Seder Tehorot · Massechet Yadayim · Perek Guimel · Mishná 5 de 5

Todos os escritos sagrados contaminam as mãos: a disputa sobre Shir HaShirim e Kohélet

סֵפֶר שֶׁנִּמְחַק וְנִשְׁתַּיֵּר בּוֹ שְׁמוֹנִים וְחָמֵשׁ אוֹתִיּוֹת, כְּפָרָשַׁת וַיְהִי בִּנְסֹעַ הָאָרֹן, מְטַמֵּא אֶת הַיָּדַיִם. מְגִלָּה שֶׁכָּתוּב בָּהּ שְׁמוֹנִים וְחָמֵשׁ אוֹתִיּוֹת כְּפָרָשַׁת וַיְהִי בִּנְסֹעַ הָאָרֹן, מְטַמָּא אֶת הַיָּדַיִם. כָּל כִּתְבֵי הַקֹּדֶשׁ מְטַמְּאִין אֶת הַיָּדַיִם. שִׁיר הַשִּׁירִים וְקֹהֶלֶת מְטַמְּאִין אֶת הַיָּדַיִם. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, שִׁיר הַשִּׁירִים מְטַמֵּא אֶת הַיָּדַיִם, וְקֹהֶלֶת מַחֲלֹקֶת. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, קֹהֶלֶת אֵינוֹ מְטַמֵּא אֶת הַיָּדַיִם וְשִׁיר הַשִּׁירִים מַחֲלֹקֶת. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, קֹהֶלֶת מִקֻּלֵּי בֵית שַׁמַּאי וּמֵחֻמְרֵי בֵית הִלֵּל. אָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן עַזַּאי, מְקֻבָּל אֲנִי מִפִּי שִׁבְעִים וּשְׁנַיִם זָקֵן, בַּיּוֹם שֶׁהוֹשִׁיבוּ אֶת רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה בַּיְשִׁיבָה, שֶׁשִּׁיר הַשִּׁירִים וְקֹהֶלֶת מְטַמְּאִים אֶת הַיָּדַיִם. אָמַר רַבִּי עֲקִיבָא, חַס וְשָׁלוֹם, לֹא נֶחֱלַק אָדָם מִיִּשְׂרָאֵל עַל שִׁיר הַשִּׁירִים שֶׁלֹּא תְטַמֵּא אֶת הַיָּדַיִם, שֶׁאֵין כָּל הָעוֹלָם כֻּלּוֹ כְדַאי כַּיּוֹם שֶׁנִּתַּן בּוֹ שִׁיר הַשִּׁירִים לְיִשְׂרָאֵל, שֶׁכָּל הַכְּתוּבִים קֹדֶשׁ, וְשִׁיר הַשִּׁירִים קֹדֶשׁ קָדָשִׁים. וְאִם נֶחְלְקוּ, לֹא נֶחְלְקוּ אֶלָּא עַל קֹהֶלֶת. אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן בֶּן יְהוֹשֻׁעַ בֶּן חָמִיו שֶׁל רַבִּי עֲקִיבָא, כְּדִבְרֵי בֶן עַזַּאי, כָּךְ נֶחְלְקוּ וְכָךְ גָּמְרוּ׃
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerramento do Perek Guimel: a medida mínima que santifica um pergaminho, e a disputa sobre se Shir HaShirim e Kohélet contaminam as mãos

Um livro (rolo) que se apagou, e nele restaram oitenta e cinco letras, como a parashá de “Vayehi binsóa haarón”, contamina as mãos. Uma meguilá (folha avulsa) na qual estão escritas oitenta e cinco letras, como a parashá de “Vayehi binsóa haarón”, contamina as mãos. Todos os escritos sagrados contaminam as mãos. Shir HaShirim e Kohélet contaminam as mãos. Rabi Yehudá diz: Shir HaShirim contamina as mãos, e sobre Kohélet há controvérsia. Rabi Yossei diz: Kohélet não contamina as mãos, e sobre Shir HaShirim há controvérsia. Rabi Shimon diz: (o caso de) Kohélet está entre as posições brandas de Bet Shamai e as posições rigorosas de Bet Hilel. Disse Rabi Shimon ben Azai: recebi (esta tradição) da boca de setenta e dois anciãos, no dia em que sentaram Rabi Elazar ben Azariá na presidência (da academia), que Shir HaShirim e Kohélet contaminam as mãos. Disse Rabi Akiva: longe disso! Nunca ninguém em Israel discordou quanto a Shir HaShirim, que ele não contamine as mãos — pois o mundo inteiro não vale tanto quanto o dia em que Shir HaShirim foi dado a Israel; que todos os Escritos são sagrados, e Shir HaShirim é santo dos santos. E, se houve controvérsia, não houve controvérsia senão sobre Kohélet. Disse Rabi Yochanan ben Yehoshua, filho do sogro de Rabi Akiva: conforme as palavras de Ben Azai — assim discordaram, e assim concluíram.

