção é hefker (abandonada) e isenta de dízimos. Duas posições se formam: Rabi Tarfon decreta maasser ani (o dízimo do pobre, normalmente dado nos anos terceiro e sexto do ciclo), por analogia ao Egito — também “fora da Terra” e também sujeito a maasser ani em seu sétimo ano; Rabi Elazar ben Azariá decreta maasser sheni (o segundo dízimo, normalmente dado nos anos primeiro, segundo, quarto e quinto, e consumido em Jerusalém), por analogia à Babilônia.

Segue-se um debate processual sobre quem deve trazer a prova: Rabi Yishmael invoca o princípio de que quem adota a posição mais rigorosa tem o ônus de prová-la, e aponta Rabi Elazar ben Azariá como o rigorista (pois maasser sheni exige que o dinheiro seja consumido em pureza em Jerusalém, uma exigência mais pesada). Rabi Elazar ben Azariá devolve o argumento: ele não se desviou da ordem regular dos anos (pois, após um sexto ano de maasser ani, o esperado seria maasser sheni no sétimo, não fosse este um ano de shemitá), enquanto foi Rabi Tarfon quem se desviou — e portanto cabe a ele provar. Ambos então trazem suas respectivas analogias (Egito vs. Babilônia), e Rabi Tarfon acrescenta um argumento social: o Egito, por ser próximo, foi designado maasser ani precisamente para que os pobres de Israel pudessem se apoiar nele durante o sétimo ano; o mesmo raciocínio se aplicaria a Amon e Moabe.

Rabi Elazar ben Azariá reage com veemência, acusando Tarfon de, sob a aparência de beneficiar os pobres com dinheiro, na verdade colocar em risco a própria sobrevivência do povo — pois, ao desviar recursos do maasser sheni (que sustenta a santidade e o culto em Jerusalém) para o maasser ani, estaria, em sentido figurado, “retendo” os céus de conceder orvalho e chuva, citando a acusação de Malaquias contra quem retém dízimos e teruma. Rabi Yehoshua então intervém com uma defesa parcial de Tarfon, mas por uma linha de raciocínio diferente da dele: distingue entre o precedente do Egito — um “ato recente”, decretado pelos anciãos que vieram depois de Ezra — e o precedente da Babilônia — um “ato antigo”, instituído pelos profetas anteriores à destruição do Templo; como o caso presente também é um ato recente decidido por anciãos, deveria ser julgado a partir do precedente do Egito (também recente e também dos anciãos), e não do precedente da Babilônia.

A votação final decide a favor do maasser ani para Amon e Moabe no sétimo ano. A mishná fecha com um episódio revelador: quando Rabi Yossei ben Durmasskit relata a Rabi Eliezer, em Lod, a novidade decidida naquele dia, este chora — não de tristeza, mas de emoção — e cita o versículo de Salmos sobre o “segredo do Eterno” revelado aos que O temem, revelando que aquilo que fora decidido por votação, como se fosse uma inovação daquele dia, era, na verdade, uma halachá antiquíssima recebida por tradição ininterrupta desde Moisés no Sinai, através de Rabão Yochanan ben Zakai. A votação, portanto, não criou a halachá — apenas a redescobriu.