A mishná abre com a regra técnica que fecha o assunto da santidade do pergaminho por sua extensão mínima: oitenta e cinco letras — a extensão exata da pequena parashá “Vayehi binsóa haarón” (Números 10:35–36), considerada, por sua singularidade, um livro à parte dentro da Torá. Essa quantidade de letras, seja num rolo cujo texto se apagou e restou apenas essa extensão, seja numa folha avulsa (meguilá) escrita apenas com esse trecho, basta para que o pergaminho seja considerado sagrado e, portanto, contamine as mãos.

A mishná prossegue com a afirmação central, que resume todo o perek: todos os escritos sagrados (o Tanach) contaminam as mãos — inclusive, explicitamente, Shir HaShirim (Cântico dos Cânticos) e Kohélet (Eclesiastes), cuja inclusão entre os livros sagrados foi, historicamente, objeto de controvérsia entre os sábios. A mishná registra as diferentes posições: Rabi Yehudá aceita Shir HaShirim sem disputa, mas considera Kohélet controverso; Rabi Yossei inverte a posição, aceitando Kohélet sem disputa mas considerando Shir HaShirim controverso; Rabi Shimon situa a posição sobre Kohélet entre as posições brandas da Escola de Shamai e as rigorosas da Escola de Hilel.

A mishná encerra com dois testemunhos que fixam a posição final. Rabi Shimon ben Azai relata ter recebido, na tradição de setenta e dois anciãos reunidos no dia em que Rabi Elazar ben Azariá foi elevado à presidência da academia, que tanto Shir HaShirim quanto Kohélet contaminam as mãos — isto é, são sagrados. Rabi Akiva vai além, declarando com veemência que jamais houve em Israel discordância quanto à santidade de Shir HaShirim, chamando-o de “santo dos santos” entre todos os Escritos, e que a única controvérsia histórica dizia respeito apenas a Kohélet. A mishná fecha o Perek Guimel — e, com ele, o tema da santidade das Escrituras — com o testemunho de Rabi Yochanan ben Yehoshua, que confirma: a disputa e sua conclusão seguiram as palavras de Ben Azai, e ambos os livros contaminam as mãos.

סֵפֶר שֶׁנִּמְחַק וְנִשְׁתַּיֵּר בּוֹ שְׁמוֹנִים וְחָמֵשׁ אוֹתִיּוֹת, כְּפָרָשַׁת וַיְהִי בִּנְסֹעַ הָאָרֹן, מְטַמֵּא אֶת הַיָּדַיִם. מְגִלָּה שֶׁכָּתוּב בָּהּ שְׁמוֹנִים וְחָמֵשׁ אוֹתִיּוֹת כְּפָרָשַׁת וַיְהִי בִּנְסֹעַ הָאָרֹן, מְטַמָּא אֶת הַיָּדַיִם. כָּל כִּתְבֵי הַקֹּדֶשׁ מְטַמְּאִין אֶת הַיָּדַיִם. שִׁיר הַשִּׁירִים וְקֹהֶלֶת מְטַמְּאִין אֶת הַיָּדַיִם. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, שִׁיר הַשִּׁירִים מְטַמֵּא אֶת הַיָּדַיִם, וְקֹהֶלֶת מַחֲלֹקֶת. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, קֹהֶלֶת אֵינוֹ מְטַמֵּא אֶת הַיָּדַיִם וְשִׁיר הַשִּׁירִים מַחֲלֹקֶת. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, קֹהֶלֶת מִקֻּלֵּי בֵית שַׁמַּאי וּמֵחֻמְרֵי בֵית הִלֵּל. אָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן עַזַּאי, מְקֻבָּל אֲנִי מִפִּי שִׁבְעִים וּשְׁנַיִם זָקֵן, בַּיּוֹם שֶׁהוֹשִׁיבוּ אֶת רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה בַּיְשִׁיבָה, שֶׁשִּׁיר הַשִּׁירִים וְקֹהֶלֶת מְטַמְּאִים אֶת הַיָּדַיִם. אָמַר רַבִּי עֲקִיבָא, חַס וְשָׁלוֹם, לֹא נֶחֱלַק אָדָם מִיִּשְׂרָאֵל עַל שִׁיר הַשִּׁירִים שֶׁלֹּא תְטַמֵּא אֶת הַיָּדַיִם, שֶׁאֵין כָּל הָעוֹלָם כֻּלּוֹ כְדַאי כַּיּוֹם שֶׁנִּתַּן בּוֹ שִׁיר הַשִּׁירִים לְיִשְׂרָאֵל, שֶׁכָּל הַכְּתוּבִים קֹדֶשׁ, וְשִׁיר הַשִּׁירִים קֹדֶשׁ קָדָשִׁים. וְאִם נֶחְלְקוּ, לֹא נֶחְלְקוּ אֶלָּא עַל קֹהֶלֶת. אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן בֶּן יְהוֹשֻׁעַ בֶּן חָמִיו שֶׁל רַבִּי עֲקִיבָא, כְּדִבְרֵי בֶן עַזַּאי, כָּךְ נֶחְלְקוּ וְכָךְ גָּמְרוּ׃

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Números 10:35–36
וַיְהִ֛י בִּנְסֹ֥עַ הָאָרֹ֖ן וַיֹּ֣אמֶר מֹשֶׁ֑ה קוּמָ֣ה · יְהֹוָ֗ה וְיָפֻ֙צוּ֙ אֹֽיְבֶ֔יךָ וְיָנֻ֥סוּ מְשַׂנְאֶ֖יךָ מִפָּנֶֽיךָ׃ וּבְנֻחֹ֖ה יֹאמַ֑ר שׁוּבָ֣ה יְהֹוָ֔ה רִֽבְב֖וֹת אַלְפֵ֥י יִשְׂרָאֵֽל׃
“E aconteceu que, ao partir a Arca, dizia Moisés: Levanta-Te, Senhor, e dispersem-se os Teus inimigos, e fujam de diante de Ti os que Te odeiam. E, ao pousar ela, dizia: Volta, Senhor, para os míríades de milhares de Israel.”
Esta breve passagem — marcada no texto massorético por um nun invertido antes e depois, como sinal de sua singularidade — é tratada pela mishná como um livro à parte dentro da Torá, cuja extensão de oitenta e cinco letras estabelece a medida mínima para que um pergaminho ou uma folha avulsa seja considerado sagrado e, portanto, contamine as mãos.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Yadayim 3:5

Em nossas mãos está estabelecido que a parashá de “Vayehi binsóa haarón… uvenuchó…” (Números 10:35–36), esses versículos, todos eles, formam um livro à parte. Disseram (Provérbios 9:1): “A sabedoria edificou sua casa, talhou suas sete colunas” — estas são os sete livros da Torá; e eis que são sete, pois dizem que, do início do livro até “Vayehi binsóa haarón”, é um livro à parte; “Vayehi binsóa haarón” é um livro à parte; e de “Vayehi binsóa haarón” até o fim do livro é um livro à parte — de modo que (o livro de) Bamidbar se torna três livros, e os quatro Chumashim restantes, eis sete.

E disseram “meguilá que está escrita nela”, isto é, que a folha do livro, uma vez que se escreveu nela esse número de letras, santificou-se e passou a ser dos escritos sagrados. Rabi Yehudá diz como Ben Azai.

Bartenura · Yadayim 3:5

“Como a parashá de Vayehi binsóa haarón”: pois aquela parashá é considerada como um livro à parte. E assim disseram no Midrash (e está na Guemará, Shabat 116a, Tossafot Iom Tov): “talhou suas sete colunas” (Provérbios 9) — estes são os sete livros da Torá, pois o livro de Vaiedaber (Bamidbar) se divide em três partes, e (há) os outros quatro livros — eis sete.

“Uma meguilá na qual está escrito”: isto é, uma folha do livro da Torá — uma vez que nela se escreveram oitenta e cinco letras, ela se santificou e contamina as mãos.

“Kohélet não contamina as mãos”: porque é a sabedoria de Salomão, e não foi dita por meio da inspiração divina (ruach hakódesh).

“Conforme as palavras de Ben Azai, assim discordaram e assim concluíram”: e assim é a halachá.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Yadayim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido em todas as mishnayot deste tratado.