בּוֹ בַיּוֹם אָמְרוּ, עַמּוֹן וּמוֹאָב, מַה הֵן בַּשְּׁבִיעִית. גָּזַר רַבִּי טַרְפוֹן, מַעְשַׂר עָנִי. וְגָזַר רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה, מַעֲשֵׂר שֵׁנִי. אָמַר רַבִּי יִשְׁמָעֵאל, אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה, עָלֶיךָ רְאָיָה לְלַמֵּד, שֶׁאַתָּה מַחְמִיר, שֶׁכָּל הַמַּחְמִיר, עָלָיו רְאָיָה לְלַמֵּד. אָמַר לוֹ רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה, יִשְׁמָעֵאל אָחִי, אֲנִי לֹא שִׁנִּיתִי מִסֵּדֶר הַשָּׁנִים, טַרְפוֹן אָחִי שִׁנָּה, וְעָלָיו רְאָיָה לְלַמֵּד. הֵשִׁיב רַבִּי טַרְפוֹן, מִצְרַיִם חוּץ לָאָרֶץ, עַמּוֹן וּמוֹאָב חוּץ לָאָרֶץ, מַה מִּצְרַיִם מַעְשַׂר עָנִי בַשְּׁבִיעִית, אַף עַמּוֹן וּמוֹאָב מַעְשַׂר עָנִי בַשְּׁבִיעִית. הֵשִׁיב רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה, בָּבֶל חוּץ לָאָרֶץ, עַמּוֹן וּמוֹאָב חוּץ לָאָרֶץ, מַה בָּבֶל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי בַשְּׁבִיעִית, אַף עַמּוֹן וּמוֹאָב מַעֲשֵׂר שֵׁנִי בַשְּׁבִיעִית. אָמַר רַבִּי טַרְפוֹן, מִצְרַיִם שֶׁהִיא קְרוֹבָה, עֲשָׂאוּהָ מַעְשַׂר עָנִי, שֶׁיִּהְיוּ עֲנִיֵּי יִשְׂרָאֵל נִסְמָכִים עָלֶיהָ בַּשְּׁבִיעִית, אַף עַמּוֹן וּמוֹאָב, שֶׁהֵם קְרוֹבִים, נַעֲשִׂים מַעְשַׂר עָנִי, שֶׁיִּהְיוּ עֲנִיֵּי יִשְׂרָאֵל נִסְמָכִים עֲלֵיהֶם בַּשְּׁבִיעִית. אָמַר לוֹ רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה, הֲרֵי אַתָּה כִמְהַנָּן מָמוֹן, וְאֵין אַתָּה אֶלָּא כְמַפְסִיד נְפָשׁוֹת. קוֹבֵעַ אַתָּה אֶת הַשָּׁמַיִם מִלְּהוֹרִיד טַל וּמָטָר, שֶׁנֶּאֱמַר (מלאכי ג), הֲיִקְבַּע אָדָם אֱלֹהִים כִּי אַתֶּם קֹבְעִים אֹתִי וַאֲמַרְתֶּם בַּמֶּה קְבַעֲנוּךָ הַמַּעֲשֵׂר וְהַתְּרוּמָה. אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ, הֲרֵינִי כְמֵשִׁיב עַל טַרְפוֹן אָחִי, אֲבָל לֹא לְעִנְיַן דְּבָרָיו. מִצְרַיִם מַעֲשֶׂה חָדָשׁ, וּבָבֶל מַעֲשֶׂה יָשָׁן, וְהַנִּדּוֹן שֶׁלְּפָנֵינוּ מַעֲשֶׂה חָדָשׁ. יִדּוֹן מַעֲשֶׂה חָדָשׁ מִמַּעֲשֶׂה חָדָשׁ, וְאַל יִדּוֹן מַעֲשֶׂה חָדָשׁ מִמַּעֲשֶׂה יָשָׁן. מִצְרַיִם מַעֲשֵׂה זְקֵנִים, וּבָבֶל מַעֲשֵׂה נְבִיאִים, וְהַנִּדּוֹן שֶׁלְּפָנֵינוּ מַעֲשֵׂה זְקֵנִים. יִדּוֹן מַעֲשֵׂה זְקֵנִים מִמַּעֲשֵׂה זְקֵנִים, וְאַל יִדּוֹן מַעֲשֵׂה זְקֵנִים מִמַּעֲשֵׂה נְבִיאִים. נִמְנוּ וְגָמְרוּ, עַמּוֹן וּמוֹאָב מְעַשְּׂרִין מַעְשַׂר עָנִי בַּשְּׁבִיעִית. וּכְשֶׁבָּא רַבִּי יוֹסֵי בֶּן דֻּרְמַסְקִית אֵצֶל רַבִּי אֱלִיעֶזֶר בְּלוֹד, אָמַר לוֹ, מַה חִדּוּשׁ הָיָה לָכֶם בְּבֵית הַמִּדְרָשׁ הַיּוֹם. אָמַר לוֹ, נִמְנוּ וְגָמְרוּ, עַמּוֹן וּמוֹאָב מְעַשְּׂרִים מַעְשַׂר עָנִי בַּשְּׁבִיעִית. בָּכָה רַבִּי אֱלִיעֶזֶר וְאָמַר, סוֹד ה' לִירֵאָיו וּבְרִיתוֹ לְהוֹדִיעָם (תהלים כה). צֵא וֶאֱמֹר לָהֶם, אַל תָּחֹשּׁוּ לְמִנְיַנְכֶם. מְקֻבָּל אֲנִי מֵרַבָּן יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי, שֶׁשָּׁמַע מֵרַבּוֹ, וְרַבּוֹ מֵרַבּוֹ עַד הֲלָכָה לְמשֶׁה מִסִּינַי, שֶׁעַמּוֹן וּמוֹאָב מְעַשְּׂרִין מַעְשַׂר עָנִי בַּשְּׁבִיעִית׃

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Malaquias 3:8
הֲיִקְבַּ֨ע אָדָ֜ם אֱלֹהִ֗ים כִּ֤י אַתֶּם֙ קֹבְעִ֣ים אֹתִ֔י וַאֲמַרְתֶּ֖ם בַּמֶּ֣ה קְבַֽעֲנ֑וּךָ הַֽמַּעֲשֵׂ֖ר וְהַתְּרוּמָֽה׃
“Roubará o homem a Deus? Contudo vós me roubais. E dizeis: em que te roubamos? Nos dízimos e na teruma.”
Rabi Elazar ben Azariá cita esta acusação profética contra quem retém dízimo e teruma para argumentar, em sentido figurado, que desviar recursos do maasser sheni equivale a privar os céus de conceder orvalho e chuva.
Salmos 25:14
ס֣וֹד יְ֭הֹוָה לִירֵאָ֑יו וּ֝בְרִית֗וֹ לְהוֹדִיעָֽם׃
“O segredo do Eterno é para os que O temem, e Sua aliança, para lhes fazer conhecer.”
Rabi Eliezer chora ao citar este versículo, ao perceber que a decisão votada naquele dia na casa de estudo coincidia, sem que os presentes soubessem, com uma halachá antiquíssima recebida por tradição desde Moisés no Sinai.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Yadayim 4:3

Já sabes que, no primeiro ano da shemitá, e no segundo, no quarto e no quinto, separam-se maasser rishon (primeiro dízimo) e, em seguida, maasser sheni (segundo dízimo) — e esta é a ordem regular dos anos; e no terceiro e no sexto ano, a Escritura os distinguiu e ordenou que se separasse maasser ani (dízimo do pobre) no lugar do maasser sheni; já o sétimo ano é a própria shemitá, e não há nele obrigação de dízimos. E é sabido que a shemitá só se aplica na Terra (de Israel) e também na Síria, como disseram na Tosefta, no primeiro (capítulo) de Kelim, e como se explica em Massechet Shevi’it (cap. 6); mas fora da Terra, não. E é apropriado separar terumot e maasserot fora da Terra por decreto rabínico, como se explica em vários lugares na Tosefta. E nos anos em que os filhos da Terra de Israel separam maasser sheni, também os filhos de fora da Terra separam maasser sheni, resgatam-no e sobem seu valor a Jerusalém, como se explica em seu lugar; e nos anos em que os filhos da Terra de Israel separam maasser ani, também eles separam maasser ani. E no ano da shemitá, no qual os filhos da Terra de Israel não separam dízimo algum, porque (a produção) é hefker — já os profetas haviam instituído que se separasse maasser sheni na Babilônia e em seus arredores; e os anciãos, que são os últimos, posteriores a Ezra, já haviam instituído no Egito e nas demais terras do Egito maasser ani no sétimo ano. E surgiu a controvérsia quanto à terra de Amon e Moabe — que são as cidades de Sichon e Og — sobre qual dízimo separar no ano da shemitá; e Rabi Elazar rigorizava, pois o maasser sheni é sagrado, e o maasser ani é comum. E Rabi Elazar trouxe prova a partir do (versículo sobre) o dízimo e a teruma, isto é, que o dízimo sobre o qual (o profeta) advertiu e temeu sua suspensão é sagrado, como a teruma. E disse “respondeu Rabi Tarfon” e não disse apenas “disse”, isto é, que ele respondeu às respostas anteriores. E Rabi Eliezer já havia saído da casa de estudo por causa da controvérsia que surgiu entre ele e os sábios, como mencionamos no quinto (capítulo) de Kelim.

Bartenura · Yadayim 4:3

“Amon e Moabe, o que são quanto ao sétimo ano”: não se trata do (território de) Amon e Moabe que foi purificado (conquistado) por Sichon, que é a herança de Rubén e Gad — pois aquela é Terra de Israel, mesmo que se admita que os que subiram da Babilônia não a tenham conquistado, pois já ensinamos em Massechet Shevi’it, capítulo “HaPeigam”, que há três territórios para o biur (a remoção dos frutos da shevi’it): Yehudá, o outro lado do Jordão e a Galileia — e o outro lado do Jordão é a terra de Sichon — por força, a shevi’it se aplica ali. Mas trata-se do restante da terra de Amon e Moabe, que não foi purificado por Sichon e nunca foi conquistado. E sabe-se isso porque trazem prova a partir da Babilônia e do Egito.

“Não mudei a ordem dos anos”: do mundo. Após o ano de maasser ani, trazem maasser sheni; e eis que no sexto (ano há) maasser ani, por isso é apropriado que no sétimo (ano haja) maasser sheni.

“O dízimo e a teruma”: e por força, o dízimo mencionado aqui é o maasser sheni, semelhante à teruma, que é sagrada — e não o maasser ani, que é totalmente comum; e não se pode afastar o maasser sheni por causa dos pobres.

“Como quem responde às palavras de Tarfon”: para ajudá-lo.

“Mas não quanto ao teor de suas palavras”: isto é, e não pelos seus fundamentos.

“O Egito é um ato recente”: pois os anciãos que vieram depois de Ezra instituíram separar dízimo no Egito.

“E a Babilônia é um ato antigo”: instituição dos profetas anteriores à destruição do Templo, e o assunto foi esquecido — pois talvez não houvesse necessidade dos pobres naquela época.

“Ato dos profetas”: e por profecia fizeram uma decisão temporária (hora’at sha’a), e não se aprende dela.

“Halachá a Moisés no Sinai”: não literalmente — pois isto não é da Torá, mas como se fosse uma halachá a Moisés no Sinai. Porém, na Tosefta entende-se que se disse halachá a Moisés no Sinai literalmente.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Yadayim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido em todas as mishnayot deste tratado.